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Bordéus, um mundo de vinho

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Bordéus, um mundo de vinho
Autor: Tiago Teles
Data: Bordéus, 8 de Maio de 2007
Tema: Reportagem


O mundo mudou. A começar pela viagem de TGV em direcção a Bordéus que nos leva planície fora a uma velocidade superior a 300 km hora! A cidade de destino também mudou desde a famosa classificação de 1855, elaborada pela Chambre de Commerce de Bordeaux, e encomendada por Napoleão III para a exposição universal de Paris (http://www.vins-bordeaux.fr/). Propositadamente, com o intento de repelir os carros do centro da cidade, a sequência de semáforos está dessincronizada...chegar ao centro é tarefa que leva tempo.

Algumas propriedades de referência no mundo do vinho estão hoje literalmente intrometidas na paisagem urbana de Bordéus. Felizmente, quer rumando a norte, em direcção a Pauillac, quer a sul, em direcção a Léognan, ou a este em direcção de Saint-Emilion, que o vinho sustentou paisagens de sonho. São vários séculos de história. Os palácios de outros tempos subsistem à passagem do tempo. São mais bonitos hoje porque o vinho assim o permite. O sucesso acaba por atrair sucesso, permitindo gastar mais dinheiro nos cuidados da terra, uvas, instalações, e na compra de novas propriedades. Com esta superioridade financeira, um determinado grupo distancia-se do resto da concorrência.

Visitar a pequena vila de Saint-Emilion, cercada de vinha, disposta no cimo de uma colina e escorrendo monte abaixo com as suas casas elaboradas em pedra calcária, remete-nos para um passado bem conservado, singular. Mas o turismo, esse mal necessário, esse pequeno devorador de tradições, capitaneia, hoje em dia, o seu destino. Inesperadamente existem mais de 30 garrafeiras numa vila um pouco maior que Monsaraz. Os preços são estupidamente caros, mais caros que em qualquer outra parte do mundo, apesar da proximidade com a produção...já não se compra vinho, negoceiam-se marcas, compram-se mitos, compram-se lembranças...é uma pena, porque alguns vinhos da região são extraordinários e qualquer enófilo no mundo deveria lhes ter um acesso civilizado. Mas tudo se explica. Afinal a zona de Bordéus é uma região de negociantes. Assumidos, entenda-se. Comprar um vinho na propriedade é tarefa complicada. É o negócio que domina.

A fama de Bordéus baseia-se principalmente em oito denominações distintas: Margaux, Saint-Julien, Pauillac e Saint-Estephe no Médoc, a norte de Bordéus. Saint-Emilion e Pomerol no Libourne, já na margem direita do rio Dordogne. Péssac-Léognan na zona de Graves, colada a Bordéus, e Sauternes nos vinhos licorosos, um pouco mais a sudeste. Os locais adaptados a produzirem grandes vinhos em Bordéus lembram uma colina de leve declive, constituída por pedra solta sobreposta num solo profundo, penetrável às raízes, e num subsolo que assegura uma drenagem perfeita. O professor Séguin, da Universidade de Bordéus, sugeriu que quanto mais próximo uma vinha estivesse de um dreno eficaz, mais o solo seria seco e mais as raízes se aprofundariam. E, realmente, as vinhas Premiere Cru são as mais próximas dos canais de drenagem...

O Merlot, o Cabernet Sauvignon, o Cabernet Franc e o Petit Verdot são as castas principais nos tintos, às quais se adiciona um pouco de Malbec. O Sémillon e uma proporção crescente de Sauvignon Blanc agrupam as indispensáveis castas brancas. O facto de todas estas variedades florirem em momentos diferentes permite ao produtor uma melhor gestão dos contratempos climatéricos.

Pomerol, que em limite geográfico prolonga a noroeste a denominação Saint-Emilion, é um pequeno planalto repartido por alguns produtores. Uns compõem vinhos como Pétrus e Lafleur, outros nem por isso. Para quem visita esta pequena denominação, este facto pode converter-se intrigante – a cinta é praticamente plana, imperando a argila misturada com pedras, nalguns casos a areia marca maior ou menor presença. O clima nesta zona plana será, à partida, muito semelhante entre parcelas. Donde vem então a disparidade entre vinhos? Virá da capacidade de drenagem de cada solo? Da densidade de pés por hectare? Da qualidade de algumas argilas de que o Merlot tanto gosta? Ou virá sobretudo da competência humana?
 
Nas palavras de Denis Durantou, produtor do L'Eglise-Clinet (http://www.eglise-clinet.com/) em Pomerol, a diferença mistura um pouco de tudo. O solo faz a diferença mas a intervenção humana aprimora o produto, molda-o à sua imagem sonhadora. Adicionaríamos, adequa-a também à imagem do mercado. Onde o ser humano possa orientar, deve assumir esse controlo, sem preconceitos. A fermentação é um exemplo. Esperar que ela se faça apenas por leveduras indígenas, sem auxílio, numa época onde os níveis de açúcar são elevados, é um risco desmedido. Mas pensemos bem, não será também o estágio em barricas de carvalho uma forma de moldar ao nosso gosto o temperamento natural do vinho?

Uma coisa é certa, as quatro amostras de casco que provámos, duas interpretando o presumível lote final do L'Eglise-Clinet 2006 (Primeur oblige), desvendam um vinho carnudo, profundo, aromático, ao mesmo tempo fresco e distinto. Um grande vinho, dito na gíria, elaborado num ano de Agosto frio, ideal para a lenta maturação da precoce casta Merlot. Inclusive, este 2006 já foi classificado pela crítica especializada francesa num nível superior ao mítico Petrus. Mas provar em Primeur não é tarefa fácil.

Mas de que trata este fenómeno do Primeur? Avaliar e adquirir o vinho a bom preço antes de este estar engarrafado? Nas palavras do produtor, "bom, para ser sincero, é algo que nos faz poupar muito dinheiro em viagens e uma janela aberta para o mundo...imagine que todos os críticos e negociantes do mundo vêm a sua casa, numa determinada época do ano, para provar os vinhos que você produz? Quer melhor que isso?". Eu responderia que não. Mas Pomerol não é o modelo da cultura tradicional do vinho. Pomerol é arte contemporânea. Recordo em tempos ter lido que o proprietário de um famoso vinho de garagem em Bordéus, o Le Pin, admitiu que na colheita de 1999 cada vinho, antes de engarrafar (portanto, excluindo engarrafamento, stock, marketing e venda) lhe tinha custado em média 3,5 euros. Para um vinho que é vendido a mais de 1500 euros a garrafa, ficam por responder algumas questões de bom senso, tanto do lado do produtor como do lado do consumidor...

A visita ao Chateau Pontet-Canet (http://www.pontet-canet.com/), propriedade localizada em pleno Pauillac, vizinha do famoso Chateau Mouton-Rothchild, foi cativante. Sentir a dimensão de uma propriedade com cerca de 80 hectares, repleta de míticos Cabernet Sauvignon e Merlot, provida de um cuidadoso trabalho de drenagem, avistando ao fundo o estuário da Gironde, é algo pungente e enigmático. Verbalizam os conhecedores, as melhores vinhas no Médoc são aquelas que avistam o rio! A dimensão e a elevada organização da adega impressionam. Realce para as inovadoras cubas em betão com a sua forma cónica, potenciando a boa remontagem da manta. O inox não existe. Nos últimos anos a marca tem atingido um nível qualitativo empolgante, puxando pelos penetrantes aromas a tabaco e por uma estrutura de boca definida e profunda.

A visita ao Premier Grand Cru Classé Chateau Haut-Brion (http://www.haut-brion.com/) foi rodeada de simbolismo, não estivéssemos diante um vinho mítico. Um vinho conhecido pela sua tocante aptidão ao envelhecimento, um decurso onde os grandes vinhos se enriquecem e os outros se degradam. Uma propriedade famosa e enigmática que caricatamente se encontra inserida praticamente no meio da cidade de Bordéus. São 46 hectares de paisagem inteiramente coberta de pedra solta (Graves). Na adega nada é negligenciado. Um computador central norteia todas as cubas que têm uma funcionalidade particular: são divididas em duas cavidades distintas, a superior para efectuar a fermentação alcoólica e a inferior para efectuar a fermentação maloláctica. Concluída estas duas metamorfoses o vinho passa para o estágio em barricas de carvalho. Barricas essas que são construídas e tostadas, por artesões da Seguin Moreau, nas próprias instalações do Chateau Haut-Brion. Bonito o compartimento de estágio das barricas. Acetinado e elegante, aristocrático e alegre o Chateau Haut-Brion 2004 que provámos.       

Para quem ama os vinhos do mundo, viajar ao interior do vinho, visitar a região de Bordéus é uma experiência importante e recomendável. A maioria dos produtores aceita visitas com pré marcação. Termino o longo texto com uma sugestão: L'Enver du Décor em Saint-Emilion...um dos mais famosos Bar à Vin de França.