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Vertical de Chateau Troplong Mondot

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Vertical de Chateau Troplong Mondot
Autor: Tiago Teles
Data: Paris, 15 de Maio 2007
Tema: Reportagem


É possível avistar o vasto património de Troplong Mondot a partir da pequena vila de Saint-Emilion. A propriedade ocupa o ponto mais alto de toda a denominação, no cimo da encosta Pavie, a cerca de 100 metros de altitude. A impressão de domínio é oferecida por uma pequena casa apalaçada e por um raro reservatório de água de dimensão considerável, acentuando a importância deste ponto na topografia circundante. Uma espessa rocha calcária, sustentando uma argila rica, e um importante canal freático presente no sub-solo combinam para garantir às vinhas velhas uma disponibilidade de água constante mas limitada. Na proximidade de Trottevieille, sobre a rocha base, o solo é mais rico em calcário, enquanto que a riqueza da argila predomina em volta da casa, com um solo profundo, misturando fragmentos de sílex e de calcário. Não é de estranhar que o Merlot se exprima com plenitude neste tipo de solo mais pesado e frio. O estilo encorpado e volumoso dos vinhos reflecte também este poderoso e estruturado solo de origem (com interessante similitude com alguns solos na Bairrada…).

A vinificação segue a ideologia e os conselhos de Michel Rolland. Os baixos rendimentos imperam (nos últimos anos não ultrapassam os 34 hl por hectare). As uvas são colhidas no ponto máximo de maturação. O desengace é total, a fermentações alcoólica desenrolasse em cubas inox equipadas com um sistema de regulação da temperatura, efectuando-se a fermentação maloláctica em barricas de carvalho. O estágio em pipas novas é aplicado a 75% da colheita durante um período que varia entre 12 a 24 meses, enquanto 25% da produção usufrui de barricas de segundo ano. As castas plantadas compreendem 90% de Merlot, 5% de Cabernet Franc e 5% de Cabernet Sauvignon. O tratamento nas cubas é parcelar, as leveduras criteriosamente seleccionadas, e a micro oxigenação reforçada quando necessário.    

Mais uma vez, a garrafeira Caves Legrand (http://www.caves-legrand.com/), situada em Paris, organizou no passado dia 15 de Maio uma interessante vertical, desta vez de Chateau Troplong Mondot (1970, 1981, 1986, 1995, 1998, 2002, 2004), recentemente promovido a Premier Grand Cru Classe de Saint-Emilion (por questões jurídicas, a classificação de toda a região encontra-se hoje suspensa por indicação do tribunal, depois do recurso de um grupo de sete produtores que tinham sido desclassificados – por isso, vinhos como Cheval Blanc ou Aussone, são hoje simples vinhos de mesa…). As condições e o ambiente de prova foram ideais e a interessante prova foi conduzida por Christine Valette, proprietária e mentora do renascimento da marca.

Em 1980 Christine assume a liderança da propriedade familiar e enceta um longo caminho que guiará a marca Troplon Mondot ao topo da hierarquia na região. Dez anos mais tarde, Xavier Pariente, seu marido, envolve-se no projecto de corpo e alma. Os esforços na recuperação das vinhas e no equipamento enológico, e os conselhos do jovem Michel Rolland, começam a dar os seus frutos no final da década de 80, com as míticas colheitas de 1989 e 1990. A propriedade conta com cerca de 30 hectares de vinha plantada, situação raríssima na região, onde as propriedades atingem, em média, apenas os 10 hectares.  

A filosofia da prova seguiu uma apaixonante evolução das técnicas de vinificação ao longo das últimas quatro décadas. Principiou no longínquo ano de 1970, ainda com um rótulo antigo, e numa altura em que a propriedade atravessava uma certa ruína. O controlo do processo de vinificação era problemático. Nem todos os anos tinham direito a engarrafamento. Toda a produção era destinada a uma marca, não havia triagem, não existia o conceito de “nem tudo é bom”. O meio era rural e rudimentar. As vindimas eram interrompidas pelos trabalhadores à hora do almoço, fizesse calor ou chuva. A maturação dos taninos era uma miragem. As uvas maduras misturavam-se com outras mais verdes dando, vulgarmente, vinhos de forte acidez e algum verdor. A suavidade cedida pela adição de açúcar ao mosto dissimulava algum amargo. As colheitas antigas ostentavam, à nascença, um índice de taninos de 35 contra os 90 obtidos em vindimas recentes. No entanto, esse índice 35 de taninos duros, por vezes verdes, amarga mais que um índice 90 de taninos bem maduros e suaves. Este colheita 1970, apesar de distante na forma, com a uma cor turva e um final metálico, tinha alguns traços de graça e alegria aromática. Para se ter uma noção, ele foi elaborado com rendimentos de 73 hl por hectare contra os actuais 33 hl!

No início da década de 1980 inicia-se a mutação. O jovem Michel Rolland cruza a proprietária que se intriga de imediato com a sua visão simplista e jogadora. Christine Valette evoca esses primeiros contactos com nostalgia, quando nada percebia de vinho e o jovem que tinha diante dela lhe dizia, “não se preocupe, isto é muito fácil”. Esta passagem define bem o carácter deste grande enólogo. A colheita de 1981 é uma das primeiras presenciadas pela produtora. A cor revela defeitos mas o vinho mostra interesse, algum encanto transmitido por 26 anos de idade, apesar de algum peso a lembrar açúcar associado.

Em 1984, uma nova equipa assume o controlo de gestão de produção. A responsabilidade na adega é assumida por Jean Pierre Tolesan. O ano de 1985 marca o início da comercialização de uma segunda marca. Assinala também uma experiência pioneira na região, a vindima em verde. A adega assenta nas antigas cubas de betão, sem controlo de temperatura. Na colheita de 1986 os rendimentos são elevados, na ordem dos 60 hl por hectare, mas o ano quente e generoso oferece um vinho límpido, de nariz definido, nítido, com fruta no ponto e encantadora frescura. A boca é longa e precisa, com taninos bem constituídos e fresco final.

A colheita de 1989 é estrondosa e permite finalmente agregar o capital necessário para renovar todo o equipamento e organização na adega. A precedente mítica colheita de 1990 já se elabora neste renovado cenário enológico. Em 1995 o vinho evolui para um perfil moderno, marcado pela moda do excesso de madeira. Nota-se o começo de uma nova era.

A colheita de 1998 representa um expoente de estrutura, elegância e fineza. Os taninos atingem uma textura sublime. As colheitas de 2002 e 2004 são marcadas pela barrica de estágio que confere doçura, mas a matéria é densa e isso possibilita um casamento rápido na garrafa. São vinhos que necessitam de tempo para revelarem o seu comprimento e dimensão. São vinhos sensuais e modernos apesar de viris. O olhar de Christine Valette faz-nos compreender a razão deste estilo. Sem duvida que o conceito de terroir tem muito de humano.  

Château Troplong Mondot 1995
Château Troplong Mondot 1998
Château Troplong Mondot 2002
Château Troplong Mondot 2004
Mondot 2002

Para mais detalhes consulte a página Internet: http://www.chateau-troplong-mondot.com/

Em Portugal, poderá encontrar os vinhos do Chateau Troplong Mondot no site: http://www.vinhoecoisas.pt

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