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Entrevista com João Nicolau de Almeida (Ramos Pinto)
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ramospinto



Registrado: Segunda-Feira, 24 de Março de 2008
Mensagens: 24

MensagemEnviada: Qua Mar 26, 2008 4:22 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Dinis Gonçalves,

Grato pela homenagem.

DinisGoncalves escreveu:
Arrow eu enquanto estudante de enologia, na universidade de trás-os-montes e alto douro, por vezes sinto que a formação e conhecimentos transmitidos não são os suficientes para um mais alargado e necessário conhecimento.(Mesmo pesando o facto de já ter feito estágios de vindima)
Para si qual foi no seu percurso de formação, o factor mais determinante para dar o chamado "salto", ou seja passar de uma fase de aprendizagem (sendo esta contínua), para ocupar o lugar de Enólogo na industria do vinho!
Serão os conhecimentos e vivência adquiridas nos anos de trabalho?


Não há dúvida de que a Universidade de Trás-os-Montes já foi um grande avanço na Enologia em Portugal. Infelizmente, começou muito bem e depois não evoluíu no sentido moderno, em que as universidades têm que estar muito mais perto da realidade das empresas e das suas necessidades. Portanto, quando os alunos saem, têm mais dificuldades em adaptar-se.
Eu tive a sorte de poder estudar em Bordéus, o que me deu uma bagagem muito mais evoluída e mais próxima da produção. Depois destes conhecimentos, foi preciso muito, muito trabalho, convicção e saber esperar pelos resultados. O salto! Olhar para as coisas e tentar percebê-las.

DinisGoncalves escreveu:
Arrow Suponho eu que sendo o Douro a sua região de eleição em portugal ( Very Happy ), que outra região em portugal se podeira sentir "atraído" em fazer vinhos? E falando noutros paises, algum pais do "Novo Mundo" vinhateiro lhe poderia despertar maior interesse?


Dão e Alentejo, em Portugal. África do Sul, do novo mundo vinhateiro.

DinisGoncalves escreveu:
Arrow Que alterações ou que futuro prevê para o Douro e para o resto do Pais! Sendo que cada vez mais vão aparecendo novas marcas, novos produtores, e cada vez de maior dimensão! Será a exportação um destino seguro para muitos? O que falta a Portugal para adoptar uma atitude coorporativista, não seria esta uma política mais acertada para os produtores?


O futuro para o Douro e para o resto do País pode ser bom, e mesmo muito bom, mas ... Atenção, a situação não dá folgas. Muita concorrência, muita ambição.
É verdade que há cada vez mais marcas, mas terá que haver uma triagem. "Quem tem unhas, que toque guitarra". É o nosso mundo de hoje, quer nos vinhos quer no resto.
É evidente que o sucesso tem que passar pela exportação. Portugal é muito pequeno, e é um mercado saturado.

Espero ter respondido ao que queria saber.

Abraço,
João Nicolau de Almeida
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ramospinto



Registrado: Segunda-Feira, 24 de Março de 2008
Mensagens: 24

MensagemEnviada: Qua Mar 26, 2008 5:33 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Tiago,

Tiago Teles escreveu:
6- O facto da Ramos Pinto pertencer a um grupo internacional, Grupo Roederer, permite ter uma visão mais alargada da indústria do vinho. Que ensinamentos e benefícios retira desta influência francesa? Quais as principais diferenças entre Portugal e França? E com o resto do mundo? A distinção entre Velho Mundo e Novo Mundo é pertinente?


O maior benefício foi dar uma visão mais alargada do mercado mundial.
O mesmo se passou com o tipo de organização racional e a estratégia.
A diferença entre França e Portugal é que as coisas não se resolvem ao sabor do tempo, mas sim ao sabor das prioridades. No resto do mundo, temos que pensar que, se não fazemos bem, desaparecemos. Não há papá nem mamã, vivemos num mundo cada vez mais desumanizado. Bem? Mal?

Tiago Teles escreveu:
7- Qual é a sua visão do vinho português? Quais as regiões e castas que mais aprecia? Qual pensa ser o caminho a seguir pelos vinhos portugueses nos mercados nacionais e internacionais? Podemos pensar esses dois mercados de forma independente?


É fantástica a evolução que o vinho português tem tido nestes últimos anos. Se comercializarmos com a mesma qualidade, temos futuro.
A região que mais aprecio é, logicamente, o Douro, seguida do Alentejo e do Dão. Cada mercado tem as suas particularidades, o melhor é tentar compreendê-las e adaptar-se.

Tiago Teles escreveu:
8- A sua defesa pelo lote na região do Douro aparece bem espelhada no vinho Duas Quintas Celebração Quinta da Ervamoira, oriundo de um lote original de anos diferentes. Qual é o significado deste vinho? Lotear anos diferentes em vinhos tranquilos faz sentido? Vinhos com esta especificidade poderão ter futuro no mercado?


Realmente o Celebração foi uma ideia muito especial, baseando-se exactamente no loteamento de vários sítios e vários anos. Não penso que isto seja de seguir, no que respeita a vários anos. Tratou-se de um caso muito especial para celebrar vários anos de sofrimento, com medo da barragem.

Tiago Teles escreveu:
9- Fale-nos um pouco das duas últimas colheitas na Ramos Pinto, 2006 e 2007. Como correram, qual a qualidade esperada em tintos, brancos e portos? Poderemos esperar alguma novidade?


Colheita 2006 - Foi um ano muito quente. No final de Agosto, princípio de Setembro, quando as temperaturas começam a baixar, aqui foi precisamente o contrário. Apareceu uma canícula que queimou bastante os frutos. Nós tivemos a sorte de vindimar grande parte antes disso (Ervamoira).
Resultado, penso que os 2006 para nós são bastante estruturados e ao mesmo tempo com um fruto muito simpático. A evolução em qualidade já está em marcha.
Colheita 2007 - Muito boa, estou muito satisfeito com os vinhos. São aromáticos, finos, frutados, encorpados e com um bom final. Foi um ano bastante fresco, mas em Ervamoira correu tudo muito bem. No Bom Retiro, as plantações novas, que entraram em plena produção, também ajudaram bastante.
Vinhos do Porto 2006 - Não dão para Vintage
Vinhos do Porto 2007 - Parece-me que vão ser óptimos.
A novidade que temos agora no mercado é um vinho que se chama "Collection", que se situa entre o Reserva e o Duas Quintas.

Tiago Teles escreveu:
10- Qual é para si o papel dos vinhos brancos na região do Douro, uma região mais conhecida pelos seus vinhos tintos? A região tem legitimidade para elaborar vinhos brancos de elevado nível? Quais as castas brancas mais adaptadas à região do Douro? Noto a presença da casta Arinto no lote do Duas Quintas; qual o seu potencial na região do Douro? Para quando um Duas Quintas Reserva Branco?


Penso que o Douro tem capacidade para fazer vinhos brancos, se não for tentado a fazer vinhos do tipo do Norte da Europa. Há que ter vinhos mais maduros, com outro tipo de aroma e gosto. Penso que se podem fazer óptimos vinhos dentro desta linha "terroir". As castas que escolhi em 91 para fazer o Duas Quintas foram as seguintes: Viozinho, Arinto e Rabigato. Estou satisfeito, mas penso que sempre se pode fazer melhor.
O Reserva Branco, se tudo correr bem, e segundo a nossa previsão, sairá em 2009.

Tiago Teles escreveu:
11- Notei um calor especial pelo vinho Tinto Cão 81 e pela sua particular capacidade de envelhecimento. Mas verifico também que esta casta não entra no lote dos vinhos Duas Quintas, normal e reserva. Qual é a sua opinião sobre esta casta? Potencial? Ela adapta-se melhor ao perfil dos vinhos do Porto?


O Tinto Cão entra nos lotes de Reserva mas, como é tão pouco, não é significativo nem mencionado (1%-2%).
É uma casta muito específica. Não se mostra quando nova, mas envelhece muito bem. Convém amadurecer bem.
Para Porto é muito boa, pois dá vinhos frutados, mais abertos, que servem melhor para os tawnies.

Aquele abraço,
João Nicolau de Almeida
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
Mensagens: 1102
Localização: Lisboa

MensagemEnviada: Qui Mar 27, 2008 12:45 am    Assunto: Responder com Citação

Caro Engenheiro João Nicolau de Almeida,

Bem sei que não deve ser fácil conciliar esta entrevista com a azáfama do dia-a-dia, mas não resisto em voltar à carga.

Pertenço a uma geração de felizardos que puderam acompanhar o nascimento e a evolução dos "seus" Valle Pradinhos, da segunda metade dos anos 80. Felizmente, ainda hoje tenho a sorte de poder apreciar colheitas como 87, 89 ou 90 e fico sempre rendido à forma como evoluiram em garrafa.

1- Será que as virtudes desses vinhos se devem à excelência da casta Cabernet Sauvignon?

2- Será que essa capacidade de evolução em garrafa só foi possível graças à austeridade/severidade que marcava esses vinhos à nascença?

3- Fará sentido, para o Douro, uma aposta deliberada na Cabernet Savignon ou, o "terroir" duriense deverá vingar exclusivamente à custa de castas autóctones?

Não sei se acontece consigo, mas aumenta a um ritmo exponencial o número de consumidores que quando confrontados com um vinho com mais idade (velho, mas não caquético) comentam que "... está estragado". E, como é óbvio, não está...

4- Como sugere que se combata este estado de coisas? Ou é uma guerra perdida?

Um grande abraço e.. até já!

Pedro
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Tiago Teles



Registrado: Segunda-Feira, 21 de Outubro de 2002
Mensagens: 2137
Localização: Portugal

MensagemEnviada: Qui Mar 27, 2008 10:30 am    Assunto: Responder com Citação

João Nicolau de Almeida,

Estou a gostar imenso da entrevista. Muito obrigado pelo contributo de valor. Parto então para as perguntas de hoje.

12- O Duas Quintas Reserva marcou a década de 90, desbravando um caminho hoje explorado por imensas marcas. Muitos enófilos dizem, ou sentem, que estas marcas “tradicionais”, como o Duas Quintas Reserva e o Quinta do Côtto Grande Escolha, foram, de certa forma, relegados para um plano menos mediático na nova hierarquia duriense. De que forma a Ramos Pinto vive e responde à nova concorrência? Qual o estilo defendido por vós? Existe uma adaptação ao mercado? O Duas Quintas Reserva Especial é uma resposta? Qual a longevidade para os vinhos Duas Quintas Reserva?

13- O Bons Ares tinto, apesar de mais austero e viril, é um vinho pelo qual sempre tive um carinho e uma empatia especiais. É também um vinho com um excelente sentido gastronómico. Além disso é vinificado a partir das castas Touriga Nacional (60%) e Cabernet Sauvignon (40%), duas castas que aprecio particularmente. Porquê este lote e porquê uma casta internacional? O que significa para a Ramos Pinto este vinho com imenso carácter mas mais afastado da "moda"?

ramospinto escreveu:
1. Plantação de 80 novos hectares de vinha distribuídos por Bom
Retiro, Ervamoira e Bons Ares.

14- A aposta foi exclusiva em castas nacionais? Alguma casta internacional?

15- Adiantado o trabalho de castas, as diferentes formas de condução da vinha, a mecanização, quais são os desafios futuros da viticultura no Douro? A irrigação será determinante? A rega gota a gota será um objectivo? Uma agricultura biológica faz parte dos intentos?

16- Os sistemas DOC, Denominação de Origem Controlada, não são perfeitos mas, acima de tudo, colocam em valor um local e o homem nesse meio. Uma globalização do vinho praticada sem normas pode ter efeitos nefastos e irreversíveis na identidade de cada região. Pensa que uma das formas de lutar contra esta tendência poderia passar pela exploração nos rótulos da identidade de cada sub-região (Baixo Corgo, Cimo Corgo e Douro Superior no caso do Douro), solidificando uma aproximação cultural que revitalizaria a identidade individual do vinho? Ou, no caso do Douro, a sua identidade é e será sempre a cultura do lote?

17- A função histórica do vinho na Europa sempre foi idêntica à da água, ou seja, refrescar e acompanhar as refeições de cada momento e local. Que ligação gastronómica mais favorece os vinhos Duas Quintas (tinto e branco) e Duas Quintas Reserva? E Bons Ares (tinto e branco)?

Uma abraço,
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ramospinto



Registrado: Segunda-Feira, 24 de Março de 2008
Mensagens: 24

MensagemEnviada: Qui Mar 27, 2008 4:09 pm    Assunto: Responder com Citação

Tiago,

Fico contente por estar a gostar.

Tiago Teles escreveu:
12- O Duas Quintas Reserva marcou a década de 90, desbravando um caminho hoje explorado por imensas marcas. Muitos enófilos dizem, ou sentem, que estas marcas “tradicionais”, como o Duas Quintas Reserva e o Quinta do Côtto Grande Escolha, foram, de certa forma, relegados para um plano menos mediático na nova hierarquia duriense. De que forma a Ramos Pinto vive e responde à nova concorrência? Qual o estilo defendido por vós? Existe uma adaptação ao mercado? O Duas Quintas Reserva Especial é uma resposta? Qual a longevidade para os vinhos Duas Quintas Reserva?


É verdade o que diz mas, conforme pode ver na resposta que dei ao Rui Lourenço Pereira, temos um plano para actualizar toda a tecnologia de produção, cujos resultados vão começar a aparecer muito em breve. É como se estivessemos a rodar em 5ª. velocidade e fizessemos uma redução para a 3ª, para arrancarmos de novo.
O estilo será o mesmo - vinhos harmoniosos, para beber com prazer, e que possam também envelhecer, mas com novas possibilidades humanas e tecnológicas. Pensamos que não devemos mudar de estilo. Teremos que manter a nossa personalidade e, sobretudo, respeitando o "terroir".
O Duas Quintas Tinto, que nos EUA tem o nome de Adriano, foi considerado por vários jornais top como uma nova oferta de tipo de vinho no mundo do vinho. Isto foi dos melhores elogios que me puderam fazer, assim como elogiar o rácio preço/qualidade.
Portanto, a adaptação é mais nas novas possibilidades tecnológicas.
Não, o Reserva Especial ainda não é a resposta ao acima referido. É evidente que também melhoraria com tudo isto. O Reserva Especial é uma busca do passado em que os vinhos eram muito pouco produtivos, velhos e sem tecnologia industrial e saber científico. Penso que a longevidade poderá atingir 20-30 ? 40?
Quanto ao aumento de qualidade dos vinhos Ramos Pinto, lançámos agora um vinho "Collection" (porque terá um rótulo diferente cada ano da colecção de posters RP), que se situa em termos de preço e qualidade entre o Duas Quintas Reserva e o Duas Quintas normal.

Tiago Teles escreveu:
13- O Bons Ares tinto, apesar de mais austero e viril, é um vinho pelo qual sempre tive um carinho e uma empatia especiais. É também um vinho com um excelente sentido gastronómico. Além disso é vinificado a partir das castas Touriga Nacional (60%) e Cabernet Sauvignon (40%), duas castas que aprecio particularmente. Porquê este lote e porquê uma casta internacional? O que significa para a Ramos Pinto este vinho com imenso carácter mas mais afastado da "moda"?


Bons Ares Tinto - Quando cheguei, fiz vários campos de experimentação de inúmeras castas e é claro que fui tentado a ver o que dava o Cabernet Sauvignon da região que eu estudei. Portanto, fiquei com Cabernet nos Bons Ares e teria que fazer vinho com ele. Porque não fazer uma aliança luso-francesa para agradar aos meus chefes? É um processo que não desenvolvi mais porque comecei a conhecer melhor as nossas castas e achei que o que tinha já chegava para fazer um Trás-os-Montes, dando, portanto, uma oferta diferente, conforme referiu.
Para a Ramos Pinto significa um sector nicho que, sobretudo, aprecia vinhos que envelhecem muito bem.

Tiago Teles escreveu:
14- A aposta foi exclusiva em castas nacionais? Alguma casta internacional?


Sim, são castas portuguesas. A aposta é "terroir".

Tiago Teles escreveu:
15- Adiantado o trabalho de castas, as diferentes formas de condução da vinha, a mecanização, quais são os desafios futuros da viticultura no Douro? A irrigação será determinante? A rega gota a gota será um objectivo? Uma agricultura biológica faz parte dos intentos?


Irrigação - Há 20 anos que começámos a fazer ensaios. Tivemos uma luta de longos anos com os serviços administrativos mas, finalmente, houve um consenso e pudemos regar.
Temos evoluído bastante na forma de o fazer e os resultados são muito bons. Julgo que a irrigação, na maioria dos casos, será absolutamente necessária. Temos que acabar com a noção de que a erga é só para produzir mais. Quem produzir muito por esta via, será que vai querer pagar uvas más ao mesmo preço das uvas boas? Felizmente, penso que esta mentalidade vai acabar.
Temos feito vários ensaios para proteger do aumento do calor. Primeiro, os porta-enxertos, depois a sensibilidade das castas ao calor, a protecção das uvas pela condução da vinha, vindimar mais rápido, enfim, vários ensaios estão a fazer-se. A rega gota a gota o principal parâmetro a utilizar.
Quanto à agricultura biológica, é certamente um assunto que faz parte das nossas decisões. Temos várias áreas em ensaio e adaptação ao método.

Tiago Teles escreveu:
16-Os sistemas DOC, Denominação de Origem Controlada, não são perfeitos mas, acima de tudo, colocam em valor um local e o homem nesse meio. Uma globalização do vinho praticada sem normas pode ter efeitos nefastos e irreversíveis na identidade de cada região. Pensa que uma das formas de lutar contra esta tendência poderia passar pela exploração nos rótulos da identidade de cada sub-região (Baixo Corgo, Cimo Corgo e Douro Superior no caso do Douro), solidificando uma aproximação cultural que revitalizaria a identidade individual do vinho? Ou, no caso do Douro, a sua identidade é e será sempre a cultura do lote?


Os rótulos já estão sobrecarregados, acho uma loucura o que já é exigido. Não compliquemos mais, o consumidor ou comprador pode ler o contra-rótulo e pedir mais informações, ir a todos os sites da internet, etc.
Acho que o Douro é um todo e, como já referi, o "terroir Douro" é exactamente a diversidade de micro-climas e o blend destas é uma cultura única e rica. Porquê massacrá-la?

Tiago Teles escreveu:
17- A função histórica do vinho na Europa sempre foi idêntica à da água, ou seja, refrescar e acompanhar as refeições de cada momento e local. Que ligação gastronómica mais favorece os vinhos Duas Quintas (tinto e branco) e Duas Quintas Reserva? E Bons Ares (tinto e branco)?


Duas Quintas Branco - Aperitivo, Marisco, Salada, Peixe grelhado. Um bom bacalhau, hum!!, está muito bom. Começo a ficar com água na boca.
Duas Quintas Tinto - Aperitivo, acompanhando entradas quentes, com pratos de carne grelhada, pratos de aves e também o nosso maravilhoso bacalhau.
Duas Quintas Reserva - Acompanha muito bem pratos de caça e de carne vermelha, nomeadamente posta mirandesa, rosbife e queijos fortes - tipo Serra, Ilhas, etc..
Bons Ares Branco - Ostras, Ameijoas à Bulhão Pato, entradas frias e pratos de peixe em geral. Corta um pouco a gordura.
Bons Ares Tinto - Vai muito bem com pratos de sabor intenso, guisados, estufados, Cozido à Portuguesa, Enchidos e Queijos fortes.

Um abraço, e até já, porque já estou a ficar cheio de fome.
João Nicolau de Almeida,
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ramospinto



Registrado: Segunda-Feira, 24 de Março de 2008
Mensagens: 24

MensagemEnviada: Qui Mar 27, 2008 4:17 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Pedro,

Pedro Gomes escreveu:
1- Será que as virtudes desses vinhos se devem à excelência da casta Cabernet Sauvignon?


Na altura em que fui para Valle Pradinhos (1977), não havia noção nenhuma de castas – - o que plantar? Resolvi então fazer um campo experimental em que o Cabernet estava presente. E por que não? Deu bem e plantou-se mais. É um clima muito continental, invernos muito frios e verões muito quentes. Noites frias e dias quentes, sítio ideal para o Cabernet. Para além disso, os vinhos dali eram muito rústicos e, com a categoria do Cabernet, conseguiram-se vinhos mais macios e civilizados, finos e com taninos mais macios.

Pedro Gomes escreveu:
2- Será que essa capacidade de evolução em garrafa só foi possível graças à austeridade/severidade que marcava esses vinhos à nascença?


Conforme já referi, o clima produz vinhos com características muito boas para envelhecer. É verdade que há castas melhores e outras piores, mas todas dão potencial para envelhecer.

Pedro Gomes escreveu:
3- Fará sentido, para o Douro, uma aposta deliberada na Cabernet Savignon ou, o "terroir" duriense deverá vingar exclusivamente à custa de castas autóctones?


Não penso que o Cabernet seja uma casta para o Douro. O clima é totalmente diferente de Valle Pradinhos e as temperaturas de verão torram as uvas, tirando-lhes o interesse. Para além disto, penso que se seguirmos a via da Cabernet, seria um erro grave, pois iríamos rivalizar com outras regiões de Cabernet, talvez com mais aptidão e, para além disso, o mercado está farto e saturado de Cabernet.

Pedro Gomes escreveu:
4- Como sugere que se combata este estado de coisas? Ou é uma guerra perdida?


Tem toda a razão. É preciso ver que a grande maioria dos Wine Amateurs são muito novos e apanharam esta fase de influência do mundo novo. Espero que, com o tempo, esta geração aprenda a distinguir as qualidades de um vinho bem envelhecido e um vinho novo. Os parâmetros a observar e a provar são totalmente distintos e ambos podem dar-nos muito prazer.
Os vinhos velhos são menos espectaculares mas a uma boa mesa enchem a nossa boca e o nosso coração. São vinhos mais ternos, mais complexos, e com um final de boca mais abrangente.

Um abraço
João Nicolau de Almeida
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Rui Lourenço Pereira



Registrado: Terça-Feira, 8 de Janeiro de 2008
Mensagens: 356
Localização: Algures...

MensagemEnviada: Qui Mar 27, 2008 5:02 pm    Assunto: Responder com Citação

Eng.,

Já sei que está com fome e que vai acompanhar com bom vinho 2 man down , mas... temos que aproveitar enquanto está no ar Gives thy a finger

Gostaria de lhe questionar, desta vez, algo que não tem tanto a ver o vinho, mas com a sua comercialização e promoção.

- A existência do Museu em Ervamoira tem contribuído para a afirmação da Ramos Pinto no panorama nacional e internacional? Para mim o projecto é mais do que justificado, mas será que o consumidor em geral sabe da existência do mesmo?

- Defendo a ideia que para afirmar o vinho de mesa português a nível internacional deve haver, para além de outras coisas, uma alteração nos rótulos - Portugal, Região e Marca por ordem de grandeza, e nas regiões - somos tão pequenos e temos tantas regiões vinícolas. Qual a sua opinião sobre este asssunto?

- Como é que países do Novo Mundo, como a Austrália, África do Sul, Chile, Argentina e Califórnia, se conseguiram afirmar tão depressa no panorama vínico internacional ao contrário dos países do Velho Mundo como Portugal. Deveu-se apenas às economias de escala que praticam, ou por outro lado a projectos mais consistentes dos Governos e das empresas desse países?

Obrigado e um abraço,
_________________
rlp

www.artmeetsbacchus.blogspot.com
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mlpaiva



Registrado: Quarta-Feira, 30 de Outubro de 2002
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MensagemEnviada: Qui Mar 27, 2008 11:31 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro João Nicolau de Almeida,

O meu apreço por todo o seu trabalho e seus frutos, bem como pela excelência da entrevista.

As minhas questões:

1) Acha que Portugal deveria orientar a sua produção vinícola para vinhos premium e super premium, susceptíveis de serem exportados, únicos capazes de poderem competir, pela diferença, no mercado externo?

2) Neste caso, sabendo que o que está dentro da garrafa não é tudo, como contornar as questões decorrentes da ausência ou ineficiência do marketing, da imagem do país, da insuficiente capacidade financeira, etc.

3) Portugal tem mais facilidades ou mais dificuldades pelo facto de estar inserido na UE, em que a maioria dos países influentes são produtores de vinho?

4) A promoção dos nossos vinhos a reboque do vinho do porto tem vantagens reais ou é ilusão?


Cordiais Saudações,

Luís Paiva
_________________
Luís Paiva

Never increase, beyond what is necessary, the number of entities required to explain anything.
William of Ockham (1285-1349), Luís Paiva (1950-20??) Snakeman
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Sex Mar 28, 2008 12:10 am    Assunto: Responder com Citação

Caro Engenheiro João Nicolau de Almeida,

Espero que mantenha o folgo inicial porque, depois de uma primeira abordagem aos vinhos tranquilos, não podia deixar de fazer uma pequena incursão pelos vinhos generosos.

Tenho como adquirido que uma simples publicação (refiro-me à tão badalada capa da Wine Spectator de Dezembro de 1997), ao conferir o título de "Wines of the Year" a dois Porto Vintage, acabou por interferir com o perfil clássico desses vinhos, moldando-os ao gosto de um mercado emergente. Na prática, sinto que muitos dos actuais Vintage apresentam-se menos estruturados, mais redondos, mais frutados, menos marcados pela força dos taninos. Em suma, mais "óbvios" e bebíveis... em tenra idade. Em contrapartida, ainda ontem em Windsor, o protocolo optou por um Vintage de 1977.

1- Qual é a sua posição face a estas duas perspectivas, aparentemente antagónicas? Deve prevalecer o prazer mediático "made in USA"? Ou devemos continuar a louvar a vertente "mais serena e ponderada" da Velha Albion?

2- Na actualidade, deverá o parâmetro "longevidade" perder peso no contexto da análise organoléptica dos Porto Vintage?

3- Imagine que no contexto de uma "prova cega" é confrontado com 10 Vintage novos. Que atributos considera cruciais para diferenciar o "supra-sumo"... do resto?

4- Dos lançamentos mais recentes, confesso que gostei muito do Ramos Pinto Vintage 2004 e do Ramos Pinto Quinta de Ervamoira Vintage 2005. Porque são vinhos diferentes (é essa a minha opinião) gostaria de saber como os definiria?

5- E já agora... três Portos absolutamente sublimes?

Um grande abraço e... até já!

Pedro
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Spice Girl



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MensagemEnviada: Sex Mar 28, 2008 12:30 am    Assunto: Responder com Citação

Caro João Nicolau de Almeida

O Tiago e o Pedro já fizeram as honras da casa, mas quero também agradecer-lhe ter aceite este nosso desafio, assim como a sua participação nesta entrevista de que estou a gostar muito.

Ainda não tinha tido oportunidade de lhe pôr algumas questões, apesar de estar a acompanhar a entrevista, mas aqui estou hoje para isso.
A leitura diária deste fórum deu para me aperceber do muito que há para saber e da complexidade que existe em todos os aspectos da produção e consumo do vinho. Porém, devo dizer-lhe que os meus conhecimentos sobre vinho são menos do que básicos. Leia as minhas questões tendo isto em conta.

1 - Li, no texto introdutório da entrevista, que em paralelo com a sua actividade principal tem leccionado nas universidades de Bordéus e Davies.
Porque não também em Portugal?

2 – Já disse numa das respostas que a Universidade de Trás-os-Montes já foi um grande avanço na Enologia em Portugal mas que não evoluíu no sentido moderno, em que as universidades têm que estar muito mais perto da realidade das empresas e das suas necessidades.
Penso que este é em geral um problema do ensino. Mas esta adaptação parece-me um processo difícil e relativamente lento, ainda para mais considerando todo o processo de mudança que tem decorrido nos últimos anos nas universidades portuguesas.
Para além deste aspecto, ou mesmo considerando-o, como compara o ensino da enologia em Portugal com o das universidades em que lecciona e conhece?

3 - Pensa que programas como o Erasmus, que permitem aos estudantes fazer parte do seu curso numa universidade noutro país, podem ser um factor de enriquecimento e evolução?

4 - Como é, e como considera que seria desejável que fosse, a ligação entre a indústria de vinhos e a comunidade científica em Portugal?

5 – Ao longo de três décadas a fazer vinho, teve certamente oportunidade de se aperceber também da evolução das características do consumidor. Como a caracteriza?
É gratificante trabalhar hoje para o consumidor português? Ou seja, o nível de conhecimentos e a sensibilidade permite-lhe compreender o que lhe quer transmitir com os seus vinhos?

6 - Diz numa das suas respostas:
Citação:
Será que a cultura dos vinhos velhos vai acabar? Espero que não!

Pensa que numa época, como esta em que vivemos, em que se vive essencialmente o presente, com uma grande mobilidade (em termos físicos e da vida em geral), caracterizada pela busca do prazer imediato e pela impaciência e a busca da novidade, e em que, para além disto, os espaços são cada vez menores e mais caros (nas habitações e no comércio), a cultura dos vinhos velhos têm alguma hipótese? (A não ser, claro, para alguns consumidores com características especiais.)

7 - Qual é a sua opinião quanto à forma como os vinhos são tratados na restauração e à sua ligação à comida?
Tenho-me apercebido cada vez mais que raras são as pessoas com competências sólidas em ambas as áreas (sólidos e líquidos). Como optimizar as coisas?

8 - Neste momento cada vez são mais comuns menus com "wine pairing". Acha uma boa opção?
_________________
"Inquisitiveness was a key feature." Heston Blumenthal
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ramospinto



Registrado: Segunda-Feira, 24 de Março de 2008
Mensagens: 24

MensagemEnviada: Sex Mar 28, 2008 10:18 am    Assunto: Responder com Citação

Caro Rui L. Pereira,

Rui Lourenço Pereira escreveu:
- A existência do Museu em Ervamoira tem contribuído para a afirmação da Ramos Pinto no panorama nacional e internacional? Para mim o projecto é mais do que justificado, mas será que o consumidor em geral sabe da existência do mesmo?


A existência do Museu de Ervamoira nao pode ser considerada só por si. A Ramos Pinto, fundada em 1880 pelo meu Tio Bisavô Adriano Ramos Pinto, destacou-se logo desde o início pela sua propaganda ao mais alto nível cultural, a nível mundial.
Todo este património delegado fez com que abríssemos um museu em Gaia para exibição de todos estes valores.
Este espírito cultural tem sido devidamente preservado, de tal forma que passa pelos pilares de desenvolvimento da Ramos Pinto. Assim, os principais parâmetros são:
.Cultura da Casa Ramos Pinto
.Produção Própria
O Museu de Ervamoira é uma consequência desta política integrada no desenvolvimento do Parque Arqueológico. Assim, contribuímos para o desenvolvimento local e seguramente internacional.
Quanto ao consumidor, é evidente que esta mensagem não chega a todos, apesar da nossa comunicação constante.
Não podemos aflorar este tema cultural sem termos a noção de que o nosso mercado alvo é um nicho de alta gama e, neste sentido, este esforço é bem recebido e dá os seus resultados, não imediatos, mas de boa imagem.

Rui Lourenço Pereira escreveu:
- Defendo a ideia que para afirmar o vinho de mesa português a nível internacional deve haver, para além de outras coisas, uma alteração nos rótulos - Portugal, Região e Marca por ordem de grandeza, e nas regiões - somos tão pequenos e temos tantas regiões vinícolas. Qual a sua opinião sobre este asssunto?


Penso que Portugal, Região e Marca deve ser mais do que suficiente para pôr no rótulo (fora o ano, claro!).
Agora, em relação às inúmeras regiões, se se pudessem aglomerar algumas com condições idênticas, seria excelente para as regiões e para os consumidores. O consumidor não tem muito tempo para andar nas buscas.

Rui Lourenço Pereira escreveu:
- Como é que países do Novo Mundo, como a Austrália, África do Sul, Chile, Argentina e Califórnia, se conseguiram afirmar tão depressa no panorama vínico internacional ao contrário dos países do Velho Mundo como Portugal. Deveu-se apenas às economias de escala que praticam, ou por outro lado a projectos mais consistentes dos Governos e das empresas desse países?


Portugal esteve a dormir durante muito tempo. Só nos últimos 5 / 10 anos (?) é que começou a perceber que, se não fizesse algo, ninguém mais o faria por ele.
Assim aconteceu também na vinha e no vinho. Desde já, foi um atraso em relação ao Novo Mundo.
Depois as nossas disponibilidades financeiras são muito pequenas em relação a estes mundos novos, mas ainda pior, o pouco que temos tem sido dispersado com politiquices dos organismos oficiais, lançando foguetes isolados, sem resultados práticos. Felizmente, nos últimos tempos, tem havido mais senso e cuidado nesta área. Não podemos gastar o nosso dinheiro à toa !!!...

Um abraço,
João Nicolau de Almeida
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ramospinto



Registrado: Segunda-Feira, 24 de Março de 2008
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MensagemEnviada: Sex Mar 28, 2008 10:44 am    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Paiva,

mlpaiva escreveu:
1) Acha que Portugal deveria orientar a sua produção vinícola para vinhos premium e super premium, susceptíveis de serem exportados, únicos capazes de poderem competir, pela diferença, no mercado externo?


Acho, com certeza, que a nossa vocação vínica pelas nossas características deve ser dirigida fundamentalmente para os vinhos premium e super premium. Caso contrário, teremos uma dificuldade acrescida ao nível da competição.

mlpaiva escreveu:
2) Neste caso, sabendo que o que está dentro da garrafa não é tudo, como contornar as questões decorrentes da ausência ou ineficiência do marketing, da imagem do país, da insuficiente capacidade financeira, etc.


É verdade que o facto de ter um vinho bom não chega. A situação do sector vínico mudou radicalmente. Inicialmente, era o vinho que decidia as acções do mercado, mas agora é o mercado que decide as acções do vinho.
Tendo em conta esta realidade, ao fazer um projecto vínico temos que primeiro pensar nas vendas do mercado e organizá-las. Depois, lançamo-nos para a produção.
A imagem do País já esteve pior do que está agora. Penso que, a partir de 2004/5, o mercado estrangeiro começou a considerar os nossos vinhos.

mlpaiva escreveu:
3) Portugal tem mais facilidades ou mais dificuldades pelo facto de estar inserido na UE, em que a maioria dos países influentes são produtores de vinho?


O facto de estarmos na UE tem, com certeza, as suas vantagens, quanto mais não seja pelos subsídios financeiros à produção, ao marketing e à promoção. Em seguida, colocamo-nos no velho mundo, o que dá um estatuto de respeito.
Em contrapartida, toda a burocracia europeia são tiros contínuos nos pés, fazendo com que o novo mundo avance com mais facilidade do que nós.

mlpaiva escreveu:
4) A promoção dos nossos vinhos a reboque do vinho do porto tem vantagens reais ou é ilusão?


Não há dúvida de que o Vinho do Porto é um nome de peso e garantia de qualidade mas, se o que apresentarmos não estiver ao mesmo nível, não valerá de nada a menção Porto, a não ser para desprestigiar a própria nação.

Um abraço,
João Nicolau de Almeida
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Tiago Teles



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MensagemEnviada: Sex Mar 28, 2008 11:08 am    Assunto: Responder com Citação

João Nicolau de Almeida,

Já entrámos no último dia de perguntas e, como vem sendo hábito, as questões chovem nesta recta final! Diria que é um sintoma de terroir português! Very Happy

Para fechar as minhas interrogações, irei divergir um pouco, centrando-me em algumas questões de mercado mais gerais, algumas delas já aproximadas dentro de outros contextos, e finalmente noutras questões mais “ligeiras”.

18- Notei algum receio com o perfil adoptado por alguns vinhos modernos, digamos, exemplares mais sobre maduros e prontinhos a consumir desde os primeiros anos de vida. Qual é a razão que leva o mercado a seguir este caminho? O mercado tem sempre razão?

19- Pensa que os vinhos actuais no Douro e noutras regiões portuguesas perderam algum carácter imprevisto, algumas contradições que em tempos faziam deles vinhos especiais, vinhos com identidade? Estarão os vinhos hoje mais iguais entre si? Ou ganharam simplesmente em coerência e inteligência mantendo as suas diferenças? É possível confidenciar-nos alguns vinhos com identidade produzidos em Portugal?

20- A tradição refere um estado de espírito e não um simples gesto isolado. Ainda existem traços ou espaço para sentimentos de tradição na enologia moderna regida por uma forte concorrência? Existem no Douro práticas ou observações herdadas dos pais e avós? Poderia deixar alguns exemplos recebidos do seu Pai?

21- Poderá um monocasta Touriga Nacional ser um grande vinho e ter pretensões à longevidade?

22- A Ramos Pinto não tem nenhum rosé na sua gama. É intencional? O que pensa deste tipo de vinho?

23- Nos 80 hectares plantados recentemente com castas nacionais, e deduzindo que a maioria será com as 5 castas tintas recomendadas, existe alguma surpresa nacional? Algum outsider que nos possa confidenciar?

24- E, finalmente, de forma simples, quais os adjectivos que utilizaria para descrever as “suas” castas recomendas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Francesa, Tinta Barroca e Tinto Cão. E qual o contributo de cada uma delas no lote?

Um abraço e um enorme obrigado, esperando não o ter maçado nem sobrecarregado demais, especialmente neste último dia…e não imagina o prazer que tenho ao ver (e beber), há várias semanas, o Duas Quintas 2005 como vinho do dia no Café Vavin em pleno centro de Paris! Parabéns à Ramos Pinto.
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ramospinto



Registrado: Segunda-Feira, 24 de Março de 2008
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MensagemEnviada: Sex Mar 28, 2008 11:16 am    Assunto: Responder com Citação

Caro Pedro Gomes,

Pedro Gomes escreveu:
1- Qual é a sua posição face a estas duas perspectivas, aparentemente antagónicas? Deve prevalecer o prazer mediático "made in USA"? Ou devemos continuar a louvar a vertente "mais serena e ponderada" da Velha Albion?


A questão que coloca é muito pertinente.
Em 1982 e 1983, tendo a Ramos Pinto castas já separadas em abundância, vindas da Quinta de Ervamoira, resolvemos então fazer um vintage moderno, ou seja, um vinho que se pudesse beber cedo, apreciando a concentração dos frutos frescos, mas também que pudesse envelhecer e bem.
Para isso, contribuem as escolhas das castas e também a extracção de taninos macios e estáveis, e não taninos adstringentes verdes e pouco estáveis. Quando lançámos os vinhos foram muito criticados, pois eram macios e, portanto, não iam envelhecer. A prova real está nos vinhos agora. Peço-lhe que compare os nossos 83, por exemplo, com os da concorrência !!!
Agora fazem-se vintages modernos. Acho que tem que haver uma adaptação ao mercado, assim como houve nas regiões mais famosas do Mundo - Bordéus, Borgonha, etc..
Mas atenção, não se pode cair no facilitismo. O Vintage, por definição, tem que ter capacidade para envelhecer. Portanto, não podemos fazer vinhos para terem boas notas no início e depois o envelhecimento não corresponder à apreciação inicial.
O mercado dos EUA, e em geral, deixaram de comprar vinhos para beber daqui a não sei quantos anos. Se lhes propusermos isso, então eles dizem para os voltarmos a contactar passados esses ditos anos...

Pedro Gomes escreveu:
2- Na actualidade, deverá o parâmetro "longevidade" perder peso no contexto da análise organoléptica dos Porto Vintage?


Não, a longevidade do Vintage não se poderá perder. Seria uma catástrofe para esta categoria especial e única.

Pedro Gomes escreveu:
3-Imagine que no contexto de uma "prova cega" é confrontado com 10 Vintage novos. Que atributos considera cruciais para diferenciar o "supra-sumo"... do resto?


Ele terá que ter um aroma frutado, intenso e profundo, com uma boca cheia de fruta harmoniosa, estrutura, volume, com taninos comestíveis, maduros, que não sequem, e sobretudo com um final excelente e prolongado. Para mim, a teoria de que um vintage novo não pode ter estes predicados está ultrapassada.

Pedro Gomes escreveu:
4- Dos lançamentos mais recentes, confesso que gostei muito do Ramos Pinto Vintage 2004 e do Ramos Pinto Quinta de Ervamoira Vintage 2005. Porque são vinhos diferentes (é essa a minha opinião) gostaria de saber como os definiria?


Quanto aos Vintages Ramos Pinto 2004 e 2005, são precisamente feitos neste contexto. Fico muito satisfeito que deles tenha gostado e oxalá que daqui a 30/40 anos possa ter o mesmo prazer em bebê-los.

Pedro Gomes escreveu:
5- E já agora... três Portos absolutamente sublimes?


.Bom Retiro 20 Anos
.National Noval
.Quinta do Vesúvio
.Taylors', etc ...

Há muitos!

Um abraço,
João Nicolau de Almeida
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Tiago Teles



Registrado: Segunda-Feira, 21 de Outubro de 2002
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MensagemEnviada: Sex Mar 28, 2008 11:19 am    Assunto: Responder com Citação

ramospinto escreveu:
Os rótulos já estão sobrecarregados, acho uma loucura o que já é exigido. Não compliquemos mais, o consumidor ou comprador pode ler o contra-rótulo e pedir mais informações, ir a todos os sites da internet, etc.


ramospinto escreveu:
Agora, em relação às inúmeras regiões, se se pudessem aglomerar algumas com condições idênticas, seria excelente para as regiões e para os consumidores. O consumidor não tem muito tempo para andar nas buscas.


Pensei que tinha fechado o texto por hoje mas…deixe-me terminar com uma pequena provocação. Razz Neste aspecto, e paradoxalmente, tenho uma opinião discordante, essencialmente na organização dos vinhos de topo (a Borgonha é um exemplo paradigmático. Os enófilos que optam por esta região são tentados a conhecerem-na bem! A sua enorme complexidade não afasta o consumidor, ao contrário, estimula-lhe a curiosidade!).

Na minha humilde opinião, quanto mais facilitamos a vida ao consumidor mais ele se abandona à normalidade e menos se interessa pela identidade dos vinhos, pelo terroir. Mais ele se torna previsível, ou seja, útil ao consenso global…e à uniformização de gostos! O consumidor tem o dever de se esforçar por descobrir e viver os mistérios do vinho e da sua cultura. Mas, para isso, também é necessário que o vinho mostre essa identidade e cultura. No fundo, a sobrevivência da identidade cultural do vinho depende da aptidão dessas grandes maiorias para fazerem escolhas de modo realista à luz de uma informação sólida e plural. Reduzir e simplificar a informação, reduz também o esforço de interpretação.

Desculpe esta pequena passagem e encara-a como um pequeno diálogo. Um forte abraço e um enorme agradecimento. A entrevista foi, e está a ser, um grandíssimo sucesso, além de extremamente enriquecedora!
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