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A filosofia do Domaine Mas Jullien

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A filosofia do Domaine Mas Jullien
Autor: Tiago Teles
Data: Paris, 22 de Janeiro de 2008
Tema: Reportagem


Olivier Jullien é um humanista. As suas feições joviais, o seu olhar vivo e profundo, a sua tez de pele moldada pelo sol, a sua forma de vestir despreocupada mas colorida, lembram um surfista, lembram alguém que procura um contacto profundo com a natureza, com os seus mistérios, com o seu poder hipnótico. É um produtor individualista, solitário, que busca uma relação de respeito com a natureza, uma relação solitária e intimista, de partilha, de emoção. “Diversidade e liberdade” são o lema de trabalho. Dedicou os últimos 20 anos da sua vida à natureza, ao trabalho da vinha, à leitura dos solos, à sensibilidade do clima. A procura de novas sensações com a natureza sempre foi uma constante no seu trajecto. Em alguns casos acredita ter indo longe demais. Mas, “quem diz segurança, diz normalidade”. No início de carreira teve a oportunidade de trabalhar em produtores de renome mas optou por laborar na cooperativa local. Fez de tudo um pouco. Não quis ser influenciado. “Quando terminamos de ler um grande livro, não interessa tentar rescreve-lo”. Deixa aberta a possibilidade de reagir e segue o seu instinto e a sua curiosidade. Sempre quis descobrir os mistérios do vinho “a solo”, com as imperfeições e incompreensões que tal postura implica. Quis ser ele próprio, procurou uma interpretação pessoal da natureza e do vinho, procurou uma identidade. Não quis que ninguém transformasse a sua sensibilidade. Deixou-se moldar pela natureza, pelos seus encantos, pela sua energia. Vive-a de forma intensa. “Tenho vontade de partilhar as sensações que sinto num determinado local com as pessoas que me rodeiam. Tento colocar nos vinhos a energia que esses locais me transmitem”. Por vezes engana-se. Já vendeu vinhas velhas nas quais dispensou anos de trabalho na sua recuperação mas que no final não deram o resultado esperado. Compra outras por intuição e crença nas suas melhores qualidades, apesar de saber que tem de reiniciar tudo de novo. É o caso de um novo vinho chamado Carlan, uma “nova vinha velha”, que irá dar que falar tal é a frescura e a fineza de taninos que exibe num clima sulista. “Nunca procurei fazer um grande vinho. Nem sei o que isso significa”. Procura uma visão global. Detesta dogmas. Não gosta de regras impostas. Não segue nenhuma convenção, preferindo jogar com as suas próprias normas. “Devemos deixar a natureza completar o seu trabalho, aceitando os riscos e as diferenças”. É um dos grandes defensores do trabalho ecológico na vinha. Mas também diz, em jeito provocador, que “mais vale um bom Terroir trabalhado em química que um mau Terroir trabalhado em biodinâmica”. O vinho é equilíbrio e harmonia. É saúde. "É um complemento alimentar. Faço vinhos para a saúde, com taninos digestivos porque os fenóis são importantes na ração alimentar". Procura alcançar taninos saudáveis, nutritivos. Perguntei-lhe como é que os poderíamos identificar. “Se beberem um vinho com taninos saudáveis, estou certo que se sentirão bem, que o vosso estômago agradece. Tentem beber alguns estilos sobre maduros e digam-me qual é a vossa disposição depois de alguns copos”. E, verdade seja dita, os 18 vinhos provados só fizeram bem ao estômago e à alma! Gosta de namorar as garrafas que abre durante dois ou três dias. Bom, a introdução já vai longa mas os vinhos humanistas do Domaine Mas Jullien, produzidos em pleno Languedoc francês (www.vins-languedoc-roussillon.fr), necessitam deste enquadramento humano e filosófico.  

Foi uma emoção cruzar Olivier Jullien. Foi no passado dia 22 de Janeiro que participei numa vertical perturbante deste produtor francês. 18 Vinhos em prova, dos quais 13 em vertical do seu principal vinho Mas Jullien (2005, 2004, 2003, 2002, 2001, 2000, 1999, 1998, 1996, 1994, 1993, 1991 e 1989!). A Caves Legrand (www.caves-legrand.com) em Paris foi, mais uma vez, o espaço de eleição. Ainda bem. O individualismo de Olivier Jullien necessita de um espaço com carácter, intimista.

O Domaine Mas Jullien é composto por 15 hectares de vinhas espalhadas em redor da aldeia de Jonquières, a norte de Montpellier, no interior, a 40 km do Mar Mediterrâneo. As vinhas crescem em diferentes tipos de solo que incluem calcário, xisto, argila e aluviões, dispersos em terraços edificados no planalto de Larzac localizado no sopé do Monte Baudille, culminando a uma altitude de 900 metros, no limite da cultura da vinha na área. Cada parcela tem o seu próprio carácter, decorrente de diferenças de altitude, exposição, vento, correntes de ar e da proximidade com o rio. O primeiro vinho que lhe deu orgulho e satisfação a produzir foi o Mas Jullien Côteaux du Languedoc "Cailloutis" 1989. Ninguém o queria em França. Teve a sorte de cruzar um famoso importador norte-americano, Neal Rosenthal (www.madrose.com), um dos heróis do filme Mondovino, que se apaixonou pelo vinho. Exprimia este importador com o seu sotaque típico, “é um animal selvagem à mesa”. Desde então a vida corre de feição. Hoje tem mais dinheiro para “comprar” os Terroir que o emocionam. Ama as vinhas velhas porque “não dou muita importância à casta”. Procura locais frescos, locais espalhados que se possam complementar em lote. Reduz o número de marcas por acreditar que a mistura dos diferentes componentes pode criar mais complexidade no vinho. É um ensaísta. Em tempos pensou abandonar a pequena produção de vinho branco que ainda mantém, por pensar que “a região do Languedoc não tinha legitimidade para elaborar bons vinhos brancos”. Perfeccionista, apaixonado, Olivier Jullien é um homem com Terroir.

 

Os vinhos humanistas

Olivier Jullien procura produzir vinhos frescos, com vitalidade, mas ao mesmo tempo enérgicos e autênticos. O pano de fundo mineral marca presença assídua nos diferentes vinhos provados, contribuindo para uma importante profundeza aromática. O estágio em grandes tonéis de madeira usada busca, essencialmente, os benefícios da micro oxigenação natural do vinho. Esta obsessão pela frescura permite elaborar vinhos com carácter, mesmo em anos com tendência para originar vinhos mais pesadões como 1998, 2001 e 2003. Nas 13 colheitas provadas sente-se um veio comum, uma identidade, uma interpretação humana. Não descrimina as castas no contra rótulo dos seus vinhos. Mas, inevitavelmente, elas conferem parte do carácter dos seus vinhos. Olivier Jullien utiliza a Carignan pela sua frescura e corpo, a Cinsault pela finesse e delicadeza, a Syrah pelo seu aroma e cor, a Grenache pela sua raça e complexidade aromáticas, e a Mourvèdre pela sua raça e estrutura. A colheita de 1999 representa um extremo de elegância e finesse, um extremo de harmonia contemplativa. Para amantes de vinhos pouco evidentes. No extremo oposto encontra-se a antecedente colheita marcadamente sulista de 1998, com o seu carácter intenso, austero e enérgico. Para amantes da força e da expressividade. O ano de 2002 aproxima-se do nortista 1999, fino e fresco, enquanto a atraente colheita de 2004 junta 1999 e 1998 no mesmo copo. Remarcáveis os desempenhos das colheitas de 1989 e 1991, dois vinhos que não conheceram a madeira de estágio. A colheita de 2005 solta uma pureza de fruto notável mas um ligeiro toque de secura sentido na prova de boca coloca em evidência o eventual desequilíbrio do ano seco. Acima de tudo, dá gozo e vontade beber os vinhos de Mas Jullien. São vinhos humanos. São uma interpretação das potencialidades do Languedoc.
 
Mas Jullien Côteaux du Languedoc "Cailloutis" 1989
Mas Jullien Côteaux du Languedoc "Cailloutis" 1991
Mas Jullien Côteaux du Languedoc "Cailloutis" 1993
Mas Jullien Côteaux du Languedoc "Cailloutis" 1994
Mas Jullien Côteaux du Languedoc 1996
Mas Jullien Côteaux du Languedoc 1998 Magnum
Mas Jullien Côteaux du Languedoc 1999
Mas Jullien Côteaux du Languedoc 2000 Magnum
Mas Jullien Côteaux du Languedoc 2001
Mas Jullien Côteaux du Languedoc 2002
Mas Jullien Côteaux du Languedoc 2003
Mas Jullien Côteaux du Languedoc 2004
Mas Jullien Côteaux du Languedoc 2005

Mas Jullien Côteaux du Languedoc “Carlan” 2006