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O paradoxo Charvin

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O paradoxo Charvin
Autor: Tiago Teles
Data: Paris, 01 de Abril de 2008
Tema: Reportagem


A Caves Legrand (http://www.caves-legrand.com/) acolheu no passado dia 1 de Abril em Paris um produtor muito especial da região francesa de Châteauneuf-du-Pape, Laurent Charvin do Domaine Charvin. Um dos paradoxos deste produtor é a falta de consenso que existe em torno dos seus vinhos. Particularmente apreciado pela crítica da Revue de Vin de France, mas normalmente menos estimado na hierarquia da região pela crítica de Michel Bettane et Thierry Desseauve.  

Laurent Charvin lembra um jovem irreverente, estatura baixa, olhar atento, movimentos rápidos, respostas prontas. Frontal. Voluntarioso. Tão voluntarioso que por vezes aventura-se na contradição saudável. Um pouco como os vinhos que produz, um paradoxo numa região "quente e espessa", numa região sulista banhada pelo sol. Paradoxalmente, os seus vinhos transmitem harmonia, calma, fluidez, sensatez e frescura. Mas mantêm a frontalidade do criador: ou simpatizamos ou não simpatizamos. Ponto. Com o carácter vincado não existe meio-termo. Observamos Laurent Charvin para melhor o compreender, no fundo, para melhor assimilarmos os seus vinhos. "A melhor forma de elaborar um vinho é reagindo em relação à situação que se depara e não necessariamente ter uma ideia final do produto. Não escolhi o tipo de vinho. Adaptei-me ao estilo natural da região. Tentei proteger as vinhas da minha vontade". Mas tem uma ideia, "no sul só conseguimos o equilíbrio se procurarmos a frescura". No fundo, "o vinho tem de ser um prazer simples, fluído, que emane frescura". Esta procura incessante pela fresquidão, por uma ideia final, choca um pouco com a necessidade de adaptação ao contexto local que defende no início do seu discurso. Mas esta ambiguidade é saudável e compreende-se perfeitamente. Abeiramos a frontalidade. "Procuro a frescura e o equilíbrio. É um estilo que defendo mas que também sei que nunca dará grandes notas Robert Parker". Mais uma contradição ambiciosa. O seu Châteauneuf-du-Pape 2001 alcançou 95 pts Parker.  

O pragmatismo também é inato. "Os meus vinhos não têm nada de original no sentido das castas que constituem por regra o lote. Mas tenho mais relação e afinidade com a casta Grenache, uma casta extremamente oxidativa". Esta particularidade oxidativa impele Charvin a estagiar os seus vinhos em cubas de betão para, precisamente, controlar com mais facilidade esse aspecto oxidativo. Defende a Grenache com convicção numa região onde alguns produtores de ponta, como o Château Beaucastel, jogam quase a 100% na Mourvèdre para elaborar os vinhos de topo. Explica que cada terroir terá a sua casta mais adaptada. Por exemplo, "a Mourvèdre gosta de ter a cabeça ao sol e os pés na água". O Terroir Beaucastel aproxima essa necessidade, ao contrário das minhas encostas viradas a norte. Laurent Charvin é dos poucos a vinificar totalmente com engaço, uma prática pouco explorada também em Portugal (o vinho Charme da Niepoort é um dos raros exemplos de vinificação com engaço). Apesar de ser difícil fazer coincidir a maturação do engaço com a do açúcar, defende que, "ao contrário do que muitos pensam, os taninos do engaço, quando maduros, conferem um carácter mais profundo e aveludado à textura". Além do contributo em frescura e leveza que considera importantíssimos. Afirma mesmo que "devido à subida da riqueza de açucares em determinadas regiões, e devido a uma eventual mudança no mercado em busca de frescura, que a vinificação com o engaço será incontornável num futuro próximo". Há vários anos que a madeira não faz parte do seu léxico, mesmo no seu topo de gama Châteauneuf-du-Pape. A Grenache é muito oxidativa, não necessitando do contributo de um estágio micro oxigenado em madeira. A região é quente mas a exposição a norte das vinhas Charvin possibilitam um equilíbrio desejável e necessário na região. Laurent Charvin evita processos como a correcção ácida porque acredita que a longevidade de um vinho corrigido será bem diferente de um vinho dotado de uma acidez natural. Admite que apenas recorreu à correcção ácida em 2003. Uma frontalidade inevitável. E aceitável.

A humildade aprendeu-a na vinha. "A primeira colheita que vinifiquei foi a de 1990. Correu tão bem que julguei, aos 21 anos, ser o rei do mundo! Felizmente vieram duas colheitas difíceis". Na vida de um produtor são as mais importantes porque "acalmam o ego durante 2 ou 3 anos". Não produz vinho branco. "Não tenho convicção suficiente para o fazer. Não o faria apenas para o ostentar na minha oferta, apesar de reconhecer a singularidade de alguns brancos produzidos na quente região de Châteauneuf-du-Pape". Mas também acrescenta que esses exemplos qualitativos são a excepção, não a regra. Acima de tudo acredita no vinho, vive-o de forma intensa e apaixonada. Por isso também diz que "não há uma regra. A determinado momento os bons vinhos também têm a capacidade de se defenderem a eles próprios". Laurent Charvin ama o que faz e fala com frontalidade.

 

Os vinhos Charvin

Os vinhos produzidos pelo Domaine Charvin transmitem harmonia, calma, fluidez, sensatez e frescura, mantendo a frontalidade irreverente do seu criador. A sequência 2004, 2005 e 2006 é muito bem conseguida, bebendo o carácter de cada colheita, surpreendendo também na gama mais acessível de Côte-du-Rhone, particularmente pela sua excelente qualidade para um preço de 11€. A partir de 2004 estabelece-se mais soltura e precisão aromáticas, originando três colheitas (2004, 2005 e 2006) bastante completas e muito recomendáveis. Os anos de 1999 e 2001 são especiais. O desempenho na prova de boca atira-nos para um grande vinho, distinto, com bom porte atlético, mas o nariz peca por maior soltura. O surpreendente Rosé “de garagem” é simplesmente voluptuoso. Algo é certo, Laurent Charvin agarra-se com paixão às suas convicções. Por exemplo, vinificar com engaço e excluir o estágio em madeira. Essa singularidade sente-se nos seus vinhos muito respeitáveis. O solo argilo calcário no limite da denominação e a exposição a norte completam a vontade de ter um perfil fresco e profundo. Nós gostamos e recomendamos.
 
Domaine Charvin Côte-du-Rhone Rosé 2007
Domaine Charvin Côte-du-Rhone 2006
Domaine Charvin Côte-du-Rhone 2005
Domaine Charvin Côte-du-Rhone 2004
Domaine Charvin Châteauneuf-du-Pape 2006
Domaine Charvin Châteauneuf-du-Pape 2005
Domaine Charvin Châteauneuf-du-Pape 2004
Domaine Charvin Châteauneuf-du-Pape 2001
Domaine Charvin Châteauneuf-du-Pape 1999