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Entrevista com Manuel Vieira (Quinta dos Carvalhais/Sogrape)
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Registrado: Segunda-Feira, 22 de Janeiro de 2007
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MensagemEnviada: Dom Mai 23, 2010 3:50 pm    Assunto: Entrevista com Manuel Vieira (Quinta dos Carvalhais/Sogrape) Responder com Citação

O nosso entrevistado é Manuel António de Monte e Freitas Vieira, figura maior da nossa enologia e conhecido no mundo dos vinhos apenas por Manuel Vieira.

Nascido a 17 de Outubro de 1946 viria a licenciar-se em Engenharia Agronómica, pelo Instituto Superior de Agronomia (Universidade Técnica de Lisboa), tendo ainda a frequência do 2º ano do Curso de Engenharia de Máquinas, do Instituto Superior Técnico.

A sua ligação ao mundo do vinho surgiria cedo, ainda durante o período universitário, com o estágio final de curso efectuado no Instituto do Vinho do Porto e subordinado ao tema: "Contribuição para o estudo das características Fisico-Químicas dos Vinhos do Porto Brancos.

Do seu vasto curriculum constam ainda uma série infindável de cursos/seminários, com particular relevo para:

- Estágio no Instituto de Enologia de Bordéus subordinado ao tema: "Conservation, mise en bouteilles, degustation";

- Frequência do curso de provas ministrado pelo Professor Jean Boidron no Instituto do Vinho do Porto;

- Frequência das “Jornadas de Enologia do Vinho do Porto” organizadas pelo IVP;

- Frequência de vários estágios organizados pelo Instituto de Enologia de Bordéus, subordinados aos temas: "Elevage. Le bois et la Qualité des Vins, Degustation";

- Frequência do seminário promovido pela Air Liquide “Tecnologia na Vinificação – A Procura da Qualidade”;

- Frequência do Congresso organizado pela Universidade de Montpellier subordinado ao tema: “Aromes du Vin”;

- Frequência do Seminário promovido pelo Instituto Superior de Agronomia subordinado ao tema: “O Estágio de Vinhos em Barricas de Carvalho”;

- Frequência do Seminário promovido pelo Instituto Superior de Agronomia subordinado ao tema: “A Importância das Leveduras na Qualidade do Vinho”;

- Frequência do estágio organizado pelo Instituto de Enologia de Bordéus subordinado ao tema:”Origine et prévention des défauts organoleptiques”;

- Conferencista convidado pela Escola Superior de Biotecnologia para o seminário “Automação para a Indústria Agro –Alimentar”;

- Participação como conferencista convidado no 1º Congresso “O Dão em Debate”.



Profissionalmente o seu percurso e experiência são invejáveis, materializando uma carreira notável. Nessa longa "caminhada" destacam-se:

- Colaborador do Professor Manuel Vieira na assistência técnica à vinificação da Casa Agrícola de Rosado Fernandes, em Reguengos de Monsaraz;

- Responsável do Centro de Estudos Vitivinicolas do Douro, na Régua, pela reconversão e implantação de novas vinhas ao abrigo do Projecto Rural de Desenvolvimento Integrado de Trás-os-Montes em 1984/1985;

- Enólogo na Direcção de Enologia na Casa Ferreirinha - A.A.Ferreira,SA em Vila Nova de Gaia, desde 1985;

- Desde Setembro de 1988 acumulou as mesmas funções na Sogrape Vinícola do vale do Dão;

- Director Adjunto da Direção de Enologia da A. A. Ferreira e da Sogrape Vinícola do Vale do Dão, a partir de 1996;

- Director responsável pela Produção e Enologia da Sogrape Vinícola do Vale do Dão, desde 1997, actualmente integrada na Sogrape Vinhos, SA;

- Director de Enologia Dão/Verdes da Sogrape, assumindo a responsabilidade pelos vinhos Verdes e do Dão da empresa, desde 1999
.


Em suma, um percurso profissional ímpar, onde ainda há espaço para outras actividades e projectos, a saber:

- Colaborador na execução do projecto da Adega da Quinta dos Carvalhais;

- Monitor de um curso de Enologia realizado entre Junho e Dezembro no âmbito do FUNDO SOCIAL EUROPEU de formação interna na Empresa;

- Membro da Junta Consultiva do Instituto do Vinho do Porto, entre Junho de 1996 e Maio de 2000;

- Membro da Junta Consultiva dos Vinhos Verdes;

- Membro permanente do painel de provas da revista “Reserva 1500";

- Membro do painel de provas do site da Internet “Companhia dos Vinhos”;

- Membro do painel de provas do “Clube de Vinhos Premier”;

- Membro do painel de provas do “Clube de Vinhos Enoteca”;

- Enólogo fundador do Clube dos Enólogos “Fórum Prior do Crato”;

- Membro do Grupo Técnico de Prova nomeado pela Comissão Vitivinícola do Dão CRVD para análise dos vinhos candidatos à designação “Dão Nobre”;

- Júri convidado nos Concursos de Vinhos “Cidade do Porto”;

- Presidente de Júri no Concurso Nacional de Vinhos Engarrafados em 2007, 2008, 2009 e 2010;

- Júri do Concurso dos Vinhos Verdes Engarrafados;

- Membro dos corpos gerentes da VINIDÃO, Associação dos produtores engarrafadores da região do Dão,

- Membro da Confraria do Vinho do Porto;

- Membro da Confraria ds Vinhos do Dão;

- “Enólogo do Ano 1998” nomeado pela Revista de Vinhos;

- “Enólogo do Ano 2000”, “Roteiro dos Vinhos Portugueses 2000” de José A. Salvador;

- “Melhor Enólogo” Essência do Vinho 2005 Porto;

- “Enólogo do Ano 2008” nomeado por Aníbal Coutinho no “Notícias de Sábado” do Jornal de Notícias/Diário de Notícias;


Seria difícil termos como nosso convidado um enólogo com uma carreira tão vasta e tão rica como a de Manuel Vieira.

É já a partir de amanhã. Não deixe de participar...
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Pedro Gomes
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Dom Mai 23, 2010 11:57 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Engenheiro Manuel Vieira,

Queria começar por agradecer-lhe, em meu nome pessoal e em nome da Nova Crítica - Vinho & Gastronomia, a sua pronta disponibilidade em conceder-nos esta entrevista.

É um privilégio para todos nós poder conhecer, em discurso directo, a sua forma de viver e perceber o vinho. Muito obrigado...

Nestas coisas de entrevistas gosto sempre de começar... pelo começo! E, no seu caso concreto isso implica uma referência obrigatória ao senhor seu pai, o ilustre Professor Manuel Vieira, homem que ficará para sempre ligado à enologia portuguesa, e muito concretamente a Bucelas, a Carcavelos (Quinta do Barão), à Casa Agrícola de Rosado Fernandes e, por sugestão do Professor Cincinatto da Costa, à José Maria da Fonseca.

Serve esta introdução para lhe perguntar:

1- Que impacto teve o seu pai na sua opção profissional?

2- Se é que tal lhe é possível, como traçaria o perfil do seu pai enquanto enólogo e, simultaneamente, como profundo conhecedor da vitivinicultura portuguesa?

3- Em termos profissionais, quais foram os grandes ensinamentos que "bebeu" de seu pai?

4- O seu pai é um dos grandes obreiros dos famosos garrafeira "codificados" da José Maria da Fonseca, nascidos em 1945. Podia invocar outros mas, por razões óbvias, vou reter-me nos Garrafeira EV, uma sigla alusiva, precisamente, a (E)ngenheiro (V)ieira. Nunca tive o privilégio de beber as colheitas de 1957 e 1967; em contrapartida, tive a felicidade de conhecer as edições de 1968, 1969, 1970, 1972 e 1976. Bem sei que os tempos são outros, mas não escondo uma profunda saudade por esse tipo de vinhos, marcados por uma notória vinosidade, uma característica que nunca ninguém consegue dizer ao certo o que é, mas que o brilhante Brian Crozer confidenciou um dia a Andrew Jefford associar "à ausência de sabor a fruta". Pode parecer-lhe estranho, mas gosto desse tipo de vinhos. E, acima de tudo, sinto uma enorme saudade desse perfil, que por sinal seu pai tão bem conseguia imprimir nos seus garrafeira EV.

Concorda comigo? Ou sou eu que não passo de um saudosista bacoco?


Um grande abraço e... até já!

Pedro
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Seg Mai 24, 2010 11:51 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Manuel Vieira (confesso que estou a tentar fazer um esforço para libertar-me do Sr. Engenheiro),

Vamos para mais uma sequência de perguntas e, desta feita, para falar um pouco da Sogrape, uma empresa emblemática no panorama vitivinícola nacional, e à qual se encontra ligado por um vínculo muito duradouro.

Desde a sua fundação por Fernando van Zeller Guedes, corria o ano de 1942, até à recente opção estratégica pela sua internacionalização, muito haverá para contar sobre a história da Sogrape.

1- Ainda que de forma sucinta, gostaria que identificasse meia dúzia de decisões/etapas que se mostraram cruciais na afirmação/consolidação do grupo Sogrape.

2- Muito recentemente respondi a um inquérito de uma agência de comunicação em que uma das questões era algo do género: "Que imagem associa ao nome Sogrape?". Não hesitei na resposta e avancei com uma singela expressão: "consistência". E acrescentei, e nos casos dos vinhos do Dão e do Douro "harmonia e equilíbrio".

Bem sei que é parte interessada mas, se o inquérito lhe fosse dirigido que resposta daria?

3- Como antevê o futuro da Sogrape lá para 2100?


Um grande abraço e... até já!

Pedro
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mavieira



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MensagemEnviada: Ter Mai 25, 2010 12:46 am    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Engenheiro Manuel Vieira,

Queria começar por agradecer-lhe, em meu nome pessoal e em nome da Nova Crítica - Vinho & Gastronomia, a sua pronta disponibilidade em conceder-nos esta entrevista.

É um privilégio para todos nós poder conhecer, em discurso directo, a sua forma de viver e perceber o vinho. Muito obrigado...

Eu é que agradeço a oportunidade que me deu de poder trocar opiniões com os membros deste Forum, que me habituei a seguir com regularidade, e que gostaria de felicitar pelo nível com que discutem os mais variados temas. É um privilégio estar aqui.

Citação:
Nestas coisas de entrevistas gosto sempre de começar... pelo começo! E, no seu caso concreto isso implica uma referência obrigatória ao senhor seu pai, o ilustre Professor Manuel Vieira, homem que ficará para sempre ligado à enologia portuguesa, e muito concretamente a Bucelas, a Carcavelos (Quinta do Barão), à Casa Agrícola de Rosado Fernandes e, por sugestão do Professor Cincinatto da Costa, à José Maria da Fonseca.

Serve esta introdução para lhe perguntar:

[b]1- Que impacto teve o seu pai na sua opção profissional?

Numa primeira fase pode-se dizer que teve uma influência negativa, pois desde muito novo que me lembro de o ouvir dizer que a profissão de enólogo era muito mal paga! E foi por isso que me decidi a ir para o Instituto Superior Técnico tentar tirar o curso de engenheiro de máquinas, para no futuro ser inventor (acabei por ser inventor de vinhos)

Foi só em Angola, onde estava a prestar serviço militar, que numa longa noite africana, e de copo de whisky na mão (não havia vinho), me deixei seduzir pela profissão do meu pai.

Na verdade, embora não parecendo, ele bem no fundo gostou da minha decisão, pois ao longo da sua carreira sempre me demonstrou um enorme amor e entusiasmo por aquilo que fazia ao ponto de me conquistar também para a arte.



Citação:
2- Se é que tal lhe é possível, como traçaria o perfil do seu pai enquanto enólogo e, simultaneamente, como profundo conhecedor da vitivinicultura portuguesa?

O meu pai era essencialmente professor de Enologia! Adorava ensinar e transmitir aos alunos todo o seu entusiasmo pelas coisas do vinho.

Nunca me esquecerei daquilo que me contou o meu querido amigo José Maria Soares Franco sobre a sua carreira académica no Instituto Superior de Agronomia, onde entrou convencido que se ia dedicar às batatas ou às vacas, mas que no fim de assistir a uma aula do meu pai ficou definitivamente conquistado pela Enologia, sendo hoje o grande enólogo que todos reconhecem.

Mas também era um enólogo de eleição, com um "grande nariz" e um gosto absolutamente estruturado para definir aquilo que ele considerava um bom vinho, numa altura em que imperava falsos tipicismos, e o padrão de qualidade não estava ainda bem definido

E por fim era amigo dos seus amigos, e foi por ter essa característica que formou tantos e tantos enólogos que hoje estão aí a dar cartas na enologia nacional


Citação:
3- Em termos profissionais, quais foram os grandes ensinamentos que "bebeu" de seu pai?

Em primeiro lugar a honestidade para com o consumidor, de modo a agirmos sempre de maneira a sermos verdadeiros naquilo que fazemos.

Em segundo lugar a modéstia de sabermos que há sempre alguma coisa a aprender com os outros.

Em terceiro lugar o sentimento de partilha daquilo que sabemos com os outros.

E depois contribuio para me formar como enólogo, ensinando-me a provar sempre que ia com ele para as adegas onde dava assistência, descrevendo com clareza e entusiasmo o vinho e explicando porque é que a adição de um determinado vinho no lote o tinha melhorado.


Citação:
4- O seu pai é um dos grandes obreiros dos famosos garrafeira "codificados" da José Maria da Fonseca, nascidos em 1945. Podia invocar outros mas, por razões óbvias, vou reter-me nos Garrafeira EV, uma sigla alusiva, precisamente, a (E)ngenheiro (V)ieira. Nunca tive o privilégio de beber as colheitas de 1957 e 1967; em contrapartida, tive a felicidade de conhecer as edições de 1968, 1969, 1970, 1972 e 1976. Bem sei que os tempos são outros, mas não escondo uma profunda saudade por esse tipo de vinhos, marcados por uma notória vinosidade, uma característica que nunca ninguém consegue dizer ao certo o que é, mas que o brilhante Brian Crozer confidenciou um dia a Andrew Jefford associar "à ausência de sabor a fruta". Pode parecer-lhe estranho, mas gosto desse tipo de vinhos. E, acima de tudo, sinto uma enorme saudade desse perfil, que por sinal seu pai tão bem conseguia imprimir nos seus garrafeira EV.

Concorda comigo? Ou sou eu que não passo de um saudosista bacoco?

Concordo totalmente! E é espantoso o que acaba de dizer, pois sempre achei que o meu pai tinha um estilo absolutamente definido, com vinhos onde privilegiava a componente terciária do vinho em detrimento da componente primária. Era mais pelo vinho e menos pela fruta, como muito bem está presente na frase do Andrew Jefford , "ausência de sabor a fruta", e que eu não conhecia.

Na verdade isto faz-me lembrar uma frase que repetia amiúde, e que era " vinho tinto tinha que ter uma acidez volátil algo elevada para exaltar a complexidade e realçar os aromas terciários".
Faz todo o sentido à luz do que disse, e do que era o seu estilo, mas é um bocado forte para os padrões actuais, convenhamos
!

Citação:
Um grande abraço e... até já!

Pedro
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Ter Mai 25, 2010 6:30 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Manuel Vieira (não está a ser nada fácil deixar de fora o Sr. Engenheiro),

Por razões óbvias, o seu nome é imediatamente conotado com o Dão. Em todo o caso, e sem nenhuma justificação aparente, acabamos por esquecer que, enquanto enólogo, é o principal responsável pelos Vinhos Verdes da Sogrape. O mesmo é dizer que é dos enólogos mais habilitados (e um interlocutor privilegiado) para nos falar dessa grande casta branca que dá pelo nome de Alvarinho (o Encruzado vai ficar para mais tarde).

Então, aí vai...

1- O Alvarinho é de facto uma grande casta ou sou eu que tenho uma tendência inata para os exageros? Quais são, em seu entender, os grandes atributos da casta?

2- Nos «mentideros» diz-se que a casta está a viajar a uma velocidade estonteante. Mas, por aquilo que me tem sido dado perceber (entenda-se provar), estou convencido de que é no noroeste peninsular (o seu berço) que a casta encontrou o seu terroir de excelência. E, tudo o resto acabam por ser "aproximações", sem a grandiosidade do original. No fundo, algo em tudo semelhante ao que acontece com o Chardonnay ou o Riesling.

Como se posiciona face a esta visão?

3- E (era inevitável fazer-lhe esta pergunta), é adepto de que a casta seja vinificada em estreme ou, pelo contrário, acredita que as suas virtudes são realçadas uma vez "moldada" em versão blend, com recurso às melhores aduelas da "casta" carvalho (peço-lhe que me perdoe o sarcasmo)?

4 - Por razões óbvias, presumo que seja um espectador atento do trabalho que vai sendo desenvolvido por "nuestros hermanos". Virtudes e deméritos da casta Alvarinho dum e doutro lado do paralelo 42ºN?

5- Em traços gerais, como caracteriza o seu Morgadio da Torre. E que iguaria sugere para potenciar as virtudes desse Alvarinho?


Um grande abraço e... até já!

Pedro
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goncas



Registrado: Quinta-Feira, 16 de Junho de 2005
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Localização: Carcavelos

MensagemEnviada: Ter Mai 25, 2010 10:11 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Manuel Viera,

Antes de mais os meus agradecimentos pela sua disponibilidade em partilhar o seu conhecimento aqui. Aproveitava a oportunidade para lhe perguntar sobre:

1. Outra a Baga foi uma casta disseminada no Dão. Actualmente já ouvi dizer que ainda existe (e muito) em “vinhas velhas”, ou. Vê algum potencial de utilização desta casta no Dão? Poderia/deveria ser a “ 5ª casta tinta obrigatória”? (depois da TN, TR, Jaen e Alf).

2. Como descreveria o contributo para o loteamento de vinho, que cada uma das castas tintas (mais) (Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro, Jaen) recomendadas no Dão?

3. A última colheita do Q. dos Carvalhais Reserva foi a de 2002? O que é que se passou para não ser editada mais nenhuma colheita desta referência?

4. Há algum aproveitamento do trabalho experimental do CEVD (Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão) ? Por exemplo, os vinhos brancos do CEVD atingem uma longevidade e refinamento ao longo dos anos, ímpar em Portugal. Houve algum aproveitamento destes “ensaios”?

Obrigado pelo Q. Carvalhais Colheita Seleccionada 2004. É um vinho que tem evoluído muito bem, e que julgo poder personificar um estilo de vinho branco do Dão.
_________________
Saudações enófilas,

Nuno Gonçalves
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Chapim



Registrado: Sexta-Feira, 22 de Setembro de 2006
Mensagens: 622
Localização: Lisboa/Porto

MensagemEnviada: Qua Mai 26, 2010 7:36 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Manuel Vieira,
obrigado pela sua disponibilidade. Deixo só 2 ou 3 questões:

1 - O Quinta de Carvalhais Colheita Seleccionada 2004 Branco é para mim dos grandes brancos portugueses. Continua em muito boa forma.
Qual acha que será a sua longevidade?

2 - Muito sinceramente acho que a versão 2005 não conseguiu chegar ao mesmo nível do 2004. Quais as diferenças? Clima?

3 - Considera mais fácil fazer um vinho como o referido anteriormente ou fazer um Duque de Viseu branco que deve envolver centenas de milhar de garrafas?

4 - A Sogrape tem uma política de retardar algum tempo a entrada de alguns vinhos no mercado (com o caso extremo do Barca Velha). Pessoalmente considero muito positivo essa política, mas imagino que não deva ser fácil devido aos custos associados. Essa diferença de custos entre dar mais um ano de estágio em garrafa ou lançar logo no mercado é assim tão assinalável?

5 - A Quinta dos Carvalhais lança por vezes alguns varietais que não aparecem muito no mercado (o último que provei foi o tinta roriz 2003). Considera-os experiências ou há já algum varietal (não contando o Encruzado) que considere que tem pernas para andar?

Obrigado mais uma vez pela sua disponibilidade.
Boas provas!
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Rui Figueiredo

pelo vinho!
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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MensagemEnviada: Qua Mai 26, 2010 8:16 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Manuel Vieira (ainda não me consegui habituar à ideia de deixar de lado o Sr. Engenheiro),

Vamos deixar o Minho e "assentar arraiais" numa região que lhe é particularmente querida: o Dão. Não, ainda não é desta que vamos falar da Quinta de Carvalhais. Por enquanto vamos olhar para a região no seu todo.

E, para começar, nada melhor do que ir buscar as sábias palavras de José Salvador que em 1989, na sua obra "O Livro dos Vinhos" fazia uma introdução à região nos seguintes termos:

"Os verdadeiros tintos do Dão são dos melhores e mais requintados que nascem no nosso País. A crise da região e a degradação dos seus vinhedos põem em risco a sua existência. Mas um Dão bem construído é uma jóia vinícola inimitável do nosso património."

E, em função do exposto, pergunto-lhe:

1- Passadas duas décadas, confirmam-se os receios de José Salvador ou, felizmente para todos nós, a região conseguiu "dar a volta por cima" e afirmar-se como berço de grandes tintos? E, se fôr esse o caso, quem foram/são os grandes obreiros dessa reestruturação?

2- A terminologia/adjectivação que se emprega na crítica de vinhos nem sempre é de "leitura" fácil. Mas, pessoalmente, considero que José Salvador foi particularmente feliz ao recorrer à expressão requintado. Pena que tenha pecado por defeito: «... dos mais requintados»? Nã...; para mim caía o «d» e ficávamos apenas com "... os mais requintados".

Concorda comigo? Então (esta para si é de caras) só lhe peço que partilhe connosco tudo aquilo que confere requinte a um tinto do Dão.

3- Sou duma geração privilegiada no que ao Dão diz respeito porque pude assistir, em tempo real, a um fervilhar vitivinícola que marcou a região na primeira metade dos anos 90 do século passado. No entanto, na última década tenho assistido ao aparecimento de alguns tintos mais "puxados" (na cor, no álcool, na extracção), algo que em meu entender desvirtua a identidade do Dão (e fere o tal requinte que é tão raro encontrar).

Estou a ver bem as coisas ou os meus receios são infundados?

4- É recorrente ouvir dizer que o trajecto no mundo do vinho se faz começando em Bordéus embora, mais tarde ou mais cedo, acabemos todos por ir parar à Borgonha. Confesso que não tenho uma opinião formada sobre essa matéria mas, a ser verdade, e uma vez transposta para a realidade portuguesa, não tenho a mais pequena dúvida que começamos todos no Alentejo ou no Douro e, por mais sinuoso que seja o trajecto, todos nós acabaremos os nossos dias... no Dão!

Já tinha perspectivado as coisas nestes termos? E como reage perante uma visão tão determinista?


Um grande abraço e... até já!

Pedro
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mavieira



Registrado: Sexta-Feira, 21 de Mai de 2010
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MensagemEnviada: Qua Mai 26, 2010 10:21 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Manuel Vieira (confesso que estou a tentar fazer um esforço para libertar-me do Sr. Engenheiro),

Vamos para mais uma sequência de perguntas e, desta feita, para falar um pouco da Sogrape, uma empresa emblemática no panorama vitivinícola nacional, e à qual se encontra ligado por um vínculo muito duradouro.

Desde a sua fundação por Fernando van Zeller Guedes, corria o ano de 1942, até à recente opção estratégica pela sua internacionalização, muito haverá para contar sobre a história da Sogrape.

1- Ainda que de forma sucinta, gostaria que identificasse meia dúzia de decisões/etapas que se mostraram cruciais na afirmação/consolidação do grupo Sogrape.

Vou tentar ser sucinto, embora seja difícil resumir a história de uma empresa como a Sogrape que foi criada em 1942 e sempre desde a primeira hora primou pelo dinamismo de acção.
Pode-se dizer que após o sucesso à escala mundial do Mateus Rosé a empresa sentiu necessidade de garantir da melhor forma o fornecimento da matéria prima e boas condições técnicas para a vinificação do mesmo, tendo em 1963 se instalado em Vila Real com uma adega, seguido da Adega de Mogofores na Anadia em 1975 onde actualmente se faz o grosso da vinificação do Mateus rosé.
Entendendo que não se deveria limitar à comercialização de uma só marca, desde muito cedo considerou estratégico estar presente e comercializar vinhos das principais regiões demarcadas do pais, tendo logo em 1957 investido na Região Demarcada do Dão, criando marcas de reconhecido mérito como o Grão Vasco, Dão “Pipas”, e mais tarde com a construção da adega dos Carvalhais em 1990, o Duque de Viseu e o Quinta dos Carvalhais.
Em 1982 comprou a Quinta de Azevedo, na região dos Verdes, onde instalou uma vinha e uma adega, origem da marca Quinta de Azevedo
Reforçou a sua presença no Douro após Vila Real, ao entrar no sector do vinho do Porto em 1987 com a aquisição da A.A. Ferreira (Casa Ferreira), passando a partir daí a ter no seu porfolio uma marca de vinho do Porto, e uma gama de vinhos DOC Douro de grande prestígio, como o Barca Velha, Reserva Especial, etc. Pode-se dizer que a partir daí passou a deter simultâneamente a marca portuguesa de maior prestígio mundial, o Mateus, e a marca com maior prestígio em Portugal, o Barca Velha.
Em 1996 reforçou a sua posição no sector do vinho do Porto com a aquisição da Forrester & Ca. SA (Vinho do Porto, Marca OFFLEY)
Em 1997 adquiriu a Herdade do Peso no Alentejo, completando um ciclo nesta região que começou em 1991 com a criação da marca Vinha do Monte
Em 1997, iniciando uma visão estratégica internacional para a Sogrape, adquiriu em Mendonza, Argentina, a Finca Flichman, tendo a partir daí possibilidade de comercializar vinhos com as mais conhecidas castas internacionais como Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Syrah, Merlot, Malbec, etc), já que é política da Sogrape em Portugal utilizar sómente castas autóctones.
Em 2001 construiu na Quinta da Leda, no Douro Superior, a adega da Leda onde passaram a ser vinificados vinhos dessa quinta, entre os quais o mítico Barca Velha.
Em 2002 adquiriu a marca Sandeman (vinhos do Porto, Jerez e Brandy) com a qual consolida quer a sua presença no sector do vinho do Porto quer a sua estratégia internacional (Espanha).
Em 2007 adquiriu a Framingham, na Nova Zelândia, reforçando a sua posição a nível internacional. Com este passo estratégico a Sogrape alarga a sua oferta de vinhos do Novo Mundo, completando o portfólio, entre outros, com os conhecidos vinhos brancos da casta Sauvignon Blanc.
E finalmente, e por agora, aquisição em 2008 da Viña Los Boldos, no Chile, que vem confirmar a penetração da Sogrape nos países de maior êxito no cenário vitivinícola internacional.


Citação:
2- Muito recentemente respondi a um inquérito de uma agência de comunicação em que uma das questões era algo do género: "Que imagem associa ao nome Sogrape?". Não hesitei na resposta e avancei com uma singela expressão: "consistência". E acrescentei, e nos casos dos vinhos do Dão e do Douro "harmonia e equilíbrio".

Não podia ter respondido melhor! A consistência é uma qualidade fundamental para que a credibilidade seja atingida. Acredita que se não mantivessemos a consistência por exemplo no Mateus, teriamos mantido o seu sucesso ao longo de mais de 50 anos?

E depois acrescentou duas palavras que me são especialmente caras, a “harmonia e o o equilibrio”, são dois atributos que moldam a minha maneira de ver o vinho, e a que tento ser fiel em tudo o que faço.
São também atributos que me foram transmitidos pelas três pessoas que mais me influenciaram a nível de prova, o meu pai, Fernando Nicolau de Almeida e José Maria Soares Franco, com quem eu tive o privilégio de aprender.


Citação:
Bem sei que é parte interessada mas, se o inquérito lhe fosse dirigido que resposta daria?

Acrescentaria concerteza o respeito pelo consumidor e pelos parceiros do negócio, a paixão e entusiasmo com que estão no mundo do vinho, e a constante preocupação pela melhoria em todos os sectores onde actuam.


Citação:
3- Como antevê o futuro da Sogrape lá para 2100?

Em 2100! Daqui a 90 anos! É muita futurologia! Mas de qualquer maneira não fujo à pergunta!
Em 2100 Portugal foi finalmente reconhecido pela excelência dos seus vinhos e a originalidade das suas inúmeras castas, que entretanto foram cuidadosamente protegidas e assegurada na sua variabilidade genética.
A Sogrape em 2100 continua como em 2010 a privilegiar as castas nacionais, e depois de ter estudado cuidadosamente os terroir’s de que dispõe na altura, introduziu novas castas, do vasto património viticola de que o país dispõe, de modo a adaptar-se da melhor maneira ao terreno e às condicionantes do aquecimento global, entretanto minimizado pelas acções efectuadas com êxito a nivel mundial para combater o efeito estufa.
Em 2100 dá-se enorme valor à agricultura sustentada, à cultura biológica e ao balanço do carbono, e a fileira vitivinicola, e a Sogrape em particular, soube-se adaptar às exigências, e põe ao dispor dos consumidores de todo o mundo vinhos com forte personalidade que são apreciados pela seu nível de excelência e de originalidade.
O Mateus, nas suas diversas declinações rosés, tornou-se uma marca global, e até na China já há um Mateus com uma casta local!
E talvez o meu trineto seja enólogo na Quinta dos Carvalhais, onde a garrafa de vinho se vende ao preço do Château Petrus!!
Um grande abraço
Manuel Vieira

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Um grande abraço e... até já!

Pedro


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mavieira



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MensagemEnviada: Qua Mai 26, 2010 10:27 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Manuel Vieira (não está a ser nada fácil deixar de fora o Sr. Engenheiro),

Por razões óbvias, o seu nome é imediatamente conotado com o Dão. Em todo o caso, e sem nenhuma justificação aparente, acabamos por esquecer que, enquanto enólogo, é o principal responsável pelos Vinhos Verdes da Sogrape. O mesmo é dizer que é dos enólogos mais habilitados (e um interlocutor privilegiado) para nos falar dessa grande casta branca que dá pelo nome de Alvarinho (o Encruzado vai ficar para mais tarde).

Então, aí vai...

1- O Alvarinho é de facto uma grande casta ou sou eu que tenho uma tendência inata para os exageros? Quais são, em seu entender, os grandes atributos da casta?

Não é exagero seu! É mesmo uma grande casta!
E é uma grande casta, na minha opinião, porque entre outros atributos, tem um aroma definido e personalizado, (quando não se entra em fermentações que privilegiem os aromas redutores), tem um volume e presença na boca absolutamente extraordinários, e uma enorme harmonia e elegância.
Para além disto tudo, tem uma capacidade de evolução na garrafa notável. Pessoamente gosto mais dos alvarinhos após 1 ano na garrafa do que dos acabadinhos de engarrafar.
É com enorme emoção ainda hoje em dia que me lembro de um alvarinho do Palácio da Brejoeira que bebi em 1982 quando estagiava no Instituto do Vinho do Porto, e que na altura devia ter alguns anos, e que pode ter sido o melhor vinho que bebi na minha vida (nestas coisas do vinho a ocasião faz o ladrão, naquele sitio e naquela altura, aquele vinho para mim foi o melhor que bebi)


Citação:
2- Nos «mentideros» diz-se que a casta está a viajar a uma velocidade estonteante. Mas, por aquilo que me tem sido dado perceber (entenda-se provar), estou convencido de que é no noroeste peninsular (o seu berço) que a casta encontrou o seu terroir de excelência. E, tudo o resto acabam por ser "aproximações", sem a grandiosidade do original. No fundo, algo em tudo semelhante ao que acontece com o Chardonnay ou o Riesling.

Como se posiciona face a esta visão?

Eu sou um adepto fervoroso do conceito de “terroir”, e como tal acredito piamente nas virtudes que lhe estão associadas na definição de características próprias e únicas.
É assim no Dão, no Douro ou no Alentejo, e será assim também para os terroir’s donde o alvarinho é originário.
E ainda bem que assim é. Se não fosse determinante o terroir, os vinhos teriam tendência a se aproximarem cada vez mais uns dos outros, e perder-se-ia toda a riqueza e variedade que lhe são inerentes, e passaria a produto standartizado.
Assim naturalmente que certas castas terão tendências para se exprimirem de maneira mais nobre e mais ricas em determinados terroir’s, podendo contudo ser “exportadas para outras regiões, dando aí origem a vinhos com características da casta mas não do seu terroir de origem.
Cabe a cada um definir se gosta ou não!


Citação:
3- E (era inevitável fazer-lhe esta pergunta), é adepto de que a casta seja vinificada em estreme ou, pelo contrário, acredita que as suas virtudes são realçadas uma vez "moldada" em versão blend, com recurso às melhores aduelas da "casta" carvalho (peço-lhe que me perdoe o sarcasmo)?

Pessoalmente acho que a casta alvarinho é tão rica, que não ganha grande coisa em ser vinificada em barricas de carvalho ou com carvalho. Precisamente pela tal personalidade aromática que falei acima, e pelo volume e consistência que tem na boca, penso que não precisa da ajuda do carvalho para se exprimir.
Pelo contrário, a casta encruzado no Dão tendo um aroma muito discreto e pouco afirmativo ganha bastante em ser vinificado com a técnica borgonhesa em barricas de carvalho novo, pois neste caso são realçadas as melhores característas da casta, a mineralidade, o volume e a acidez.



Citação:
4 - Por razões óbvias, presumo que seja um espectador atento do trabalho que vai sendo desenvolvido por "nuestros hermanos". Virtudes e deméritos da casta Alvarinho dum e doutro lado do paralelo 42ºN?


Por acaso aqui uns tempos tive oportunidade de estar algumas vezes com uns amigos galegos de Cambados, e fiquei supreendido com o entusiasmo com que bebiam a toda a hora vinho, que neste caso, era como não podia deixar de ser, alvarinho. O culto pelo seu vinho lá é o que nós costumamos aqui chamar “de à grande e à espanhola”, isto é, em quantidades substancias, sempre a acompanhar óptimos tapas, e com o nível sonoro das conversas ensurdecedor e a ritmo impressionante. Serve isto para dizer que por lá o alvarinho é um amigo sempre presente, fazendo parte do dia a dia, nem sempre, confesso, de grande estilo, mas sempre com a sua personalidade.
É evidente que este vinho do dia a dia não representa as grandes marcas da região, que também as há, e realmente nalguns casos, muito bons.
Nunca fiz uma prova conjunta de alvarinhos portugueses e espanhóis, mas não me custa admitir que os há bons de ambos os lados


Citação:

5- Em traços gerais, como caracteriza o seu Morgadio da Torre. E que iguaria sugere para potenciar as virtudes desse Alvarinho?


O Morgadio da Torre pretende ser um alvarinho da linha clássica, isto é, sem privilegiar os aromas agora muito na moda, de frutos tropicais, mas antes apostando nos seus aromas primários tão característicos, e que eu sugiro sempre que seja bebido com algum tempo de estágio em garrafa de modo a adquirir uma componente aromática mais completa e menos unidirecional.
Penso que acompanha muito bem por exemplo um bom peixe assado no forno, para com a sua acidez e contrabalançar a gordura do azeite, e com a sua finura realçar o sabor delicado do peixe.

Um abraço
Manuel Vieira

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Um grande abraço e... até já!

Pedro
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mavieira



Registrado: Sexta-Feira, 21 de Mai de 2010
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MensagemEnviada: Qua Mai 26, 2010 10:41 pm    Assunto: Responder com Citação

goncas escreveu:
Caro Manuel Viera,

Antes de mais os meus agradecimentos pela sua disponibilidade em partilhar o seu conhecimento aqui. Aproveitava a oportunidade para lhe perguntar sobre:

Obrigado pela sua amabilidade em fazer perguntas, e pode crer que terei todo o prazer em responder desde que esteja dentro das minhas limitações

Citação:
1. Outra a Baga foi uma casta disseminada no Dão. Actualmente já ouvi dizer que ainda existe (e muito) em “vinhas velhas”, ou. Vê algum potencial de utilização desta casta no Dão? Poderia/deveria ser a “ 5ª casta tinta obrigatória”? (depois da TN, TR, Jaen e Alf).

Quando cheguei ao Dão em 1990 a Baga era uma das castas mais utilizadas nos encepamentos do Dão, a par do Jaen. Mas nunca foi considerada casta recomendada para o Dão.
Aliás penso que no Dão, antes da filoxera, a casta mais plantada era a Touriga Nacional, pelo menos segundo o que em 1867 escreveu António Augusto de Aguiar ao afirmar que “o vinho da Beira era em geral de Tourigo quase estreme”, ou Cincinato da Costa em 1900 ao afirmar que o encepamento do Dão era de 9/10 constituido por Tourigo e quase exclusivo desta região. E foi só depois de se ter descoberto a solução para debelar o problema da filoxera com a utilização de porta enxertos americanos imunes ao insecto que ao replantar as vinhas que tinham morrido já com a utilização de porta enxertos, o mais utilizado na altura foi um porta enxertos que não e adaptou bem à Touriga Nacional, induzindo fraca produção. O resultado é que ao logo do tempo os viticultores foram optando por castas mais produtivas, como por exemplo a baga, dado a forma como a partir de determinada altura as cooperativas pagavam a uva, ao grau / Kg.
Lembro-me de receber muita baga na Adega de Carvalhais no início da sua actividade, quantidade que foi diminuindo gradualmente por se ter procedido entretanto à reconversão das vinhas e plantação de novos vinhedos exclusivamente com castas recomendadas. Em 2007 passamos a receber em Carvalhais oriundos dos viticultores que conosco fizeram um contrato de vendas de uvas ( neste momento 437) apenas castas recomendadas.
A baga que recebia geralmente não estava nas suas melhores condições de maturação, e essa era a principal dificuldade que a baga tinha, por ser uma casta de ciclo longo, na região do Dão, o que não quer dizer que em determinados terroir’s do Dão não se possa adaptar bem.
O meu amigo Álvalo de Castro é um dos defensores da baga no Dão, e pelo que eu já provei feito por ele a casta adapta-se bem nas particulares condições da vinha onde ele a tem.
Pode ser que agora, com o aquecimento global, que tem influenciado nos últimos anos a região do Dão, a casta baga passe a ser uma mais valia, a tal 5ª casta tinta obrigatória que propõe.


Citação:
2. Como descreveria o contributo para o loteamento de vinho, que cada uma das castas tintas (mais) (Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro, Jaen) recomendadas no Dão?


A Touriga Nacional para mim deve ser a base do lote, com a sua cor, o seu aroma e os seus taninos redondos e gordos.
Gosto sempre de apoiar a Touriga com a Roriz, pela sua estrutura tânica, que representa como que o esqueleto do vinho em contraste com a carne representada pela Touriga. A sua austeridade aromática também funciona muito bem para dominar um certo pendor exuberante do aroma da Touriga.
O Alfrocheiro, casta que é difícil, mas de que gosto muito, funciona no lote como os músculos, dada a vivacidade que comunica ao lote com a sua acidez tão alegre. Também a sua elegância e capacidade de evolução na garrafa contribuem para o lote.
O Jaen, casta que nem sempre se dá bem no terroir de Carvalhais, quando se dá bem contribui com a sua mineralidade, para domar os impetos exuberantes da Touriga


Citação:
3. A última colheita do Q. dos Carvalhais Reserva foi a de 2002? O que é que se passou para não ser editada mais nenhuma colheita desta referência?

Para já o 2002 continua no mercado, e felizmente, pois sou defensor acérrimo que os bons vinhos do Dão devem ter anos de evolução na garrafa. Já reparou que hoje em dia é dificil comprar vinhos com alguns anos, dado o domínio quase absoluto de vinhos da colheita do ano passado ou no máximo de à 2 anos?
Penso que é uma vantagem que a Sogrape oferece aos consumidores encarregar-se do estágio dos vinhos em óptimas condições nas nossas garrafeiras, como acontece por exemplo com o Barca Velha que só é vendido ao vim de cerca de 8 anos de estágio, e neste caso com o Carvalhais Reserva.
De qualquer maneira é nossa filosofia só fazer determinada referência quando as condições do ano foram as ideais para o perfil, e essas condições nem sempre se verificam, ou então os vinhos são desviados para monovarietais, como por exemplo o Alfrocheiro e Roriz 2003, Único 2005, Alfrocheiro 2006 (ainda em estágio) e o Reserva 2007 ( em estágio e observação não vá evoluir para Único).


Citação:
4. Há algum aproveitamento do trabalho experimental do CEVD (Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão) ? Por exemplo, os vinhos brancos do CEVD atingem uma longevidade e refinamento ao longo dos anos, ímpar em Portugal. Houve algum aproveitamento destes “ensaios”?

O trabalho experimental do CEVD foi desde o início do projecto Carvalhais fonte de inspiração e de confiança nos resultados futuros. Não esqueço de uma memorável prova lá efectuada a nosso pedido, nos primórdios do projecto para avaliarmos o potencial dos vinhos do Dão, em que ficamos literalmente embasbacados com a qualidade dos vinhos, tanto dos tintos como dos brancos, e da sua fantástica capacidade de evolução na garrafa.
Foi essa prova que nos convenceu em definitivo da bondade das castas do Dão, desdes que vinificadas correctamente, e nos inspirou as soluções tecnológicas utilizadas na Adega dos Carvalhais, que privilegiam a suavidade no tratamento das massas vínicas de modo a só extrair a parte boa, pondo de parte as componentes agressivas e vegetais.


Citação:
Obrigado pelo Q. Carvalhais Colheita Seleccionada 2004. É um vinho que tem evoluído muito bem, e que julgo poder personificar um estilo de vinho branco do Dão.

Fico muito contente por gostar do Colheita Seleccionada. Costume dizer que é uma provocação que faço ao enófilo, pondo no mercado um vinho branco com cerca de 3 anos de estágio em barricas de carvalho usadas. Mas ao mesmo tempo penso que não mais do que recuperar velhas práticas, quando o viticultor mantinha os seus vinhos nos velhos toneis, e o ia engarrafando à medida das suas necessidades. Como vinho provocação é um vinho que necessita ser explicado ao enófilo incauto, não vá ele dizer, de coração ao pé da boca que o vinho está passado!
O curioso é que depois de ter feito o de 2004 já foram para o mercado o 2005 e recentemente o 2006, e com a experiência que fui adquirindo ficou-me a convicção que só duas castas brancas para já, aguentam bem a passagem do tempo nas barricas em contacto lento com o oxigénio: o encruzado e o verdelho. Todas as outras castas do Dão não têm uma evolução positiva, pelo menos aquelas que eu experimentei.
O vinho tem feito bastante sucesso, embora seja um vinho polémico, do género “ou ame-o ou deixe-o”.
Também penso que poderá personificar um novo estilo de vinho branco do Dão, agora que cada vez mais encontramos apreciadores de vinhos brancos complexos!


Um abraço
Manuel Vieira
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Abílio Neto



Registrado: Quinta-Feira, 1 de Setembro de 2005
Mensagens: 3677

MensagemEnviada: Qui Mai 27, 2010 9:38 am    Assunto: Responder com Citação

Caro Eng. Manuel Vieira,

Desde já, agradeço a sua disponibilidade para interagir.

4 questões:

- O "amor" da enofilia pelos vinhos da Quinta dos Carvalhais parece não ser suficiente para que a Sogrape dê lugar semi-central ao projecto, refiro-me aos monocastas e aos Reserva aí produzidos. Pode-se especular que as finanças puderam mais, neste caso?

- Casta Jaen aparece nos lotes dos V/ vinhos, alguma vez aparecerá em varietal, tratando-se de uma casta em alta, junto da enofilia nacional e... internacional , pelo hype da Mencía? É de considerar? Existe qualidade nas V/ vinhas para correr esse risco (já li acima que existem dificuldades da casta no terroir de Carvalhais, mas...) ?

- Alvarinho ou Encruzado ou Arinto de Bucelas ou ...?

- O Único é para continuar? Haverá 2007?

Obrigado.
_________________
Abraços,

Abílio Neto
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
Mensagens: 1102
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MensagemEnviada: Qui Mai 27, 2010 4:32 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Manuel Vieira (neste momento, a reacção imediata à ausência do Sr. Engenheiro é ficar com «pele de galinha»),

Agora sim, vamos desembocar na Quinta dos Carvalhais, adquirida pela Sogrape em 1988 e que, presumo, seja "a menina dos seus olhos".

Estará com certeza de acordo comigo quando afirmo que Alcafache ficará para a história pelo pior e pelo melhor. Pelo pior em virtude do trágico acidente ferroviário e, pelo melhor graças ao "Projecto Carvalhais", um empreendimento que começou a ganhar forma em 1990 e, que é hoje uma referência incontornável para todos os grandes apreciadores de vinho.

Deixemos de lado o pior e, partamos para aquilo que nos motiva nesta entrevista:

1- Muitas olham para a Quinta dos Carvalhais como uma espécie de "lufada de ar fresco" que se mostrou preponderante na recente revitalização do Dão. Poderia partilhar connosco em que medida, efectivamente, Carvalhais recolocou o Dão "no mapa"?

2- Quase ninguém se lembra disso, mas a saga monovarietal que invadiu o nosso país na última década do século passado teve em si, e na Quinta dos Carvalhais, um dos seus primeiros protagonistas (1991, se a memória não me atraiçoa). Enquanto enólogo, que ilações retira desse período, chamemos-lhe experimental?

3- Do ponto de vista vitivinícola, a Quinta dos Carvalhais parece ser uma fonte inesgotável de recursos: vinhos brancos, tintos, espumantes, colheitas tardias, vinhos monovarietais, blend's. A que se deve esta versatilidade?

4- O recurso a tintos do Dão, e muito concretamente da Quinta dos Carvalhais, é recorrente nas minhas acções de formação. O intuito é sempre o mesmo: mostrar elegância, finura, delicadeza, subtileza, finesse.. e podia continuar aqui o resto do dia a debitar atributos que nos transportam sempre para o "requinte"... de José Salvador. Posso garantir-lhe: a mensagem passa fluida, a surpresa é enorme e, enquanto consumidores, deparo-me com uma tremenda receptividade ao estilo.

A minha pergunta é muita simples: em termos globais, porque razão os agentes da região não conseguem passar a "mensagem" de forma tão cristalina quando, em micro-escala, os resultados são precisamente o oposto? Reformulando, o que está a falhar nas estratégias de comunicação da região (é que ainda ninguém conseguiu convencer-me das razões que levam o consumidor a preferir o Alentejo ou o Douro em detrimento do Dão)?


Um grande abraço e... até já!

Pedro
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MensagemEnviada: Qui Mai 27, 2010 5:55 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Manuel Vieira (a situação está a piorar e, no preciso momento em que escrev(inh)o este post, estou a ser assolado por uma série de erupções cutâneas que, presumo, se devem ao facto de ter deixado de lado o Sr. Engenheiro),

Finalmente... já cá faltava! Depois do Alvarinho seria imperdoável deixar de lado o Encruzado. Ora, é focado nele que parto para esta sequência de perguntas.

1- Com pequenas oscilações de gosto, mas parece ser perfeitamente consensual no universo da crítica que a casta Encruzado é, a par do Alvarinho e do Arinto, uma presença obrigatória no pódium das castas brancas nacionais. Curiosamente, tanto na sua extensão (julgo que não ultrapassa uns escassos 200 ha?) como na sua modesta disseminação territorial (praticamente refém do Dão) parece não merecer o devido reconhecimento por parte dos nossos viticultores e enólogos.

É a casta que "viaja" mal (um pouco à semelhança do Pinot Noir) ou andamos distraídos com castas bem menos interessantes?


2- O Encruzado bem podia ser designado por Chardonnay de Viriato, em virtude da dimensão que adquire com a fermentação em madeira e com posterior batonnage, na linha da melhor tradição borgonhesa.

Partilha desta visão? Em caso afirmativo pedia-lhe que partilhasse connosco essa grandeza que a casta adquire com a sua passagem por madeira, bem como com o seu posterior contacto com as borras finas.

3- Não sou um grande adepto de confidências, mas não resisto a esta: tenho uma predilecção especial em associar os melhores exemplares de Encruzado com alguns dos nossos melhores queijos de pasta mole/semi-mole como o Azeitão, o Serpa ou o Serra da Estrela. E aí, pessoalmente, tanto o Arinto como o Alvarinho perdem aos pontos.

Partilha desta opinião? E que outras combinações funcionam bem com os Encruzado fermentados e/ou estagiados em madeira?


4- Do ponto de vista estrutural, tudo na casta indicia que tem condições para longa guarda. Aliás, os trabalhos desenvolvidos pelo Engenheiro Vilhena no Centro de Estudos Vitivinícolas de Nelas confirmam essa aptidão. Mas, infelizmente, as experiências de guarda que tenho feito não têm corroborado esse vaticínio, incluindo alguns brancos da Quinta dos Carvalhais.

Será que nos pode avançar com algumas conclusões que disponha sobre esta matéria.


Um grande abraço e... até já!

Pedro
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Editado pela última vez por Pedro Gomes em Dom Mai 30, 2010 1:05 pm, num total de 1 vez
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MensagemEnviada: Qui Mai 27, 2010 7:38 pm    Assunto: Responder com Citação

Caros foristas,

Devido ao facto de ter sido extremamente curto o período que mediou entre o anúncio desta entrevista e o seu início, julgámos conveniente, a título excepcional, prolongar o período de perguntas até ao final do dia de amanhã.

Isso dará oportunidade a que os foristas possam aproveitar uma oportunidade única de colocar perguntas ao Engenheiro Manuel Vieira, uma referência da moderna enologia portuguesa.

Esperamos que estejam a gostar e... não hesitem em participar!
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