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Entrevista com Manuel Vieira (Quinta dos Carvalhais/Sogrape)
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goncas



Registrado: Quinta-Feira, 16 de Junho de 2005
Mensagens: 303
Localização: Carcavelos

MensagemEnviada: Ter Jun 15, 2010 8:01 pm    Assunto: Responder com Citação

Viva,

mavieira escreveu:
A causa desse aumento gradual não pode ser únicamente atribuido à melhoria das práticas culturais e à preocupação pelo exarcebado grau de maturação das uvas, pois penso que seria difícil que essas preocupações atingissem simultaneamente mais de 400 viticultores, com todas as limitações que estes têm, como deve saber. Para não falar de que a vinificação numa adega como a dos Carvalhais num periodo de cerca de 20 dias úteis de um média de 4 milhões de quilos, leva a que se tenha que escalonar as entregas de uva num periodo de tempo que não se afasta muito de meados de Setembro a meados de Outubro.


Sim, concordo que a “melhoria das práticas culturais”e “preocupação pelo exarcebado grau de maturação das uvas”, “atingissem simultaneamente mais de 400 viticultores”. Mas o meu pensamento sobre o “aquecimento global” não ser razão fundamental para o aumento do grau alcoólico do vinho nos últimos 10/15 anos tem a ver com o facto de que o “aquecimento global” não ter começado nestes últimos 10/15 anos e de o seu efeito não ser assim tão imediato. Por outro lado, por exemplo, já na década de 60 e 70, os tintos do CEN tinham uma graduação superior (> 13º) à tendência da altura (11º - 12º).

mavieira escreveu:
Não é contraditório porque a maioria dos consumidores não tem consciência de que faz parte do “velho mundo” vinícola!

O universo dos consumidores é formado pelos consumidores comuns, a maioria, e por consumidores de elite, uma minoria, minoria essa que sabe distinguir entre “velho mundo” e “novo mundo”, entre taninos doces, bombas aromáticas e frutas exuberantes, face aos taninos afirmativos, aromas austeros e complexos.

A evolução natural de um consumidor comum é caminhar cada vez mais para niveis maiores de exigência, mas esse é um caminho demorado e a que nem todos têm acesso.

Entretanto temos que fazer vinhos para todos, não perdendo de vista a responsabilidade que deveremos assumir, mesmo quando produzimos vinhos mais “fáceis”, que é o de ir sempre apontando o caminho na direção daquilo que consideramos ser um verdadeiro caminho para a qualidade!


Brilhante! Obrigado por partilhar de uma forma tão esclarecida a dicotomia “novo mundo” vs velho mundo” relacionando-a com o “sentido do gosto” e não com a dimensão territorial.

mavieira escreveu:
Ainda há pouco tempo, ao ler um jornal de referência da nosso praça, com poucos anos em cima, e que reportava uma prova cega de vinhos de média gama feita por consumidores e técnicos esclarecidos, li deliciado as loas que se faziam à qualidade da madeira que aparecia no vinhos, não se falando práticamente destes!

Passados poucos anos já a madeira foi posta de quarentena, e agora as tanoarias já devem andar aflitas com as novas tendências!

PS: Sobre este tema da revolução do gosto leia, se conseguir encontrar, um livro muito interessante do Pierre Coste, “LES RÉVOLUTIONS DU PALAIS” da “Éditions Lattès” 1988


Não sei se o “gosto pela madeira” na prova. Já mudou assim tanto. É comum encontrar em notas de prova referências do tipo: “madeira de excelente qualidade” ou “a barrica não se sobrepõe à fruta” a que se soma, na minha humilde opinião uma certa doçura, embora esta não seja tão referenciada.

Sobre as tanoarias, não sei se será tanto assim. Ainda recentemente estive a visitar uma Tanoaria na Borgonha e pelo que vi, o negócio “vai de vento em popa”.

Obrigado pela sugestão, vou procurar. Subscrevo-me com elevada consideração e estima
_________________
Saudações enófilas,

Nuno Gonçalves
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mavieira



Registrado: Sexta-Feira, 21 de Mai de 2010
Mensagens: 16

MensagemEnviada: Qua Jun 16, 2010 10:40 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Manuel Vieira (a ausência do Sr. Engenheiro tem contribuído para que, do ponto de vista epidérmico, o meu estado clínico se tenha agravado drasticamente nas últimas horas),

Continuemos por "terras" de Carvalhais, desta feita para saber:

1- Não se pode dizer que tenha sido uma iniciativa pioneira mas, numa altura em que Portugal não estava minimamente familiarizado com esse tipo de vinhos, os consumidores esbarraram no Quinta dos Carvalhais Colheita Tardia 1995, um vinho que, por sinal, acaba de ser recentemente reeditado.

As colheitas nascidas em Carvalhais estão marcadas pela Botrytis cinerea? Como tem sido a reacção do mercado perante um vinho de estilo tão peculiar?

O colheita tardia é um vinho fascinante. Foi depois de uma visita ao Chateau d’Yquem que fiquei conquistado pelo estilo, e que me levou posteriormente a tentar fazer algo de “parecido”, isto é, com uvas vindimadas tarde e atingidas por podridão nobre.

É claro que ao principio as uvas atingidas por podridão fazia-me a maior das confusões! O aspecto é mesmo impressionante, parece que dalí nada sairá de bom, tal o mau aspecto das uvas. Mas há um facto que nos tranquiliza; o cacho atingido pelo podridão nobre não cheira absolutamente a nada, ao contrário do cheiro a mofo provocado pela podridão cinzenta e do cheiro a vinagre da podridão acética!

É claro que nem todos os anos são propícios ao aparecimento da podridão nobre; são precisas condições especiais de temperatura, humidade e ausência de chuva que nem sempre se verificam. Frequentes vezes as uvas atingidas por podridões indesejáveis tiveram como destino final a barriga das ovelhas do rebanho que em tempos existia em Carvalhais!

Para tentarmos aumentar a probabilidade de ocorrência da podridão nobre, plantámos Semillon num local da Quinta dos Carvalhais com especiais condições de temperatura e humidade, junto a um lago onde entre meados de Outubro e finais de Novembro surgem normalmente neblinas matinais propícias para o desenvolvimento da botrytis cinereia em boas condições para a obtenção de podridão nobre, e que, conjuntamente com o Encruzado, faz parte da constituição actual e futura dos Colheitas Tardias oriundos de Carvalhais.

É essencial o interesse do aparecimento da podridão nobre para que o vinho atinja um perfil adequado, longe do que é conseguido quando fazemos simplesmente um vindima tardia com uvas sobrematuradas, mas sem podridão. Por isso, até ao momento só fiz colheitas tardias com uvas nessas condições. Penso ser a melhor opção para se produzir um produto diferenciado.

É curioso verificar o comportamento do Semillon em Carvalhais no local onde foi plantado; costumo dizer com alguma ironia que “apodrece muito bem”!

Em relação às duas colheitas editadas até ao momento, 1995 e 2007, penso que de um modo geral foram bem recebidos. Os vinhos não tiveram maturações semelhantes. Enquanto o 1995 estagiou longamente em barricas de carvalho, o 2007 teve um periodo de estágio muito reduzido, cerca de 6 meses, e foi para o mercado muito mais cedo, apresentando por isso perfis bastante diferentes, com o 1995 na altura do lançamento a mostra-se intensamente terciário e o 2007 com aromas mais ligados à podridão nobre, como a casca da laranja, frutos tropicais, mel e amêndoa.

Mas é um vinho, como diz, ainda pouco conhecido dos portugueses, e muitas vezes tem que ser explicado o conceito às pessoas antes de ser servido. A propósito ainda no domingo passado numa esplanada à beira mar, uma senhora a meu lado comentava escandalizada para os filhos o facto de lhe terem tentado oferecer um vinho de uvas podres! Claro que ela tinha recusado!




Citação:
2- Nutro pelos vinhos de dupla fermentação uma opinião em tudo semelhante à do vinho do Porto: é preciso ir ao seu "enclave" de origem para perceber a verdadeira dimensão desses vinhos. Em todo o caso, provei muito recentemente o seu Quinta dos Carvalhais Reserva Rosé Bruto 2006 e achei o vinho bastante interessante, sobretudo atendendo à suavidade da mousse, aquilo que por norma critico nos nossos espumantes.

Pedia-lhe que, em traços gerais, nos descrevesse esse espumante. E, à mesa, poderá funcionar bem com...?

Adoro champagne e não descansei enquanto não meti a colherada no conceito!

Foi logo em 1995 que fiz as primeiras experiências em Carvalhais, e logo com Encruzado e Touriga Nacional em partes iguais. Nesse ano utilizei a técnica tradicional de espumantização, com utilização de leveduras livres no processo da 2ª fermentação em garrafa, técnica que mais tarde alterei para a utilização de leveduras encapsuladas, o que permitiu dispensar a utilização de “pupitres” para fazer o “degorgement “.

Entretanto com a experiência comecei a utilizar na “cuvée” para engarrafamento cada vez maior percentagem de Touriga Nacional, o que levou à mudança da cor branca com que surgiu inicialmente, para a cor rosé actual.

Também alarguei o periodo de estágio dos vinhos base por mais tempo, estagiando o Encruzado em barricas usadas de carvalho e o Touriga em cubas inox durante pelo menos um ano. Consigo assim uma maior complexidade de aromas, com uma gama mais terciária, embora consiga manter o carácter primário da fruta.

Ao fim desse ano o lote vai para as garrafas onde se realiza a 2ª fermentação, e depois desta fica cerca de 2 anos sobre as leveduras para aumentar a complexidade e para tornar as bolhas mais finas e cremosas. Na altura do “degorgement” normalmente adiciono cerca de 3 gramas de açucar para equilibrar o vinho na boca, sendo assim considerado um espumante bruto.

Pensei este espumante para ser um espumante gastronómico, para ser utilizado à mesa a acompanhar comida, e não para ser um espumante de brinde. Por isso é muito importante que a espuma esteja o mais integrada possível, e que na boca tenha suficiente complexidade, acidez e volume para se bater harmoniosamente com uma série muito alargada de pratos.

Penso que consegui o objectivo, e já o bebi muitas vezes ao longo de toda uma refeição, e posso dizer que acompanha muito bem uma gama bem alargada de pratos, mesmo de carne com alguma gordura. Faça a experiência!




Citação:
3- Não se pode dizer que seja uma casta muito badalada, nem tão pouco aparece associada à Quinta de Carvalhais; no entanto, bastaram-me dois ou três vinhos estremes de Tinto Cão para me render às virtudes da casta.
Admito que seja uma falha da minha parte mas, não resisto a perguntar-lhe qual a explicação para que o Tinto Cão, sobretudo no Dão e no Douro, não colha a preferência dos nossos enólogos? E, no caso concreto da Quinta dos Carvalhais, que razões o levam a relegá-la para um plano secundário?


Tem razão ao fazer a pergunta. Realmente é uma das castas recomendadas para o Dão, mas a verdade é que nunca foi muito explorada. Nós em Carvalhais nem sequer nas plantações iniciais a experimentamos, e só existe em pequenissima quantidade, cerca de 54 pés na nossa Coleção Ampelográfica. Quanto muito dá para fazer uma microvinificação.

Sabe que quando se planta uma vinha temos que fazer opções, muitas vezes fundamentadas, mas outras tantas sem grandes fundamentos. Eu lembro-me que quando se plantou os mortórios do Douro em meados da década de 80, com financiamento do Banco Mundial, as 5 castas selecionadas incluiam o Tinto Cão, para além da Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Barroca. Mas a tendência na altura apontava mais para as 3 primeiras, o que levou à utilização de uma percentagem pequena de Tinto Cão nas plantações efectuadas na altura. E eu sei do que falo pois fui responsável em 1984 no CEVR na Régua pela análise das propostas de plantação de mortórios na margem direita do Douro, e confesso que pouco Tinto Cão aconselhei.

O mesmo aconteceu no o Dão, onde as plantações de novas vinhas na década de 90 não incluiram percentagem significativa de Tinto Cão.
Mas posso-lhe dizer que Sogrape Vinhos utiliza Tinto Cão, até no Barca Velha, e ainda recentemente plantamos mais vinha com esta casta.

Diz o Luis Sottomayor que o vinho de Tinto Cão apesar de não ter grande estrutura nem cor, tem um aroma excelente e uma óptima acidez, que confere a qualquer lote boas características. Para além de em termos viticolas ser um todo- o- terreno, resistente a quase tudo com excepção da cicadela.

Mas prometo-lhe que vou fazer este ano uma microvinificação de Tinto Cão, e não só, a partir da nossa coleção ampelográfica, e depois convido-o para provar!




Citação:
4- Costuma dizer-se que parar... é morrer! Estão na calha algumas novidades com o "selo" Quinta dos Carvalhais? Claro que o segredo é a alma do negócio mas, até onde lhe fôr possivel levantar o véu...


Posso levantar pouco, mas também há-de compreender que num portfolio tão completo como o de Carvalhais já começa a ser difícil a novidade.

De qualquer maneira está previsto que regularmente se faço uma “especialidade”, ao critério do enólogo, uma pequena edição de um determinado vinho que provávelmente não entrará em produção regular, mas que contudo servirá de teste para novos produtos ou para detectar tendências de consumo.

Poderá ser por exemplo um branco de casta ou castas diferentes do Encruzado, ou uma incursão pelo Jaen da Quinta, ou então... fico por aqui!

Um grande abraço, e estimas melhoras!

Manuel Vieira



Citação:
Um grande abraço e.... até já!

Pedro
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mavieira



Registrado: Sexta-Feira, 21 de Mai de 2010
Mensagens: 16

MensagemEnviada: Sáb Jun 19, 2010 2:49 am    Assunto: Responder com Citação

Spice Girl escreveu:
Caro Manuel Vieira

Começo por lhe agradecer a disponibilidade para aceitar o nosso desafio e para partilhar connosco os seus conhecimentos e experiência.

Ao longo do tempo, cada vez tem ficado mais claro para mim o interesse desta interacção com quem está de uma forma mais directa ligado a algo que para nós é particularmente interessante - tudo o que se relaciona com a gastronomia e vinhos. É bom passar a associar caras a nomes, é bom associar uma personalidade, uma forma de estar na vida a um produto. Tudo fica de repente com outro sentido. Por tudo isto gosto muito de ler estas entrevistas. Muito obrigada!

1 - Tendo uma tão longa carreira ligada ao vinho, teve certamente oportunidade de avaliar a evolução dos consumidores de vinho em Portugal ao longo das últimas décadas. Como caracterizaria essa evolução?

Olá Paulina Mata: Tenho imenso gosto em estar aqui neste Forum a responder às suas perguntas, mais a mais sendo eu um habitual seguidor das brilhantes intervenções que nele faz.

A sua pergunta inicial não é nada fácil de responder.

Todos nós temos a tendência de confundir o universo com o nosso restrito grupo de amigos, o que nos leva a dar opiniões definitivas sobre as tendências de consumo baseado em bases falsas.

A propósito desta nossa tendência, gostaria de contar um episódio que se passou com o relançamento da marca Gazela, quando a Sogrape Vinhos promoveu antes um estudo de mercado, com a realização de um inquérito junto a um universo bastante alargado de consumidores, fazendo paralelamente o mesmo inquérito aos colaboradores internos mais ligados ao projecto, em que se lhes pedia para responderem , não pela sua própria cabeça, mas sim, pela maneira que pensavam que responderia o consumidor médio.

Os resultados vieram, e da análise comparativa das respostas ficamos todos conscientes da nossa enorme ignorância em relação aquilo que o consumidor médio queria, e a partir daí fiquei convencido que nestas coisas de análises de mercado não podemos confiar naquilo que os nossos amigos do café dizem!

Isto tudo para dizer que a evolução do gosto do consumidor tem que ser analizado a vários níveis, pois depende da classe em que se inclui (daí as classificações A, B; C...etc dos consumidores).

Mas as grandes linhas desta evolução, e estou a referir-me à evolução do gosto, foram muito influenciadas por uma caracteristica comum ao ser humano, que é a de gostar do sabor doce! Se der a provar a um bébé os 4 sabores fundamentais, amargo, ácido, salgado e doce, o bébé só não chora ou faz caretas com o sabor doce! Só com o tempo e o crescimento é que começa a gostar dos outros sabores.

Ora este mecanismo mantém-se na idade adulta, em relação ao vinho por exemplo. A evolução clássica de um consumidor de vinho passa por diferentes fase em que o aprender a gostar de outros sabores para além do doce pode demorar mais ou menos tempo. O meu filho de 20 anos ainda não aprendeu a gostar do sabor amargo e por isso detesta cerveja, pelo contrário aprendeu a gostar do ácido e é capaz de comer um frasco inteiro de pickles! Assim o consumidor começa normalmente por gostar de bebidas onde o sabor predominante é o doce, e só com o tempo aprende a gostar de bebidas onde os outros sabores aparecem, e o doce não é predominante.

Por isso o gosto do consumidor é normalmente dinâmico, evoluindo mais ou menos rápidamente de uma base onde privilegia o doce para uma base onde privilegiará outros equilibrios dos quatro sabores fundamentais, e portanto num determinado momento histórico haverá uma mistura de consumidores em diferentes fases de evolução do seu gosto, que para já não sei como quantificar!

Mas a verdade é que nós na nossa vida de enólogos vamo-nos apercebendo de mudanças subtis de gostos, ou de modas. Por exemplo a madeira de carvalho nos vinhos passou de uma fase em que quanto mais melhor, para a actual fase de se apresentar discreta e integrada, sustentando o vinho e não o substituindo.

E que dizer da “Parkerização” do gosto do consumidor, que genéricamente se traduz por uma preferência por vinhos de grande extração, taninos opulentos, doces, aromáticamente explosivos, e que hoje em dia está a ser cada vez mais contestado por outra linha que eu costumo identificar como a “linha Nassiter” do “Mondovino”, que prefere os vinhos menos extraídos, onde a elegância e equilíbrio, juntamente com os taninos mais afirmativos e uma maior personalização do carácter do terroir são pedra de toque?

Esta linha, por exemplo é bastante favorável aos vinhos do Dão, e por isso estou convencido que estes a curto prazo estarão cada vez mais nas “bocas” do mundo!

Mas atenção que estou a falar de uma elite esclarecida, que nada tem a ver com a grande maioria dos consumidores.


Citação:
2 - Ao ler a introdução à sua entrevista reparei por acaso que participou num seminário promovido pela Air Liquide sobre a utilização de gases na vinificação. E surgiram-me duas questões.


Já tive oportunidade de ouvir algumas apresentações sobre este assunto especificamente e sobre a utilização de gases na indústria alimentar. A variedade de formas e fins com que podem ser usados é muita, parecem-me indispensáveis em várias situações para manter ou melhorar padrões de qualidade e são processos que respeitem o ambiente, já que frequentemente são gases obtidos do ar por separação. Nas visitas que tenho feito a produtores de vinhos em geral a sua utilização é muito pouco referida, embora eu saiba que o seu consumo na vinificação em Portugal é superior ao de outros países produtores de vinhos.

Como vê a utilização destas novas tecnologias na produção de vinho? Com que extensão estas técnicas são usadas em Portugal?


Como sabe a enologia evoluiu imenso em Portugal nos últimos anos, direi mesmo que bastante mais que a viticultura no mesmo periodo. É ver a cada vez maior quantidade de vinhos de todo o país que alcançam boas classificações nos “media” e em concursos nacionais e internacionais, e isso deve-se em grande parte à melhoria enorme das técnicas de vinificação introduzidas pelas sucessivas vagas de novos enólogos com formação superior que têm entrado no mercado.

E dentro dessas técnicas, o controle das oxidações dos mostos e dos vinhos tem sido uma preocupação sempre presente, e que explica em grande parte, por exemplo, a melhoria dramática dos vinhos vinhos brancos nos últimos anos, não só no aspecto qualitativo, como no aspecto da sua capacidade para evoluir na garrafa. E para isso existem várias técnicas e práticas, sendo uma delas, e muito a importante, a utilização de gases inertes em diferentes fases da vinificação.

Eu utilizo muito, por exemplo, gelo seco, ou neve carbónica na inertização dos mostos nas fases de prensagem e decantação, e inclusivé recupero o CO2 da fermentação dos brancos para inertizar as cubas onde vou receber o mosto branco para decantação.

E estou sei que variadissimos colegas utilizam gases inertes também para evitar oxidações, principalmente em mostos brancos, onde estas podem provocar danos irreversíveis na qualidade do vinho obtido.

Mas atenção que também temos que ser razoáveis nesta prática, e não cair na tentação de fazer vinhos demasiado redutores! Nem tanto ao mar nem tanto à terra! Atenção à judiciosa utilização do oxigénio durante a fase fermentativa!




Citação:
Pelo que vou lendo por aqui e pelo contacto com alguns enófilos ao longo do tempo, tenho-me apercebido de uma visão que me parece demasiado"romântica" relacionada com a produção de vinho. Por outro lado, do que tenho visto e ouvido, parece-me que a indústria de vinhos em Portugal é uma indústria moderna e que de certa forma tem acompanhado o que se faz a nível internacional. Estou certa? Este avanço é compatível com toda a mística associada ao vinho?

Podem e devem coexistir os dois estados de espírito.

São duas atitudes, ambas válidas, e que existindo podem ser benéficas para ambos os lados. Do “romantismo experimental” de alguns podem surgir novos caminhos a ser explorados pelos ditos “vinificadores tecnológicos”, e do domínio científico destes podem surgir soluções para alguns problemas com que se deparam os ditos “românticos”.

Quanto aos avanços tecnológicos poderem por em perigo a mística associada ao vinho penso que não estará em perigo, enquanto o homem não for substituido pela máquina.

Até lá, quem faz a mistica são os enólogos que amam verdadeiramente aquilo que fazem, e que consideram os vinhos como uma obra de arte por eles produzidos, mesmo utilizando cubas de inox robotizadas
.



Citação:
3 - Vedantes... cortiça, sintéticos, screw-cap... qual é a sua posição relativamente a este assunto?


É muito simples. Considero a rolha um vedante excepcional para vinhos de guarda, como aliás está largamente provado ao longo dos anos, porque deixa o vinho respirar de um maneira controlada, e mesmo os seus defeitos podem ser considerados virtudes numa pespectiva mais lata. Por exemplo, dizer que uma rolha de cortiça poderá levar a que um determinado vinho evolua na garrafa de modo diferenciado, para mim não é um defeito, é uma virtude! Mau seria quando tivessemos a certeza que um grande vinho de guarda que temos guardado na nossa garrafeira seria sempre igual, e que não haveria subtis variações de qualidade que nos dariam pano para mangas nas discussões com os amigos com quem partilhariamos o vinho. Então e a mística!

É evidente que o gosto a rolha dá cabo de qualquer vinho, mas a verdade é que as corticeiras têm feito um enorme esforço para ultrapassar esse problema, com bons resultados, e penso que a probabilidade de isso acontecer é o preço a pagar para podermos usufruir da mística de uma velha garrafa.

Quanto aos outros vedantes são bem vindos para determinados tipos de vinhos. A filosofia deverá ser a de usar o melhor vedante para cada situação em particular. Assim o screw-cap é ideal para vinhos com gaz ou de consumo rápido, bem como as rolhas técnicas ou sintéticas para vinhos tintos ou brancos de elevada rotação. Há lugar para todos, e até há ocasiões para todos! Já viu o que era por exemplo ter que usar um saca rolhas num avião para abrir as garrafas? Não é muito melhor o screw-cap?

E depois há países onde a mística da rolha não existe, e esses exigem muitas vezes a utilização de vedantes alternativos às rolhas de cortiça.



Citação:

4 -Qual é a sua opinião quanto à forma como os vinhos são tratados na restauração e a sua ligação à comida?

Em relação à forma como se procuram as ligações entre vinho e comida, e até nos requisitos para beber, por vezes parece-me que há algum exagero e se tenta de tal forma procurar o óptimo que quase me parece que se perde alguma espontaneidade. O que acha sobre isto?



Por acaso sou bastante crítico à maneira como se serve o vinho na maioria dos restaurantes, mas é evidente que há alguns em que existem verdadeiros profissionais e o serviço de vinhos é feito de maneira correcta, mas são raros.

Quanto à ligação do vinho com a comida, confesso que é um tema que me fascina há muito, longe vão os tempos da ligação do branco com o peixe e do tinto com a carne.

Hoje em dia estou convencido que essa regra é demasiado redutora. Há um mundo de harmonizações à nossa espera, e por por isso não estou muito de acordo consigo quando diz que há algum exagero nesse campo.

Para mim uma boa harmonização exalta tanto o vinho como a comida, e todo o esforço, e mesmo exagero que tenhamos na procura do ideal não é tempo perdido.

Lembro-me uma vez que tive que colaborar numa sessão de ligações entre cerca de 30 produtos de charcuteria, desde salchichas até ao mais requintado presunto ibérico, passando por todos os estados intermédios, com 6 diferentes vinhos da Sogrape.

A técnica utilizada consistia em provar o produto e definir qual dos 6 vinhos ligava melhor com ele.

À partida a tarefa pareceu-me inglória, pois estava convencido que não iria haver grandes diferenças entre cada um dos produtos e acabaríamos por escolher quase sempre o mesmo vinho, mas tal não veio a acontecer. Para meu grande espanto, algumas diferenças subtis alteravam totalmente a ligação entre o vinho e a comida, e supreendentemente um vinho que ligava bem com uma determinada coisa não ligava com outra coisa vagamente diferente.

Por isso estou sempre à procura de novas e emocionantes harmonizações, que me dão enorme prazer, pois sou essencialmente um bebedor de vinho à mesa, a acompanhar comida, e dou uma importância enorme, tanto à aptidão gastronómica do vinho como à corrrecta ligação entre estes.

Também sou um maníaco dos copos, ao ponto de preferir não beber, a ter que beber por maus copos. Quando a isso sou obrigado, o que infelizmente acontece mais vezes do que seria desejável, até em sítios onde tal não deveria acontecer, o vinho mesmo que seja muito bom não me diz nada.

Beber vinho é um acto que utiliza todos os nossos sentidos e emoções, e por isso requer condições apropriadas para ser apreciado em toda a sua plenitude.

Uma vez tive que beber num jantar um excelente Barca Velha em grossos copos hexagonais, no mesmo dia em que de manhã tinha ido a uma apresentação dos copos Riedel feita pelo próprio George Riedel na Feitoria Inglesa!!!




Citação:
5 - O vinho ainda é uma coisa de homens e todos os rituais associados muito masculinos, no entanto há cada vez mais mulheres ligadas a vários aspectos relacionados com a produção de vinhos. Há cada vez mais mulheres a comprar e beber vinho. Há vinhos de mulheres? Há vinhos para mulheres? Ou seja há características proprias dos vinhos feitos por mulheres e/ou dos vinhos consumidos por mulheres?


Será que o termo “adamado”, que adjectiva um vinho com um determinado nível de açucar, tem alguma coisa a ver com as damas?

E se for o caso, quererá dizer que as mulheres gostam mais de açucar no vinho de que os homens? Não sei, mas da fama não escapam!

Claro que estou a brincar, não tenho grandes bases de informação que me permitam distinguir entre um enólogo e uma enóloga, e se por acaso elas existem são normalmente desfavoráveis ao enólogo. Basta citar um estudo da Nacional Geographic feito há anos a nivel mundial, onde testaram a capacidade do leitor para identificar aromas, estudo esse que colocou as mulheres no topo da tabela!

Agora em relação às características próprias dos vinhos consumidos pelas mulheres, pelo menos quando se fazem estudos de mercado procura-se identificar os gostos de várias faixas de consumidores, e para isso discrimina-se normalmente o sexo, a faixa etária, a área geográfica e o status, e assim pode-se eventualmente fazer um vinho mais orientado para um determinado perfil de consumidor, podendo este ser por exemplo o consumidor feminino de determinada faixa de idade e de determinado status pertencente a uma certa área geográfica.
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mavieira



Registrado: Sexta-Feira, 21 de Mai de 2010
Mensagens: 16

MensagemEnviada: Ter Jun 22, 2010 12:38 am    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Manuel Vieira (a minha situação clínica atingiu um estado de tal gravidade que, há última da hora não me restou outra alternativa senão recorrer a uma consulta dermatológica. E o diagnóstico foi muito claro: ou passo rapidamente a tratá-lo por Sr. Engenheiro ou, para bem da minha saúde, serei obrigado a encerrar esta entrevista),

Não podia pôr termo a este diálogo sem ouvi-lo falar um bocadinho sobre o Douro, região onde a Sogrape cimenta grande parte do seu prestígio, tanto nos vinhos tranquilos como no universo dos vinhos generosos.

1- Trabalhou durante longos anos com José Maria Soares Franco e, mantém actualmente uma estreita colaboração profissional com a equipa liderada por Luís Sottomayor.

Partilhe connosco (dentro do que lhe é possível) como é todo esse longo processo que culmina com a decisão entre "Barca-Velha" ou "Reserva Especial" (sim, porque tenho a certeza que a sua opinião é tida em conta).



Como sabe a decisão sobre o que é Barca Velha ou Reserva Especial pertence ao actual responsável pelos vinhos do Douro da Sogrape Vinhos, o Luis Sottomayor, terceiro na linhagem que começou em Fernando Nicolau de Almeida, continuou com o José Maria Soares Franco e agora o Luis.

Eu quando entrei na Ferreira em Setembro de 1985 fui directamente para a Adega do Vale do Meão, e o primeiro vinho que fiz na vida foi o Barca Velha 1985! Comecei bem, e tive a felicidade de trabalhar ainda alguns anos com Fernando Nicolau de Almeida que muito me ensinou de como provar, e de sensibilidade para apreciar um vinho para além das falsas exuberâncias e dos “sinais exteriores de qualidade”.

Nunca me hei-de esquecer do desprezo que votava aos aromas exuberantes de esteva nos vinhos novos, que ele considerava fugazes e sem futuro, e nos fazia concentrar sobre os aromas mais subtis e austeros, que segundo ele eram o prenúncio de um grande vinho, com pernas para andar!

Desde essa altura ficou o hábito de regularmente se fazerem provas verticais dos Barca Velhas, desde o mais antigo até aqueles que ainda não tinham sido lançados; que estavam no “forno”; como dizia o José Maria. E era dessas provas, periódicamente executadas, que se ia aos poucos tendo a certeza se determinada colheita iria ser Barca Velha ou Reserva Especial.

Entretanto em 1987 a Sogrape comprou a Ferreira, e em 1997 deixei de colaborar nesta, e passei a ser responsável pelos vinhos do Dão, e em 1999 também dos vinhos Verdes da empresa, mas nunca deixei de ser convidado, primeiro pelo Zé Maria e agora pelo Luis Sottomayor para as tais provas verticais de análise das diferentes colheitas.

Como disse a decisão final pertence sempre ao responsável de Enologia do Douro, que a submete à aprovação da Administração, e aqui posso dizer que evidentemente o Luis Sottomayor ouve a minha opinião como ouve a de outros que colaboram com ele, e que normalmente a minha opinião coincide com a dele, pois saímos da mesma fornada de enólogos preparada por Fernando Nicolau de Almeida.

Mas também lhe posso garantir que se não coincidisse, o Luis teria sempre a última palavra, e seria dele a decisão!



Citação:

2- O ano de 2007 foi particularmente "generoso" para a Sogrape. Vinhos como o Offley Boa Vista, o Sandeman e o Ferreira posicionam-se a um nível muito elevado. Em linhas gerais, e admitindo que lhes encontra um fio condutor, como descreve os Vintage 2007 da Sogrape?

Foi um grande ano e os vintages da casa disso são testemunhos.

Gostaria de, antes de falar sobre cada um dos vintages, contar as práticas que permitem a uma casa como a Sogrape lançar três vintages com personalidades distintas, herdeiras de um estilo próprio, sem tentações de uniformização de estilos.

Cada casa tem o seu provador, já com muitos anos de experiência, e que foram “herdados” dos antigos proprietários, e que, como é hábito na Sogrape, asseguram uma sobreposição muito longa entre o que era e o que será, promovendo a formação e educação de novos provadores que os substituirão no futuro.

É assim na Offley Forrester com o João Salgueiro, que já prova e faz lotes há 34 anos sempre na mesma casa, e é assim com o Carlos Silva também há 34 anos na Sandeman, ambos guardiões do estilo das respectivas casas.

A prática de Luis Sottomayor, guardião do estilo Ferreira, agora com a ajuda do António Braga, e responsável pela decisão final de todos os lotes, passa normalmente por analisar as diferentes propostas que cada um dos provadores apresenta, a partir dos vinhos oriundos das vinhas de cada casa, e decidir qual das propostas está mais de acordo com a estatégia do grupo, não pondo assim em causa a personalidade própria de cada uma.

Quanto à minha opinião sobre os mesmos, acho que o Ferreira é o mais elegante e harmonioso, na linha do que é tradicional na marca, o Sandeman pelo contrário, tem um estilo mais afirmativo e vigoroso, com taninos potentes, a precisar de muitos anos em garrafa como precisam os vintages de longa guarda, e o Offley pode-se dizer que estabelece uma ponte entre os dois, sendo por um lado elegante e sóbrio, mas com taninos vigorosos e potentes.




Citação:
3- Foi com grande alegria que vi Michel Bettane e Thierry Desseauve incluir o nome Ferreira Port no seu "The World's Greatest Wines", publicado em 2006. As referências são de tal modo elogiosas que não me contenho em transcrevê-las:

"As they mature, their quality can be remarkable, with a finesse and fruity youthfulness that will come as a pleasent surprise to those who find port wines too heavy. The tawny ports are remarkable, particulary the single-quinta tawnies, Quinta do Porto (10 years old) and Duque de Bragança (20 years old)".

Tão simplesmente quanto isto: vinhos deste calibre (os dois que são mencionados) merecem ser acompanhados com...?

Para além de serem óptimos sózinhos, bebidos lentamente de modo a saborearmos toda a sua complexidade, podem muito bem acompanhar quer entradas quer sobremesas.

Devem ser servidos refrescados, a cerca de 12, 14º C, a acompanhar por exemplo um foie gras, ou patés. Uma combinação que gosto muito é com folhado de chévre ou de queijo da serra gratinados, acompanhado neste caso com uma redução de vinho do Porto com frutos secos.

A harmonização mais clássica não pode deixar de ser citada no caso das sobremesas: creme queimado, mas também com doces conventuais à base de ovos, como as “Barrigas de Freiras” ou doces com base de amêndoas ou outros frutos secos.

E depois há aquelas combinações só para alguns, como fumar um belo “Habano” acompanhado por um Duque de Bragança 20 anos, numa varanda ao luar, num palácio perto de si!


Citação:


4- Bem sei que o vinho não é da Ferreira, antes da Offley, mas é dos tawnies que mais me impressionaram nos últimos tempos: o Barão de Forrester 30 Anos (engarrafado em 2007). Tanto assim é que acabou por ser um dos três vinhos fortificados que integrou a minha "Selecção Generosos 2009" do Portal Portugal - Guia de Vinhos Portugueses & Estrangeiros.

Pedia-lhe que tentasse mostrar a todos aqueles que acompanham esta sua entrevista das razões porque, pelo menos uma vez na vida, todos deveriam ter o direito de provar, e sobretudo beber, um vinho deste quilate (essa é a minha convicção profunda).



Partilho o seu entusiasmo, tanto pelo Offley 30 anos em particular, como genéricamente pelos tawny’s datados ou pelos colheitas!

Gosto muito deste tipo de vinho do Porto com um longo envelhecimento em contacto com o oxigénio, nas barricas ou nos balseiros, e é fascinante todo o trabalho que várias gerações de provadores e enólogos precisaram de fazer para que surja numa garrafa um vinho como o Offley 30 anos, onde o vinho mais antigo que entrou na sua composição data de 1965, ano em que começou a guerra no Vietname!

O longo estágio em barricas ou balseiros é uma prática muito trabalhosa, que varia de casa para casa, mas que requer normalmente um cuidado acompanhamento por parte dos provadores e dos enólogos, para que o vinho envelheça dentro do estilo da casa, com mais ou menos arejamento, mais ou menos refresco, isto é, no caso dos vinhos datados, junção de vinhos mais novos de modo a dirigir o vinho organolépticamento no bom sentido, evitando aromas pesados ou aborrachados.

É fantástico percorrer os enormes armazéns pejados de barricas onde a luz penetra suavemente, e sentir o aroma quente e provocador que se desprende, sabendo que aqueles vinhos foram produzidos há muitos anos por outros que os trabalharam com o mesmo entusiasmo com que actualmente são trabalhados.

Por isso não podia estar mais de acordo consigo quando diz que todos deviamos ter direito a provar pelo menos uma vez na vida um vinho como este, produto do querer e da paciência duma sucessão de gerações que sempre souberam e sabem que muito daquilo que fizeram ou fazem ficará para outros que virão depois deles receber o sua herança... e assim sucessivamente!

Um abraço

Manuel Vieira




Citação:
Um grande abraço e... até já!

Pedro
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mavieira



Registrado: Sexta-Feira, 21 de Mai de 2010
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MensagemEnviada: Ter Jun 29, 2010 11:41 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Manuel Vieira (lamento profundamente mas vou ter de concluir esta entrevista. Para além de já estar acamado, acabo de ser informado pelo meu médico de que a ausência de qualquer alusão a Sr. Engenheiro teve como consequência directa um fenómeno raro que dá pelo nome de coma dermatológico),

Na hora da despedida, vou alargar a escala de análise e, pedia-lhe que procurasse perspectivar Portugal no seu todo.

Talvez seja (d)efeito de formação, mas continuo a achar que é na Geografia que se encontram as sínteses mais brilhantes daquilo que poderiamos apelidar como puzzle multifacetado do "terroir lusitano".

Vou invocar uma delas, no caso concreto do notabilíssimo Professor Amorim Girão, que na sua "Geografia de Portugal", datada de 1941 (repito, 1941) se refere à viticultura portuguesa nos seguintes termos:

"Nenhum produto agrícola traduz tão bem, na diversidade dos seus tipos, a natureza dos terrenos; e por tal forma que «torna inteligível o gôsto terra». Vinhos de terrenos graníticos e rochas antigas, como o de Amarante, vivos, acídulos, com «agulha», capazes de saltar aos olhos e mitigar a sêde; vinhos de xistos, onde a videira tem de ir procurar mais fundo a umidade, mais macios, alcoólicos e espirituosos; vinhos de terrenos calcáreos, doces, incorpados e estomacais; vinhos dos medos de areia do litoral, como o de Colares, pouco alcoólicos, frescos, com um sainete especial.

Nenhum produto assinala melhor a umidade o solo. Vinhos de encosta em terrenos secos, de pouco corpo e de muita alma, mais para aspirar que para deglutir, como quem realiza uma actividade espiritual, os quais parecem ter sido dados a algumas terras para as compensar das poucas e más águas que teem: é o que acontece no Alto Douro, cujo precioso néctar Raúl Brandão considera o produto da «dor da videira torcida ao sol, gritando maldições, porque não consegue naquele cascalho, por mais que penetre com as raízes, encontrar algum suco». Vinhos, pelo contrário, de várzea ou terrenos de aluvião, vinhos de muito corpo e de pouca alma, pastosos, capazes de matar mais a fome que a sêde, «cuma pão», no dizer do nosso povo: é o que sucede aos da Bairrada e de algumas regiões da Estremadura e do Ribatejo, onde as raízes da cepa bebem contentes e em bastança as seivas fortes desta terra abençoada.

Nenhum produto reflecte ainda talvez, com tanta precisão, as variedades regionais do clima. A qualidade dos nosso vinhos diverje consuante a temperatura média anual, a marcha dessa mesma temperatura, a abundância ou a escassez da chuva, a nebulosidade ou a insolação mais ou menos activa. Quem primeiro chamou ao Vinho do Pôrto «a luz do sol engarrafada» verteu num conceito lapidar a influência da alta temperatura e forte luminosidade da região duriense na qualidade do seu produto de maior renome.

Vamos ainda mais longe. Nenhum produto agrícola poderá marcar tão bem a multiplicidade dos nossos microclimas, e nisso consiste em grande parte a dificuldade de, sem lotação reduzir os vinhos nacionais a determinados tipos, tanto a sua qualidade depende do factor tempo e do factor espaço, quere dizer, do ano e do sítio em que se produz. Os nossos agricultores sabem muito bem como são diversos os seus vinhos conforme êles proveem desta ou daquela propriedade: a natureza do terreno, a umidade ou a secura do ar e do solo, a exposição ao sol, o abrigo do vento, teem nisso uma parte de primeira importância. Nas zonas de relêvo, onde a variedade é sempre maior e as variações sempre mais bruscas, torna-se bem fácil verificar êste facto...

É mais o ambiente geográfico do que as boas castas que fazem o bom vinho, embora estas, como é natural, lhe possam transmitir qualidades especiais. Determinadas condições de solo e determinadas condições de clima encontram-se em misteriosa conjunção para nos darem o segrêdo das grandes marcas."



Serve esta longa introdução para lhe perguntar:

1- Por razões tão diversas como o up-grade tecnológico, a massificação de procedimentos e os "receituários" enológicos, sinto cada vez maior dificuldade em identificar-me com este Portugal vitivinícola de Amorim Girão. Mais grave ainda, pressinto que esse progressivo afastamento pode ferir de morte qualquer tentativa de afirmação internacional dos nossos vinhos tranquilos.

Como se posiciona face a esta temática?

2- Os mais optimistas tentam reconfortar-me dizendo que há uma luz ao fundo do túnel. Argumentam comigo dizendo que o que "está a dar" são os sistemas de protecção integrada, a agricultura biológica, a viticultura biodinâmica... e o diabo a sete! Reforçam ainda a sua perspectiva com o número crescente de vozes que advogam uma vitivinicultura minimalista, recuperando procedimentos que estavam arreigados nos nossos antepassados. E no meio de tudo isto o lema "less is more" parece estar a ganhar adeptos a olhos vistos.

Será esta uma tendência meramente passageira ou, pode estar aqui a chave para que se recupere muita da diversidade e riqueza do nosso património vitivinícola? Será que algum dia voltarei a rever-me nas palavras de Amorim Girão? (gostaria muito que partilhasse connosco como perspectiva o futuro da nossa vitivinicultura)


Um grande abraço e... até já!

Pedro


A introdução foi brilhante. Obrigado Pedro por ter recuperado este texto do Amorim Girão que está mais do que nunca actualizado.

Quando o li, tive pena de não ter sido eu a escrevê-lo, de tal maneira reflecte aquilo que penso hoje em dia.

Mas não estou tão descrente como o Pedro do rumo que a nossa vitivinicultura tomará nos próximos anos. Existem sinais cada vez mais evidentes que algo está a mudar, e penso, como optimista que sou, na direcção certa.

Bem sei que as mudanças são sempre dificeis de serem adoptadas pela maioria, tal a inércia das massas consumidoras, mas qualquer alteração de paradigma é sempre assumida pelas elites e só depois poderá ser massificada com a ajuda preciosa dos media e dos lideres de opinião.
Mas a verdade é que cada vez mais sou confrontado por jornalistas, enófilos e outros lideres de opinião com o crescente interesse pela diferença, passado o periodo da massificação do gosto provocado por aquilo que citou “up-grade tecnológico, a massificação de procedimentos e os "receituários" enológicos”.

Este periodo porque passou e ainda passa a enologia nacional foi no meu entender extremamente útil para que a qualidade do vinho tivesse subido a nível geral! Neste momento já passámos o tempo em que “em terra de cegos quem tem um olho é rei!” pois existem inúmeros enólogos com grande capacidade práticamente por todo o lado, e que muito contribuiram para o crescimento exponencial da qualidade dos vinhos portugueses.

Só que agora é preciso parar para pensar, já que estamos todos ao mesmo “nível enológico”, e sabemos muito bem extrair das uvas o que elas têm de melhor!

E aqui o caminho que deve ser seguido, e já há muito sabido passa pela máxima “na uva é que está a diferença” como dizia acima o Amorim Girão, e andamos todos a dizer há muito, quando afirmamos que “sem ovos não se fazem omeletes”.

Por isso os próximos anos serão marcados pela importância dada à diferença, cabendo neste termo um vasto lote de conceitos, e só para citar os mais evidentes: a diferença dos terroir’s, a diferença das castas, a diferença dos enólogos, aqui também como interpretes desta mesma diferença e como introdutores de personalização no vinho, a diferença e valorização de tipos de vinhos, etc.

Temos que “voltar”ao terroir dando-lhe a importância que sempre teve, e tão bem resumido acima no texto de Amorim Girão. Para isso é essencial no futuro conhecermos cada vez melhor todas as características do solo e do clima de que dispomos nas nossas vinhas, praticando a microzonagem e a cobertura meteorológica das mesmas, de modo a podermos tomar decisões com conhecimento de causa, e não por palpite.

Temos que voltar às castas, promovendo a sua variabilidade genética, e aqui nunca é demais chamar a atenção para o vastissimo património de castas que possuimos em Portugal, cada vez mais reconhecido lá fora, e que pode estar em perigo se nada for feito em contrário, e esse algo pode ser, por exemplo, o projecto liderado pelo Professor Antero Martins, a PORVID, que tem como objectivo a prospecção, conservação e avaliação numa vinha criada para o efeito, de todo o património viticola do país, de modo a preservar a sua variabilidade genética e tornar assim possível a utilização dos clones que melhor se adaptem ao binómio solo /clima.

Temos que retornar a algumas castas posta fora de lado por imperativos da moda.

Tamém o enólogo terá que no futuro assegurar a partilha dessa diferença com o consumidor, fazendo vinhos onde interpreta essa diferença, e opondo-se à massificação.

Os jornalistas e os lideres de opinião também terão um papel muito importante neste processo, divulgando essa diferença, valorizando-a, discriminando-a, e não se limitando a serem arautos de modismos .
Para que no futuro não se diga frases do género: Para mim o vinho é tinto! E muito!

Obrigado Pedro Gomes e Paulina, espero ter respondido no essencial às questões que me puzeram. Espero que o Pedro já tenha recuperado do seu “coma dermatológico”, pois faz cá muita falta, e se é só por causa do tratamento por “engenheiro” não é motivo para zangas!

Mais uma vez parabéns pelo nível atingido pelo Forum em todos os temas que aborda

Um grande abraço e... até sempre!

Manuel Vieira
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Abílio Neto



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MensagemEnviada: Qua Jun 30, 2010 10:52 am    Assunto: Responder com Citação

Caros,

Que grande entrevista! Very Happy Para favoritos e é já.
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Abraços,

Abílio Neto
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Spice Girl



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MensagemEnviada: Qua Jun 30, 2010 11:48 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Manuel Vieira

Foi um prazer ler a sua entrevista. Muito, muito obrigada pela disponibilidade e por tudo o que nos ensinou. Este tipo de interacção, para além do que se aprende, faz com tudo passe a ter um significado diferente, mais personalizado, mais humano. E eu gosto muito disso.

Agora que está inscrito e lhe tomou o gosto, apareça por aqui de vez em quando para conversar. Nós estamos quase sempre por aqui e é bom dar dois dedos de conversa. Sobretudo quando ela é tão interessante. Very Happy

Um beijinho

Paulina
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Dom Jul 04, 2010 3:19 pm    Assunto: Responder com Citação

CaroEng.Manuel Vieira,

Vá lá saber-se porquê mas, estou a recuperar a olhos vistos. Na verdade, quem olhe para mim neste momento nunca diria que passei por uma situação tão complicada.

Embora esta fosse a altura das despedidas, não vou fazê-lo ainda. Antes, vou começar por aceitar o seu convite para provar a microvinificação de Tinto Cão que surgirá, eventualmente, nesta colheita de 2010. Terei o maior prazer...

E, simultaneamente (é o que se pode chamar uma grande coincidência), venho convida-lo para estar presente numa prova comentada que vou realizar já na próxima sexta-feira, dia 9 de Julho, e que constará de uma vertical de Quinta dos Carvalhais Touriga Nacional (colheitas de 1994, 1995, 1996, 1998 e 2000).

Teriamos muito gosto em poder contar com a sua presença.

Um grande abraço e... até já!

Pedro
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Pedro Gomes
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mavieira



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MensagemEnviada: Sex Jul 09, 2010 3:01 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
CaroEng.Manuel Vieira,

Vá lá saber-se porquê mas, estou a recuperar a olhos vistos. Na verdade, quem olhe para mim neste momento nunca diria que passei por uma situação tão complicada.

Embora esta fosse a altura das despedidas, não vou fazê-lo ainda. Antes, vou começar por aceitar o seu convite para provar a microvinificação de Tinto Cão que surgirá, eventualmente, nesta colheita de 2010. Terei o maior prazer...

E, simultaneamente (é o que se pode chamar uma grande coincidência), venho convida-lo para estar presente numa prova comentada que vou realizar já na próxima sexta-feira, dia 9 de Julho, e que constará de uma vertical de Quinta dos Carvalhais Touriga Nacional (colheitas de 1994, 1995, 1996, 1998 e 2000).

Teriamos muito gosto em poder contar com a sua presença.

Um grande abraço e... até já!

Pedro


Carto Pedro e Paulina:

Eu é que agradeço a oportunidade que me deram para poder exprimir aqui neste Fórum as minhas ideias sobre o vinho e o mundo do vinho.

É sempre um prazer transmitir a quem se interessa por estas coisas o entusiasmo que eu tenho por esta arte que é fazer vinho.

Ainda ontem uma amiga minha me telefonou à noite só para me dizer que estava a jantar e a beber pela primeira vez o Qta de Carvalhais Colheita Selecionada 2006, e que me queria agradecer do fundo do coração o facto de existir aquele vinho, que a estava a entusiasmar.

São estas coisas que nos fazem ter mais força para continuar a criar novos vinhos, e a tentar sempre fazer sempre melhor, e sem este e outros tipos de feed back's, como por exemplo, os obtidos neste site, nós não teriamos possibilidade de saber se estamos a fazer vinho só para nós ou também para os outros.

Quanto ao Tinto Cão já estou a preparar pelo menos uma micro vinificação, e já que este desafio surgiu aqui nesta entrevista, também vou aproveitar e fazer mais algumas microvinificações com outras castas pouco usuais no Dão. Vamos a ver o que vai sair!

Obrigado pelo convite para a prova dos Tourigas Nacionais dos Carvalhais, mas é-me impossível estar presente. De qualquer maneira espero que corra bem!

Um grende abraço e até sempre

Manuel Vieira
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Sex Out 08, 2010 2:41 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Engenheiro Manuel Vieira,

Lamento só agora responder-lhe, mas os últimos três meses foram infernais. Implementei um novo sistema de segurança no computador e as coisas têm sido calamitosas. Entre idas e vindas da "oficina", não consigo ter descanso. Vamos ver se é desta...

Ainda que a tarde e a más horas, não queria deixar de agradecer-lhe, em meu nome pessoal e em nome da Nova Crítica - Vinho & Gastronomia, a entrevista que nos concedeu.

Foi magnífico. E faço votos para que possamos voltar a repetir.

Aproveito igualmente a ocasião para lhe dar os parabéns pelo excelente trabalho que tem desenvolvido em prol dos vinhos portugueses. Muito obrigado!

Um grande abraço e... até já!

Pedro
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