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O terroir Gauby

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O terroir Gauby
Autor: Tiago Teles
Data: Paris, 06 de Dezembro de 2007
Tema: Reportagem


O jovem Lionel Gauby, filho de uma figura carismática do vinho francês, Gérard Gauby, deixou o seu terroir nativo no rural Roussillon, em plena Catalunha do Norte, para encarar o terroir urbano parisiense, um terroir cosmopolita, efervescente, culturalmente aberto. O ambiente clássico da Caves Legrand (www.caves-legrand.com) facultou um terroir de fantasia para Lionel conversar sobre os seus vinhos sulistas. Tudo se passou no dia 6 de Novembro.

Neste precioso contraste, rural/urbano, principia a compreensão dos vinhos acarinhados por esta personagem tímida, apesar de afável e aberta ao contacto directo, ao convívio mais íntimo. Lionel, com o seu bigode curto, à imagem de Marlon Brando no filme Padrinho, é uma mistura de terroir do campo, de vinha, de austeridade, de tradição familiar, com traços que evocam também figuras do movimento independente, feições urbanas que incarnam um terroir muito próprio, um terroir por vezes vanguardista. Sou levado a asseverar que Lionel Gauby encarna a essência do conceito de terroir, ele conjuga um equilíbrio entre a afirmação do seu passado e a abertura espiritual ao futuro.

O Domaine Gauby (http://www.domainegauby.fr/) situa-se em Calce, a escassos quilómetros de Perpignan, na proximidade com o mar Mediterrâneo, em plena região do Roussillon (http://www.vinsduroussillon.com/ - conhecida pelos seus vinhos doces naturais provenientes de denominações como Maury, Banyuls ou Rivesaltes). Território que em tempos fez parte do Principado da Catalunha, a Catalunha do Norte é actualmente administrada pela França. Este facto histórico ajuda a compreender a forte ligação com a vizinha Espanha e a sua genuína Catalunha (como aparte, os vinhos do Domaine Gauby são vedados com cortiça Catalã). Uma influência e partilha também ela vinícola. Basta lembrar que do outro lado dos Pirinéus existe a “Espanha do Priorato”, a zona vitícola espanhola do momento, talvez a mais mediática.

Os 45 hectares de vinha nascem a cerca de 200m de altitude. O clima é seco, quente e soalheiro, com estações exigentes que sofrem também com o seco e frio vento mistral que sopra através da costa meridional francesa. Nestas circunstâncias os rendimentos na vinha são naturalmente baixos, na ordem dos 15-20hl por hectare. A vontade de contrastar com os solos de xisto e calcário, onde repousam as 200 parcelas do Domaine Gauby, surge em 2001 com a concepção de uma segunda propriedade. O Domaine Soula, mais afastado da influência marítima, perto de Maury, plantado em altitude (500 a 600m), sobre solos ácidos de granito, demonstra a importância actual de vinhas em altitude, porventura uma consequência do aquecimento global do planeta?

A biodinâmica é adoptada em 2001 (desde 1996 em biológico) por “respeito à vinha e à sua alma, por convicção, quase por crença. É um trabalho muito visual com a natureza. A vinha desenvolve-se hoje de forma mais genuína. Jogamos com um rendimento equilibrado para atrasar a maturação numa zona naturalmente precoce. Actualmente, procuramos dilatar esse rendimento de forma a encontrar o equilíbrio de cada parcela, de forma a dar maior liberdade à videira”. Os solos são mantidos vivos para que a baixa precipitação na região seja absorvida pela vinha. O problema é inverso ao de províncias húmidas. Neste caso anseia-se que o solo tenha menor permeabilidade, permitindo que a vinha absorva a diminuta pluviosidade. As raízes de algumas vinhas podem incrivelmente chegar a 40-50m de profundidade, acedendo aos canais freáticos que descem dos Pirinéus.

A compreensão do terroir estende-se às castas plantadas. Depreendendo que certas variedades encontram com mais naturalidade a desejada mineralidade, deixando falar o terroir e a colheita, assiste-se hoje a uma reestruturação das castas plantadas no Domaine Gauby. Eliminam-se também as espécies que amadurecem antes de 15 de Agosto, como a Syrah, a Moscatel ou a Chardonnay. Procuram-se elementos que garantam harmonia: “o que contribui para a longevidade de um vinho é a sua vida natural, é o equilíbrio da sua alma”. Uma interpretação complementar ao espírito científico, palpável na observação e no constante colocar de questões…“cada colheita é quase um erro, estamos sempre à procura de uma nova interpretação”.

Na adega, “a madeira representará um material secundário dentro de 5 anos, mesmo nos tintos”. O recurso às tradicionais cubas em cimento consolida-se na mente deste produtor. A extracção na adega é feita com enorme cuidado porque a concentração de matéria é espontaneamente elevada num clima quente. Diz-se também em jeito de brincadeira que um “um bom enólogo é um enólogo morto”.

No seu percurso de vida Lionel fez um estágio em Mas Julien, uma propriedade emblemática para os amantes da região do Languedoc, um irmão espiritual. Anacronicamente, os vinhos de Gauby tornaram-se conhecidos pela sua densidade e desmesurada potência, pelo excesso, pelo superlativo. Mas tudo mudou. Hoje luta-se contra esse excesso, interpreta-se a natureza de forma equilibrada. Compreendendo que um dos aspectos mais inquietantes da evolução dos vinhos modernos é o constante aumento do grau alcoólico, o Domaine Gauby orquestra uma pequena revolução que pode estender-se a outras zonas de sol, como Portugal. Cria a concorrência entre diferentes vinhas arrelvando totalmente mas inteligentemente os solos; areja-os para que as raízes se aprofundem ainda mais; diminui a superfície foliar; afasta-se da corrida ao vigor da vinha abandonando a vindima em verde que corrige o excesso de produção de um ano, mas que obriga a vinha a produzir ainda mais no ano seguinte. Em três anos o grau médio das uvas de mourvèdre desceu abaixo dos 14º e as uvas brancas alcançam um equilíbrio de acidez que por vezes regiões mais a norte esquecem de manter.

 

Os vinhos

Não foi a primeira vez que contactei com os vinhos elaborados por este produtor. Os exemplares provados conciliam o carácter carnudo de vinhos elaborados em clima quente com uma necessária elegância e digestibilidade, a toda a prova cativante. A frescura e a elegância aromática presente em qualquer um dos vinhos confirmam que o Domaine Gauby é um verdadeiro laboratório estilístico para os vinhos sulistas. Os vinhos alcançam um surpreendente equilíbrio ácido. São também vinhos que necessitam de pelo mesmo 5 anos em cave para exprimirem a sua complexidade intrínseca. Um regalo, em suma, convicções fortes fazem vinhos fortes, vinhos com personalidade. O La Muntada e o Coume Gineste são a metáfora perfeita desse ideal, exemplos genuínos da “natureza Gauby”. A não perder.
 
Domaine Soula Trigone branco 2006
Domaine Soula Trigone 2006 
Domaine Gauby Calcinaires 2006
Le Soula branco 2005
Le Soula 2005
Domaine Gauby Vieilles Vignes branco 2005
Domaine Gauby Vieilles Vignes 2004
Domaine Gauby La Muntada 2003
Domaine Gauby Coume Gineste branco 2005
Domaine Gauby Rivesaltes Carícia 2005
 
Os vinhos do Domaine Gauby não estão disponíveis em Portugal apesar de os poder sempre comprar nos diversos sites Internet de venda na Europa. Para mais detalhes: www.domainegauby.fr  

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