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Entrevista com Maria de Lourdes Modesto
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MensagemEnviada: Sex Mar 27, 2009 12:25 am    Assunto: Entrevista com Maria de Lourdes Modesto Responder com Citação

É muito viva a imagem que tenho de Maria de Lourdes Modesto na televisão, ainda a preto e branco, nos programas de culinária na RTP, que se iniciaram em 1958 e se prolongaram por 12 anos.
De facto a sua vida profissional começou como professora de culinária no Liceu D. Filipa de Lencastre e de “Arts Ménagers” no Liceu Francês Charles Lepierre. Em paralelo com a actividade na televisão e como autora de livros de cozinha, dirigiu ainda, durante cerca de três décadas, o serviço de relações com os consumidores da Fima/Lever. Em 1978, retomou a colaboração com a RTP e apresentou programas de prevenção alimentar das doenças cardiovasculares, patrocinados pela Fundação Portuguesa de Cardiologia, de que é membro fundador. Apresentou ainda uma série de programas sobre as cozinhas regionais de vários países. De 1982 a 1988 foi também professora de Técnicas Culinárias na Escola Superior de Dietistas de Coimbra.

Foi a sua extraordinária capacidade de comunicação e a forma séria, profunda e de grande profissionalismo com que trabalha que foram determinantes para a sua carreira, primeiro na televisão e depois como autora de obras sobre cozinha e gastronomia. O trabalho de Maria de Lourdes Modesto foi, e continua a ser, determinante na preservação do nosso património gastronómico e na forma como cozinhamos.

É autora da Grande Enciclopédia da Cozinha, Receitas da TV, Receitas Escolhidas, Cozinha Tradicional Portuguesa, Palavra Puxa Receita e Cozinhar com Vegetais. Sendo ainda co-autora de Festas e Comeres do Povo Português, O Azeite em Portugal, Receitas do Coração, Uma Alimentação Saudável, Comer e Beber com Eça de Queiroz, À Mesa com o Coração (para o INCP), Gulodices (para a APADP) e Queijos Portugueses.

Manteve durante 4 anos uma crónica semanal sobre Gastronomia no jornal Diário de Notícias, durante 1 ano uma crónica no Expresso On Line e 2 anos no site Marinadas.

O seu livro "Cozinha Tradicional Portuguesa" é um sucesso editorial extraordinário. Inicialmente publicado em 1982, conta com 23 edições e mais de 300.000 exemplares vendidos. Foi ainda lançada em 1989 uma tradução desta obra para inglês.

Organizou ou participou em certames e concursos gastronómicos, orientados para a defesa e divulgação da cozinha regional portuguesa, tanto em Portugal como no estrangeiro.

Em 2004 foi agraciada com o Grau de Comendador da Ordem do Mérito. Recebeu o prémio Reconnaissances 2006 da Academia Internacional de Gastronomia, o Prémio de Literatura Gastronómica da Academia Portuguesa de Gastronomia, o Prémio Anuália e o prémio de Gastronomia da Revista de Vinhos.

É membro de várias confrarias gastronómicas, do Slow Food e da Associação As Idades dos Sabores.

Maria de Lourdes, muito, muito obrigada pela sua disponibilidade. É como muita alegria que a recebemos neste espaço. Consideramos um privilégio que partilhe connosco a sua experiência e conhecimentos.

Uma oportunidade a não perder! Satisfaçam a vossa curiosidade... Participem, já a partir da próxima segunda-feira.
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Paulina Mata
Pedro Gomes
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Spice Girl



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MensagemEnviada: Seg Mar 30, 2009 1:14 am    Assunto: Responder com Citação

Querida Maria de Lourdes

Primeiro que tudo quero dar-lhe as boas vindas a este espaço. É com enorme prazer que aqui a recebemos. Para mim pessoalmente é particularmente importante.
Desde que me comecei a interessar por cozinha a Maria de Lourdes sempre esteve presente na minha vida. Lembro-me de a ver na televisão. Lembro-me de ver algumas das receitas que apresentava na televisão anotadas no caderninho de receitas da minha Mãe. De as comer e, mais tarde, de as cozinhar. Encantava-me particularmente o seu livro "As Receitas da TV" que a minha Mãe tinha numa gaveta da cozinha e que eu passava horas a ver. Foi o primeiro livro de receitas a sério que folheei, foi ele que ao longo de muitos anos me fez sonhar com coisas diferentes das que comia todos os dias, foi por ele que comecei a cozinhar. O Coq au Vin, a Tarte de Uvas, a Tarte de Atum e as Lulas Recheadas (que ainda continua a ser a "minha" receita de lulas recheadas)... (Há muito que o tenho em minha casa, foi bom folheá-lo agora).
Pelo interesse com que via os seus programas, o meu Pai bem cedo me ofereceu o meu primeiro livro de cozinha "A Colher de Pau" que não sendo seu, tem o seu nome na capa pois a adaptação foi feita por si e para mim era um livro seu
Mais tarde quando pus a hipótese de mudar de vida, sem a conhecer, foi a si que pedi conselhos. E nessa altura, sem me conhecer, deu-me uma grande ajuda.
Quando estive fora de Portugal, o que concluí ser a coisa mais importante que levei, foi o seu livro Cozinha Tradicional Portuguesa.
Não escondo que mais tarde conhecê-la foi muito marcante e que guardo muito boas memórias do convívio consigo nos últimos anos, iniciado nas actividades do Slow Food, mas que se prolongou para além delas.

Maria de Lourdes teve um papel determinante no meu interesse pela cozinha, admiro muitíssimo o seu trabalho e estar aqui hoje a entrevistá-la é uma enorme responsabilidade que, confesso, me deixa um pouco nervosa... Vamos então a algumas pergunta, porque o pior é começar... depois espero que se transforme numa conversa de amigas, com uma paixão em comum, e que seja mais fácil...

1 - Gostaria que nos contasse como foi a sua entrada no mundo da cozinha e no primeiro programa de cozinha na TV em Portugal.

2 - O primeiro programa que fez na RTP foi há 51 anos, o que significa que há ao longo de 5 décadas tem acompanhado, e influenciado, a forma como se come e cozinha neste país. Quais as principais alterações que gostaria de destacar?

3 - Hoje 50 anos depois de ter começado, continua a escrever livros (sei que prepara mais um). A sua presença continua a ser solicitada para inúmeros eventos, os seus textos continuam a ser publicados na imprensa. Significa isto que se mantém actualizada e acompanha de perto o que acontece no mundo da cozinha e da gastronomia em Portugal e no estrangeiro. O que a motiva e qual o seu segredo para se manter actualizada e para a energia com que continua a trabalhar?

4 - A sua contribuição para documentar o nosso património gastronómico é extremamente importante. As 23 edições da Cozinha Tradicional Portuguesa e os 300000 exemplares vendidos não deixam dúvidas. Muitas vezes fala-se do perigo da globalização alimentar, do desinteresse pelos pratos tradicionais. Considera que o nosso património gastronómico corre o risco de se perder? O que acha que deveria ser feito para o evitar?

5 - A cozinha portuguesa não é muito conhecida no estrangeiro. Conhece bem muitas das cozinhas tradicionais de outros países. Acha que a nossa cozinha tem potencial para despertar interesse fora de Portugal? Porque é que isso não acontece? O que acha que deveria ser feito para alterar a situação?

6 - Sei que diz sempre que o seu trabalho é essencialmente para quem cozinha em casa. No entanto o seu livro Cozinha Tradicional Portuguesa, tanto quanto sei, está em muitas cozinhas de restaurantes. Muitos Chefs portugueses a contactam para que os aconselhe, que partilhe com eles os seus conhecimentos... Tem assim acompanhado ao longo dos anos de muito perto o que se passa no mundo dos restaurantes em Portugal. Como avalia a evolução?

7 - Como vê a cozinha mais inovadora que se inspira/modifica os pratos tradicionais?


Hoje ficamos por aqui... acho que já dá "pano para mangas".

Um grande beijinho

Paulina
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zepinto



Registrado: Terça-Feira, 4 de Outubro de 2005
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MensagemEnviada: Seg Mar 30, 2009 4:10 am    Assunto: 6 questões Responder com Citação

PERGUNTA 1. No seu entender faz sentido formar hoje, em 2009, um nova Sociedade da Gastronomia Portuguesa, à luz do que António Maria de Oliveira Bello fez nos anos 30 do século passado?

PERGUNTA 2. Que mais se pode fazer para reconhecer o Património Gastronómico Português como herança inquestionável do património mundial protegido pela UNESCO?

PERGUNTA 3. Que lugar deve ocupar a gastronomia portuguesa no movimento Slow Food e vice-versa?

PERGUNTA 4: Qual a Instituição Governamental que devia gerir o património gastronómico português?

PERGUNTA 5 - Atendendo à sua experiência, que recomendações sugere às entidades que promovem a culinária portuguesa no estrangeiro com produto turísitico?

PERGUNTA 6 - Será Portugal o país com maior variedade de receitas tradicionais por Km quadrado?

Obrigado pelo seu tempo. Obrigado pelo que tem contribuído para a gastronomia portuguesa.
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Jose Ferreira Pinto


Editado pela última vez por zepinto em Qua Abr 01, 2009 3:08 am, num total de 2 vezes
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Abílio Neto



Registrado: Quinta-Feira, 1 de Setembro de 2005
Mensagens: 3677

MensagemEnviada: Seg Mar 30, 2009 12:03 pm    Assunto: Responder com Citação

Cara Sra. Dona Maria de Lurdes Modesto,

Antes das perguntas, agradeço-lhe a pachorra que teve para vir aqui aturar-nos, por mim falo.

3 perguntas:

- Vejo a gastronomia portuguesa como de aromas (ervas aromáticas) e de sabores (técnicas de tempero), existe alguma razão para a tónica da sua evolução não ser feita com base nisso?

- O que acha que pode ser feito para divulgar-se fora, com maior intensidade os fabulosos produtos que existem em Portugal, nalguns casos de qualidade excepcional (feijão frade), e que, mesmo dentro, ainda não se levou ao extremos a sua utilização;

- No fim de semana passado comemos (eu mais alguns foristas) num restaurante com 1 estrela Michelin um prato muito simples, mas que adorei, um prato de grão, garbanzos de Fuentesaúco al ajo arriero zamorano con boletus edulis, falando com o chef ele disse-me que o prato era mesmo isso, grão, alho e cogumelos, comento-lhe que o grão era DO, o alho era DO e os cogumelos eram boletus de altissima qualidade, isso é alta cozinha?

Volto.
_________________
Abraços,

Abílio Neto
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jms



Registrado: Domingo, 7 de Setembro de 2003
Mensagens: 1902
Localização: Maia

MensagemEnviada: Seg Mar 30, 2009 2:56 pm    Assunto: Responder com Citação

Senhora D. Maria de Lourdes Modesto,

tenho que começar pelo por dizer que é com enorme orgulho e honra que me dirijo directamente à senhora. Tenho-lhe uma admiração sem par.

Partindo do best-seller Cozinha Tradicional Portuguesa gostaria de lhe perguntar como vê a evolução da gastronomia, partido do axioma de que nada se mantém igual no tempo:

Arrow a gastronomia evolui de acordo com as circunstâncias - modo de vida, tecnologia de conservação e produção dos alimentos, logística, conhecimento científico, meios de comunicação - sendo "produto" da sociedade em geral e de ninguém em particular?

ou,

Arrow a gastronomia é uma arte - como o cinema, a literatura, as artes plásticas - que, sendo influenciada evidentemente pelo ambiente em que está inserida, evolui principalmente devido a impulsos e saltos epistemológicos que os artistas da culinária/gastronomia lhe dão?

Claro que as coisas não se reduzem a esta ambivalência. No entanto, aceitando as perguntas como válidas, qual o eixo que a senhora acha que é o principal motor da evolução da gastronomia?
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jorge saraiva

'Faz tudo como se alguém te contemplasse' - Epicuro, filósofo grego (341 aC - 270 aC)
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alentejano



Registrado: Domingo, 27 de Outubro de 2002
Mensagens: 4168
Localização: Vila Viçosa

MensagemEnviada: Seg Mar 30, 2009 3:09 pm    Assunto: Responder com Citação

Exma. Sra. Maria de Lourdes Modesto

1 - O facto de ter ''puxado'' bastante pela cozinha Alentejana, deve-se ao facto de ser Alentejana ou é resultante de uma qualidade e originalidade que a cozinha do Alentejo apresenta ?

2 - Disse uma vez que ''A cozinha Alentejana é a maior de todas do País...'', reunindo os pratos que mais gosta, poderia elaborar um pequeno menu degustação ?

3 - Quais as diferenças que encontra entre as cozinhas do Norte e Sul de Portugal ?

4 - E diferenças entre a gastronomia do Norte e Sul do Alentejo ?

5- A cozinha Alentejana tem potencialidades para que apoiando-se nas novas tendências, se tornar uma referência internacional ?

6 - Até que ponto é que a cozinha de aromas da terra onde nasceu e da terra onde morou, a influenciaram para se tornar na maior especialista portuguesa em culinária ?

7 - Termino com um grande bem haja, e uma pequena questão, tem orgulho em ser Alentejana ?
_________________
João Pedro Carvalho
Alentejo, uma paixão.
http://copod3.blogspot.com
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Maria de Lourdes Modesto



Registrado: Sexta-Feira, 27 de Março de 2009
Mensagens: 20

MensagemEnviada: Seg Mar 30, 2009 4:57 pm    Assunto: Responder com Citação

Citação:

1 - Gostaria que nos contasse como foi a sua entrada no mundo da cozinha e no primeiro programa de cozinha na TV em Portugal.

De certo modo, a contra gosto. Fiz um curso de educadora de Economia Doméstica em que a culinária era uma das disciplinas mais importantes. Para ter o curso e começar a trabalhar, teve que ser ...A cozinha não tinha para mim qualquer fascínio.
Quanto à minha entrada na televisão, a coisa já é mais interessante. Foi pela mão de Molière. É mesmo verdade. Trabalhava eu no Liceu Charles Lepierre onde todos os anos , os alunos, representavam um clássico da literatura francesa. Ora no ano de 1958 o Prof de Literatura escolheu uma peça de Molière - Monsieur de Pourceaugnac - muito trabalhosa que obrigava os alunos a um grande dispêndio de tempo. Então, ele resolveu o problema substituindo os alunos por professores para quem representar era um divertimento. Curiosamente nesta peça Molière não introduziu a habitual figura da "sobrette" mas duas "intrigantes". Havia uma profesora francesa disposta a fazer um destes papéis. Faltava outra. Como eu fisicamente corespondia ao modelo -alta e muito, muito magra, convidaram-me e entusiasticamente aceitei. Era a única portuguesa em palco o que me valeu a especial atenção dos holofotes e também das câmaras da RTP, presentes em reportagem. Esta representação deu-me a posibilidade de mudar de careira. Entre outros, fui convidada pela Srª. D. Amélia Rey Colaço e pelo empresário Vasco Morgado para integrar os seus elencos. Não posso dizer que não fui seduzida por estes convites, mas, às vezes dou-me ao luxo de ser racional. Na altura Teatro e ensino não faziam "bon ménage" e escolhi a segurança que me dava o meu emprego. Claro que também fui convidada pela RTP. Depois de muitas hesitações aceitei fazer "Qualquer coisa para as Mulheres". E aí estou eu, no dia 15 de Maio de 1958 a ensinar "as senhoras e os senhores espectadores" como se cozinhavam e comiam as alcachofras. Pelos vistos nunca ninguém tinha comido na televisão, e chupar uma folha de alcachofra foi coisa nunca vista e , desculpem, um enorme sucesso.
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bbe



Registrado: Quarta-Feira, 3 de Janeiro de 2007
Mensagens: 642

MensagemEnviada: Seg Mar 30, 2009 11:25 pm    Assunto: Responder com Citação

Boa noite cara Maria de Lourdes Modesto;

Já tive o prazer de a ver ao vivo na minha escola, assim como de satisfazer a minha curiosidade em relação a alguns assuntos, pode-se dizer que foi uma excelente experiência, assim como bastante enriquecedora.

Apenas tenho uma questão a fazer, já que concerteza terá muitas a responder aqui.

Vivemos numa sociedade que é cada vez mais exigente tanto a nível de imagem como de rigor, sendo assim, está prevista uma revisão profunda do seu Best-seller "Cozinha Tradicional Portuguesa", tanto a nível de grafismo (que na minha opinião se encontra bastante desactualizado) assim como uma revisão dos conteúdos, especialmente no que ao rigor diz respeito (estou a falar num modelo semelhante à última edição do Joy Of Cooking, onde todas as receitas foram rigorosamente testadas.)?

Desde já agradeço a disponibilidade, e a boa vontade em nos responder às questões.

Cumprimentos
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Cumprimentos:
BBE
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lenita



Registrado: Quarta-Feira, 27 de Agosto de 2008
Mensagens: 40

MensagemEnviada: Ter Mar 31, 2009 12:22 pm    Assunto: Responder com Citação

D.Maria de Lurdes Modesto tenho antes de mais reconhecer que sinto uma pontinha de inveja da senhora e isto porquê! A senhora faz parte de uma geração em que as mulheres cozinheiras tinham mais protagonismo,eram mais respeitadas pela nossa profissão e sabedoria, eram sinónimo de bons petiscos e muito mais. Eu tenho 28 anos,sou cozinheira num hotel,aliás sou a única em 20 cozinheiros e sinto que existe agora uma grande injustiça em relação às mulheres cozinheiras,estão na sombra dos "grandes" chefes,as pessoas que decidem abrir novos restaurantes ou hoteis quando contratam chefs ,pensam automaticamente em homens para ocupar esse lugar. desculpe este desabafo, tenho três perguntas:
1º porque acha que as mulheres desistiram de ser profissionais de cozinha?
2º o que falta para as mulheres provarem aos portugueses que são capazes de gerir, inovar,criar, incentivar ,porquê esta falta de credebilidade?
3º existem chefs mulheres em Portugal apenas não se falam delas,existem respostas para esta afirmação eu não encontro resposta,será a senhora capaz de me responder?

obrigado
Espero que continue a mostrar o seu trabalho e votos de felicidades
Marlene Vieira
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Maria de Lourdes Modesto



Registrado: Sexta-Feira, 27 de Março de 2009
Mensagens: 20

MensagemEnviada: Ter Mar 31, 2009 1:30 pm    Assunto: Responder com Citação

Citação:

2 - O primeiro programa que fez na RTP foi há 51 anos, o que significa que há ao longo de 5 décadas tem acompanhado, e influenciado, a forma como se come e cozinha neste país. Quais as principais alterações que gostaria de destacar?

Sem falsa modéstia, não creio que tenha influenciado a forma como se come ou cozinha no País. É um feito de que gostaria de me gabar. Nestes 50 anos, em que, como diz, tenho acompanhado o evoluir da cozinha no nosso País, deu-se na mesa e na cozinha uma verdadeira revolução e no bom sentido. Quando comecei imperava, nos restaurantes e nos hotéis, aquilo a que chamarei uma caricatura grosseira da cozinha francesa. Abra-se uma excepção para os restaurantes de galegos, ou seus descendentes, que sempre produziram entre nós uma cozinha com carácter. Na província, exceptuando o Minho e o Porto, era praticamente impossível encontrar restaurantes com cozinha regional. Hoje, a oferta é de modo geral muito boa e diversificada. Em Lisboa, salvo raras e felizes excepções, não é ainda fácil para um estrangeiro caracterizar-nos pelo que lhes apresentamos na mesa.


Citação:
3 - Hoje 50 anos depois de ter começado, continua a escrever livros (sei que prepara mais um). A sua presença continua a ser solicitada para inúmeros eventos, os seus textos continuam a ser publicados na imprensa. Significa isto que se mantém actualizada e acompanha de perto o que acontece no mundo da cozinha e da gastronomia em Portugal e no estrangeiro. O que a motiva e qual o seu segredo para se manter actualizada e para a energia com que continua a trabalhar?

Na realidade continuo atenta ao que acontece com a gastronomia em Portugal, quer no que respeita às nossas cozinhas regionais, quer às estrangeiras e ainda aos vários movimentos de que nos últimos anos a cozinha tem sido objecto em todo o mundo e também entre nós. Como actividade escolhi “fazer” livros, a solo ou em co-autoria. Tenho procurado, dentro das minhas capacidades, preencher aquilo que considero lacunas no campo editorial no que à cozinha se refere. Os livros das Festas e Comeres do Povo Português, que fiz com o Afonso Praça, ajudam a entender melhor a Cozinha Tradicional Portuguesa. Dizia-se que os portugueses comiam poucos vegetais, por isso fiz o Cozinhar com Vegetais, o mais apetecível de que fui capaz e, consciente de que as pessoas raramente lêem o pormenor, usei o mínimo de palavras privilegiando a imagem. Adoro queijo, mas, sempre que procurava informação acerca dos nossos nos vários livros que tenho sobre esta obra-prima saída da mão do homem num feliz acaso, era certa a desilusão. Como conhecia a Drª. Manuela Barbosa que dedicou 40 anos da sua vida profissional a este tema, desafiei-a a concretizar comigo um projecto que tinha em mente e em que se dariam a conhecer alguns dos melhores queijos europeus, mas onde os nossos tivessem o destaque que lhes é devido. O maior.
Actualmente, trabalho, sob a orientação do Prof Baptista Ferreira professor universitário e director do Centro de Micologia, num livro que tem a ambição de consciencializar os portugueses para o enorme potencial que representam os magníficos cogumelos que frutificam nas nossas florestas. Isto sem menosprezar, antes honrando, o trabalho dos cientistas que com o seu trabalho nos permitem dispor todo o ano de cogumelos de cultura, seguros, e de boa qualidade.
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NCritica
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MensagemEnviada: Ter Mar 31, 2009 4:35 pm    Assunto: Responder com Citação

A Sra. D. Maria de Lourdes Modesto está neste momento na fase de conclusão de um livro. Devido ao trabalho que tem não poderá possivelmente responder a todas as questões até sábado. Dado que nas próximas semanas não estão previstas entrevistas, decidiu-se prolongar o prazo para as respostas.

Coloquem todas as vossas questões, como habitualmente, até ao final de quinta-feira.
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MensagemEnviada: Ter Mar 31, 2009 9:41 pm    Assunto: Responder com Citação

D. Maria de Lourdes Modesto:
Ouvi dizer, há tempos, que um livro pode mudar a vida de uma pessoa. Foi o que aconteceu, com o seu livro A Cozinha Tradicional Portuguesa, não a uma, mas duas, quatro, ou talvez ainda a muitas mais pessoas que me são próximas
Ofereceram-me , já vão uns anitos, como prenda de casamento e mudou a minha vida e da minha família. Obrigado, D. Maria de Lourdes Modesto
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Rui Lourenço Pereira



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MensagemEnviada: Ter Mar 31, 2009 9:56 pm    Assunto: Responder com Citação

Exma. Senhora,

Foi professora da minha mãe no antigo Departamento da Mocidade Portuguesa Feminina na Artilharia 1 (Lisboa) à cerca de 56 anos. O que lhe ensinou na altura ainda é hoje utilizado por ela e, acredito, por muitas outras senhoras. Sente que a sua vocação sempre foi ensinar ou por outro lado foi escrever?
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Maria de Lourdes Modesto



Registrado: Sexta-Feira, 27 de Março de 2009
Mensagens: 20

MensagemEnviada: Ter Mar 31, 2009 10:49 pm    Assunto: Responder com Citação

Citação:
4 - A sua contribuição para documentar o nosso património gastronómico é extremamente importante. As 23 edições da Cozinha Tradicional Portuguesa e os 300000 exemplares vendidos não deixam dúvidas. Muitas vezes fala-se do perigo da globalização alimentar, do desinteresse pelos pratos tradicionais. Considera que o nosso património gastronómico corre o risco de se perder? O que acha que deveria ser feito para o evitar?

Agradeço as suas amáveis palavras quando considera útil o contributo, que diz ter sido dado por mim para a documentação do nosso património gastronómico. Eu creio que o meu trabalho com esse objectivo, teve a virtude de despertar, em tempo ainda oportuno, o interesse pela nossa alimentação e a sua importância ao nível dos afectos e da cultura. Digamos que eu apenas comecei. Muitos depois de mim têm feito trabalho muito meritório nesse sentido. Refiro-me a autores de livros em que a cozinha portuguesa é tratada com o rigor e o respeito que lhe são devidos, a câmaras municipais, confrarias e outros grupos. Por todo o trabalho já feito, e pela sua especificidade, não creio que a cozinha portuguesa corra o risco de se perder. Evoluirá certamente, mas conservando a matriz, ao seu ritmo, obrigatoriamente longo, mas de forma inteligente. A sua preservação exige, é certo, atenção e uma boa dose de coragem na denúncia dos prevaricadores que em nome da modernidade a desvirtuam e ridicularizam.
Ainda a propósito do nosso acervo gastronómico: tenho em meu poder milhares de receitas tradicionais que generosamente me têm sido transmitidas, oralmente ou por escrito, que legarei à instituição que considere, na altura, a que melhor uso fará delas. A maior parte são cópias das receitas recolhidas através de um concurso que em 1961 promovi na RTP. Infelizmente não sei onde param os originais, em grande parte dirigidos à minha pessoa.


Citação:
5 - A cozinha portuguesa não é muito conhecida no estrangeiro. Conhece bem muitas das cozinhas tradicionais de outros países. Acha que a nossa cozinha tem potencial para despertar interesse fora de Portugal? Porque é que isso não acontece? O que acha que deveria ser feito para alterar a situação?

É uma realidade, a nossa cozinha não ultrapassa as fronteiras. De quem é a culpa? De muita gente e do tal desvirtuamento de que falo. Não vai acreditar, mas recentemente participei em França num banquete cujo objectivo era homenagear Portugal. Sabe o que é que foi servido como prato de carne? Pé de porco recheado com lulas!!!. É evidente que ninguém o comeu, incluindo eu que, supostamente, por patriotismo ou em nome da boa educação, tinha a obrigação de me sacrificar. Os que estavam na minha mesa, perto de mim, ficaram a saber que aquilo não era português. A pretexto de que a nossa doçaria é muito doce, raramente se dão a conhecer os nossos melhores e originais doces. Não foi felizmente o caso neste jantar, em que participaram o Pudim do Abade de Priscos, os Papos de Anjo da Terceira e umas queijadinhas. Lamberam-se e tive ali mesmo que dizer como se fazem os Papos de Anjo.
Creio que a nossa cozinha, à semelhança da húngara, por exemplo, merecia e tem potencial para ser mais conhecida, Quanto ao que fazer para alterar a situação, devo dizer-lhe que me preocupa muito mais, que quem cá venha, não coma português. A cozinha não é só o que está no prato e há ainda pratos que não viajam. Há vários pratos importantes da nossa cozinha que não sou capaz de comer e vejo como os locais os devoram.
Tanto quanto sei tem-se feito um esforço para mostrar lá fora, que os nossos profissionais de cozinha estão à altura dos maiores. Fazem cozinha portuguesa? Creio que dão do País uma imagem cosmopolita e sofisticada, que não nos fica mal, exibem, como os demais, as técnicas mais avançadas e até fazem, por vezes, prova de imaginação. Mas, pelos relatos que leio das muito gabadas, porque impecáveis prestações, não é muito diferente do que se faz em Hong Kong ou Nova Iorque.
Como alterar a situação? Fazendo, sempre que a oportunidade surgir, com o mesmo empenho, cozinha portuguesa.
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MensagemEnviada: Qua Abr 01, 2009 12:53 am    Assunto: Responder com Citação

Maria de Lourdes, muito obrigada pelas suas respostas. Tem aqui mesmo muito trabalho! Não calhou possivelmente na melhor altura, mas terá oportunidade de responder a tudo.

Para não deixar tudo para o fim, vou hoje deixar-lhe aqui mais umas questões.

1- Grande parte da sua vida profissional foi a trabalhar na FIMA. Porquê a FIMA?

2- Como conciliava o trabalho na FIMA com toda a actividade na RTP e como autora de livros?

3 - Em casa da minha Mãe havia uns panfletos com receitas chamados "Cadernos de Francine Dupré" e uns livrinhos mais grossos de receitas de Francine Dupré. Sempre os vi e imaginei como sendo escritos por uma senhora francesa. Fiquei com alguns e há uns 3 anos peguei neles de novo e vi que eram da Vaqueiro. Fiquei com uma forte suspeição de que a Francine Dupré e a Maria de Lourdes Modesto poderiam ser a mesma pessoa. Estive a vê-los no início desta entrevista e a suspeição é ainda mais forte... Very Happy Confirma ou desmente?
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