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Um projecto D'Oiro... no Monte homónimo

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Um projecto D'Oiro... no Monte homónimo
Autor:Pedro Gomes
Data: 15 de Abril de 2003
Tema: Reportagem

Pisamos solo estremenho com o suave ondulado da paisagem circundante a contrastar com o vigor e a imponência da Serra de Montejunto, a entrecortar a linha do horizonte.
Do alto de uma encosta coberta por vinhedos emerge o casario do lugar de Freixial de Cima e, aqui e ali, vislumbram-se alguns trabalhadores rurais absorvidos nas lides da terra. O tempo parece ter parado e a vida parece fluir numa cadência estranha para qualquer citadino. A Natureza impõe o seu próprio ritmo, sem correrias, sem semáforos, longe de moles humanas frenéticas, longe do tráfego. Enfim... serena.

Momentaneamente, essa paz de espírito é quebrada. A postura contemplativa e a sensação de quietude desvanecem-se e uma voz serena lança o mote: "É aqui, na vinha, que tudo começa". As palavras são proferidas por Luís Elias de Carvalho, uma figura sobejamente conhecida e reconhecida no panorama vitícola nacional e um dos pilares que dá forma ao projecto "Monte D'Oiro".

O enquadramento regional inicia-se com considerações de cariz climático, procurando explicar como a matriz mediterrânea se esbate pela influência do clima temperado de feição oceânica. Tecem-se considerações a propósito do contexto geológico da área, nomeadamente em relação ao predomínio de solos de natureza argilo-calcárea, datados do período Jurássico.

Da escala regional parte-se para a análise local, abordando-se tópicos tão variados como exposições de vinhedos, drenagem de solos, mecanismos erosivos e aquilo que, em geomorfologia, é designado por "dinâmica de vertentes". Nem tão pouco são descuradas as questões que se prendem com as mondas "em verde" e as desparras selectivas: procedimentos vitais por forma a reduzir rendimentos na vinha e, simultaneamente, garantir a perfeita maturação das uvas e um maior grau de concentração dos mostos.

Enfim, uma palestra de campo, ao melhor estilo socrático, uma autêntica dissertação académica, sem formalismos, muito didáctica e, do ponto de vista pedagógico, muito mais esclarecedora e eloquente do que muitas das fastidiosas horas perdidas nas carteiras de faculdade. Um perfeito domínio e integração de saberes, uma notável capacidade expositiva e um espírito de síntese invulgar demonstram que Luís Elias de Carvalho é um grande senhor da vinha... e do vinho!

De seguida, somos conduzidos à adega: um espaço amplo, funcional, onde o asseio de instalações e equipamentos deixam perceber as preocupações com as condições fito-sanitárias. Um espaço que integra um tapete de triagem, um desengaçador, um conjunto de cubas de aço inoxidável termoreguláveis e apetrechadas com um mecanismo de submersão periódica da manta, uma prensa pneumática capaz de assegurar uma correcta extracção dos componentes fenólicos, nomeadamente antocianos e, ainda, uma dependência anexa para análises laboratoriais.

Na área da enologia, é Tiago Elias de Carvalho que assume o controlo das operações. Um jovem enólogo, parco nas palavras, num estilo "low profile" mas ao mesmo tempo afável e, acima de tudo, esclarecido nos propósitos. Como qualquer enólogo, a sua função é maximizar todo o potencial da matéria-prima que entra na adega. Nesse sentido, pai e filho funcionam como dois elos de uma mesma cadeia e a articulação entre ambos parece ser muito forte. O primeiro na vinha e o segundo na adega parecem funcionar como elemento aglutinador, numa confirmação clara de que a viticultura e a enologia deveriam andar de "braço dado".

Quanto à nova cave de estágio, ainda por inaugurar, é de se ficar boquiaberto: um extenso edifício de forma rectangular, onde houve a preocupação em preservar a traça original mas conferindo-lhe um toque de modernidade de fazer inveja a muitos châteaus bordaleses. De agora em diante, é aqui que estagiarão os vinhos, em barricas de grão fino e meia tosta das tanoarias espanhola Magreñan e francesa Seguin Moreau. Num espaço contíguo, separado apenas por um vidro, ficará a futura sala de provas. Um luxo!

E, finalmente, José Bento dos Santos, a face visível de todo este projecto. Ele é o "ideólogo", grande mentor e, no fundo, a alma da Quinta do Monte D'Oiro. Engenheiro químico de formação, tornou-se gastrónomo por vocação e, abraçou o mundo do vinho por emoção.

Figura sobejamente conhecida como "gourmet", catapultou a gastronomia para um patamar que é um misto de arte e ciência. Ao ouvi-lo, rapidamente nos apercebemos que ali não se fala ao acaso: as suas palavras deixam transparecer um saber adquirido ao longo de várias décadas, recolhido junto dos grandes compêndios gastronómicos, no intercâmbio directo com alguns grandes "chefs" de renome mundial e, em última instância, na elaboração de uma cozinha com a sua assinatura, materializando essa sua grande paixão que é «a mesa». Em termos gastronómicos, é óbvio o peso esmagador do seu saber e bastaria um mero tópico subordinado à harmonia entre a gastronomia e os vinhos para ter material suficiente para um artigo individualizado -lá chegaremos-!

Foi, pois, com naturalidade, numa espécie de "paixão... oblige", que se lançou na década de 90 como produtor-engarrafador. Grande apreciador de vinhos, profundo conhecedor do actual panorama vitivinícola internacional e possuidor de uma garrafeira onde repousam muitos dos grandes "rótulos" do mundo, entendeu chegada a sua hora.

Idealizou o seu vinho em torno da casta Syrah; escolheu como arquétipo os grandes Hermitage que nascem nas Côtes-du-Rhône; chegou ao pormenor de incorporar uma pequena percentagem da casta branca Viognier, à semelhança do que acontece com os grandes "Côte-Rotie"; não se coíbiu de forçar os seus vinhos a duplo estágio em madeira nova -200%-, reproduzindo alguns dos princípios aplicados a partir da década de 90 por Jean-Luc Thunevin no seu Château Valandraud e que tanta projecção deram a Saint-Émilion.

A tudo isto acresce uma preocupação constante em provar os grandes Syrah que são elaborados por esse mundo fora, com o intuito de chegar ao perfil pretendido para os seus vinhos.

Com tudo isto, não nos admiraríamos se, daqui a algum tempo, os fundamentos da biodinâmica tão acarinhados na Borgonha, e de que Anne-Claude Leflaive foi pioneira, entrassem na rotina deste produtor.

A sua preocupação não é fazer vinhos fáceis, modernos, excessivamente centrados na doçura do fruto e, consequentemente, muito apelativos, do agrado geral e que proporcionem prazer efémero. Pelo contrário, trilha um caminho que o leve ao "Syrah perfeito"... o seu Syrah. Procura esculpir vinhos que demonstrem as virtudes da casta e, simultaneamente, possuam uma dimensão mineral e terrosa que reflictam a singularidade dos solos. Vai mais longe, ao pretender vinhos que adquiram refinamento com o tempo e denotem uma especial apetência e sentido gastronómicos.

Em 1993 José Bento dos Santos decidiu pôr mãos-à-obra e aconselhou-se junto de Michel Chapoutier -um dos mais conceituados produtores das Côtes-du-Rhône- no sentido de optar pelos melhores clones da casta Syrah, que importou de França. O desejado robustecimento dos caules obrigou-o a mondar em verde e a abdicar de 4 vindimas sucessivas. Só em 1997 produz o seu primeiro vinho: o "Quinta do Monte D'Oiro Reserva Syrah".

Actualmente, o seu portfolio mantêm-se reduzido, alicerçado em vinhos "sérios", consistentes e muito bem feitos, a saber:


- Clarete Syrah 1999

- Vinha da Nora Reserva Syrah (um 100% Syrah das colheitas de 1998 e 1999, com um estágio em barricas de carvalho francês 50% novas e 50% de 2º ano)

- Quinta do Monte D'Oiro Reserva Syrah 1997 (97% Syrah e 3% Cinsault, com 15 meses de estágio em barricas novas de carvalho Allier Seguin Moreau e 1 ano de estágio em garrafa)

- Quinta do Monte D'Oiro Reserva Syrah 1999 (97% Syrah e 3% Viognier, com estágio em barricas novas de carvalho Allier de grão fino e meia tosta da tanoaria Seguin Moreau/1 ano de estágio em garrafa)

- Quinta do Monte D'Oiro Syrah Homenagem a António Carqueijeiro 1999 (94% Syrah e 6% Viognier, com um total de 18 meses repartidos por duplo estágio -200%- em barricas novas de carvalho Allier da tanoaria Seguin Moreau, grão fino e meia tosta/1 ano de estágio em garrafa)


Já estão na forja os vinhos da colheita de 2000 nas versões "Vinha da Nora Syrah Reserva" e "Quinta do Monte D'Oiro Syrah Reserva". Segundo nos confidenciou, não se exclui a possibilidade de o "Homenagem" voltar a ser reeditado, muito embora tal só venha a acontecer em circunstâncias muito particulares. Uma má notícia para aqueles que ansiavam por uma nova colheita: esqueçam os anos de 2000, 2001 e 2002. Azar!

Em escassos 5 anos José Bento dos Santos recolheu os louvores da crítica nacional e o seu mais recente "Homenagem" ganhou projecção ibérica, depois da dupla vitória, em Portugal e em Espanha, entre 30 dos mais conceituados tintos peninsulares. A designação "Monte D'Oiro" entrou para o léxico dos enófilos mais exigentes e as produções muito limitadas começam a ser disputadas a preços especulativos.

José Bento dos Santos sabe como começou, sabe o caminho que percorreu até aqui e, acima de tudo, sabe para onde quer ir. O começo fulgurante parece conferir solidez e consistência a este projecto. Não é de admirar, pois, que a breve trecho, novas surpresas surjam desta quinta, até porque os encepamentos mais recentes com Touriga Nacional e Tinta Roriz deixam antever que o projecto "Monte D'Oiro" não se esgota na casta Syrah. Não sabemos se a ideia é produzir vinhos monovarietais ou de lote mas há que estar atento aos novos vinhos que, certamente, vão nascer neste berço... "D'Oiro".