Fórum de Discussão Contactos

Últimos vinhos

arrow Bouchard Père & Fils Chassagne Montrachet 2006
arrow Brites de Aguiar 2006
arrow Casa de Santar Reserva branco 2007
arrow Casa do Lago Fernão Pires 2007
arrow Caves São João Reserva 2005
arrow Fiuza Premium Touriga Nacional / Cabernet Sauvignon 2006
arrow Fonseca 20 Anos (Engarrafado em 2007)
arrow Herdade de São Miguel Colheita Seleccionada 2007
arrow Hetszolo Tokaj Late Harvest 2006
arrow Muros Antigos Alvarinho 2007
arrow Pape 2006
arrow Poças Vintage 2005
arrow Quatro Caminhos Reserva 2005
arrow Quinta de Baixo Reserva branco 2006
arrow Quinta do Côro Cabernet Sauvignon 2005
arrow Quinta Vale da Raposa Tinto Cão 2004
arrow Remelluri Reserva 2003
arrow Terras de Lantano Albariño 2006
arrow Venâncio da Costa Lima Moscatel de Setúbal Reserva 2001
arrow Bacalhôa Moscatel Roxo 1998

Ferreirinha, um Reserva...muito especial

divider
Ferreirinha, um Reserva...muito especial
Autor: Pedro Gomes
Data: Lisboa, 3 de Abril de 2007
Tema: Reportagem


Como em tantas outras ocasiões, lá estava eu de caneta em punho pronto para começar a rabiscar as minhas notas de prova. Mas, de repente, lembrei-me do filme “O Clube dos Poetas Mortos”, lembrei-me do actor Robin Williams, e lembrei-me de uma classe de alunos que no mais rigoroso aprumo britânico esperava com ansiedade pela primeira aula de literatura. E, depois, veio-me à memória a relutância de um pedagogo quando, a propósito do texto poético, é forçado a transmitir aos seus alunos toda uma série de princípios relativos à rima e à métrica que, em seu entender, pouco ou nada têm a ver com a expressão de sentimentos, emoções, estados de alma... ou poesia. E que num acto de quase pura rebeldia, e no mais profundo repúdio pelo espírito cartesiano, instiga os seus alunos a rasgarem as páginas introdutórias do manual de literatura.

Assim estava eu no momento em que me preparava para iniciar a apresentação de uma “vertical” de Reserva Especial, da Ferreirinha. Para quê fazer notas de prova? Porquê a preocupação com um número? Que valor acrescido poderia ter um parâmetro quantitativo? Afinal, aquilo que me tinha motivado era diametralmente oposto. Aquilo que eu queria era que as pessoas se manifestassem sobre aqueles vinhos, transmitindo as sensações e emoções que lhes trespassavam a alma. No fim de contas, o meu intuito era que as pessoas mostrassem a sua faceta epicurista e revelassem todo um manancial de sensações que o vinho pode proporcionar. E, num ápice, larguei a caneta e o bloco de notas. Por momentos deixei de lado a racionalidade e disse para comigo mesmo: «hoje é para sentir os vinhos, as suas pulsações e viver as emoções que se prendem com a prova de grandes vinhos». E assim foi.

A ideia era recriar um ambiente de tertúlia, reservado, intimista e confrontar as pessoas com um estilo de vinhos que os consumidores, infelizmente, começam a esquecer. Ou, pior ainda, a desconhecer. Para os menos familiarizados com a história deste vinho importa frisar que o Reserva Especial não é uma segunda marca da Casa Ferreira. Efectivamente, Fernando Nicolau de Almeida, o génio por detrás do fenómeno Barca Velha/Reserva Especial, imbuído pelos princípios da enologia bordalesa, cedo percebeu que a longevidade era um atributo fundamental dos grandes vinhos. E, cedo constatou que o seu Barca Velha, embora preservando padrões de qualidade irrepreensíveis, nalgumas colheitas poderia não atingir a longevidade desejada. Ora, é precisamente nesse contexto que surge a marca Reserva Especial: não como um Barca Velha de segunda mas, tão-somente, como um vinho que teoricamente não atingiria a mesma longevidade. Um princípio enológico a que José Maria Soares Franco deu continuidade e que ainda hoje faz escola na Casa Ferreira. De tal modo que, ao fim de meio século de existência, este vinho ainda só conheceu 11 colheitas (1962, 1974, 1977, 1980, 1984, 1986, 1989, 1990, 1992, 1994 e 1996) e, curiosamente, o Barca Velha já vai na sua 15ª edição (1952, 1953, 1954, 1957, 1964, 1965, 1966, 1978, 1981, 1982, 1983, 1985, 1991, 1995 e 1999).

Nessa perspectiva, os vinhos em prova, as últimas seis colheitas, acabam por reflectir a história da segunda metade da vida de um vinho que, em abono da verdade, deve ser entendido como o “irmão gémeo” do Barca Velha. Como se viria a confirmar.

A sequência em que os vinhos são comentados mais não é do que uma evolução em crescendo tendo em conta as sensações e o entusiasmo que cada uma das colheitas despertou. Comigo foi assim:

1990 – De todas as garrafas em prova, foi aquela que se mostrou menos convincente. O vinho deu a sensação de estar a atravessar uma fase ingrata e a expressão aromática era, momentaneamente, tímida e reservada. Muito apelativo na textura, com taninos delicados mas, em todo o caso, não disfarçando uma ligeira secura final. Ficou um pouco a ideia de que a garrafa poderia estar em fase de “hibernação” e que o vinho poderá despertar a qualquer momento.

1989 – O mais complicado de avaliar porque a garrafa mostrou um comportamento “bipolar”, com o vinho a oscilar entre uma faceta mais extrovertida e um comportamento mais sisudo. Demorou a abrir no copo e, diga-se em abono da verdade, não chegou a mostrar-se completamente. Bem melhor na boca: fresco, completamente formatado ao palato e com uma estrutura de taninos já suficientemente polida para proporcionar grande prazer. Final longo, tocado por indelével secura, com notório protagonismo das sensações especiadas. Um perfil muito apelativo mas sempre tocado por alguma austeridade.

1994 – Mostrou-se a muito bom nível, dentro de um estilo mais centrado no fruto, pleno de juventude, com uma cor e concentração notáveis para a idade. Abre muito lentamente combinando as sensações frutadas com a elegância de uma componente torrefacta liderada por café e amendoim. Contornos muito polidos e sensações muito frescas com a madeira perfeitamente enquadrada com a dimensão frutada. Final longo com a frescura do fruto a conferir-lhe finura e distinção. Muito convincente e com bons anos de vida pela frente.

1996 – Tal como o seu antecessor, denota uma dimensão frutada que se justifica pela sua juventude, mas também por um maior protagonismo da casta touriga nacional. Muito envolvente no corpo, aveludado, com óptima concentração de sabores e com uma persistência notável. Muito bom. E com um futuro muito risonho pela frente.

1986 – Uma verdadeira surpresa. Um tinto com 20 anos na plenitude das suas faculdades. Já esbatido na cor mas muito expressivo em termos aromáticos: uma imensidão de sensações terrosas salpicada por delicadas notas de cereja. Elegantíssimo nas formas, macio, vivo nos sabores, fino e com uma persistência aromática impressionante. Um clássico no seu apogeu. Um grande vinho... difícil de esquecer!

1992 – Simplesmente fantástico. Tivemos a sorte de apanhar uma garrafa num momento de flagrante expressividade. Notável na intensidade e complexidade aromáticas com a subtileza dos aromas frutados envolvidos por delicadas notas vegetais e florais: estão lá a amora, a cereja, a sardinheira, a flor de magnólia e... um equilíbrio notável. Incrível a forma como o vinho se desdobra e desmultiplica no copo. Magistral na boca, revelando taninos extremamente finos e uma completa harmonia entre as partes. Um festival! Se deveria ter sido Barca Velha? Quem sabe...!

Independentemente da preferência pessoal por esta ou aquela colheita e, abstraindo o momento em que os vinhos foram provados e as garrafas em causa, dois elementos determinantes na apreciação de vinhos com idade, é inegável que estamos perante grandes vinhos. E é fundamental que se preserve este estilo de vinhos.

Olhando para trás, depois de uma prova destas, não é muito difícil chegar-se à conclusão de que estamos perante vinhos que nos ensinam a perceber a essência dos grandes vinhos. Efectivamente, estes são vinhos que nos ensinam que os excessos de cor não são uma condição necessária para se fazerem grandes vinhos. Estes são vinhos que nos ensinam que não é preciso levar o álcool ao limite para produzir grandes vinhos. Estes são vinhos que nos ensinam que a qualidade não está refém de sobre maturações. Estes são vinhos que nos ensinam que os grandes vinhos estão longe de depender de extracções excessivas. Estes são vinhos que nos ensinam que não são exigidas doses “ultra” de madeira para almejar grandes vinhos. Em suma, estes são vinhos que nos ensinam...

E, se é verdade que nos últimos anos o rótulo lhe roubou o designativo Especial, não é menos verdade que este continua a ser um Reserva... muito Especial! Como dizia o meu filho Diogo: «pai, não consigo encontrar nada que se destaque ou sobressaia nestes vinhos»! Ao que eu ripostei: «ainda bem filho, é sinal de que estamos a lidar com elegância, equilíbrio e harmonia». Ao que ele retorquiu: «e isso é importante? Como compreenderão, só pude dizer-lhe: «não é importante... é o mais importante».