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Entrevista com José Mendonça (Quinta dos Cozinheiros-Beiras)
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José Mndonça



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 28

MensagemEnviada: Qua Mar 05, 2008 2:49 am    Assunto: Responder com Citação

Spice Girl escreveu:

2 - Os seus vinhos são referidos como vinhos muito originais, únicos, irreverentes...
Sempre achei que em relação à comida (mais o meu "negócio"... Very Happy ) se pode dizer "diz-me o que comes, dir-te-ei como és".
Numa cozinha criativa acho que muito da personalidade de quem cozinha transparece no prato.
Na sua opinião acontece o mesmo com o vinho?


Certamente que sim! Acho que essa realidade se aplica totalmente ao conceito de “terroir” quando falamos de vinho. Na minha opinião o “terroir” de um vinho é composto pela casta, pela geologia, pelo clima… mas também pelo Homem.
O Homem, neste contexto, deve ser entendido não só pela sua cultura, mas também pelo seu carácter. Isto é, há influência do meio que o rodeia e que o ajudou a construir o seu conhecimento, mas também da sua personalidade, do seu modo particular de ver e fazer as coisas…
A mesma vinha, trabalhada por dois homens diferentes, dará certamente dois vinhos diferentes! Felizmente!
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José Mndonça



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 28

MensagemEnviada: Qua Mar 05, 2008 2:55 am    Assunto: Responder com Citação

Spice Girl escreveu:

3 - É gratificante trabalhar para o consumidor português? Ou seja o nível de conhecimentos e a sensibilidade permite-lhe compreender o que lhe quer transmitir com os seus vinhos?

Ora aqui está a pergunta mais difícil da noite…
Quando fala do consumidor português, está a referir-se à generalidade ou à particularidade que conhece e aprecia bom vinho?
De facto, ao fim de alguns anos a ouvir reacções, chego à conclusão que é mais uma questão de sensibilidade do que de conhecimento.
Já vi reconhecidos conhecedores que não se dignam a conceder um minuto de reflexão àquilo que estão a provar, assim como já vi proclamados ignorantes a dizer que “não é doce, cheira bem, deixa a boca limpa, e fica aqui qualquer coisa que…não sei, gramei à brava!”
Eu não sei se quero transmitir grandes mensagens com o vinho que faço… Quero apenas que seja limpo, que não tenha defeitos, e que estimule nas pessoas um sentimento qualquer.
Às vezes pode ser de repulsa, por não gostarem da jovem adstringência, ou da acidez em jejum.
Outras pode ser de surpresa e de prazer pela gastronomilidade (esta saiu agora mesmo… Very Happy ), pelo “punch”, pela frescura, por qualquer coisa… que às vezes não se explica, mas que se sente.
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Tiago Teles



Registrado: Segunda-Feira, 21 de Outubro de 2002
Mensagens: 2137
Localização: Portugal

MensagemEnviada: Qua Mar 05, 2008 11:11 am    Assunto: Responder com Citação

José Mendonça,

Aproveito para te deixar mais algumas perguntas, não vás recuperar o fôlego! Laughing Mas agradeço-te, desde já, o enorme contributo qualitativo das tuas respostas. Esta temática em redor da Baga e da singularidade da Quinta dos Cozinheiros é apaixonante porque concentra e responde a muitos dos dilemas actuais do vinho português!

7- A tua participação em grandes certames como a Vinexpo permite ter uma visão mais alargada da indústria do vinho. Que ensinamentos e benefícios retiras dessas experiências? Sentes alguma diferença de dinamismo entre os expositores nacionais e os concorrentes internacionais? Quais as principais diferenças entre Portugal e o resto do mundo? Quais as diferenças entre Novo e Velho Mundo?

8- Nas viagens que tens feito a outras regiões vinícolas no mundo, como Bordéus, Borgonha e Napa Valley, que ensinamentos tens retirado? Nesses périplos quais são os vinhos que mais marcaram a tua experiência de prova? Quais os estilos que mais aprecias? Quais os perfis que te emocionam?

9- Qual é a tua visão do vinho português? Quais as regiões e castas que mais aprecias? Qual pensas ser o caminho a seguir pelos vinhos portugueses nos mercados nacionais e internacionais? Podemos pensar esses dois mercados de forma independente?

10- Ainda hoje recordo o magistral sistema de frio que havias “engendrado” na tua adega. De que forma a tua formação na área científica, neste caso na engenharia mecânica, te ajuda na tua actividade de produtor? Por outro lado, na Quinta dos Cozinheiros “acredita-se que a máquina, apesar de necessária e indispensável em certos trabalhos, não é ainda capaz de escolher a melhor vara, de eliminar o lançamento inútil, de separar o cacho que não vingará, no fundo, de optimizar a colheita em termos qualitativos e sanitários”. De que forma a tua formação na engenharia mecânica colide com a visão da “incapacidade da máquina”?

11- Fala-nos também um pouco das duas últimas colheitas na Quinta dos Cozinheiros, 2006 e 2007. Como correram, qual a qualidade esperada? Poderemos esperar alguma novidade?

12- Infelizmente os teus vinhos têm uma distribuição limitada em Portugal, como já referiu o Luís Paiva. A menor participação dos foristas nesta entrevista também acaba por reflectir essa situação. Esperemos que esta entrevista ajude a estimular a curiosidade do consumidor e que o acesso aos vinhos da Quinta dos Cozinheiros se faça com mais facilidade! Deixo a última questão do dia. O teu Rosé consegue alcançar uma expressão também ela muito singular e refrescante. Dos poucos Rosés no mercado nacional que me ficam na memória. De que forma olhas e trabalhas este produto vocacionado para a época do verão?
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Spice Girl



Registrado: Quarta-Feira, 4 de Janeiro de 2006
Mensagens: 6060
Localização: Lisboa

MensagemEnviada: Qui Mar 06, 2008 1:01 am    Assunto: Responder com Citação

Olá

Estou a gostar muito de ler as suas respostas. E estou a ficar com vontade de provar os seus vinhos. Mas preciso de ajuda!

1 - Quais me aconselha para ficar com uma boa visão?

2 - Sendo vinhos muito gastronómicos, preciso ainda de um conselho adicional. Que pratos sugere para cada um deles?
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José Mndonça



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 28

MensagemEnviada: Qui Mar 06, 2008 1:12 am    Assunto: Responder com Citação

Tiago Teles escreveu:

1- Reforçando um pouco uma das perguntas do Pedro (4), ainda recentemente, Bruno Prats no 2008 Climate Change and Wine Conference em Barcelona, defendeu que o aquecimento global tem sido benéfico para os vinhos de Bordéus, uma região mais próxima da influência atlântica. Por outro lado, a sequência de três colheitas mais quentes de 2003, 2004 e 2005 foram benéficas para a expressividade dos vinhos tintos da Quinta dos Cozinheiros. Qual é a tua compreensão destas três colheitas? Estando próximo do mar sentes que o clima na zona da Figueira da Foz se tem alterado nos últimos anos? De que forma isso pode ajudar os vinhos da região?

Amigo Tiago, carísimo,
Eu é que te agradeço estes momentos de prazer.
Infelizmente intermitentes, porque esta coisa não pára, e o tempo para os prazeres vai sendo cada vez mais raro e precioso…
Eu espero que o Bruno Prats esteja enganado e que a melhoria verificada nas últimas colheitas se deva a uma melhor mestria sobre as dificuldades do nosso clima do que a reais alterações climatéricas. Por favor, não nos tirem este clima!
Estou obviamente a gracejar, mas no fundo, no fundo, estou mais preocupado do que esperançado com estas alterações climáticas. Que já reconheci anteriormente.
Do que tenho medo é que à troca de obter 5 ou 6 óptimas colheitas por década, ao invés das 2 ou 3 que obtemos actualmente, venhamos a perder o carácter e a diferença que nos distingue actualmente…
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José Mndonça



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Fevereiro de 2008
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MensagemEnviada: Qui Mar 06, 2008 1:25 am    Assunto: Responder com Citação

Tiago Teles escreveu:

2- Cumpridas 10 colheitas qual é o balanço que fazes da experiência Quinta dos Cozinheiros? Quais os vinhos que mais te marcaram neste trajecto? Quais os projectos para o futuro?

Um dos momentos que mais me marcou foi quando num almoço de família, em finais de 1998, ou talvez início de 1999, servi uma amostra de Maria Gomes e verifiquei a diferença que fazia das anteriores colheitas. A mesma casta, a mesma vinha, o mesmo clima podiam de facto dar coisas tão diferentes… Nessa altura, atribuí a diferença às tecnologias utilizadas.
Complementarmente o outro vinho que me marcou, foi sem dúvida o Utopia. Nós andávamos a observar a vinha da Vila Nova de onde saía, e sai, o Poeirinho. Verificámos diferenças numa determinada zona da vinha: cachos mais pequenos, mais concentrados, mais sãos… Porque não vinificar à parte?
Quando me dei conta do reconhecimento geral, apercebi-me que afinal não era só a tecnologia, mas uma infinidade de pequenos, mas fundamentais, pormenores que permitiam a realização de um vinho daqueles.
Depois destas experiências, e falo apenas naquelas que mais me marcaram, o balanço que faço terá necessariamente de ser muito positivo.
O investimento, em dinheiro, em trabalho, em diplomacia, em esclarecimento… está longe de ter chegado ao fim. Assim, penso que o projecto mais importante no imediato é, com os escassos meios ao nosso dispor, fazer chegar estes vinhos ao consumidor final.
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José Mndonça



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MensagemEnviada: Qui Mar 06, 2008 1:32 am    Assunto: Responder com Citação

Tiago Teles escreveu:

3- Recordo, na visita que fiz à Quinta dos Cozinheiros em 2003, a tua esperança no resultado da nova vinha de Touriga Nacional. Em 2004 engarrafaste o primeiro monocasta. Estás contente com os resultados? Pensas que esta casta poderá ser um ingrediente indispensável no lote com a casta Baga? Qual é a tua visão desta casta e do seu sucesso recente?

Eu acho que a Touriga Nacional é uma casta extraordinária desde os seus aspectos viticulturais (apesar de melindrosa e trabalhosa) até ao resultado final, quando transformada em vinho. Daí o consenso que se criou à sua volta e que é, na minha opinião, inteiramente justificado.
Penso, no entanto, que quer aqui, como no resto do país, funciona melhor em lote do que a solo. E dá-se muito bem com a Baga, embora roubando a esta uma boa parte do seu carácter.
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José Mndonça



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MensagemEnviada: Qui Mar 06, 2008 11:25 am    Assunto: Responder com Citação

Tiago Teles escreveu:

4- Não escondo um amor especial pela marca Lagar e pelo seu estilo mais rústico e, por vezes, artístico. O seu género evoca-me o temperamento de um artista excêntrico que não gosta de dar satisfações à sociedade. Um vinho que vai buscar parte do seu carácter a castas improváveis como a Água Santa e a Tinta Pinheira ou mesmo a Tinta Roriz. É tua intenção continuar a explorar o carácter singular conferido por estas castas?

Mais do que o carácter particular desta ou daquela casta, o Lagar transmite um conjunto de estímulos que são o reflexo da vinha de onde é tirado, a Vinha dos Cozinheiros. É uma vinha muito antiga, com as castas misturadas (principalmente Baga, Água Santa e Tinta Pinheira e talvez mais umas 10 de difícil identificação). A minha intenção é manter a singularidade deste perfil por muitos mais anos. Por isso a tenho retanchado anualmente para nunca a deixar morrer.
Por outro lado, e atendendo a que tem mais de 60 anos, plantei uma outra vinha, nas proximidades, em solos idênticos, (procurando a maior semelhança possível de terroir), tendo utilizado as mesmas castas. Chamei-lhe Vinha do Pio.
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José Mndonça



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 28

MensagemEnviada: Qui Mar 06, 2008 11:27 am    Assunto: Responder com Citação

Tiago Teles escreveu:

5- Numa época onde a doçura e a suavidade extrema marcam pontos na memória colectiva do consumidor, de que forma reage o consumidor nacional à originalidade dos teus vinhos? Nas minhas viagens pelo mundo sempre levei algumas garrafas da Quinta dos Cozinheiros para dar a provar a “outros” palatos. Recordo, em todas as experiências, México e França, uma reacção bastante positiva ao perfil Cozinheiros. Intrigante. Quais são os mercados externos onde os teus vinhos têm mais aceitação?

Eu reconheço a dificuldade de fazer passar essa originalidade. Por isso não adianta muito enviar os meus vinhos a concursos ou a provas colectivas.
Se dividirmos os vinhos disponíveis no mercado em dois grandes grupos, os vinhos sociais e os vinhos gastronómicos, o meu vinho enquadra-se a 100% nos vinhos gastronómicos. Não são vinhos para acompanhar conversa, são vinhos para acompanhar comida.
Daí que, os mercados onde o vinho é consumido à refeição são mais adequados do que naqueles em que o vinho é consumido fora delas. O mercado belga, por exemplo, dá uma enorme importância à gastronomia e é, sem dúvida, o maior consumidor de Lagar.
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José Mndonça



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 28

MensagemEnviada: Qui Mar 06, 2008 11:49 am    Assunto: Responder com Citação

Tiago Teles escreveu:

6- A Quinta dos Cozinheiros utiliza tratamentos na vinha através do Sistema de Produção Integrada. Na adega encontramos tradição e inovação como os antigos lagares que ainda utilizas para vinificação. O respeito e a compreensão da natureza são valores que defendes. Inovas dentro do respeito pelo passado e pela natureza. Estás convicto que essa é a melhor forma de colocar em evidência o Terroir da Quinta dos Cozinheiros? Qual é o papel do homem nesta relação com a natureza? Como vives algumas tendências enológicas recentes que tendem a uniformizar o perfil dos vinhos modernos?

A Quinta dos Cozinheiros está a completar um ciclo que passou nos primeiros 5 anos pela Protecção Integrada e nos 5 seguintes pela Produção Integrada. Isto tem a ver com o período contratual a que me submeti com a associação que dá o apoio técnico a estas práticas.
Completados estes 10 anos, está a chegar o momento de dar o salto em frente e certificar as vinhas em agricultura biológica.
Penso que é este tipo de agricultura, em conjunto com as práticas enológicas na adega, que vão permitir a continuidade da afirmação do carácter único da Quinta dos Cozinheiros.
Como já foi aflorado anteriormente, eu evito a uniformização das práticas quer viticulturais quer enológicas, na tentativa de fugir a essa standardização a que assistimos actualmente.
Se uma vinha for regada e alimentada artificialmente com os mesmos adubos, tende inevitavelmente a dar resultados próximos de uma outra que recorra aos mesmos métodos.
Se a um vinho forem aplicados os mesmos produtos enológicos que são utilizados pela generalidade das adegas, vai também tender para o mesmo perfil.
E, no final, estaremos perante uma enorme massa de vinhos iguais, ou pelo menos muito parecidos.
E isso seria uma pena…
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José Mndonça



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 28

MensagemEnviada: Qui Mar 06, 2008 12:31 pm    Assunto: Responder com Citação

alentejano escreveu:

A minha pergunta tem a ver com as diferenças que se encontram na oferta de certos vinhos e certas marcas no interior de Portugal.

Para mim como Alentejano posso dizer que entre tantos outros, os vinhos da Quinta dos Cozinheiros é daqueles que apenas vejo quando vou a eventos dedicados ao vinho realizados em Lisboa e que de outra maneira raramente me aparecem à frente, mesmo em provas com amigos dedicados à causa.

Pergunto se de facto a falta de interesse é dos produtores em apostarem no consumidor do interior ou é do consumidor do interior que não se interessa nem se pode vir a interessar visto que a oferta é inexistente ?


Caro Amigo,
As suas perguntas são muitíssimo pertinentes e espelham bem um problema que emerge dos recentes fenómenos que estão ligados à globalização, por um lado, e à pulverização da produção vínica, materializada pela multiplicação de novos produtores que surgem diariamente no mercado, por outro.
Devo desde já dar a mão à palmatória no que diz respeito ao caso particular da Quinta dos Cozinheiros. Eu reconheço a minha falta de formação em marketing e mais ainda a minha falta de sentido e tacto comercial… Mea culpa…
Mas o problema é mais vasto e não passa só pelo problema particular da Quinta dos Cozinheiros.
A globalização faz com que os grandes e mais eficazes distribuidores de vinho concentrem as suas energias e recursos nos vinhos que, pela dimensão das suas produções, já são conhecidos dos consumidores, antes mesmo da sua chegada ao ponto de venda. (As excepções que existem não fazem mais do que confirmar esta regra).
Numa lógica puramente economicista esses são os vinhos que vale a pena distribuir porque permitem o volume (o que, mesmo com margens reduzidas, permite um maior lucro), e porque já estão vendidos pela campanha publicitária que antecedeu a sua chegada ao mercado.
Ora, os pequenos produtores, como nós, não têm meios (nem volume) para concorrerem nesse mercado.
A nossa lógica tem de ser outra que passará por uma promoção menos visível, mas que pode até ser mais directa, como por exemplo a divulgação e a venda por internet, ou se todos chegássemos a um acordo, a constituição de uma distribuidora especializada neste tipo de vinhos. A enorme entropia de opiniões, de divergência de interesses, de visões sobre o problema, tem impedido que se chegue a um acordo para a fundação de uma estrutura que permitisse colmatar este problema.
Andei recentemente envolvido num projecto que visava precisamente a génese de uma estrutura que de uma forma progressiva e gradual chegasse a esse objectivo. Foi o projecto Quintas de Prestígio, que reunia Vitivinicultores-Engarradores associados da Federação Nacional dos Viticultores Independentes (Fenavi), produtores de vinho que pelo seu estatuto só estão autorizados a produzir vinho a partir das suas próprias uvas. Havia um objectivo comum, que reunia gente com o mesmo estatuto, havia portanto uma coerência que fazia todo o sentido.
Abortou, infelizmente, porque talvez fosse demasiado abrangente (havia já cerca de 120 produtores que mostravam interesse no projecto), e não se conseguiu chegar a um acordo sobre as bases programáticas do projecto…
Talvez começando com um grupo mais pequeno e mais coeso consigamos um dia chegar a algum lado.
E nessa altura, estou certo, chegaremos ao interior com outra eficácia.
Entretanto, só através de venda directa…
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Tiago Teles



Registrado: Segunda-Feira, 21 de Outubro de 2002
Mensagens: 2137
Localização: Portugal

MensagemEnviada: Qui Mar 06, 2008 1:47 pm    Assunto: Responder com Citação

Completamos hoje o último dia disponível para colocar perguntas. Não para responder…eh, eh! Confused Eu sei que o tempo para responder é sempre reduzido mas, devido à qualidade das respostas, vou deixar mais uns acrescentos!

José Mndonça escreveu:
Eu reconheço a dificuldade de fazer passar essa originalidade. Por isso não adianta muito enviar os meus vinhos a concursos ou a provas colectivas.

Parabéns por colocares o dedo na ferida. Resolver as injustiças para com determinados vinhos, resolver este grande problema da crítica moderna é, a meu ver, um dos seus grandes desafios na actualidade. Estou convencido que esses painéis matam a expressão e a identidade dos vinhos por esse mundo fora. Estão a uniformizar o padrão, o modelo que vence e impressiona numa análise redutora no tempo e no contexto. Estão a beneficiar os estilos poderosos e a doçura. Estão a crucificar a alma dos vinhos e os seus atributos gastronómicos.

José Mndonça escreveu:
Penso, no entanto, que quer aqui, como no resto do país, funciona melhor em lote do que a solo. E dá-se muito bem com a Baga, embora roubando a esta uma boa parte do seu carácter.

13- É caso para te perguntar, que vinhos pretendes então compor com a Touriga Nacional? A nova marca que pretendes lançar, o Tinto dos Cozinheiros 2005, junta a Baga e a Touriga Nacional? Além da Vinha do Pio e das parcelas com Touriga Nacional, tens outras novas castas e/ou vinhas plantadas, nos tintos e nos brancos? Resultados? Nos brancos já pensaste na Alvarinho? Faria sentido? Faço a pergunta porque, por exemplo, é uma casta que tem dado resultados interessantes na Quinta dos Loridos situada na Estremadura atlântica.

14- Alguns dos teus melhores brancos não dispensam a passagem por madeira. Diria que ganham progressivamente muito do seu carácter ao longo da fermentação e dessa passagem por madeira. Qual é a importância da madeira nos teus brancos? De que forma encaras esta relação?

15- Estando a Quinta dos Cozinheiros muito perto do mar, pensas que o Enoturismo poderia ser uma mais valia importante e singular no teu projecto? Tens planos nessa área?

16- Por fim, para não te importunar mais Crying or Very sad , e na certeza de ter esquecido muitas perguntas, qual é a sensação de estar isolado, diria, desterrado na Figueira da Foz? Que sentimentos te comunicam os vinhos que produzes?

Um forte abraço e um enorme obrigado pelos teus textos extremamente enriquecedores e didácticos.
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José Mndonça



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Fevereiro de 2008
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MensagemEnviada: Qui Mar 06, 2008 3:50 pm    Assunto: Responder com Citação

Tiago Teles escreveu:

7- A tua participação em grandes certames como a Vinexpo permite ter uma visão mais alargada da indústria do vinho. Que ensinamentos e benefícios retiras dessas experiências? Sentes alguma diferença de dinamismo entre os expositores nacionais e os concorrentes internacionais? Quais as principais diferenças entre Portugal e o resto do mundo? Quais as diferenças entre Novo e Velho Mundo?

A participação recente nesses eventos tem sido no lugar de expositor e o tempo utilizado tem de ser fundamentalmente no local de trabalho, atrás de um balcão Smile . Mas é claro que, de fugida, se vai sempre observando e comentando o que se passa à nossa volta. De facto a minha visão sobre o que se vai passando no mundo do vinho vem mais da leitura da imprensa internacional especializada neste tema, e das conversas e experiências que vou tendo com os diversos importadores.
Cheguei também à conclusão que, tal como com o que se passa com os distribuidores, também não é em feiras do tipo Vinexpo que os pequenos produtores como a Quinta dos Cozinheiros poderão resolver o seu problema de comercialização. Penso que deverá ser antes em acções mais dirigidas e vocacionadas para um público (mercado) que esteja à partida à procura do nosso tipo de vinhos.
Por isso vou participar no dia 31 de Março em Paris na 1ª Feira Profissional da CEVI (Confederação Europeia dos Viticultores Independentes). Quem lá vai (pelo menos é isto que está previsto) já sabe o que vai encontrar. Os profissionais convidados foram esclarecidos à partida que se trata de uma feira de viticultores independentes, portanto com produções limitadas e não massificadas.

Quanto à postura dos expositores nacionais nessas grandes feiras, como sabes, costuma ser enquadrada pela ViniPortugal. No meu entender, desde que houve um desligamento mais consequente do ICEP e o tratamento da imagem e apresentação ficou por conta exclusiva da ViniPortugal, deu-se um enorme salto qualitativo. Os stands de Portugal são agora muito mais atraentes, apelativos e eficazes. Mas isso não é tudo. A imagem do vinho português continua a ser aquela que chega à prateleira do consumidor, e essa prateleira continua a ter menos importância que a prateleira onde se encontra o vinho espanhol, argentino, australiano etc. Para nos fazermos notar teremos de pagar (em publicidade, em espaço na prateleira, ou de outra maneira qualquer). Mas aí esbarramos com a clássica fraqueza portuguesa: não há dimensão…
A solução deste problema, de falta de notoriedade, poderá estar a ser resolvido com o trabalho de “back stage” que a ViniPortugal tem vindo a desenvolver. E já se diz que Portugal poderá vir a ser brevemente o NBT (Next Big Thing). Espero que sim.
A minha única preocupação é a de que, ao criar uma determinada imagem para vinho português, todos os produtores (pequenos, grandes, viticultores, cooperativas, caves…) fiquem todos colados a essa imagem. Quando, por exemplo, falamos de vinho chileno já sabemos que tipo de vinho e de produtores iremos encontrar. Não estamos à espera que nos apareça um pequeno vitivinicultor-engarrafador…
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José Mndonça



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MensagemEnviada: Qui Mar 06, 2008 5:56 pm    Assunto: Responder com Citação

Tiago Teles escreveu:

8- Nas viagens que tens feito a outras regiões vinícolas no mundo, como Bordéus, Borgonha e Napa Valley, que ensinamentos tens retirado? Nesses périplos quais são os vinhos que mais marcaram a tua experiência de prova? Quais os estilos que mais aprecias? Quais os perfis que te emocionam?

O vinho que mais me impressionou até hoje, ao ponto de me pôr de joelhos, foi um Criots Batard Montrachet de 1991 do Domaine Leroy, feita pela Lalou Bize-Leroy. É um vinho feito à maneira clássica, a partir (se calhar) da casta Chardonnay, saído de 2 filas da vinha Les Criots, na zona de Batârd Montrachet a meio caminho entre Chassagne e Puligny Montrachet, na Côte de Beaune, Côte d’Or, Borgonha… o delírio!
Em termos genéricos gosto muito, naturalmente da Borgonha, quer brancos quer tintos, de Chablis (isto é uma redundância porque Chablis também é Borgonha, mas tu percebes a nuance…), do Médoc e de St. Estèphe em particular, de Pomerol. Mas já bebi excelentes vinhos tintos da Africa do Sul (Tinta Barroca…!), da Califórnia (Santa Cruz Mountains), do Oregon, da Nova Zelandia…
De um modo geral eu gosto de vinhos bons!... Sendo vinho bom aquele que não apresenta defeitos e tem algumas virtudes. (Sendo ainda que, para mim, um excesso de açúcar residual é um defeito Smile )
Hoje em dia o que me impressiona num vinho é que ele seja limpo e bem feito!
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Spice Girl



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MensagemEnviada: Sex Mar 07, 2008 12:00 am    Assunto: Responder com Citação

Tenho que aproveitar... o tempo para as perguntas está quase a acabar!

Disse, numa das respostas ao Tiago:
Citação:

Se dividirmos os vinhos disponíveis no mercado em dois grandes grupos, os vinhos sociais e os vinhos gastronómicos, o meu vinho enquadra-se a 100% nos vinhos gastronómicos. Não são vinhos para acompanhar conversa, são vinhos para acompanhar comida.


Assim sendo, já alguma vez desafiou um (ou mesmo vários) Chefs para criarem alguns pratos para os seus vinhos?

Mais umas questões:

Qual é a sua opinião quanto à forma como os vinhos são tratados na restauração e à sua ligação à comida?
Tenho-me apercebido cada vez mais que raras são as pessoas com competências sólidas em ambas as áreas (sólidos e líquidos). Como optimizar as coisas?

Neste momento cada vez são mais comuns menus com "wine pairing". Acha uma boa opção?
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