NovaCrítica-vinho.com - Índice do Fórum NovaCrítica-vinho.com
Forum de Discussão
 
 FAQFAQ   PesquisarPesquisar   MembrosMembros   GruposGrupos   RegistrarRegistrar 
 PerfilPerfil   Entrar e ver Mensagens ParticularesEntrar e ver Mensagens Particulares   EntrarEntrar 

Entrevista c/ Filipa T. da Costa e Vasco P. Garcia :Bacalhôa
Ir à página Anterior  1, 2, 3, 4, 5
 
Novo Tópico   Este Tópico está Bloqueado. Você não pode editar mensagens ou responder    NovaCrítica-vinho.com - Índice do Fórum -> Entrevistas On-line
Exibir mensagem anterior :: Exibir próxima mensagem  
Autor Mensagem
filmar77



Registrado: Segunda-Feira, 18 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 25

MensagemEnviada: Sex Fev 22, 2008 12:13 am    Assunto: Responder com Citação

alentejano escreveu:
Gostaria de colocar a seguinte questão:

Tendo em conta que o Tinto da Ânfora Grande Escolha fazia parte do portefólio da JP Vinhos, está nos planos da Bacalhoa, lançar novo vinho de topo no Alentejo, criado digamos de raiz ?


Caro enófilo alentejano,
Eu vila franquense de gema, 50% beirã e 50% saloia atrevo-me a responder-lhe. Desculpe a brincadeira mas achei graça à sua assinatura!
A Bacalhoa Vinhos é a mesma empresa que a JP Vinhos. Nós só mudamos de nome e o tinto da Anfora Grande Escolha foi criado de raiz.
Claro que pojectos novos estão sempre na manga mas estão no segredo dos Deuses!!!
Saudações VilaFranquenses
Filipa
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail
alentejano



Registrado: Domingo, 27 de Outubro de 2002
Mensagens: 4168
Localização: Vila Viçosa

MensagemEnviada: Sex Fev 22, 2008 12:35 am    Assunto: Responder com Citação

Penso que não me expliquei bem, a minha pergunta ia na perspectiva se mesmo com esse vinho já existente havia outros projectos na manga... mas vejo que obtive a resposta desejada Cool

Os meus agradecimentos
_________________
João Pedro Carvalho
Alentejo, uma paixão.
http://copod3.blogspot.com
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail Visitar a homepage do Usuário MSN Messenger
red red wine



Registrado: Terça-Feira, 23 de Outubro de 2007
Mensagens: 25

MensagemEnviada: Sex Fev 22, 2008 2:56 am    Assunto: Responder com Citação

Caros Filipa e Vasco,

Novamente me delicio com estas entrevistas; e aprendo imenso.

Alguns dos foristas já sabem que tenho um projecto para abrir um wine bar/loja gourmet em Roterdão ainda este Verão. Neste âmbito realizamos uma prova de vinhos portugueses naquela cidade no dia 10 de Fevereiro. O desconhecimento em relação aos nossos vinhos é quase total, mesmo para enófilos; algumas pessoas associam-nos ainda a vinhos difíceis de beber.

Porém demos 15 vinhos à prova e solicitámos a avaliação de cada um deles e as coisas correram mesmo muito bem. Óptimas reacções, satisfação evidente e surpresa. Numa prova com cerca de 40 pessoas encomendaram-nos um total de 100 garrafas quando o objectivo, deixamos bem claro, era fazer um pequeno estudo de mercado para saber o que achavam dos vinhos.... e dos queijos, enchidos, fumados...

Ficamos com a sensação de que é essencial continuar a promover provas, que desta forma cultivamos o gosto pelo nosso vinho e que ele se multiplica depois com os amigos. Pensamos realizar outra já em Março, por sugestão de administrador de uma multinacional holandesa, e no wine bar vamos continuar a promovê-las com regularidade.

Desculpe a extensão do texto. As perguntas são as seguintes:
1. O que pensam do trabalho de promoção dos vinhos portugueses fora de portas?
2. Se há problema de quem é a responsabilidade: das instituições, dos produtores, dos distribuidores...?
3. Como é que sente o pulsar do consumidor europeu em relação aos vinhos portugueses? E dos holandeses em particular?
4. Concorda que as castas autóctones são o nosso grande trunfo mas exigem um intenso e sério trabalho prévio de promoção da diferença?

Obrigado pela paciência para este escrito tardio.

Cpts,
José Ribeiro
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail
alentejano



Registrado: Domingo, 27 de Outubro de 2002
Mensagens: 4168
Localização: Vila Viçosa

MensagemEnviada: Sex Fev 22, 2008 4:01 am    Assunto: Responder com Citação

A promoção e divulgação dos vinhos ocorre como seria de esperar, mais nos grandes centros urbanos e com tendência a que esta mesma atenção seja focada no litoral deixando o consumidor do interior quase como esquecido ou ignorado.
Em conversa com alguns produtores, lá se diz em tom de brincadeira que no Alentejo só se bebe vinho do Alentejo e que não vale a pena divulgar lá os vinhos das zonas que eles representam.

O enófilo do interior de Portugal é constantemente ignorado pelos produtores, é raro ter acesso a grandes vinhos que não Alentejo pela minha zona de residência. Se por exemplo o acesso ao Quinta da Bacalhoa ou mesmo ao Má Partilha ainda se consegue via Hiper, basta querer um Palácio da Bacalhoa ou um Moscatel para a coisa se complicar e muito.

Tive o prazer de organizar no ano passado em Vila Viçosa um evento dedicado ao vinho (Vinum Callipole) que irá ter continuação este ano, contei com a presença de 15 produtores que representaram quase todas as regiões de Portugal. O interesse mostrado durante a prova dos vinhos vindos de outras regiões foi elevado por parte dos visitantes. O problema surgia sempre quando se perguntava onde se podia comprar aquele vinho... a resposta já se deve estar a calcular.

Até que ponto os produtores não estão enganados neste aspecto e não apostam num mercado onde o consumidor como todos os outros gosta de conhecer e ter acesso a vinhos diferentes ?
Quem falha neste campo, será o consumidor que não demonstra interesse nos vinhos de outras regiões ou será o produtor das outras regiões que pensa de maneira errada e não aposta nos consumidores do interior ?
_________________
João Pedro Carvalho
Alentejo, uma paixão.
http://copod3.blogspot.com
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail Visitar a homepage do Usuário MSN Messenger
Tiago Teles



Registrado: Segunda-Feira, 21 de Outubro de 2002
Mensagens: 2137
Localização: Portugal

MensagemEnviada: Sex Fev 22, 2008 10:40 am    Assunto: Responder com Citação

Findo o tempo para a colocação de perguntas, não de respostas Very Happy , queria desde já agradecer a disponibilidade da Filipa e do Vasco para participarem neste desafio e agradecer-lhes o contributo qualitativo que trouxeram aos diversos temas discutidos. Um enorme obrigado.
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail Visitar a homepage do Usuário
filmar77



Registrado: Segunda-Feira, 18 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 25

MensagemEnviada: Sex Fev 22, 2008 11:28 am    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caros Filipa e Vasco,

5- E porque estou com a mão na massa, admitindo um final de refeição idílico, que propõem para "casar" com a complexidade aromática/gustativa do Moscatel de Setúbal Superior 20 Anos 1983?
Pedro


Bom dia Pedro,
Também agradeço o privilégio que me deram de poder dar a minha opinião neste fórum cheio de presenças interessadas e enriquecedoras !
Desde ontem que ando a pensar na sobremesa! Eu penso que o vinho é tão rico que é dificil!!!
Para mim ele fica optimamente com um café!!! e um charuto para os "politicamente não correctos"...
Talvez um bolo ou doce de chocolate preto, forte e não muito doce... ou qualquer doce de laranja amarga? ou um biscoito não muito doce de amêndoa?
Uma das coisas que sinto que falta em Portugal é sabermos vender os nossos produtos regionais... É tão agradável viajar pelos mundo e encontrar propostas gastronómicas regionais que se completam!
Penso que França e Itália são os expoentes máximos neste assunto!!! Nos restaurantes Italianos encontrei várias vezes propostas de sobremesas com vinhos (por ex. um biscoito para mergulhar num cálice com um vinho abafado).
Se conseguir a sobremesa perfeita informe-nos.
Quanto às outras perguntas sobre Espumantes deixo para o meu amigo e colega Vasco para mim guru destes vinhos.
Obrigada
Filipa
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail
Vascopg



Registrado: Terça-Feira, 19 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 9

MensagemEnviada: Dom Fev 24, 2008 6:56 pm    Assunto: Responder com Citação

Tiago Teles escreveu:
O tempo para colocar perguntas aproxima-se do fim, mas queria apenas agradecer mais uma vez a disponibilidade da Filipa Tomaz da Costa e do Vasco Penha Garcia que ainda vão encontrando espaço para responder no meio do imenso trabalho que deve existir diariamente num produtor com a dimensão da Bacalhôa Vinhos. Deixo porventura as últimas questões:

Arrow A tradição no Alentejo também já é antiga. No Site Internet surge referida a data de 1979. As três quintas localizam-se nas zonas de Portalegre, Borba e Arraiolos. Quais as potencialidades e particularidades de cada uma destas propriedades? Os lotes finais misturam esses três terroir?
As três localizações são bem diferenciadoras dos comportamentos das diversas castas. A vinha da Tinoca, localizada em Arronches (na proximidade de Portalegre) mais fresca durante o ciclo vegetativo, dá-nos maturações mais tardias - aí normalmente se elegem os melhores vinhos de Alicante Bouschet e Trincadeira. A nossa vinha de Borba, a Herdade de Sta Marta, apresenta solos xistosos que combinados com diferentes exposições (o terreno é muito ondulado) permitem diferentes expressões muito boas em todas as castas aí plantadas – destacam-se na consistência qualitativa o Aragonez e Touriga Nacional. Em Arraiolos, nos solos muito pobres da vinha da Herdade das Ânforas o Cabernet Sauvignon atinge os melhores resultados.
Os vinhos produzidos na nossa adega de Arraiolos combinam estas várias origens.
Acredito que nas condições climáticas do Alentejo a possibilidade de lotear castas e sub-regiões é muito vantajosa para o equilíbrio/elegância dos seus vinhos.

Arrow Falem-nos um pouco das duas últimas colheitas, 2006 e 2007. Como correram, qual a qualidade esperada? Poderemos esperar alguma novidade?
2006 foi das colheitas mais complicadas dos últimos anos - isto ainda mais no Alentejo onde durante a vindima choveu mais do que no Minho!
A possibilidade de conseguirmos colher bem cedo grande parte das uvas permitiu produzir vinhos muito bons.
2007 foi a colheita em que se obtiveram vinhos com uma qualidade média muito elevada com vinhos de qualidade excepcional. Não se encontram vinhos maus. De uma maneira geral tudo tem uma “fruta” óptima e uma cor não vista há alguns anos.

Arrow Por último, para o Vasco Penha Garcia, que entre 1987/89 esteve na Martini & Rossi, em Pessione, Itália. Fale-nos um pouco desta bebida mundialmente famosa? Como é que ela é realmente elaborada?


Embora tenha estado envolvido na produção dos vinhos espumantes da Martini&Rossi, tive a oportunidade de conhecer os vermutes e os “amaros”. São bebidas feitas à base de vinho fortificado que é aromatizado com uma mistura muito complexa de extractos vegetais. Da sala onde era feita a mistura dessas “plantas” (folhas, cascas, frutos, etc), não esqueço a mistura indescritível de aromas fortíssimos e os inúmeros sacos de diferentes tamanhos, anónimos devido ao secretismo das formulações. Aqui se vive também a noção de “terroir”, não do vinho base mas das plantas que o aromatizam - soube que a origem precisa de muitas destas “essências” é a mesma há mais de 100 anos.
Já agora…em Portugal os poucos vinhos aromatizados que existiam passaram de moda, quem ainda recorda os quinados do Porto?
Tenho sorte de ainda poder saborear um curioso vermute feito com vinho do Porto oferecido por um amigo que trabalhou numa casa dessa região feito com velhas reservas de tawnys (a garrafa está a acabar…se leres esta mensagem vê lá se ainda tens alguma…).
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail
Vascopg



Registrado: Terça-Feira, 19 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 9

MensagemEnviada: Dom Fev 24, 2008 7:00 pm    Assunto: Responder com Citação

Tiago Teles escreveu:
O tempo para colocar perguntas aproxima-se do fim, mas queria apenas agradecer mais uma vez a disponibilidade da Filipa Tomaz da Costa e do Vasco Penha Garcia que ainda vão encontrando espaço para responder no meio do imenso trabalho que deve existir diariamente num produtor com a dimensão da Bacalhôa Vinhos. Deixo porventura as últimas questões:

Arrow A tradição no Alentejo também já é antiga. No Site Internet surge referida a data de 1979. As três quintas localizam-se nas zonas de Portalegre, Borba e Arraiolos. Quais as potencialidades e particularidades de cada uma destas propriedades? Os lotes finais misturam esses três terroir?

Arrow Falem-nos um pouco das duas últimas colheitas, 2006 e 2007. Como correram, qual a qualidade esperada? Poderemos esperar alguma novidade?

Arrow Por último, para o Vasco Penha Garcia, que entre 1987/89 esteve na Martini & Rossi, em Pessione, Itália. Fale-nos um pouco desta bebida mundialmente famosa? Como é que ela é realmente elaborada?



Cá vão as respostas das outras duas...tive aqui alguns problemas a editar...fruto da ignorância foristica.

1ºpergunta:
As três localizações são bem diferenciadoras dos comportamentos das diversas castas. A vinha da Tinoca, localizada em Arronches (na proximidade de Portalegre) mais fresca durante o ciclo vegetativo, dá-nos maturações mais tardias - aí normalmente se elegem os melhores vinhos de Alicante Bouschet e Trincadeira. A nossa vinha de Borba, a Herdade de Sta Marta, apresenta solos xistosos que combinados com diferentes exposições (o terreno é muito ondulado) permitem diferentes expressões muito boas em todas as castas aí plantadas – destacam-se na consistência qualitativa o Aragonez e Touriga Nacional. Em Arraiolos, nos solos muito pobres da vinha da Herdade das Ânforas o Cabernet Sauvignon atinge os melhores resultados.
Os vinhos produzidos na nossa adega de Arraiolos combinam estas várias origens.
Acredito que nas condições climáticas do Alentejo a possibilidade de lotear castas e sub-regiões é muito vantajosa para o equilíbrio/elegância dos seus vinhos.

2ªpergunta
2006 foi das colheitas mais complicadas dos últimos anos - isto ainda mais no Alentejo onde durante a vindima choveu mais do que no Minho!
A possibilidade de conseguirmos colher bem cedo grande parte das uvas permitiu produzir vinhos muito bons.
2007 foi a colheita em que se obtiveram vinhos com uma qualidade média muito elevada com vinhos de qualidade excepcional. Não se encontram vinhos maus. De uma maneira geral tudo tem uma “fruta” óptima e uma cor não vista há alguns anos.


Embora tenha estado envolvido na produção dos vinhos espumantes da Martini&Rossi, tive a oportunidade de conhecer os vermutes e os “amaros”. São bebidas feitas à base de vinho fortificado que é aromatizado com uma mistura muito complexa de extractos vegetais. Da sala onde era feita a mistura dessas “plantas” (folhas, cascas, frutos, etc), não esqueço a mistura indescritível de aromas fortíssimos e os inúmeros sacos de diferentes tamanhos, anónimos devido ao secretismo das formulações. Aqui se vive também a noção de “terroir”, não do vinho base mas das plantas que o aromatizam - soube que a origem precisa de muitas destas “essências” é a mesma há mais de 100 anos.
Já agora…em Portugal os poucos vinhos aromatizados que existiam passaram de moda, quem ainda recorda os quinados do Porto?
Tenho sorte de ainda poder saborear um curioso vermute feito com vinho do Porto oferecido por um amigo que trabalhou numa casa dessa região feito com velhas reservas de tawnys (a garrafa está a acabar…se leres esta mensagem vê lá se ainda tens alguma…).
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail
Vascopg



Registrado: Terça-Feira, 19 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 9

MensagemEnviada: Dom Fev 24, 2008 7:28 pm    Assunto: Responder com Citação

Tiago Teles escreveu:
Tiago Teles escreveu:
Filipa Tomaz da Costa e Vasco Penha Garcia,
Arrow Qual pensam ser o caminho a seguir pelos vinhos portugueses nos mercados nacionais e internacionais? Podemos pensar esses dois mercados de forma independente? Quais são, no vosso entender, as regiões vinícolas portuguesas mais preparadas para responder oportuna e adequadamente aos sinais emitidos por esses mercados competitivos? De que forma devemos idealizar o perfil dos nossos vinhos para, no futuro, nos impormos nesses mercados? Qual o espaço para a identidade de cada região neste mercado global?


filmar77 escreveu:
Tiago,
Relativamente à 3ª questão penso que as regiões têm que se desenvolver, mas são as empresas que têm que estar preparadas para responder aos diversos mercados, com a sua facilidade na mudança, adaptação a novas realidades e exigências apesar do vinho ser um produto que responde sempre a uma origem. Claro que, ao apresentarmos produtos de qualidade e diferentes teremos sempre penso alguma vantagem. Esta pergunta é um pouco dificil. Ajude-me o Tiago!

Obrigada
Filipa


Filipa,

Na minha humilde opinião, o problema não está na naturalidade de um vinho ter de responder sempre a uma origem. O problema está na valorização e aceitação dos vinhos que respondem sim a esta pergunta. E, hoje em dia, seja por uniformização de castas ou de práticas enológicas, ou ainda pela necessidade de resposta ao mercado global, ao mercado que procura um pouco de doçura e de madeira, poucos são os vinhos portugueses de qualidade que autenticamente respondem à sua origem.

Estou convicto que a identidade e o carácter dos vinhos terão de voltar ao plano central, ao plano diferenciador. E isso só poderá ser alcançado com total respeito pelo Terroir, pelas pessoas e pela história de cada local. Se o domínio técnico permite alcançar um bom vinho com maior naturalidade, se os vinhos se assemelham cada vez mais, o conceito qualitativo no futuro deverá forçosamente orientar-se no sentido da diversidade e do carácter. Este paradoxo impele a necessidade de distinguir através da temática do Terroir. Por isso não me espanta, por exemplo, que o Moscatel de Setúbal comece de novo a recuperar alguma projecção. Diria mesmo que é um produto com enorme futuro (indo mais longe, quem arrancou todo o Moscatel Roxo irá porventura experimentar um sentimento de arrependimento no futuro...).

Mas a temática é complexa. Terminando, de novo na minha humilde opinião, compete ao homem exaltar dois aspectos fundamentais do vinho. Dum lado a sua grande variedade de gosto segundo as castas, o Terroir, a cultura e as tradições. No outro, o seu dom particular para envelhecer, para se modificar. Mas esta temática daria pano para mangas. Muito do que defendo vem escrito nos diversos artigos de opinião que podem ser lidos aqui: http://www.novacritica-vinho.com/artigosopiniao.php.

Espero não ter complicado. Um abraço,


Esta coisa de....fazer um vinho que responda ao mercado vs. ofereçer ao mercado um vinho e esperar a sua aceitação... é das questões mais polémicas do nosso sector.
Simplificando diria que para vinhos de grande consumo e de preço baixo/médio não há outra saída do que fazer o que o freguês pretende. Para os vinhos de preço médio/alto e de topo existe uma maior liberdade individual... é uma oferta que responde a procuras mais segmentadas... é aqui que se constroem verdadeiras imagens de marca, de região, de país. A França ditou as castas e os estilos que dominam o mercado de há 100 anos para cá. O Novo Mundo desenvolveu, nos tintos o estilo bordalês adicionando-lhe concentração e "doçura", nos brancos o da Borgonha adicionando igualmente concentração. Estes são hoje os estilos globalizados.
Quem sabe o que se segue?
As soluções globalizadas são de pouca dura para alguns intervenientes: os que forem mais competitivos em preço ganham e os outros desaparecem. Vamos lá a ver o que sucederá num futuro próximo a alguns países do novo mundo (não estou a agoirar...).
Oferecer produtos fora deste gosto globalizado é uma oportunidade para colher frutos mais tarde de forma mais duradoura.
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail
Tiago Teles



Registrado: Segunda-Feira, 21 de Outubro de 2002
Mensagens: 2137
Localização: Portugal

MensagemEnviada: Seg Fev 25, 2008 10:50 am    Assunto: Responder com Citação

Vascopg escreveu:
As soluções globalizadas são de pouca dura para alguns intervenientes: os que forem mais competitivos em preço ganham e os outros desaparecem.


Vasco Garcia,

Mais uma vez obrigadíssimo pelo contributo que deram à entrevista. Efectivamente, essa sua frase é bem esclarecedora dos perigos de uma globalização sem regras.

Os pequenos têm por regra duas opção: ou se tornam grandes ou desaparecem do mercado. Na prática, sem o seu fundo de capital operante, encontram-se em grave desvantagem. Em concorrência com os grandes, perdem a sua existência como produtores independentes. Por outro lado, os que se tornam grandes são compelidos a viver do volume e de preços competitivos. Vivem de marcas que tenham escoamento e que se assumem como abastecedores fiáveis do mercado global. O contrário do Terroir e da identidade. Mas também estou convicto que o mercado irá reagir à banalidade. Assim o espero, assim o esperamos para que Portugal possa encontrar um lugar privilegiado no panorama internacional.

Um abraço e, caso se sintam à vontade, voltem mais vezes. No espaço do Vinho são discutidos temas interessantes também para produtores.
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail Visitar a homepage do Usuário
Vascopg



Registrado: Terça-Feira, 19 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 9

MensagemEnviada: Seg Fev 25, 2008 11:31 am    Assunto: Responder com Citação

Spice Girl escreveu:
Vasco, obrigada por ter aceite o nosso desafio e pela sua participação.

O seu post sobre os Moscatéis deu-me vontade de sair e ir comprar uma garrafa. Very Happy

Tanto quanto me tenho apercebido na produção de vinho há uma mistura de diversos factores a considerar, de que se podem destacar a criatividade individual (arte), os aspectos científicos e técnicos (ciência) e os aspectos económicos. Relativamente aos dois primeiros aspectos (arte e ciência), há certamente uma ligação forte entre eles. Imagino que para produzir vinhos com qualidade e personalidade, ou seja para que o "artista" consiga expressar o que pretende, tem que dispor das condições técnicas necessárias e dominá-las com algum à vontade. Como pensa que se posiciona a indústria de vinhos portuguesa, nesta época de grande inovação tecnológica, por comparação com a mesma indústria noutros países?
Como é, e como considera que seria desejável que fosse, a ligação entre a indústria de vinhos e a comunidade científica em Portugal?

Um dos assuntos que tem sido discutido frequentemente aqui no fórum tem sido o dos vedantes usados no vinho, e em particular a utilização ou não de rolhas de cortiça. São discussões geralmente com uma grande carga emotiva. Qual é o seu ponto de vista em relação a este assunto?


Paulina, as minhas desculpas pelo meu silêncio...hoje tentarei responder.

Relativamente à inovação tecnológica nas adegas não me parece que estejamos mal comparativamente a outros países. Fizeram-se grandes investimentos nos últimos anos que vieram melhorar muito as condições de vinificação. Muito terá ainda que ser feito na inovação da viticultura, engarrafamento e distribuição.

Não podemos ignorar que muito tem sido feito para que a comunidade científica possa responder aos problemas da indústria do vinho. No entanto a sua resposta não é ainda satisfatória, suponho que acima de tudo por falta de financiamento. Um organismo financiado/controlado pela indústria (como o AWRI australiano) mais direccionado para uma investigação aplicada poderia complementar as universidades que se poderiam concentrar na investigação essencial.

Discutir vedantes não envolve só aspectos técnico-enológicos, daí a emotividade que sempre acompanha este assunto. No final o consumidor pode rejeitar a garrafa que vai comprar pelo tipo de vedante usado...
Técnicamente falando há espaço para a rolha de cortiça e para os outros vedantes. Para vinhos de consumo rápido após engarrafamento não existirá nenhuma desvantagem em utilizar vedantes alternativos à rolha. Discutem-se os fenómenos de trocas gasosas que se observam em garrafas c/rolha que serão vantajosos para o chamado "envelhecimento em garrafa". Há quem defenda que estes fenómenos poderão ser negativos para vinhos brancos - ou seja os vinhos brancos conservarão melhor as suas qualidades sem qualquer tipo de troca gasosa. Observam-se problemas de "redução" em determinados vinhos quando é usado o "screw cap".
Entendo que caso a caso poderá existir uma solução técnica ideal de vedante diferente.
Em Portugal ainda é difícil de apresentar garrafas com vedantes alternativos à rolha... Na Nova Zelândia certos produtores anunciam à porta das suas adegas que estamos a entrar numa zona "cork free"....
Tudo está a mudar e as mudanças em termos de hábitos de consumo chegarão a Portugal.
Só não quero é que desapareçam os montados......
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail
Vascopg



Registrado: Terça-Feira, 19 de Fevereiro de 2008
Mensagens: 9

MensagemEnviada: Seg Fev 25, 2008 11:51 am    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caros Filipa e Vasco,

Não me levem a mal (espero que ainda reste algum folgo) mas, também eu vou voltar "à carga".

A Bacalhôa Vinhos de Portugal continua a manter, e ainda bem, a sua aposta no segmento dos espumantes, por via da Quinta dos Loridos, no Bombarral.

1- Qual a vossa opinião quanto ao nível médio dos espumantes nacionais?

2- Quais os atributos essenciais para que um espumante se demarque da mediania?

3- Será que a casta Chardonnay apresenta atributos óbvios que justifiquem a elaboração de "Blanc de Blancs", em Portugal? Ou tudo não passa de um mimetismo comercial face à realidade francesa?

4- É possível revelarem algumas sugestões gastronómicas que funcionem particularmente bem com o vosso "Loridos"? Incluindo o "Branco de Brancas"...

5- E porque estou com a mão na massa, admitindo um final de refeição idílico, que propõem para "casar" com a complexidade aromática/gustativa do Moscatel de Setúbal Superior 20 Anos 1983?

Um grande agraço e... até já!

Pedro


1- O nível médio é bom, e isto é dito por muitos importadores que paralelamente aos produtos Portugueses importam Cavas e Champagnes.
Melhoraram imenso nos ultimos anos.

2- Para mim o salto qualitativo essencial são as sensações de boca (claro que aromáticamente não poderão existir defeitos):
Fineza de espuma que na boca transmite cremosidade e não a sensação agressiva e picante de uma bolha grossa ( a que eu chamo a sensação "água do castelo" ... sem desprimor para a rainha das sodas de Portugal...);
Complexidade de sabores... não basta fruta e flores.. temos que ter pão torrado, frutos secos;
Suavidade/frescura... ou seja terá que existir uma acidez que dê frescura mas que não seja agressiva...(nos champagnes este é um dos testes mais fáceis..)

3- O que é que podemos fazer quando a casta Chardonnay dá óptimos espumantes? Não os produzir porque nos acusam de imitadores?

4- Tantas... as saladas...os pratos de carne assada...os peixes cozidos e grelhados...os morangos....ou nada para começar uma refeição.

5- Concordo inteiramente com a Filipa...
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail
Spice Girl



Registrado: Quarta-Feira, 4 de Janeiro de 2006
Mensagens: 6060
Localização: Lisboa

MensagemEnviada: Seg Fev 25, 2008 12:43 pm    Assunto: Responder com Citação

Filipa e Vasco

Muito obrigada pela vossa disponibilidade e pela vossa contribuição para este espaço.

Os diversos testemunhos e opiniões transmitidos nestas entrevistas permitem-nos uma visão diferente - mais completa, profunda e personalizadada do que nos oferecem. Isso só pode ser enriquecedeor e tornar-nos melhores enófilos e gastrónomos.
_________________
"Inquisitiveness was a key feature." Heston Blumenthal
Voltar ao Topo
Ver o perfil de Usuários Enviar Mensagem Particular Enviar E-mail
Mostrar os tópicos anteriores:   
Novo Tópico   Este Tópico está Bloqueado. Você não pode editar mensagens ou responder    NovaCrítica-vinho.com - Índice do Fórum -> Entrevistas On-line Todos os horários são GMT + 1 Hora
Ir à página Anterior  1, 2, 3, 4, 5
Página 5 de 5

 
Ir para:  
Enviar Mensagens Novas: Proibido.
Responder Tópicos Proibido
Editar Mensagens: Proibido.
Excluir Mensagens: Proibido.
Votar em Enquetes: Proibido.


Powered by phpBB © 2001, 2005 phpBB Group
Traduzido por: Suporte phpBB