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O fabuloso mundo de Telmo Rodriguez

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O fabuloso mundo de Telmo Rodriguez
Autor: Tiago Teles
Data: Paris, 18 de Setembro de 2007
Tema: Reportagem


Telmo Rodriguez é um nome bem estabelecido no palco vinícola espanhol e internacional passados apenas 13 anos desde o arranque da sua Companhia de Vinhos em 1994. A sua irreverência e aprimorado sentido comercial permitiram-lhe apoderar-se do estatuto de l'enfant terrible do vinho espanhol. No dia 18 de Setembro, a Caves Legrand (www.caves-legrand.com) organizou em Paris uma prova dos vinhos elaborados por este produtor, contando igualmente com a presença do enólogo formado em Bordéus. Este ambiente bordalês, onde cruza o seu sócio Pablo Eguzkiza, acolhe Telmo Rodriguez durante 3 anos. Apadrinhado no início pela família Prats (Cos d'Estournel), ruma mais tarde ao Vale do Rhone onde colabora com as famílias Chave e Perrin (Beaucastel), enriquecendo a sua visão do vinho.   
 
Quando torna a Espanha, o país vive uma fase de descoberta e indefinição. “Cometiam-se erros como arrancar indiscriminadamente vinhas autocnes para plantar Cabernet Sauvignon e Merlot, mais convenientes ao gosto americano. Olhava-se apenas o equilíbrio entre açúcar e acidez, descuidando-se a maturação fenólica”. Ampliando inicialmente competências no negócio familiar (Remelluri) erigido na Rioja, Telmo acaba por sentir necessidade de cultivar o seu lado inconformista. Apesar da importância do seu nome, Rioja era uma zona por desvendar, por descobrir e compreender cada pedaço de terroir, um pouco como o Portugal actual. Decide “provocar” a Universidade de Bordéus a desenvolver um estudo na região sobre a maturação fenólica de diferentes parcelas. Quebra com a tradição das "incongruentes denominações de Crianza, Reserva e Gran Reserva", adoptando a fórmula Bordalesa com base no conceito de primeiro e segundo vinho. Foram tempos de descoberta e de luta. "Ainda evoco o dia que rumei a uma zona perto da fronteira com Portugal, cerca de Salamanca, à procura de uma casta chamada Juan Garcia. Nessa altura, o modo de fazer o vinho era tão precário que encontrámos uma determinada adega, que produzia alguns vinhos à base dessa casta, seguindo simplesmente o cheiro a vinagre que permanecia no ar".
 
O gosto de trabalhar com castas autocnes herda-o na sua aprendizagem francesa. A irreverência leva-o, hoje em dia, a actuar em sete regiões distintas, algumas delas improváveis como Málaga na Andaluzia, Valdeorras na Galiza e Cebreros em Castilla y León. O seu gosto por zonas de transição climática, "zonas limite" como evoca, fundamentam as suas preferências. Na Galiza, a zona de Valdeorras afigura uma transição entre influência atlântica, notória nas encostas viradas a norte, e influência continental, mais perceptível nas vertentes expostas a sul.

O que dizer também de Cebreros, uma denominação localizada apenas a 1 hora da cidade de Madrid, num canto perdido, com vinhas plantadas em xisto, a cerca de 1200m de altitude, "onde as cabras ainda têm permissão para comerem algumas uvas quando a fome aperta"? Ou de Málaga, bem no sul tórrido, onde nasce o emblemático Molino Real, um famoso Mountain Wine (branco doce) oriundo de vinhas plantadas entre 600 e 800 metros de altitude, secando as uvas de moscatel sobre o xisto preto que marca o terroir? Ou o que dizer da pequena vila de Lanciego, onde produz os vinhos Lanzaga, ainda na denominação Rioja, mas já no final da influência mediterrânica, subordinada a choques climáticos, bem no limite da cultura da vinha na região? Até a conhecida Ribera del Duero, uma imensa região composta de solos heterogéneos, com vinhas plantadas entre 1000 e 1200 metros, pode assumir-se como uma área limite. O gelo é um verdadeiro perigo. Em 2004 Telmo vê-se obrigado a produzir uma segunda marca porque, nesse austero ano, tudo gelou no dia 5 de Setembro...
 
No fundo, esta visão sobre alguns recantos perdidos em Espanha tem um motivo. Telmo Rodriguez "não acredita em vinhos de enólogo. Os melhores vinhos têm uma história e um conhecimento empírico por detrás". Por isso apaixonou-se por Valdeorras na Galiza e pelas suas castas Godello e Mencia. Negociou com 25 proprietários para comprar 3 hectares! Evoca com fascínio o dia que cruzou um homem de 95 anos de idade que lhe perguntou, "é o senhor que anda a comprar aquelas vinhas? Pois faz muito bem, os melhores vinhos aqui da zona sempre vieram de lá". O solo granítico na região também confere personalidade mineral aos brancos que idealiza, de momento, "vinhos mais elegantes, simples, que se podem beber facilmente, e que sejam vendidos a bom preço".

Surpreendente a sua observação quando abordámos a casta Alvarinho: "a casta Alvarinho é muito aromática mas acaba por perder-se nesse excesso resultando por vezes banal". Em Rioja, onde envereda por caminhos da biodinâmica, elege uma adega secular instalada no subsolo, espaço que mantém 10-11ºC constantes ao longo do ano. "Penso que a condição de guarda é um dos argumentos mais importantes para se fazer um grande vinho". Sobre a “velhice” das vinhas é categórico, "a idade das vinhas não é tão importante como a morfologia de cada parcela". Em Málaga, quando lhe perguntam qual a variedade de Moscatel que está na base do seu enigmático Molino Real, responde "é o moscatel de toda a vida".
 
Este enigmático puzzle de terroir forma o "Fabuloso Mundo de Telmo Rodriguez". Um homem de convicções fortes, com personalidade, condições, também elas, indispensáveis para se fazer um grande vinho. O seu mundo é especial e merece ser descoberto.
 
 
Os vinhos de "pago"

O estilo dos vinhos de Telmo Rodriguez é contemporâneo, carnudo no fruto e na forma precisa como trabalha a madeira de estágio. A expressão das castas é genuína, existindo também boa dose de equilíbrio e finesse, em especial nas colheitas mais recentes, em grande parte conferidas por uma mestria singular na conduta da maturação fenólica. São vinhos de uma qualidade excepcional, com textura aveludada, que se impõem de uma forma natural e espontânea. Para além dos vinhos que comento abaixo e de outros conhecidos, este produtor trabalha também como negociante, bem ao estilo da Borgonha. Exporta 90% do seu volume, incluindo algumas marcas engraçadas como "Chardonnay Again".
 
Gaba do Xil Godello branco 2006 (Valdeorras/Galiza)
Pegaso Barrancos de Pizarra 2004 (Cebreros/Castilla y Léon)  
Lanzaga 2004 (Rioja)
Altos de Lanzaga 2005 (Rioja)
M2 de Matallana 2004 (Ribera del Duero)
Matallana 2001 (Ribera del Duero)
Pago La Jara 2004 (Toro)
Molino Real 2003 (Málaga/Mountain Wine)
 
Em Portugal poderá encontrar os vinhos de Telmo Rodriguez na loja Vinho & Coisas: www.vinhoecoisas.pt  

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