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Entrevista com Maria de Lourdes Modesto
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Maria de Lourdes Modesto



Registrado: Sexta-Feira, 27 de Março de 2009
Mensagens: 20

MensagemEnviada: Qui Abr 09, 2009 11:02 pm    Assunto: Responder com Citação

Peço licença para acrescentar umas palavrinhas à minha resposta à chef Marlene Vieira.
Depois de dar como concluídas as respostas às perguntas que me faz, reflectindo sobre elas, vi-as como um pedido de ajuda. Nesse sentido vou dizer-lhe o que eu faria no seu caso que é o de se sentir ignorada como profissional:
Se ainda não fosse sócia da Associação dos Cozinheiros, pedia a minha admissão e levava as minhas colegas a fazê-lo.
Frequentava os mesmos cursos que os chefs: os que a Associação promove ao seu nível profissional, os de Gastronomia Molecular e outros promovidos pelas escolas de hotelaria. Resumindo estava onde estivessem os meus colegas homens e tentava não ter medo de falar.
Dentro das minhas possibilidades, cuidava na minha imagem e lia tudo sobre alimentação, mesmo asneiras.
Esta é a minha receita para obter reconhecimento público como chef. O resto, a fama. Vem depois!
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Maria de Lourdes Modesto



Registrado: Sexta-Feira, 27 de Março de 2009
Mensagens: 20

MensagemEnviada: Ter Abr 14, 2009 7:47 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Exma. Sra. Dona Maria de Lourdes Modesto,

Começo por agradecer-lhe, em meu nome pessoal e em nome da Nova Crítica - Vinho & Gastronomia, a gentileza e a disponibilidade manifestada para nos conceder esta entrevista. É um privilégio imenso poder contar com a sua participação. Muito obrigado...

Não tem que agradecer, eu é que lhes agradeço a oportunidade de expor, como “consumidora”, alguns pontos de vista, certamente diferentes, de quem está por dentro da indústria da restauração.

Citação:
Avanço, então, para uma única sequência de perguntas:

1- Olho para o actual universo da crítica gastronómica e, constato que se verifica um enfoque excessivo no "artista" e muito menos na "obra-de-arte". Faz sentido esta inversão de valores? Como combater este eudeusamento da pessoa em detrimento da sua obra?

Se soubesse como me é difícil responder a esta sua pergunta! E não estou em desacordo consigo... Portugal, e sobretudo Lisboa, são meios muito pequenos, todos nos conhecemos, somos amigos e calamos muitas vezes as nossas discordâncias, por sabermos de experiência feita, quanto custa ouvir opiniões diferentes das nossas como críticas.
Não faz de facto sentido o endeusamento dos chefes na dimensão a que se chegou. Em minha opinião, se é verdade que materialmente a fama lhes pode ser benéfica durante algum tempo, correm mais facilmente o risco de serem desilusão. Os críticos, por uma questão de bom senso deviam ter isto bem presente.


Citação:
2- Posso estar equivocado mas, não vejo que exista uma exposição internacional da gastronomia lusitana suficientemente pujante para nos projectar além-fronteiras. Em todo o caso, e a título exemplificativo, certo dia fui confrontado com as palavras de um grande expert na área gastronómica que me mostrou como, por exemplo, o nosso pastel de feijão era uma construção gastronómica superlativa. Trata-se de uma excepção? Será que temos muitos outros exemplos que poderiam servir de porta-estandarte para projectar a nossa gastronomia pelos quatro cantos do mundo? De quem é a culpa desta inépcia... desta falta de visibilidade?

Creio já ter respondido a esta sua pertinente pergunta. Não é por culpa da nossa cozinha, por falta de originalidade e bom gosto que ela não tem mais visibilidade lá fora. Simplesmente ninguém está interessado em mostrar “lá fora” o que tem de especial. Podia dar-lhe centenas de exemplos semelhantes ao que refere com o pastel de feijão. A culpa é nossa. Alguém sabe o que se passa com o pastel de nata que conseguiu impor-se no Oriente e em Londres? Receio bem que em caricatura. Se é negócio para um chinês, porque não há-de ser também para um português?

Citação:
3- Os cerca de cinquenta anos que leva de gastronomia são mais do que suficientes para ter assistido a uma verdadeira revolução de equipamentos, ferramentas e apetrechos... na área gastronómica. Como encara a incorporação desse know-how? E, não será que o mesmo pode ter alguns efeitos perversos?

Na realidade temos a sorte de assistir a uma verdadeira revolução no que respeita à gastronomia. Como os avisei falo como consumidora, professora de culinária e estudiosa de tudo o que respeita à alimentação. Agradeçamos à indústria o esforço que tem feito para nos facilitar a vida na preparação das refeições familiares.
Sei que, no que à indústria respeita, o que se passa hoje numa cozinha não tem nada a ver com o que se vivia na cozinha há 30 anos. As tarefas estão hoje muito facilitadas. Quanto ao efeito perverso, mais uma vez, concordo consigo. Já me serviram um magnífico peixe galo que não fui capaz de arrancar á pele. Dei conta disso ao chef que me respondeu “foi cozido em vacum”. E o que é que eu tenho com isso, perguntei. Eu queria era comer o peixe.

Citação:
4- Procurando ser mais concreto em relação à pergunta anterior: ouço dizer "maravilhas" da Bimby mas, nas mãos erradas não poderá esse utensílio servir para "anestesiar" o engenho, acomodar comportamentos... adormecer o sentido criativo? Em muitas situações, não será algo semelhante como dar uma máquina de calcular a alguém que ainda não sabe a tabuada?

Não sou capaz de dizer melhor o que diz sobre a cozinha “feita à máquina”. Também oiço maravilhas à perfomance da Bimby, que como diz, dá pouca oportunidade à imaginação. Resolve o problema de quem tem pouco tempo para cozinhar o dia a dia para a família. Não tenho uma Bimby, mas prefiro o que ela faz, à cozinha pronta a comer de qualidade duvidosa, em todos os aspectos, que se vende para aí.
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Maria de Lourdes Modesto



Registrado: Sexta-Feira, 27 de Março de 2009
Mensagens: 20

MensagemEnviada: Qua Abr 15, 2009 10:53 pm    Assunto: Responder com Citação

Torreblanca escreveu:
Cara Maria de Lourdes Modesto

Tem-se falado recentemente por aqui da oferta enfadonha ao nível das sobremesas que encontramos na maioria dos nossos restaurantes.
Tem-se falado também nalgum negligenciar da tradição da doçaria conventual por parte dos nossos profissionais de hotelaria. Muito açucar dizem alguns, poucas possibilidades de reinvenção dirão outros.

Como encara esta fenómeno? É também para si uma realidade que "deixamos muito a desejar" em termos de ofertas de sobremesas?
E que potencial de reinvenção/criação encontra na nossa doçaria conventual?

Atentamente,

É com razão que se critica a escassa e má oferta de sobremesas na nossa restauração, no geral. Justiça seja feita aos praticantes da chamada Cozinha Contemporânea que apresentam geralmente sobremesas originais com um grande chamamento aos gelados e às frutas. Já quando se metem a alterar o que resta de bom na nossa doçaria tradicional, são um desastre. Claro que os profissionais a que me refiro trabalham em restaurantes caríssimos e são minoria.

A nossa doçaria tradicional, é conventual. É um trabalho de mulheres, coisa delicada, a requerer saber e dedicação. O que encontramos em seu nome, é exactamente o contrário. É feito por gente sem prática e sem o menor amor. É apenas um trabalho. Ora hoje, como sabe, as mulheres dedicam-se a trabalhos com melhores remunerações e menos exigentes. E assim se perdem as referências de qualidade. Em 50 anos, vi desaparecer, com a maior indiferença por quem devia estar alerta, autênticos livros de sabedoria e verdadeiras artistas. As que restam, recusam-se a ver o seu trabalho mostrado e apreciado ao lado de grosseiros e verdadeiros horrores, em feiras que, em nome da preservação da nossa doçaria, se promovem pelo País fora. A intenção é boa, mas a selecção é feita sem qualquer critério e não zela nem pela autenticidade nem pela qualidade.
Claro que a nossa doçaria, feita segundo as receitas do tempo em que o açúcar era o nosso oiro, é de um modo geral muito doce. Mas este senão é passível de correcção. Eu, em 500g de açúcar retirei 100 ao pudim do Abade de Priscos, sem qualquer prejuízo para a qualidade e o seu aspecto. Com os chamados doces de colher a redução é muito mais fácil, e creio que não só é possível, como desejável a actualização, sem abastardamento, da doçaria conventual ao nosso paladar de hoje. Acresce que no nosso receituário, para alem das conventuais, há inúmeras sobremesas menos exigentes na confecção e por conseguinte, mais rentáveis.
É uma questão de querer evoluir e rejeitar a estagnação.
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Maria de Lourdes Modesto



Registrado: Sexta-Feira, 27 de Março de 2009
Mensagens: 20

MensagemEnviada: Sex Abr 17, 2009 8:12 pm    Assunto: Responder com Citação

Spice Girl escreveu:

1 - Qual a data da 1ª Edição da Grande Enciclopédia da Cozinha?

Se soubesse o que eu ouviria do meu editor se ele lesse este seu conjunto de perguntas?…
A Grande Enciclopédia da Cozinha, que nasceu em 1959 e começou a vir a público, em fascículos mensais, em 1960, deve a sua existência ao meu editor e à minha inexperiência. O 1º. fascículo saiu portanto 1 ano e meio depois do início do meu trabalho com a RTP e, ao mesmo tempo, com a Fima. Confesso que vivia, por um lado deslumbrada e por outro apavorada com o que me estava a acontecer.
Voltando à Enciclopédia: quando os editores me viram na televisão, não foram poucos os que me quiseram editar. E a minha pergunta era sempre a mesma: editar o quê? As suas receitas. Mas, eu não tenho as “minhas receitas”. As que ensinei nas aulas e agora na televisão, vou buscá-las a livros ou são-me dadas por amigos. Eu não posso aceitar tão honroso convite, que seguramente me iria meter a ridículo e de mal com a minha consistência.
Até que um dia…conheci na RTP o Dr. Fernando Guedes que ali apresentava um programa sobre arte. Ele tinha dado vida à Editorial Verbo, um ano antes, com a obra A Arte Popular em Portugal, sob a direcção do Dr. Fernando Pires de Lima, obra também vendida em fascículos.
Tão jovem e inconsciente como eu, ele tem apenas mais um ano do que eu, desbravando as teias de aranha que eu tinha na cabeça conseguiu obter de mim uma resposta positiva. Claro que ele também queria fazer um livro com as “minhas receitas”, livro que eu tenazmente recusava fazer. Muito perspicaz fez-me a pergunta que iria mudar a minha vida profissional e me embatucou: mas então você não tem uma ideia para por no papel o que sabe sobre cozinha? Com a pouca prática que tenho, só posso fazer um livro sobre as técnicas culinárias, que desde há anos estudava afincadamente.
Depois acertamos pormenores: seria uma grande obra, publicada em fascículos mensais, com fotografias a cores e a preto e branco onde se ensinasse mesmo culinária e a sua envolvência. Utensílios, lá podem ser vistas algumas peças da baixela Germain e lidos textos literários associados a alguns alimentos. Assim, além do leitor ficar com receitas de atum, ficava a conhecer como era a sua pesca pela escrita de Raul Brandão. Neste trabalho tive a colaboração preciosa da minha amiga Maria Eugénia Retorta, ao tempo estudante de Letras.

Citação:

2- O que a levou a meter-se em tal aventura? E como foi levar a cabo aquela gigantesca tarefa?

Pode chamar-lhe aventura.
Então era assim: chegar a casa, tomar um café e recomeçar a trabalhar. Isto durante 3 anos com as festas de obrigação e estágios no estrangeiro pelo meio. Recordo-me de na minha 1ª. viagem a Roma ter dado comigo numa esplanada a fazer trabalho para enviar ao meu angustiado editor. Quantas vezes, sempre com o trabalho em atraso, me escapei de o atender ao telefone, para depois o ouvir suplicar-me: Maria de Lourdes não me fuja.
Não foi por acaso que aceitei trabalhar com este Senhor. Não sei como, mas fui sempre muito selectiva na escolha das pessoas para quem trabalhei Esta parceria em que a amizade ganhou um papel fundamental mantém-se desde o 1º. Encontro. Tem 50 anos!

Citação:
3 - Porque é este trabalho tão pouco conhecido?

Este trabalho teve à época um grande sucesso. Depois de publicado em fascículos a Verbo publicou-o em livro. Era caríssimo! Eu tinha vergonha de dizer quanto custava. Acrescia que, na mesma altura, saiu um livro do Picasso que custava exactamente o mesmo preço que a minha enciclopédia. Ainda hoje há quem telefone para a Verbo a pedir a obra inteira ou um dos volumes.
Agora, como as pessoas que ao tempo a compraram vão desaparecendo e as suas bibliotecas vendidas, surge um ou outro volume nos alfarrabistas, mas há uns 20 anos houve que a tivesse comprado por 40 contos!

Citação:
4 - Nunca foi pensado re-editar esta enciclopédia?

Até há uns tempos, cada vez que o meu editor me via, fazia-me lembrar o enorme erro que eu estava a cometer, não revendo para publicação a GEC. Hoje tenho um grau de exigência, as responsabilidades que criei e também, saber por experiência os trabalhos em que me iria meter, que escolhi fazer livros novos sobre temas que me interessa aprofundar.
Não consentindo também a republicação do livro As Receitas da TV, igualmente muito procurado, leva o meu editor a dizer-me que os meus livros são filhos que rejeito. De certo modo é assim, excepção para o livro Receitas Escolhidas, pelo qual tenho um especial afecto e o considero, não um grande livro, mas um livro “bem feitinho.
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Maria de Lourdes Modesto



Registrado: Sexta-Feira, 27 de Março de 2009
Mensagens: 20

MensagemEnviada: Qui Abr 23, 2009 10:31 pm    Assunto: Responder com Citação

Spice Girl escreveu:

1 - Que balanço faz da evolução do jornalismo gastronómico e crítica gastronómica em Portugal nas duas últimas décadas?

Sinceramente acho que a crítica gastronómica, entre nós, tem evoluído no bom sentido. Tem ajudado a gastronomia a crescer como aspecto cultural e tem ganho importância como factor económico. Mas, precisa de fazer muito mais, começando por educar o consumidor e consciencializar os praticantes para os benefícios da crítica bem intencionada e consistente. Eu sei quanto custa ser-se criticado num órgão de comunicação social, mas também reconheço que não foram poucos os benefícios que usufrui dessa mesma crítica.

Citação:
2- Pela experiência e conhecimento que tem da comunicação social em Portugal, acha que é dada a importância ao jornalismo gastronómico que este deveria ter, tendo em conta o peso do ponto de vista cultural e económico da gastronomia e restauração?

O jornalismo gastronómico é, para muita gente, infelizmente, considerado de segunda. E este juízo não é um exclusivo nacional. Verdade seja dita que todo o “bicho careto” opina sobre gastronomia e o público nem sempre sabe separar o trigo do joio. . Creio que, com excepção da área económica, são poucos os jornalistas especializados nas várias áreas sobre o que escrevem ou falam. Entre nós, contam-se pelos dedos de uma mão, os bons jornalistas especializados em gastronomia.

Citação:
3 - Verifica-se nos últimos anos uma mediatização muito grande dos chefs. Como vê este facto? Qual considera que pode ser o seu efeito na restauração e gastronomia portuguesa?

A mediatização dos chefes tem efeitos positivos e também perversos. A fama é um bem muito difícil de gerir e muitos dos chefes que de um dia para o outro se encontram na situação de estrelas, podem estar a ser apanhados numa ratoeira de onde lhes pode vir muito sofrimento. Claro que a mediatização dos chefes é positiva para o país, mas há que ter o cuidado de não circunscrever essa mediatização às chamadas “elites dos chefes” de Lisboa, mas a todos os bons que se encontram espalhados pelo País.

Citação:
4 - Nos últimos anos têm-se assistido a uma grande revolução na cozinha e na forma como se come. Parece-me que ainda se está longe de assimilar tudo e atingir o equilibrio, mas as coisas mudam constantemente .
Como avalia tudo isto e como caracterizaria a situação actual?

Considero que a revolução que se deu na gastronomia, e o modo de a olhar, foi benéfica, mas estamos de facto longe de atingir o equilíbrio. Isto é, foi bom que a gastronomia tivesse ganho a importância que tem e lhe é devida num País como o nosso, vocacionado para o turismo. Mas há que reconhecer que o mediatismo exagerado dos chefes já referida, pode ser vista como “muita parra e pouca uva”. Há quanto tempo não come um molho holandês macio, morno, sem falha? Um shot de sopa de ervilhas coroado com espuma de parmesão pode impressionar hoje, mas um dia virá em que a frase “é só fumaça” se poderá aplicar a essa gastronomia.

Citação:
5 - Li recentemente um livro muito interessante de um crítico inglês (Jay Rayner - The Man Who Ate the World in Search of the Perfect Dinner). Nele é abordado um assunto sobre o qual nunca tinha reflectido e que me fez pensar. É licíto que a busca do melhor produto leve a que num extremo do planeta seja servido peixe, carne ou legumes colhidos na véspera e enviados expressamente do extremo oposto do planeta? Não se chegou a uma busca da perfeição na qualidade exagerada? É isso necessário para ter prazer com uma refeição? Resistirá isso na nova realidade que nos espera ao sair desta crise?

A busca da perfeição nunca é exagerada, mas a busca exagerada de produtos de qualidade que refere, não é perfeição. É cabotinice, saloiice, justamente o contrário da perfeição. E, geralmente, pura mentira.
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Maria de Lourdes Modesto



Registrado: Sexta-Feira, 27 de Março de 2009
Mensagens: 20

MensagemEnviada: Seg Abr 27, 2009 10:25 pm    Assunto: Responder com Citação

Spice Girl escreveu:

6 - Muito frequentemente em restaurantes de um certo nível há produtos como foie, trufas... quase que é obrigatório...
Acha obrigatório? Há produtos nobres? Não é um desafio maior fazer algo fantástico com produtos mais comuns (dar-lhes outra dimensão)?

Claro que não considero nem o foie, nem as trufas indispensáveis numa ementa. Se estivéssemos no Perigord, claro que a sua ausência poderia ser considerada uma falha. Mas, entre nós, a obrigatoriedade da sua presença, é mais uma vez, sinal de novo-riquismo. A mim só me incomodam na ementa escrita, porque no prato, dada a porção, nem dou por eles como o que me acontece com os bocadinhos de queijo que me dão a provar nos supermercados.
Quando me pergunta se há produtos nobres deixa-me um bocado embaraçada. Creio que ainda está a pensar no foie e nas trufas. Para mim são produtos muito caros e às vezes muito bons, o que não me chega para os considerar nobres. Nobres para mim são os alimentos que caracterizam a nossa civilização cristã e os sacralizou: o pão, o azeite e o vinho. Outros há com que estaremos sempre em dívida. Refiro-me ao feijão que com as suas proteínas mantiveram fortes e saudáveis os nossos antecipados pobres sem acesso à carne, o arroz, o cereal que alimenta meio mundo, o mel, o queijo, o peixe e as couves. Considero-os nobres porque cumprem a principal obrigação de um alimento: manter a vida.

Citação:
7 - É capaz de nos dar uma lista de 5 pratos (salgados ou doces) que considere que poderiam constituir uma boa imagem da cozinha portuguesa no estrangeiro?

Aqui está uma pergunta que gostava que já me tivesse sido feita por quem tem a obrigação de cuidar da nossa imagem lá fora: Pasteis (ou bolinhos) de Bacalhau; Caldo Verde; Bacalhau à Brás; Carne de Porco Frita com Amêijoas; Pastel de Nata.

Citação:
8 - Maria de Lourdes o conhecimento sobre a nossa gastronomia, e sobretudo o ensinar a cozinhar, eram da competência das famílias. Neste momento, por razões várias, isso não acontece num grande número de famílias. Penso que a escola não desempenha ainda um papel significativo nesta área. No entanto, recentemente em Inglaterra passou a fazer parte do programa de ensino durante a escolaridade obrigatória, aprender um conjunto básico de técnicas culinárias. Considerou-se que isso era essencial para formar uma população com hábitos alimentares mais saudáveis.
Pensa que a escola deve ter um papel significativo nesta área?

O papel da Escola é importantíssimo em todos os aspectos que envolvem a nossa vida de que a alimentação é um dos mais importantes. Não sou propriamente a favor de aulas de culinária obrigatórias para alunos com menos de doze anos. Já considero uma falha grave que as crianças não tenham a noção de que os frangos não nascem como os vêem nos supermercados; não saibam porque é preciso comer sopa, legumes, frutas, beber leite, etc. Dado que a desvalorização da imagem da Mãe a cozinhar deixou os jovens sem essa importante referência, acho que tem toda a razão quando sugere que também é papel da escola dar aos alunos os conhecimentos técnicos que lhes permitam tratar os alimentos com a dignidade que merecem e levá-los a adquirir hábitos alimentares mais saudáveis.
Não sei se há no nosso país pessoas preparadas para a transmissão de técnicas culinárias de forma apelativa e exigente. Refiro-me a uma, mesmo que pequena, dose de ciência.

Citação:
9 - Disse no início da entrevista sobre a forma como a cozinha entrou na sua vida:
Citação:
De certo modo, a contra gosto. Fiz um curso de educadora de Economia Doméstica em que a culinária era uma das disciplinas mais importantes. Para ter o curso e começar a trabalhar, teve que ser ...A cozinha não tinha para mim qualquer fascínio.

Acabou por dedicar toda a sua vida à cozinha. Significa isso que se tornou uma paixão?

Eu considero a minha relação com a culinária um casamento de conveniência que com o tempo se transformou num grande amor.

Citação:
10 - Está a terminar o livro sobre os cogumelos. Tem já outro planeado?

Como creio que já lhes disse, estamos, o Prof Baptista Ferreira e eu em fase de acabamentos de um livro sobre os cogumelos que se podem encontrar e comer em Portugal: silvestres e de cultura.
Quanto ao seguinte…com a minha idade acha que será razoável fazer projectos? De imediato gostava de ver As Receitas Escolhidas a um preço mais acessível. Gosto muito daquele livro e quantos mais livros vejo mais gosto dele. Não tem páginas em branco. Tem muito trabalho, como eu acho que devem ser os livros úteis. Um livro de receitas, eu sei, é um livro comercial, mas se for útil, está perdoado.

Citação:
11 - Reparei agora que isto é um site com uma forte componente de vinho... e ninguém lhe fez nenhuma pergunta sobre vinho... não pode ser! (Eu até sei que já frequentou cursos de prova de vinhos. Fizemo-lo juntas... Very Happy )
Que importância tem para si o vinho:
a) numa refeição?
b) na cozinha?


O vinho faz parte da gastronomia, quando se fala de gastronomia está implícito que também se está a falar de vinho. Eu dediquei-me à culinária, mas também me interesso pelo vinho, mas como consumidora com alguma exigência.
A refeição não estará completa sem a presença do vinho. O que está no copo é tão importante como o que está no prato.
Quanto ao seu papel na cozinha, pode por vezes ser o “salvador”. Quantas vezes não “salvei” um prato com 2 ou 3 colheres de madeira?! O meu trabalho na RTP coincidiu com o tempo da “cozinha do vinho”. Estava na moda o “coq au vin”, a chanfana e tantos outros pratos. Na altura, nem sempre bebia vinho à refeição o que me levava a dizer que eu não bebia muito vinho, mas que o comia com largueza.


Citação:
E agora aquelas perguntas quem eu fiz sempre aos entrevistados da gastronomia... as minhas perguntas patetas... as perguntas que quando leio, feitas por outros nas entrevistas, faço isto Rolling Eyes Rolling Eyes Rolling Eyes Rolling Eyes Rolling Eyes
(Pode dizer: Mas que patetice... não quero responder a isto... mas têm a vantagem da resposta a cada uma ser raamente mais do que uma palavra Very Happy )

- Quais os seus "guilty pleasures" gastronómicos?

Chocolate com avelãs

Citação:
- Se fosse uma especiaria qual escolhia?

Anis-estrelado
Citação:

- Se fosse um sabor qual escolhia?

Doce

Citação:
- Quais eram os três produtos que levava para uma ilha deserta?

Pão – Queijo Parmegiano-Regiano – Laranjas do Algarve

Citação:
- Gosta de cozinhar?

Não sou fanática
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Spice Girl



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Mensagens: 6059
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MensagemEnviada: Qua Abr 29, 2009 12:28 am    Assunto: Responder com Citação

Querida Maria de Lourdes

Em nome da Nova Crítica - Vinho & Gastronomia e em meu nome pessoal, quero agradecer-lhe a sua participação nesta entrevista. Foi um prazer conversar consigo neste espaço.

Agradeço-lhe ter-nos contado uma série de episódios da sua vida profissional, ter-nos dado a sua opinião sobre uma grande variedade de assuntos e sobretudo a forma directa e franca como o fez. Penso que nos deixou muito para reflectir e que todos ficámos mais ricos.

Mais uma vez muito, muito obrigada por tudo. Foi um honra poder contar com a sua participação neste espaço.

Um grande beijinho

Paulina
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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Localização: Lisboa

MensagemEnviada: Qua Abr 29, 2009 2:03 pm    Assunto: Responder com Citação

Exma. Senhora Dona Maria de Lourdes Modesto,

Também eu, em meu nome e em nome da Nova Crítica - Vinho & Gastronomia, queria agradecer-lhe a entrevista que nos deu. Foi um privilégio imenso poder contar consigo neste espaço. Muito obrigado...

Melhores cumprimentos

Pedro
_________________
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Paulina Mata
Pedro Gomes
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