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Domingos Alves de Sousa, Dezembro 2006

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Domingos Alves de Sousa, Dezembro 2006
Autor: Tiago Teles
Data: Douro, 28 de Dezembro de 2006
Tema: Reportagem


Acordar no Vintage House, numa manhã fria de Dezembro, é um ensaio contemplativo. O ambiente no quarto é temperado, mais para o cálido, as cortinas abrem-se, surgindo por detrás a força e o vigor de um rio que não cessa de fluir em direcção à foz. A neblina atribui-lhe um ar sério. Juntamente com o frio, imerge desta imagem uma impressão misteriosa, intensa – nesta época das chuvas a agitação do rio contrasta com o repouso das vinhas, o seu interior turbulento está bem vivo, como a seiva que corre dentro da videira nos exigentes meses de primavera e verão. O momento é de contemplação...uns minutos mais tarde vem a fome, sim, ainda me recordo dos deliciosos pães banhados em compota de abóbora. Descemos calmamente, o rio não dá pela nossa presença. É espirituoso, não se vê quase ninguém na rua!
 
O dia vai ser longo, viemos ao Douro para visitar a Quinta da Gaivosa, perto de Santa Marta de Penaguião, já próximo de Vila Real. Pergunto para dentro, quanto tempo conduziremos do Pinhão à Gaivosa? Motivo-me com a resposta de trinta minutos. Óptimo, são 9.30h e combinámos com o produtor Domingos Alves Sousa às 10h.

A estrada que liga o Pinhão à Régua é um encanto. Não sei se foi da beleza ou do mistério daquela manhã fria mas a distância entre as duas localidades pareceu, desta vez, superior...será que reduzimos a velocidade intencionalmente para respiramos a pureza do ar? O certo é que ao passar pela Régua constatei o atraso...o Douro é muito maior do que parece! Chegámos à Gaivosa pouco antes das 10.30h.
 
A quinta parece deserta. Batemos nas diversas portas mas ninguém nos contestava. Terá havido um desencontro? Estarão para a vinha? Há manhãs mais prazenteiras para o fazer...aquele gelo nas encostas, onde o sol não bate, é lindíssimo! Uma porta abre-se, são eles, Domingos Alves Sousa e o filho Tiago, enólogo residente.
 
Visitei esta mesma quinta em 2002. A afável e sincera forma de receber não mudou. Começámos pela adega. A capacidade começa a ser diminuta para a dimensão alcançada, consequências do sucesso. Sente-se também alguma desorganização, mas uma desorganização natural e pensada, como imaginamos em muitas casas francesas. O sistema de frio salta à vista. E as pequenas cubas de fermentação inox dão forma à experiência e inovação...Lordelo, Abandonado.
 
Seguiu-se um passeio pelas quintas contíguas, Quinta do Vale da Raposa e Quinta da Gaivosa. A localização é soberba, um monte altivo, em forma de casco invertido, dando a sensação de desbravar terreno na direcção sul. As vinhas instalaram-se a estibordo, com orientação essencialmente poente. Uma paisagem forte, arrebatadora, intrigante. Algumas parcelas estão em renovação, outras, mais velhas, foram abandonadas ao destino…a parcela que dá origem ao vinho "Abandonado" tem uma beleza natural própria e peculiar. Apesar da manhã ser invernosa, dá para sentir o calor que este local vive no verão, suspeito um clima duro propício a vinhas velhas aptas para lidar com as particularidades do local.
 
Retornámos à adega para provar alguns vinhos: Quinta do Vale da Raposa Branco Escolha 2005, Branco da Gaivosa 2005, Quinta do Vale da Raposa Touriga Nacional 2004, Quinta da Gaivosa 2003, Alves Sousa Reserva Pessoal 2003 e Abandonado 2004. Uma gama irrepreensível onde os brancos começam a impor-se com qualidade e carácter. O charme e a leveza desprendidos pelo Quinta do Vale da Raposa Touriga Nacional 2004 reforçam o estatuto de um Touriga apetitoso, digestivo, companheiro, uma das referências incontornáveis em Portugal. No Quinta da Gaivosa descobrimos o mistério de alguns vinhos oriundos de terras setentrionais, enquanto o Alves Sousa Reserva Pessoal 2003 encerra a profundidade de um grande Bordeaux (em tempos, ouvi apelidarem este produtor de Cheval Blanc do Douro!). 
 
No final, tive o privilégio de beber um lote do candidato a Abandonado 2006 e do potencial Quinta da Gaivosa 2005. As amostras de casco dos vinhos “virtuais” foram experimentadas às cegas. Por felicidade, identifiquei, pelo seu perfil e estilo, o potencial candidato a Quinta da Gaivosa 2005. Não escondo a minha preferência e admiração pela complexidade e pela vibração que o estilo Gaivosa confina – este 2005 prenunciasse superior a 2003. O estilo Abandonado pareceu-me dentro dos requisitos actuais de alguns vinhos de topo lançados na região do Douro. Vinhos adaptados às novas tendências – opulência, vigor e leve doçura conferida pela abundante matéria, mas tudo num estilo profundo. Estou plenamente convencido que há apreciadores para ambos os géneros. Mas esse é o mérito dos produtores que sabem tomar o pulso ao mercado. Sem se vergarem a ele...
 
www.alvesdesousa.com

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