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Entrevista com Luís Sottomayor (Ferreirinha/Sogrape)
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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MensagemEnviada: Sáb Nov 24, 2012 4:27 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Serão áreas/temáticas com que não lida directamente mas, nem por isso abdico em auscultar a sua opinião relativamente ao rumo que a Sogrape procura trilhar. Façamos, então, uma pequena incursão nesse universo.

Nos últimos anos, e depois de consolidada a sua presença nas mais importantes regiões nacionais, a Sogrape apostou fortemente numa política de internacionalização, baseada numa sequência de aquisições deveras ambiciosa: Chateau Los Boldos, no Vale de Rapel, no Chile, Finca Flichman, em Mendoza, na Argentina, Framingham, em Marlborough, na Nova Zelândia, Santiago Ruiz, na região de Rias Baixas, e Bodegas Lan, em Rioja, ambas em Espanha. É obra...!

24- Num período de crise económica quase global e, portanto, funcionando em contraciclo, a Sogrape encetou uma política de investimentos muito ambiciosa, em tudo semelhante àquela que levou Dona Antónia Adelaide Ferreira a tornar-se numa das grandes proprietárias do Douro vinhateiro.

Trata-se de uma mera coincidência ou está entranhado no código genético da empresa esta atitude, para alguns visionária, de fazer investimentos a médio/longo prazo?


25- Esta forte aposta na internacionalização da empresa vai parar por aqui ou é suposto que a política de investimentos da Sogrape chegue a outras paragens? Estou a pensar em França, Itália... e na China!

26- Por óbvias que possam ser as vantagens desta internacionalização, há sempre o risco de que os fundos disponíveis para investir no "seu" Douro possam sofrer alguns cortes. Não teme essa eventualidade?

27- A partilha de experiências entre gentes do mesmo ofício (enólogos, neste caso) constitui uma mais-valia para qualquer profissional. Presumo que o contacto com espaços, gentes e culturas diferenciados (que as empresas do universo Sogrape lhe permitem) tenha um forte impacto na sua forma de olhar o vinho. Nesse particular, lembra-se de algum episódio que o tenha marcado?

28- Diz-se, na poesia, que é o sonho que comanda a vida. Diz-se, na gestão, que é a ambição que comanda o sucesso. Acredita que o nome Sogrape possa converter-se numa World Brand?

29- Se é que consegue fazer tal exercício, como idealiza a Casa Ferreirinha em 2112?

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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MensagemEnviada: Sáb Nov 24, 2012 5:42 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Ainda antes de falarmos dos vinhos da Casa Ferreirinha, olhemos para algum do património fundiário da Sogrape, na região do Douro: Quinta da Leda, Quinta da Granja, Quinta do Porto, Quinta do Seixo, Quinta do Caedo... Como se diz em linguagem bolsista, uma carteira de títulos impressionante!

30- Ainda que conhecedores de vinhos, nem sempre o enófilo conhece os respectivos "berços". E alguns dos foristas/leitores deste espaço poderão enquadrar-se nesse perfil. Assim sendo, e por se tratar do centro nevrálgico da Sogrape no Douro, pedia-lhe que fizesse um pequeno "desenho" do que é a Leda enquanto quinta e, simultaneamente, como centro de vinificação.

31- Numa altura em que o Douro vinhateiro procura projectar a sua imagem enquanto património da Humanidade, o turismo em espaço rural (nas suas múltiplas vertentes) e, sobretudo, o enoturismo acabam por afirmar-se como vectores estratégicos de afirmação, expansão e/ou consolidação das empresas da região. Como está a Sogrape a actuar neste palco? Temos protagonista...? Conte-nos tudo.

32- Sente que as características geológicas, aliadas a certas particularidades edafoclimáticas, mostram a maior propensão de algumas quintas para a produção de uvas para fortificação ou, em alternativa, à elaboração de vinhos tranquilos? Ou esta diferenciação só se processa a uma escala menor, ao nível de talhões?

33- No seu "Barca Velha - História de um Vinho", Ana Sofia Fonseca refere a dado momento, e passo a citar: António Braga e Luís Sottomayor empenham orgulhosos nas parcelas especiais, a chamada vinha de precisão.

Fale-nos um pouco destas parcelas especiais, desta vinha de precisão. Que destino é dado a essas uvas?


34- Os progressos na enologia levaram-nos às microvinificações. Será legítimo esperar que os avanços na vinha nos conduzam à nanoviticultura?

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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MensagemEnviada: Sáb Nov 24, 2012 6:54 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Eis-nos chegados ao mundo dos vinhos tranquilos da Casa Ferreirinha, uma realidade que conhece como ninguém.

Sou de uma geração que nasceu e cresceu no vinho tendo em mente um potefólio particularmente estável, assente nas marcas Esteva, Vinha Grande, Reserva Especial e Barca-Velha (as duas últimas em regime de alternância e, nem sempre com lançamento garantido).

A partir de meados dos anos 90, do século passado, as coisas mudaram e foi notório o esforço da empresa ao nível do branding: sem abdicar das marcas já existentes, recordo (peço desculpa por qualquer lapso) o aparecimento de:

1995 - Callabriga
1995 - Quinta da Leda Touriga Nacional
1997 - Quinta da Leda (lote)
2008 - Vinha da Capela branco (2 versões, com e sem madeira)
2008 - Antónia Adelaide Ferreira
2008 - Legado
2010 - Papa-Figos


E, assim sendo, gostaria de perguntar-lhe:

35- Perante um cenário de crise como aquele em que vivemos (provavelmente mais prolongado do que poderiamos imaginar), não teme que se torne difícil a gestão de um portefólio tão alargado?

36- Por muito inesperado que possa parecer, gostaria de manifestar-lhe a minha empatia pelo Callabriga. Contudo, não lho escondo, sinto que o mercado, por efeito psicológico ou desconhecimento, não tem o vinho em devida conta (mesmo admitindo que possa ser um sucesso comercial, o reconhecimento da sua qualidade fica aquém daquilo que o vinho merecia). Estou convencido que parte da explicação para esse facto se deve a um óbvio downgrade resultante do reposicionamento do vinho no universo de marcas da casa Ferreirinha.

Concorda com esta visão? E em caso afirmativo, como pensa ultrapassar este obstáculo?


37- Dizer que se gosta do Quinta da Leda é uma espécie de "déjà vu". Mais consensual é difícil.

Como interpreta tamanho sucesso? Por que razão o monovarietal Touriga Nacional acabou por converter-se em vinho de lote? Quais são as suas expectativas quanto à longevidade média do vinho?


38- A esmagadora maioria dos consumidores não conhece o projecto "Vinha da Capela", um novo branco da Casa Ferreirinha, nascido na colheita de 2008, e disponibilizado em duas versões (com e sem madeira).

O que é o vinho da Capela? Vamos ter novas edições deste branco? Irá manter-se a dupla versão, com e sem madeira?


39- Já no decurso de 2012, tive oportunidade de provar as duas versões desse branco e a minha preferência inclinou-se para a versão sem madeira (senti uma baunilha um pouco mais vincada na versão com estágio em barrica).

Acredita que, com o estágio e a evolução em garrafa, a fruta possa vir a compensar esse impacto inicial das aduelas?


Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes


Editado pela última vez por Pedro Gomes em Dom Nov 25, 2012 12:23 pm, num total de 2 vezes
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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MensagemEnviada: Sáb Nov 24, 2012 9:39 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Ainda no âmbito das novas marcas da Casa Ferreirinha, não consigo (nem quero) esconder-lhe a minha admiração perante o Antónia Adelaide Ferreira, um tinto nascido na colheita de 2008, que acaba de conhecer uma segunda versão, de 2009.

40- Quando provei (e bebi) pela primeira vez a colheita de 2008 o primeiro pensamento que me assolou o espírito foi estar a provar um Barca-Velha de tenra idade (2/3 anos). Aliás, se a memória não me atraiçoa, esse terá sido o tinto português que mais me impressionou no decurso de 2011.

O que é o Antónia Adelaide Ferrreira? O que o distingue do Quinta da Leda? E, em que difere dos hipotéticos Barca-Velha ou Reserva Especial (para lá do tempo de estágio em garrafa antes de ser lançado no mercado)?


41- Legado 2008? Infelizmente, não tive a oportunidade de provar. Sei apenas que se trata de um vinho tinto criado com o intuito de homenagear Fernando Guedes, patriarca da Sogrape e grande pioneiro no surto de internacionalização da empresa.

Ouvi falar em uvas da Quinta do Caedo. Ouvi falar em vinhas velhas. Ouvi falar em 3000 garrafas. O que pode partilhar connosco sobre este vinho? Estão na calha novas edições?


42- E, finalmente, o Papa-Figos 2010: um vinho muito bem arquitectado em termos de posicionamento/negócio, um tinto muito bem delineado em termos de vinificação e um vinho que, mais tarde ou mais cedo (digo eu) vai afirmar-se como um "porto seguro" na restauração.

Não teme que possa haver um fenómeno de canibalização com o Papa-Figos a substituir-se ao clássico Vinha Grande?


43- O Papa-Figos tem um preço recomendado de venda ao público francamente apelativo mas, a restauração insiste em ser "gulosa" e, à mesa, o consumidor é obrigado a desembolsar 16€ (cerca de 400% face ao preço recomendado de venda ao público). Que lhe apraz dizer sobre esta triste realidade?

44- Será que vamos conhecer uma versão branca do Papa-Figos? Podemos esperar um branco com posicionamento semelhante, ainda que mude o nome? Para quando?

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes


Editado pela última vez por Pedro Gomes em Dom Nov 25, 2012 12:35 am, num total de 1 vez
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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MensagemEnviada: Sáb Nov 24, 2012 11:20 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

E, aí está! Eis-nos chegados ao que todos ambicionam: a oportunidade rara de ouvi-lo falar sobre o Barca-Velha, o mais reputado e cobiçado vinho tinto português.

Haverá tanto para dissecar que o melhor é começar pelos primórdios, e recuar aos idos de 40 do século passado, altura em que Fernando Nicolau de Almeida dava os primeiros passos em direcção ao Olimpo.

Nessa época Fernando Nicolau de Ameida viajou por Rioja, pela Borgonha, por Itália, pela Alemanha... Encontrou no seu próprio pai, em J. Smith e em L. Atkinson algumas das suas grandes referências mas, terão sido Bordéus e o incontornável Émile Peynaud quem maior influência exerceu na sua postura/filosofia enológica.

45- Encara o Barca-Velha como um tinto de perfil bordalês?

Ao idealizar um grande vinho tinto português, a principal preocupação de Fernando Nicolau de Almeida foi o controlo das temperaturas de fermentação.

46- Por que muita gente não o sabe, ser-lhe-á possivel fazer uma breve descrição das soluções engenhosas que Fernando Nicolau de Almeida encontrou para ultrapassar essa adversidade?

47- Mais de meio século volvido e, seguramente que as coisas mudaram. Actualmente, qual é a sua maior preocupação tendo em vista uma busca incessante de qualidade para o Barca-Velha?

Num momento em que passam precisamente 60 anos sobre a colheita inaugural de Barca-Velha, constata-se que apenas 17 colheitas viram a luz do dia (1952, 1953, 1954, 1957, 1964, 1965, 1966, 1978, 1981, 1982, 1983, 1985, 1991, 1995, 1999, 2000 e 2004).

48- Só há relativamente pouco tempo se descobriu que a colheita inaugural de Barca-Velha remonta a 1952 (quando a ideia generalizada apontava para 1953). Existe alguma explicação para tal facto?

49- Admite que os progressos na área vitícola e os avanços no domínio enológico permitam que, de futuro, se tornem mais frequentes as edições de Barca-Velha? E poderá aumentar o número de garrafas por colheita?

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes


Editado pela última vez por Pedro Gomes em Dom Nov 25, 2012 7:00 pm, num total de 1 vez
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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MensagemEnviada: Dom Nov 25, 2012 6:27 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Em 1949, aquando de uma sua deslocação ao Douro, Émile Peynaud terá ficado francamente impressionado com um tinto que Fernando Nicolau de Almeida lhe deu a provar (da sua autoria, claro!). Consta que o forte estímulo do mestre terá sido decisivo para que três anos depois (1952) nascesse o Barca-Velha.

50- Confirma este episódio ou estamos já um pouco no domínio da especulação?

51- Tem conhecimento da existência de garrafas deste tinto (uma espécie de protótipo) nas caves da Casa Ferreirinha ou no espólio da Quinta do Vale Meão? Alguma vez provou esse vinho?

52- Sei que precisou de ir ao Brasil para conhecer as colheitas inaugurais de Barca-Velha. Eu, infelizmente, continuo sem as conhecer e, nesse sentido, pedia-lhe que deixasse algumas impressões gerais sobre essas "safras" da década de 50. Já passou o seu tempo? Encontram-se num momento óptimo de consumo? Podem prolongar o longo repouso em garrafa?
53- Quando olha para os dois extremos da cadeia (1952 e 2004), e dando o devido desconto face à idade dos vinhos, que mudanças encontra no perfil do Barca- Velha?

54- Até 1985 as colheitas de Barca-Velha surgiam com níveis alcoólicos de 12º-12,5º. Na década de 90 e nos primeiros anos deste século esses índices subiram para 13,5º. Não teme que esse acréscimo no teor de álcool possa beliscar o equilíbrio e a elegância do vinho?

Um grande abraço e até já!

Pedro Gomes


Editado pela última vez por Pedro Gomes em Seg Nov 26, 2012 11:49 pm, num total de 2 vezes
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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MensagemEnviada: Dom Nov 25, 2012 7:47 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Goste-se ou não da ideia, existe um enorme paralelismo entre Portugal, Espanha e Austrália (com jeitinho também se incluia o Chile) no que concerne a vinhos míticos... puros ícones! E, à ordem de chamada, na primeira linha perfilam-se os nomes Barca-Velha, Vega Sicilia e Grange (outrora com o epíteto Hermitage).

55- Essa imagem não sofre contestação em termos de mercado interno. Mas, quando olhamos para o mercado global, o Barca-Velha não alcança a mesma projecção que os vinhos supracitados. Concorda comigo? A que atribui tal facto? Como inverter esse cenário?

Em todo o caso, Neil Beckett não hesitou em incluir o Barca-Velha 1999 no seu "1001 Wines you must try before you die", sugerindo que o vinho deverá ser bebido depois de 2020.

A esse propósito pode ler-se: "The 1999 exhibits gloriously fresh, concentrated, fruit flavors of black fruit, the aroma overlaid with cedar and vanilla from the maturation in wood, with chocolate and floral hints. Great concentration and depth on the palate is balanced by a fine elegance rarely seen in wines of this power".

56- Sei que dificilmente obterei uma resposta sua mas, mesmo assim, aqui vai: o 1999 é a melhor edição do Barca Velha?

57- Por norma, com que idade é que o Barca-Velha alcança o seu apogeu? E, em média, a sua longevidade pode prolongar-se até...?

58- Desde os seus primórdios que o Barca-Velha se afirmou como "senhor" incontestado do Douro e de Portugal. Os únicos vinhos que se atreviam a fazer-lhe frente eram o Reserva Especial (o irmão mais novo) e o Quinta do Côtto Grande Escolha (a partir de 1980). Hoje a realidade é bem diferente com uma ou duas dezenas de vinhos a quererem disputar-lhe o trono. E, contudo, não conseguem! Acredita que o mito irá perdurar? Onde julga estar o segredo para tamanho sucesso?

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
Mensagens: 19

MensagemEnviada: Seg Nov 26, 2012 6:32 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Serão áreas/temáticas com que não lida directamente mas, nem por isso abdico em auscultar a sua opinião relativamente ao rumo que a Sogrape procura trilhar. Façamos, então, uma pequena incursão nesse universo.

Nos últimos anos, e depois de consolidada a sua presença nas mais importantes regiões nacionais, a Sogrape apostou fortemente numa política de internacionalização, baseada numa sequência de aquisições deveras ambiciosa: Chateau Los Boldos, no Vale de Rapel, no Chile, Finca Flichman, em Mendoza, na Argentina, Framingham, em Marlborough, na Nova Zelândia, Santiago Ruiz, na região de Rias Baixas, e Bodegas Lan, em Rioja, ambas em Espanha. É obra...!

24- Num período de crise económica quase global e, portanto, funcionando em contraciclo, a Sogrape encetou uma política de investimentos muito ambiciosa, em tudo semelhante àquela que levou Dona Antónia Adelaide Ferreira a tornar-se numa das grandes proprietárias do Douro vinhateiro.

Trata-se de uma mera coincidência ou está entranhado no código genético da empresa esta atitude, para alguns visionária, de fazer investimentos a médio/longo prazo?


Não diria que é uma coincidência. A Sogrape nasceu em plena Segunda Guerra Mundial, e nesse cenário de crise cresceu e prosperou. É uma empresa que aposta na produção, para em momentos como este garantir a estabilidade necessária ao negócio.
Todos os projectos são realmente pensados e planeados para médio e longo prazo. Diria até que isso faz parte da cultura da Sogrape, e da própria família Guedes.


25- Esta forte aposta na internacionalização da empresa vai parar por aqui ou é suposto que a política de investimentos da Sogrape chegue a outras paragens? Estou a pensar em França, Itália... e na China!

Essa é uma pergunta para os accionistas, mas depois dos investimentos realizados, acredito que esta é sobretudo uma fase de consolidação do grupo. Não obstante, como é evidente, uma empresa como a Sogrape está sempre atenta a boas oportunidades que possam surgir.

26- Por óbvias que possam ser as vantagens desta internacionalização, há sempre o risco de que os fundos disponíveis para investir no "seu" Douro possam sofrer alguns cortes. Não teme essa eventualidade?

Não! Nunca foi política da empresa descurar uma área ou região geográfica para beneficiar outra.
É tal a política de longo prazo...!


27- A partilha de experiências entre gentes do mesmo ofício (enólogos, neste caso) constitui uma mais-valia para qualquer profissional. Presumo que o contacto com espaços, gentes e culturas diferenciados (que as empresas do universo Sogrape lhe permitem) tenha um forte impacto na sua forma de olhar o vinho. Nesse particular, lembra-se de algum episódio que o tenha marcado?

A troca de experiências é realmente importante em qualquer sector de actividade, e na enologia é-o também. Na Sogrape temos essa hipótese de contactar com enólogos de outros países e tirar partido das suas diferentes experiências!Dentro da nossa equipa de enologia, já alguns tiveram o privilégio de fazerem vindimas na Argentina, Chile e Nova Zelândia.

28- Diz-se, na poesia, que é o sonho que comanda a vida. Diz-se, na gestão, que é a ambição que comanda o sucesso. Acredita que o nome Sogrape possa converter-se numa World Brand?

Não sei se é essa a ambição, porque na verdade, dentro da empresa, cada marca vive por si e tem personalidade própria. Algumas delas já são como diz "world brands", veja-se Mateus Rosé e Sandeman, e outras ainda poderão ainda lá chegar!

29- Se é que consegue fazer tal exercício, como idealiza a Casa Ferreirinha em 2112?

Como é que será?! Nunca fiz essa pergunta, nem isso alguma vez me preocupou. Mas o meu grande objectivo é contribuir para que o nome Casa Ferreirinha, fruto de vinhos de grande qualidade, se mantenha por 100, 200, ou muitos mais anos!

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
Mensagens: 19

MensagemEnviada: Seg Nov 26, 2012 7:00 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro, respondo só a uma porque agora estou sem tempo! Mas prometo voltar!

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Ainda antes de falarmos dos vinhos da Casa Ferreirinha, olhemos para algum do património fundiário da Sogrape, na região do Douro: Quinta da Leda, Quinta da Granja, Quinta do Porto, Quinta do Seixo, Quinta do Caedo... Como se diz em linguagem bolsista, uma carteira de títulos impressionante!

30- Ainda que conhecedores de vinhos, nem sempre o enófilo conhece os respectivos "berços". E alguns dos foristas/leitores deste espaço poderão enquadrar-se nesse perfil. Assim sendo, e por se tratar do centro nevrálgico da Sogrape no Douro, pedia-lhe que fizesse um pequeno "desenho" do que é a Leda enquanto quinta e, simultaneamente, como centro de vinificação.

Dá-me sempre um prazer especial falar da Quinta da Leda, que é o meu refúgio de eleição! Quando entrei para a Sogrape, a Leda tinha 30 hectares de vinha. Hoje em dia são 160!
Em 1979 começou-se uma plantação que tem vindo a crescer, de forma ponderada, de modo a poder continuar a produzir os diferentes tipos de uvas que nos interessam para a produção dos vinhos Casa Ferreirinha.
Actualmente, são 160 hectares com diferentes exposições e altitudes. As variedades mais plantadas são touriga Nacional, Touriga Franca, tinta Barroca, Tinta Roriz e Tinto Cão. Foi aliás na Quinta da Leda, na Vinha do Grilo, que em conjunto com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e a ADVID, a Sogrape Vinhos fez a selecção clonal da Touriga Nacional, numa altura em que esta casta estava praticamente desaparecida da região. A verdade é que a grande parte dos clones de Touriga Nacional hoje em dia utilizados tiveram origem nesse trabalho.
Em 2000, e após longos meses de estudo, e várias visitas a centros de vinificação em Espanha e França, iniciámos a construção da adega da Quinta da Leda, que veio depois a ser inaugurada a 11 de Setembro de 2001. Esse trabalho de pormenor permitiu-nos construir uma adega moderna, utilizando os métodos ancestrais, como a gravidade e a vinificação em lagar, aliados a novas tecnologias, como a utilização de robots, potenciando deste modo a produção de vinhos de grande qualidade.
Mais recentemente, dentro desta mesma adega, construímos uma "adega ícone", com pequenas cubas tronco-cónicas, para vinificar os nossos melhores vinhos! É o sonho de qualquer enólogo!
A juntar a isto, são quase 2km de frente de rio, um muro apiário da baixa idade-média, o monte da Callabriga, e uma paisagem única!


31- Numa altura em que o Douro vinhateiro procura projectar a sua imagem enquanto património da Humanidade, o turismo em espaço rural (nas suas múltiplas vertentes) e, sobretudo, o enoturismo acabam por afirmar-se como vectores estratégicos de afirmação, expansão e/ou consolidação das empresas da região. Como está a Sogrape a actuar neste palco? Temos protagonista...? Conte-nos tudo.

32- Sente que as características geológicas, aliadas a certas particularidades edafoclimáticas, mostram a maior propensão de algumas quintas para a produção de uvas para fortificação ou, em alternativa, à elaboração de vinhos tranquilos? Ou esta diferenciação só se processa a uma escala menor, ao nível de talhões?

33- No seu "Barca Velha - História de um Vinho", Ana Sofia Fonseca refere a dado momento, e passo a citar: António Braga e Luís Sottomayor empenham orgulhosos nas parcelas especiais, a chamada vinha de precisão.

Fale-nos um pouco destas parcelas especiais, desta vinha de precisão. Que destino é dado a essas uvas?


34- Os progressos na enologia levaram-nos às microvinificações. Será legítimo esperar que os avanços na vinha nos conduzam à nanoviticultura?

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Seg Nov 26, 2012 11:44 pm    Assunto: Responder com Citação

LSottomayor escreveu:
Pedro, respondo só a uma porque agora estou sem tempo! Mas prometo voltar!


Caro Luís Sottomayor,

Não se sinta pressionado no timing das suas respostas. Amanhã, até ao final do dia, colocarei as últimas perguntas. Mas, se a sua agenda a isso obrigar, não se sinta forçado a responder até quarta feira; tem total liberdade para adiar as suas respostas por mais um ou dois dias.

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes


Editado pela última vez por Pedro Gomes em Ter Nov 27, 2012 12:40 am, num total de 2 vezes
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Seg Nov 26, 2012 11:48 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Começamos a entrar em ritmo de "descompressão" e, nesse sentido, irei imprimir um cunho mais pessoal a algumas perguntas. Aí vai:

59- Um dos aspectos mais desconcertantes do Barca-Velha, é a sua enorme capacidade em fixar pigmento e manter, mesmo passados 20/25 anos, uma jovialidade na cor pouco comum. Como explica essa particularidade?

60- Como já tive oportunidade de referir, nunca provei as edições de Barca-Velha da década de 50. Mas, felizmente, tive o privilégio de conhecer as demais colheitas. E, do ponto de vista organoléptico, guardo esta imagem: por um lado, um tinto de prova muito difícil que, enquanto jovem (à saída para o mercado), raramente se demarca dos seus pares e, por outro, um vinhos de qualidades excelsas que, a partir dos 15/20 anos, mostra de forma inequívoca porque é alcandorado a "primeiro entre os melhores".

Concorda com esta visão? Em caso afirmativo, como é possível reconhecer as virtudes de um jovem Barca-Velha?


61- É sabido que uma vez conhecido o veredicto da sua equipa de enologia, Fernando Nicolau de Almeida não abdicava da opinião da mulher para se decidir entre Reserva Especial e Barca-Velha. E, segundo consta, nunca se sentiu defraudado. Muito pelo contrário!

Preserva este ritual? Está a ponderar fazê-lo? Ou, pelo contrário, defende que na prova não há lugar para a intuição?


Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



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Mensagens: 19

MensagemEnviada: Ter Nov 27, 2012 4:35 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Ainda antes de falarmos dos vinhos da Casa Ferreirinha, olhemos para algum do património fundiário da Sogrape, na região do Douro: Quinta da Leda, Quinta da Granja, Quinta do Porto, Quinta do Seixo, Quinta do Caedo... Como se diz em linguagem bolsista, uma carteira de títulos impressionante!

30- Ainda que conhecedores de vinhos, nem sempre o enófilo conhece os respectivos "berços". E alguns dos foristas/leitores deste espaço poderão enquadrar-se nesse perfil. Assim sendo, e por se tratar do centro nevrálgico da Sogrape no Douro, pedia-lhe que fizesse um pequeno "desenho" do que é a Leda enquanto quinta e, simultaneamente, como centro de vinificação.

31- Numa altura em que o Douro vinhateiro procura projectar a sua imagem enquanto património da Humanidade, o turismo em espaço rural (nas suas múltiplas vertentes) e, sobretudo, o enoturismo acabam por afirmar-se como vectores estratégicos de afirmação, expansão e/ou consolidação das empresas da região. Como está a Sogrape a actuar neste palco? Temos protagonista...? Conte-nos tudo.

Eu diria que desde 2007 temos protagonista!
Quando se renovou a adega da Quinta do Seixo, junto ao Pinhão, decidiu-se fazer um projecto de enoturismo que tem vindo a dar provas da sua qualidade! Neste momento, para além das Caves de Vinho do Porto Ferreira, Sandeman e Offley, em Vila Nova de Gaia, a Sogrape Vinhos não tem mais projectos deste tipo. De qualquer forma, são mais de 200.000 pessoas que nos visitam e procuram saber mais sobre o Vinho do Porto e o Vinho do Douro!


32- Sente que as características geológicas, aliadas a certas particularidades edafoclimáticas, mostram a maior propensão de algumas quintas para a produção de uvas para fortificação ou, em alternativa, à elaboração de vinhos tranquilos? Ou esta diferenciação só se processa a uma escala menor, ao nível de talhões?

A nossa aposta já está identificada há muito tempo. Essencialmente, no Douro Superior separamos as uvas para os melhores vinhos do Douro da Casa Ferreirinha, enquanto que para os grandes Vinhos do Porto normalmente a origem é o Cima Corgo. Dito isto, claro que há excepções e ocasiões em que as condições de determinado ano climático nos induzem a opções diferentes. E mais do que isso, a experiência ensinou-nos inclusivamente que determinados talhões podem, simultaneamente, dar origem a excelentes vinhos do Douro e do Porto. É uma questão de tempos de maturação.


33- No seu "Barca Velha - História de um Vinho", Ana Sofia Fonseca refere a dado momento, e passo a citar: António Braga e Luís Sottomayor empenham orgulhosos nas parcelas especiais, a chamada vinha de precisão.

Fale-nos um pouco destas parcelas especiais, desta vinha de precisão. Que destino é dado a essas uvas?


Dentro dos 500 hectares de vinha que a Sogrape Vinhos possui no Douro, elegemos uma parte que consideramos ter um potencial acima da média para a produção de vinhos de grande qualidade. Nessas vinhas aplicamos a chamada viticultura de precisão, onde nada acontece por acaso, cada vara da vinha e cada folha têm um papel a desempenhar, sendo-lhes dadas todas as condições para que o façam na perfeição, de modo a que uva que daí resulta tenha sempre uma qualidade superior. Parte destas uvas com destino a vinho do Douro são depois vinificadas na adega ícone da Quinta da Leda, que falei atrás, dando origem aos melhores vinhos Casa Ferreirinha. No caso do Vinho do Porto, essas melhores uvas são encaminhadas para os lagares da Quinta do Seixo, uma adega especialmente concebida para a produção de grandes vinhos do Porto.


34- Os progressos na enologia levaram-nos às microvinificações. Será legítimo esperar que os avanços na vinha nos conduzam à nanoviticultura?

Isso lembra-me os vinhos de garagem, dos quais nunca fui grande apologista. Quando procuramos fazer um vinho diferente, procuramos sempre que haja uma quantidade assinalável de apaixonados que o possam provar e saborear. Assim, é pouco provável enverdarmos por esse caminho, que apenas deixa o que é bom ao alcance de alguns felizardos!

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



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MensagemEnviada: Ter Nov 27, 2012 4:59 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Eis-nos chegados ao mundo dos vinhos tranquilos da Casa Ferreirinha, uma realidade que conhece como ninguém.

Sou de uma geração que nasceu e cresceu no vinho tendo em mente um potefólio particularmente estável, assente nas marcas Esteva, Vinha Grande, Reserva Especial e Barca-Velha (as duas últimas em regime de alternância e, nem sempre com lançamento garantido).

A partir de meados dos anos 90, do século passado, as coisas mudaram e foi notório o esforço da empresa ao nível do branding: sem abdicar das marcas já existentes, recordo (peço desculpa por qualquer lapso) o aparecimento de:

1995 - Callabriga
1995 - Quinta da Leda Touriga Nacional
1997 - Quinta da Leda (lote)
2008 - Vinha da Capela branco (2 versões, com e sem madeira)
2008 - Antónia Adelaide Ferreira
2008 - Legado
2010 - Papa-Figos


E, assim sendo, gostaria de perguntar-lhe:

35- Perante um cenário de crise como aquele em que vivemos (provavelmente mais prolongado do que poderiamos imaginar), não teme que se torne difícil a gestão de um portefólio tão alargado?

Não. Procuramos ter uma gama bem distinta, onde cada tem vinho ocupa o seu espaço e, neste contexto, seja acessível a todo o tipo de consumidores! Haverá pessoas e momentos para Esteva, Papa-Figos, Vinha Grande, Callabriga, Quinta da Leda, Reserva Especial ou Barca Velha! E isto sem falar nas especialidades, como Antónia Adelaide Ferreira.

36- Por muito inesperado que possa parecer, gostaria de manifestar-lhe a minha empatia pelo Callabriga. Contudo, não lho escondo, sinto que o mercado, por efeito psicológico ou desconhecimento, não tem o vinho em devida conta (mesmo admitindo que possa ser um sucesso comercial, o reconhecimento da sua qualidade fica aquém daquilo que o vinho merecia). Estou convencido que parte da explicação para esse facto se deve a um óbvio downgrade resultante do reposicionamento do vinho no universo de marcas da casa Ferreirinha.

Concorda com esta visão? E em caso afirmativo, como pensa ultrapassar este obstáculo?


Desde o início que procurámos fazer de Callabriga um vinho distinto daquilo que é o perfil tradicional dos vinhos Casa Ferreirinha. Isto é, procurámos fazer um vinho mais moderno em que privilegiamos os aromas de fruta vermelha muito madura e uma madeira ligeiramente mais presente, sendo o único vinho da gama em que utilizamos carvalho americano. Este sempre foi o seu estilo e qualidade, que eu diria que é reconhecido pelos consumidores, pois o volume que produzimos tem vindo, por força das vendas, a aumentar ano após ano.

37- Dizer que se gosta do Quinta da Leda é uma espécie de "déjà vu". Mais consensual é difícil.

Como interpreta tamanho sucesso? Por que razão o monovarietal Touriga Nacional acabou por converter-se em vinho de lote? Quais são as suas expectativas quanto à longevidade média do vinho?


O vinho Quinta da Leda na realidade nasceu em 1995 com um monovarietal de Touriga Nacional, que repetimos em 1996 e 1997. No entanto, nunca foi filosofia da Casa Ferreirinha a produção de vinhos monocasta, pois sempre consideramos que um vinho de lote evidencia outra harmonia e complexidade. Isto não quer dizer que não possamos fazer especialidades deste tipo, quando uma variedade, em determinado ano, o justifique. Mas o lugar de Quinta da Leda na gama da Casa Ferreirinha não é o de uma especialidade... Este vinho nasceu quando nos pediam um vinho de grande qualidade, um vinho topo de gama, que pudesse ser bebido mais cedo quando a marca tinha como expoente máximo o Barca Velha.
Assim, em 1997 fizemos o primeiro lote de Quinta da Leda, e desde então temos mantido esse estilo, não o fazendo apenas quando a qualidade do ano não o permite.
Quanto à longevidade, não sendo tão grande como a do Barca Velha, a verdade é que Quinta da Leda é um vinho com grande estrutura e potencial de envelhecimento. Os primeiros vinhos, que tenho provado recentemente, mostram-se ainda, e como seria de esperar, em grande forma!


38- A esmagadora maioria dos consumidores não conhece o projecto "Vinha da Capela", um novo branco da Casa Ferreirinha, nascido na colheita de 2008, e disponibilizado em duas versões (com e sem madeira).

O que é o vinho da Capela? Vamos ter novas edições deste branco? Irá manter-se a dupla versão, com e sem madeira?


A maior parte dos consumidores realmente não conhece este vinho porque se tratou de uma produção muito limitada, criada sobretudo para os sócios do clube de vinhos da Sogrape, o Clube Reserva 1500.
Apenas produzido em 2008, resultado das novas plantações da Quinta da Boavista, este é um vinho branco de grande estrutura e complexidade, preparado para um longo envelhecimento em garrafa.
Entretanto, uma vez que o vinho não foi logo todo engarrafado, este ano surgiu a oportunidade de apresentar o mesmo lote com dois estágios diferentes. Assim, os sócios do clube puderam provar um vinho que passou apenas 6 meses em madeira, ao lado do seu irmão que por sua vez teve um estágio de 4 anos em barrica.


39- Já no decurso de 2012, tive oportunidade de provar as duas versões desse branco e a minha preferência inclinou-se para a versão sem madeira (senti uma baunilha um pouco mais vincada na versão com estágio em barrica).

Acredita que, com o estágio e a evolução em garrafa, a fruta possa vir a compensar esse impacto inicial das aduelas?


Apenas para esclarecer, ambos os vinhos têm madeira, embora em proporções muito diferentes. De qualquer forma, respondendo à sua pergunta, é natural que com a evolução em garrafa a madeira (que neste momento lhe chama baunilha) se venha a complexar e a harmonizar, dando mais espaço à fruta que nesta fase surge um pouco escondida no vinho estagiado por mais tempo.

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
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MensagemEnviada: Ter Nov 27, 2012 5:24 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Ainda no âmbito das novas marcas da Casa Ferreirinha, não consigo (nem quero) esconder-lhe a minha admiração perante o Antónia Adelaide Ferreira, um tinto nascido na colheita de 2008, que acaba de conhecer uma segunda versão, de 2009.

40- Quando provei (e bebi) pela primeira vez a colheita de 2008 o primeiro pensamento que me assolou o espírito foi estar a provar um Barca-Velha de tenra idade (2/3 anos). Aliás, se a memória não me atraiçoa, esse terá sido o tinto português que mais me impressionou no decurso de 2011.

O que é o Antónia Adelaide Ferrreira? O que o distingue do Quinta da Leda? E, em que difere dos hipotéticos Barca-Velha ou Reserva Especial (para lá do tempo de estágio em garrafa antes de ser lançado no mercado)?


O Antónia Adelaide Ferreira é um vinho completamente diferente do Quinta da Leda e do Barca Velha, que têm a sua origem no Douro Superior. Nascido para comemorar o bicentenário do nascimento de Dona Antónia, esta especialidade da Casa Ferreirinha simboliza precisamente o seu espírtio, tendo para isso sido recolhidas as melhores uvas que a Sogrape Vinhos tem nas diferentes quintas que possui em toda a região do Douro, dando origem a um vinho ímpar, que se caracteriza por uma forte personalidade.

41- Legado 2008? Infelizmente, não tive a oportunidade de provar. Sei apenas que se trata de um vinho tinto criado com o intuito de homenagear Fernando Guedes, patriarca da Sogrape e grande pioneiro no surto de internacionalização da empresa.

Ouvi falar em uvas da Quinta do Caedo. Ouvi falar em vinhas velhas. Ouvi falar em 3000 garrafas. O que pode partilhar connosco sobre este vinho? Estão na calha novas edições?


Legado é realmente um vinho que nasceu do sonho do Sr. Fernando Guedes e da sua grande paixão pela fantástica vinha velha da Quinta do Caedo. É uma vinha com mais de 100 anos, mais de 50 variedades plantadas em muro pré-filoxéricos, tudo construído pela mão do homem e onde ainda hoje não entra não qualquer máquina. Cada videira tem um tratamento personalizado, mas dada a sua grande longevidade, com produções que não ultrapassam meio quilo. Por isso mesmo, o vinho daqui resultante, não sendo nunca em grande quantidade, revela uma harmonia e uma complexidade indiscutíveis. Razões que levaram precisamente o Sr. Fernando Guedes a escolher este vinho como símbolo de legado que deixa às próximas gerações. Não escondo, que foi um grande orgulho para mim poder contribuir para este momento tão importante da empresa!

42- E, finalmente, o Papa-Figos 2010: um vinho muito bem arquitectado em termos de posicionamento/negócio, um tinto muito bem delineado em termos de vinificação e um vinho que, mais tarde ou mais cedo (digo eu) vai afirmar-se como um "porto seguro" na restauração.

Não teme que possa haver um fenómeno de canibalização com o Papa-Figos a substituir-se ao clássico Vinha Grande?


Não. O Papa-Figos 2010, lançado em Março deste ano, teve realmente um sucesso extraordinário, mas sem que isso se reflectisse numa diminuição da procura de Vinha Grande, confirmando a aposta acertada da empresa. Acreditávamos que havia um espaço em branco no portefólio de vinhos da Casa Ferreirinha, e que agora foi deviamente preenchido.

43- O Papa-Figos tem um preço recomendado de venda ao público francamente apelativo mas, a restauração insiste em ser "gulosa" e, à mesa, o consumidor é obrigado a desembolsar 16€ (cerca de 400% face ao preço recomendado de venda ao público). Que lhe apraz dizer sobre esta triste realidade?

Felizmente sou enólogo e não tenho de me preocupar com esses assuntos, que na realidade não me deixam indiferente porque também pago os vinhos nos restaurantes, mas essa não é realmente a minha preocupação.

44- Será que vamos conhecer uma versão branca do Papa-Figos? Podemos esperar um branco com posicionamento semelhante, ainda que mude o nome? Para quando?

Neste momento a Casa Ferreirinha tem já dois vinhos brancos: Planalto e Vinha Grande, não considerando a especialidade Vinha da Capela. Se há espaço para mais, ou não, só o tempo dirá!

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Qua Nov 28, 2012 5:00 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Quase em jeito de encerramento:

62- Começam a surgir em Portugal alguns vinhos brancos de elevada qualidade mas, por razões que neste momento não importa escalpelizar, tenho sérias dúvidas de que algum dia o Douro possa produzir um Barca-Velha branco?

Concorda comigo? Se não, qual o segredo para almejar um branco duriense de nível mundial?


Sei que é um apaixonado pelo rugby, pela equitação e pela caça, esta última, uma paixão que partilhamos.

63- Pedia-lhe, pois, que, independentemente do modo de confecção, sugerisse quatro vinhos da Casa Ferreirinha para harmonizarem, respectivamente, com as seguintes espécies cinegéticas: lebre, perdiz, narceja e galinhola.

64- Um dos maiores dilemas que se coloca ao consumidor de Barca-Velha é a escolha do procedimento mais adequado antes de servir o vinho. Presumo que seja adepto da dupla decantação mas, nessa impossibilidade, que timing's sugere numa decantação simples para um Barca-Velha:

- novo (acabado de chegar ao mercado);
- com meia idade (15/20 anos);
- senior (30/35 anos)?


65- Recordo-me de Fernando Nicolau de Almeida deixar bem claro que aquilo que o levava a diferenciar um Reserva Especial de um Barca-Velha não era tanto a qualidade intrínseca do vinho mas, acima de tudo, a sua longevidade. Vai manter-se fiél a este princípio? Quem provar as novas colheitas de Reserva Especial (8/10 anos) vai poder continuar a sentir o encanto de um jovem Barca velha?

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes

PS. Deixo para amanhã duas perguntas finais... e um pedido!
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