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Entrevista com Luís Sottomayor (Ferreirinha/Sogrape)
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Registrado: Segunda-Feira, 22 de Janeiro de 2007
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MensagemEnviada: Dom Nov 18, 2012 11:05 pm    Assunto: Entrevista com Luís Sottomayor (Ferreirinha/Sogrape) Responder com Citação

Luís Sottomayor nasceu a 11 de outubro de 1963. Oriundo de uma família com ligações ao mundo rural, e ao vinho em particular, passou grande parte da sua infância em Moreira da Maia.

Consta que o gosto pelo vinho não terá sido precoce mas, em contrapartida, o empenho e o apego pelos estudos na área vitivinícola cedo fizeram antever enorme sucesso profissional. A sua formação, de nível superior, levaram-no a formar-se em Enologia pela Universidades de Dijon (França) e Charles Sturt (Austrália), bem como a obter uma pós-graduação em Enologia pela Escola Superior de Biotecnologias do Porto.

A sua chegada à Casa Ferreira dá-se em 1989 e, as mais de duas décadas na empresa levam-no a um contacto privilegiado com Fernando Nicolau de Almeida e José Maria Soares Franco.

O seu curriculum académico e a sua sua vasta experiência profissional conduzem-no, em 2003, ao lugar cimeiro da enologia dos vinhos generosos da Sogrape. E, a saída precoce de José Maria Soares Franco da empresa, aceleraram a sua chegada a um lugar que lhe estaria naturalmende destinado: a liderança da equipa de enologia dos vinhos tranquilos da Fereirinha. Sem que nada o fizesse antever, a partir de 2007, Luís Sottomayor passa a ser o "Senhor Barca-Velha".

Numa altura em que chega ao mercado o Barca-Velha 2004, este é um momento ímpar para entrevistar aquele que é, hoje, o grande arquitecto desse mítico vinho português.

Não hesite em participar!

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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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Localização: Lisboa

MensagemEnviada: Seg Nov 19, 2012 12:43 am    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Seja muto bem vindo ao espaço de entrevistas on-line da Nova Crítica. Tenho a certeza de todos nós iremos "alargar horizontes" com os seus ensinamentos e a sua vasta experiência no mundo do vinho.

Vamos lá então!

1- As suas raízes e tradições familiares deram-lhe um contacto ímpar com o mundo rural, em geral, e com a realidade agrária, em particular. Em que medida essa experiência molda e condiciona a sua forma de "ser/estar no vinho"?

2- Seguiu as pisadas de seu pai quando optou por licenciar-se em Enologia. Fê-lo com sentido de curiosidade/gosto ou por alguma eventual pressão de seu pai e demais familiares?

3- A vida e o tempo permitiram que se tornasse num espectador privilegiado das alterações ocorridas na vitivinicultura duriense. Com o distanciamento devido, quais elegeria como as grandes mudanças registadas numa região com prestígio e reputação mundiais?

4- Corrija-me se estiver errado: pelo que apurei, o seu encanto pelo vinho (enquanto bebida) terá surgido relativamente tarde, muito por força de um episódio em que, ainda em tenra idade, um tio lhe terá servido vinho em substituição de um esperado refresco.

Seja verdade ou não, como pai, qual entende ser a forma mais correcta/ponderada de iniciação/educação das novas gerações relativamente a um produto tão nobre como o vinho?


Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
Mensagens: 19

MensagemEnviada: Seg Nov 19, 2012 6:07 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Seja muto bem vindo ao espaço de entrevistas on-line da Nova Crítica. Tenho a certeza de todos nós iremos "alargar horizontes" com os seus ensinamentos e a sua vasta experiência no mundo do vinho.

Obrigado Pedro, pelo convite e pela iniciativa!
Vamos lá então!

1- As suas raízes e tradições familiares deram-lhe um contacto ímpar com o mundo rural, em geral, e com a realidade agrária, em particular. Em que medida essa experiência molda e condiciona a sua forma de "ser/estar no vinho"?

A minha impressão é que essa experiência em nada molda ou condiciona a minha maneira de estar no vinho, antes pelo contrário, abriu-me as portas e fez-me ver este mundo de uma maneira mais aberta. Nunca houve qualquer tipo de pressão ou de orientação programada por parte do meu Pai ou do meu Avô. Antes pelo contrário, eles sempre foram muito liberais e avançados na perspectiva vínica, sem pressupostos ou preconceitos, onde a qualidade do vinho é que imperava.
2- Seguiu as pisadas de seu pai quando optou por licenciar-se em Enologia. Fê-lo com sentido de curiosidade/gosto ou por alguma eventual pressão de seu pai e demais familiares?

Foi o gosto sem dúvida. Nunca tive ou senti qualquer pressão familiar para seguir a carreira de enólogo, ou até qualquer outro tipo de carreira. Claro que o meu Pai se entusiasmou com a perspectiva de ter um filho que lhe seguisse as pisadas, mas a verdade é que nunca fez força ou pressão nesse sentido.

3- A vida e o tempo permitiram que se tornasse num espectador privilegiado das alterações ocorridas na vitivinicultura duriense. Com o distanciamento devido, quais elegeria como as grandes mudanças registadas numa região com prestígio e reputação mundiais?

Nos últimos 20 anos houve várias mudanças no Douro. A nível de enologia assistiu-se a um aperfeiçoamento das técnicas de vinificação que contribuiram para uma melhoria geral da qualidade dos vinhos, mas sem dúvida que a grande diferença aconteceu na viticultura. Hoje em dia percebemos que um vinho nasce na vinha, e a adega serve principalmente para terminar aquilo que lá começa. Depois de várias experiências, actualmente assistimos a um voltar ao passado. Numa região com mais de 200 anos de história não é preciso inventar muito, apenas interpretar e aperfeiçoar quando possível o trabalho de quem criou esta região, sem os meios que no século XXI temos à nossa disposição.

4- Corrija-me se estiver errado: pelo que apurei, o seu encanto pelo vinho (enquanto bebida) terá surgido relativamente tarde, muito por força de um episódio em que, ainda em tenra idade, um tio lhe terá servido vinho em substituição de um esperado refresco.
[b]

[i]Sempre tive uma atracção enorme pelo vinho e por toda a sua cultura. O facto de ter nascido num ambiente vínico contribuiu, inevitavelmente, para esta afeição. É verdade que tive um contacto demasiado prematuro com o vinho, quando em miúdo um tio me serviu um Vinho do Porto e eu gostei! Mais do que era do suposto! Este episódio fez com que durante algum tempo eu não tivesse a vontade de voltar a beber, sem contudo ser suficiente para me afastar ou desinteressar pelo vinho. Passado uns anos, aos poucos e poucos, fui aprendendo a saborear ao ponto de decidir enveredar pela enologia.
[/i]

Seja verdade ou não, como pai, qual entende ser a forma mais correcta/ponderada de iniciação/educação das novas gerações relativamente a um produto tão nobre como o vinho?


Os meus filhos sempre se interessaram pelo mundo do vinho. E se na minha altura o vinho não suscitava o interesse que hoje em dia suscita, a verdade é que actualmente toda a gente lá em casa, até os amigos dos meus filhos, gostam de acompanhar, saber, provar e falar sobre vinho!

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
[/i]
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
Mensagens: 1102
Localização: Lisboa

MensagemEnviada: Ter Nov 20, 2012 12:28 am    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Começámos a bom ritmo. A manter esta cadência, certamente que haverá muito "sumo" no final da semana.

Avancemos, pois, para mais uma sequência de perguntas:

5- A sua formação académica de base foi de tal forma "plástica" (Borgonha vs Austrália) que lhe será fácil estabelecer um paralelismo entre os princípios enológicos da Velha Europa e as abordagens mais vanguardistas do chamado Novo Mundo.

Esta clivagem faz sentido? Existirá, efectivamente, um contraponto de natureza geográfica entre os vinhos europeus e os vinhos das regiões ditas emergentes? Ou será que, independentemente da região, grande parte desta polémica se resume à mera aplicação de princípios vitícolas e enológicos mais ou menos intervencionistas?



6- A sua experiência profissional permitiu-lhe um contacto muito próximo com Fernando Nicolau de Almeida e com José Maria Soares Franco.

Enquanto pessoa, que imagem guarda na memória do criador do Barca-Velha?

Enologicamente falando, que princípios lapidares lhe foram transmitidos pelo seu antecessor na chefia da equipa de enologia da Ferreirinha?


Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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mlpaiva



Registrado: Quarta-Feira, 30 de Outubro de 2002
Mensagens: 4960
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MensagemEnviada: Ter Nov 20, 2012 3:50 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

É com muito gosto que o vejo aqui, disponível para responder às questões que lhe queiram colocar. Assim:

1- Concorda com o conceito de castas autorizadas para uma região?

2- Ultimamente, há quem esteja a retornar à prática de um loteamento na vinha. Qual a sua opinião?

3- Ainda faz sentido a classificação de benefício para Vinho do Porto de A a F? Ainda neste aspecto e do ponto de vista financeiro, os vinhos do Douro serão "beneficiados" em relação aos do resto do País?

4- Faz hoje precisamente um mês que, gostosamente, estive na Leda, aquando do 1º Festival de Vinho do Douro Superior. Um dos temas comentados foi no rescaldo da sua intervenção na véspera (a que infelizmente não pude assistir porque fazia parte do júri do concurso) na parte em que versou a rega artificial. Terá gerado alguma polémica porque talvez tenha quebrado o romantismo de que a vinha sofrida origina melhores vinhos. No entanto, os resultados falam por eles próprios quer ao nível da produção e consistência de resultados, quer na maior independência dos caprichos da natureza. O que, confesso, foi novidade para mim, foi a medição através das folhas, uma vez que só conhecia o método das varetas espetadas no solo (a que assisti no Esporão numa colaboração minha em meados dos anos 90 para implementação do sistema de informação). O sistema de medição das folhas permitirá resultados mais apurados, e é sob este aspecto que gostaria de uma explicação muito sucinta. Também porque me parece que a automatização não será imediata... porque, digo eu, terá de haver alguém para interpretar os resultados e suscitar a rega...

5- Antes de chegar ao Barca Velha, (e além dos meus parabéns pelo Papa Figos - nome, imagem e vinho) gostaria de um pequeno comentário sobre o Quinta da Leda, um vinho muito bem sucedido e reconhecido internacionalmente, o que espera dele no futuro principalmente na distribuição em quantidade, porque dou de barato que a qualidade manterá sempre o nível a que nos habituou.

6- Quanto ao BV, coloco duas questões: i) é expectável que o nº de garrafas comercializadas duplique, triplique nos próximos anos (mais área de vinha e vinha mais idosa)? Ou há limitações críticas de área, exposição, etc.? ii) dadas as restrições (disponibilidade e preço), há que optar, o que é preferível - consumir de imediato ou guardar?

Antecipadamente grato, aceite um abraço.
_________________
Luís Paiva

Never increase, beyond what is necessary, the number of entities required to explain anything.
William of Ockham (1285-1349), Luís Paiva (1950-20??) Snakeman
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
Mensagens: 19

MensagemEnviada: Ter Nov 20, 2012 7:40 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Começámos a bom ritmo. A manter esta cadência, certamente que haverá muito "sumo" no final da semana.

Avancemos, pois, para mais uma sequência de perguntas:

5- A sua formação académica de base foi de tal forma "plástica" (Borgonha vs Austrália) que lhe será fácil estabelecer um paralelismo entre os princípios enológicos da Velha Europa e as abordagens mais vanguardistas do chamado Novo Mundo.

Esta clivagem faz sentido? Existirá, efectivamente, um contraponto de natureza geográfica entre os vinhos europeus e os vinhos das regiões ditas emergentes? Ou será que, independentemente da região, grande parte desta polémica se resume à mera aplicação de princípios vitícolas e enológicos mais ou menos intervencionistas?


Cada vez mais as diferenças entre velho e novo mundo se vão diluindo.
Não vou esconder que a minha experiência europeia e australiana foram completamente diferentes, sobressaindo um lado mais conservador e tradicional em França, e mais vanguardista e moderna, sem tantos preconceitos na Austrália.
Mas se há 20 anos atrás era verdade que se via uma diferença substancial entre as técnicas de viticultura e enologia, actualmente, apesar disso ainda não estar totalmente ultrapassado, a tendência é para que essa clivagem venha a diminuir, ou até desaparecer. Acredito que seja uma questão de tempo até, em termos técnicos, se deixar de falar em velho e novo mundo, passando a dar mais enfâse às características próprias de cada vinha, ou melhor dizendo, dos terroirs.


6- A sua experiência profissional permitiu-lhe um contacto muito próximo com Fernando Nicolau de Almeida e com José Maria Soares Franco.

Enquanto pessoa, que imagem guarda na memória do criador do Barca-Velha?

Enologicamente falando, que princípios lapidares lhe foram transmitidos pelo seu antecessor na chefia da equipa de enologia da Ferreirinha?


Não se cansam de me fazer essa pergunta, e a minha resposta é invariavelmente a mesma: é que foi realmente um privilégio trabalhar com ambos!
Do Sr. Fernando Nicolau de Almeida guardo a sua boa disposição e humor, o feeling para descobrir e criar coisas novas. Do Zé Maria, ficou o rigor, e o grande profissionalismo. Mas mais importante ainda, o que sinto quando penso nesses nomes é uma grande amizade e a consciência do privilégio que foi trabalhar com eles! Foram muitos anos de convívio e de grandes sucessos!



Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
Mensagens: 19

MensagemEnviada: Ter Nov 20, 2012 8:11 pm    Assunto: Responder com Citação

mlpaiva escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

É com muito gosto que o vejo aqui, disponível para responder às questões que lhe queiram colocar. Assim:

Caro Luís Paiva, é com grande prazer que por aqui apareço para falar sobre vinho!

1- Concorda com o conceito de castas autorizadas para uma região?

Genericamente, sim. Sobretudo num país como o nosso, e uma região como o Douro, onde existe uma imensidão de castas autócnes que não nos restringe a possibilidade de fazer vinhos diferentes. A verdade é que na Sogrape Vinhos procuramos sempre diversificar, ir além das variedades mais comuns, enriquecendo assim os lotes e diversificando o tipo de vinhos que produzimos.

2- Ultimamente, há quem esteja a retornar à prática de um loteamento na vinha. Qual a sua opinião?

Não vejo inconveniente nessa prática, embora não seja um grande apologista, pois prefiro a plantação por castas extremes, embora com clones diferentes. Deste modo conseguimos, dentro da mesma variedade, ter um vinho mais complexo, não estando tão sujeitos às contigências do clima.


3- Ainda faz sentido a classificação de benefício para Vinho do Porto de A a F? Ainda neste aspecto e do ponto de vista financeiro, os vinhos do Douro serão "beneficiados" em relação aos do resto do País?

A minha preocupação é mais técnica, não podendo contudo ficar indiferente ao que se passa no Douro. Dito isto, acredito que um sistema com tantos anos de utilização e provas dadas, ainda é o que mais defende os interesses da região e dos seus viticultores.

4- Faz hoje precisamente um mês que, gostosamente, estive na Leda, aquando do 1º Festival de Vinho do Douro Superior. Um dos temas comentados foi no rescaldo da sua intervenção na véspera (a que infelizmente não pude assistir porque fazia parte do júri do concurso) na parte em que versou a rega artificial. Terá gerado alguma polémica porque talvez tenha quebrado o romantismo de que a vinha sofrida origina melhores vinhos. No entanto, os resultados falam por eles próprios quer ao nível da produção e consistência de resultados, quer na maior independência dos caprichos da natureza. O que, confesso, foi novidade para mim, foi a medição através das folhas, uma vez que só conhecia o método das varetas espetadas no solo (a que assisti no Esporão numa colaboração minha em meados dos anos 90 para implementação do sistema de informação). O sistema de medição das folhas permitirá resultados mais apurados, e é sob este aspecto que gostaria de uma explicação muito sucinta. Também porque me parece que a automatização não será imediata... porque, digo eu, terá de haver alguém para interpretar os resultados e suscitar a rega...

Uma folha de videira que esteja em grande stress hídrico precisa de muito mais pressão para libertar água através do pedicelo. Assim, este método dá-nos uma ideia muito precisa da necessidade de água, ou não, da planta. É um trabalho manual, que deve ser feito durante a noite, em plena ausência de luz, e os resultados obtidos em vários locais da mesma parcela são introduzidos num sistema que, com base num modelo existente, vai indicar se o stress hídrico é demasiado ou não para uma boa maturação.

5- Antes de chegar ao Barca Velha, (e além dos meus parabéns pelo Papa Figos - nome, imagem e vinho) gostaria de um pequeno comentário sobre o Quinta da Leda, um vinho muito bem sucedido e reconhecido internacionalmente, o que espera dele no futuro principalmente na distribuição em quantidade, porque dou de barato que a qualidade manterá sempre o nível a que nos habituou.

Para o futuro, desejo que o vinho continue a ter o sucesso que teve nas últimas edições. Aliás, trabalhamos diariamente nesse sentido! Sobre a qualidade e quantidade, infelizmente nem tudo depende de nós. A verdade é que todos os anos faremos os possíveis por ter maiores quantidades dos melhores vinhos que produzimos. Isto sempre sobre a máxima de qualidade, que é imperativa nos vinhos da Casa Ferreirinha.

6- Quanto ao BV, coloco duas questões: i) é expectável que o nº de garrafas comercializadas duplique, triplique nos próximos anos (mais área de vinha e vinha mais idosa)? Ou há limitações críticas de área, exposição, etc.? ii) dadas as restrições (disponibilidade e preço), há que optar, o que é preferível - consumir de imediato ou guardar?

i) A quantidade poderá aumentar, porque realmente temos mais e melhor vinha, mas o grau de exigência também aumenta!
ii) Eu pessoalmente gosto dos vinhos mais velhos, mas quando a Casa Ferreirinha lança uma nova colheita de Barca Velha é porque entende que o vinho está a pronto a ser consumido. Portanto, diria que é sem dúvida uma questão de preferências...


Antecipadamente grato, aceite um abraço.
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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MensagemEnviada: Qui Nov 22, 2012 3:59 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Surgiu um pequeno contratempo com o servidor onde está alojado o site e, simultaneamente, com a intervenção da Zon na minha área de residência. Isso impossibilitou que desse contuidade à entrevista. Sugiro que as perguntas possam prolongar-se até ao final do dia de domingo e que as suas respostas possam prolongar-se até à noite de quarta feira. Vê algum inconveniente nesse diferimento?

Avancemos então:

Desde primórdios dos anos 80 que a Ferreira encetou uma série de estudos e investigações nas suas quintas durienses. Um dos trabalhos mais notórios, pioneiro mesmo, foi desenvolvido pelo falecido Jorge Maria Cabral Ferreira, que se aventurou com a edificação de vinhas ao alto.


7- Que vantagens e inconvenientes surgem associados à vinha ao alto por comparação com a construção em patamares ou socalcos?

8- Dispõe de algum tipo de informação que demonstre a maior ou menor adaptação das castas durienses aos diferentes sistemas de cultivo da vinha?

9- Independentemente das vantagens que lhe estejam associadas, a vinha ao alto implica maiores níveis de escorrência superficial (o mesmo é dizer que a infiltração é menor). Numa região com índices pluviométricos tão baixos não constituirá isso uma contradição?

10- Em regiões com orografia muito acidentada levanta-se sempre o problema da forte erosão dos solos provocada pela acção das águas de escorrência.

Ainda que num cenário de déficit pluviométrico (como acontece com o Alto Douro), não teme que a vinha ao alto possa interferir negativamente com a fixação dos solos e, consequentemente, com a estabilização da videira?


Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes


Editado pela última vez por Pedro Gomes em Qui Nov 22, 2012 5:18 pm, num total de 1 vez
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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MensagemEnviada: Qui Nov 22, 2012 4:57 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Procurando tentar recuperar algum do tempo perdido, partamos para mais uma ronda de perguntas, agora mais focados nos aspectos climáticos do Douro.

A região do Douro Superior é marcada por aquilo que se convencionou designar por clima mediterrâneo de influência continental confinada (entenda-se como um impacto continental muito acentuado). Em território nacional este enquadramento só encontra paralelo no vale do Guadiana).

Em linhas gerais, estamos a falar de:

-verões muito quentes;
-invernos muito frios;
-amplitudes térmicas anuais muito acentuadas;
-precipitação muito reduzida;
-4 a 5 meses secos ;
- um rácio precipitação/evapotranspiração potencial muito deficitário.


Perante o exposto pergunto-lhe:

11- Sente que o aquecimento global está ou virá, no médio prazo, a afectar negativamente o perfil dos vinhos durienses?

12- O Douro, contrariamente à maioria dos espaços alentejanos, pode sempre "jogar" com altitudes e exposições. Será isso suficiente para esbater o impacto das alterações climáticas?

13- Será que, por maiores que sejam as resistências, a rega acabará por generalizar-se na região duriense, especialmente a cotas mais baixas?

14- Admite que venha a tornar-se necessária uma eventual refundação (por que raio me lembrei desta palavra) das castas permitidas na região, dando azo ao plantio de castas mais resistentes a verões longos, quentes e secos? E, em caso afirmativo, que castas melhor poderiam servir esse propósito?

15- Quem me ouça, quase parece que o carácter extremado e a agressividade climática do Alto Douro inviabilizam a construção de grandes vinhos. E, no entanto, alguns dos melhores tintos portugueses nascem nessas paragens. Onde reside o segredo para tal façanha?

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
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MensagemEnviada: Qui Nov 22, 2012 5:32 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Já que estou com a "mão na massa", aqui vai:

Deixemos os vinhos tranquilos para o final da entrevista e foquemo-nos no universo dos vinhos generosos da Sogrape, divisão que, segundo julgo saber, continua sob a sua alçada.

16- Em linhas muito gerais, e para lá da adição de aguardente, em que difere a elaboração de um vinho tinto da de um Porto Vintage? Qual dos estilos exige maior traquejo e tarimba? Ou, tratam-se de processos em tudo similares?

17- Admite que a médio/longo prazo, o desvio de uvas para a elaboração de vinhos tintos possa beliscar a qualidade das massas vínicas que são habitualmente desviadas para fortificação?

18- Fiquei muito bem impressionado com o Ferreira Vintage 2007: senti um vinho robusto e poderoso mas, curiosamente, menos marcado pela doçura, uma característica tão comum nas casas nacionais. E gostei do estilo, em larga medida por essa contenção na doçura.

Pergunto-lhe: erro de percepção da minha parte, uma situação meramente pontual com a colheita de 2007 ou, uma ligeira mudança no estilo, procurando um vinho um pouco mais austero?


19- Enquanto andamos entretidos com a velha máxima (pessoalmente considero-a errada) de que o Vintage é o ex-libris dos vinhos do Porto, esquecemo-nos de vinhos notáveis da Sogrape como um Ferreira Duque de Bragança 20 Anos, um Sandeman 20 Anos ou um Offley Barão de Forrester 30 Anos.

Que acompanhamentos sugere para estes três fantásticos Tawny datados? Ou será que devem ser apreciados "a solo"?


Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes


Editado pela última vez por Pedro Gomes em Sex Nov 23, 2012 12:42 am, num total de 1 vez
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
Mensagens: 19

MensagemEnviada: Qui Nov 22, 2012 6:53 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Surgiu um pequeno contratempo com o servidor onde está alojado o site e, simultaneamente, com a intervenção da Zon na minha área de residência. Isso impossibilitou que desse contuidade à entrevista. Sugiro que as perguntas possam prolongar-se até ao final do dia de domingo e que as suas respostas possam prolongar-se até à noite de quarta feira. Vê algum inconveniente nesse diferimento?

Caro Pedro, sem qualquer problema! Vamos indo e vamos vendo!

Avancemos então:

Desde primórdios dos anos 80 que a Ferreira encetou uma série de estudos e investigações nas suas quintas durienses. Um dos trabalhos mais notórios, pioneiro mesmo, foi desenvolvido pelo falecido Jorge Maria Cabral Ferreira, que se aventurou com a edificação de vinhas ao alto.


7- Que vantagens e inconvenientes surgem associados à vinha ao alto por comparação com a construção em patamares ou socalcos?

A vinha ao alto s]o deve ser plantada em zonas com inclina;\oes inferiores a 30%, e essa ]e a sua ]unica limita;\ao. A vantagem ]e que disp\oe ]e de uma mecaniza;\ao mais f]acil e de uma densidade de planta;ao superior.

8- Dispõe de algum tipo de informação que demonstre a maior ou menor adaptação das castas durienses aos diferentes sistemas de cultivo da vinha?

Temos conhecimento que a Touriga Franca beneficia de zonas mais drenadas, ao contr]ario, por exemplo, da Tinta Roriz e da Tinta Amarela, que necessitam de um maior arejamento. Assim, a primeira sente/se melhor quando plantada em vinha ao alto, e as segundas em patamares. De uma maneira geral, as outras castas adaptam/se bem a qualquer uma das circunst|ancias.

9- Independentemente das vantagens que lhe estejam associadas, a vinha ao alto implica maiores níveis de escorrência superficial (o mesmo é dizer que a infiltração é menor). Numa região com índices pluviométricos tão baixos não constituirá isso uma contradição?

Supostamente sim, mas esse n\ao ]e o ]unico factor a ter em causa. A vantagem de mecaniza;\ao e maiores densidades de planta;\ao ]e maior face }a desvantagem de este ser um sistema com menor capacidade de reten;\ao de ]agua.
10- Em regiões com orografia muito acidentada levanta-se sempre o problema da forte erosão dos solos provocada pela acção das águas de escorrência.

Ainda que num cenário de déficit pluviométrico (como acontece com o Alto Douro), não teme que a vinha ao alto possa interferir negativamente com a fixação dos solos e, consequentemente, com a estabilização da videira?


N\ao! Os fen]omenos de trovoadas s\ao espor]adicos e raramente no mesmo local. Esses sim poder\ao ser um problema para a fixa;\ao dos solos. E na realidade, temos assistido a situa;\oes mais graves de desmoronamento de patamares provocados pela m]a escorr|encia de ]aguas em patamares, do que arrastamento das terras nas vinhas ao alto.

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
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MensagemEnviada: Qui Nov 22, 2012 7:10 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Já que estou com a "mão na massa", aqui vai:

Deixemos os vinhos tranquilos para o final da entrevista e foquemo-nos no universo dos vinhos generosos da Sogrape, divisão que, segundo julgo saber, continua sob a sua alçada.

Sim, para al]em dos vinhos do Douro sou respons]avel pelos vinhos do Porto da Sogrape Vinhos, nomeadamente Ferreira, Sandeman e Offley.

16- Em linhas muito gerais, e para lá da adição de aguardente, em que difere a elaboração de um vinho tinto da de um Porto Vintage? Qual dos estilos exige maior traquejo e tarimba? Ou, tratam-se de processos em tudo similares?

A primeira diferen;a est]a nas uvas! Ao fim de mais de 20 anos de experi|encia j]a temos uma no;\ao de quais s\ao as vinhas que melhor se adaptam a Vinho do Porto ou vinho do Douro. A partir da]i, j]a na adega, ]e tentar extrair de forma suave o melhor que as uvas t|em para dar. E a filosofia ]e a mesma para os dois tipos de vinho. A preocupa;\ao ]e id|entica. Se o Pinh\ao, ]e, no nosso entender, a sub/regi\ao de elei;\ao para a produ;\ao dos melhores vinhos do Porto, o Douro Superior ser]a para os melhores vinhos do Douro.
De uma forma geral, privilegiamos os lagares para a vinifica;\ao de Vinhos do Porto porque aqui se consegue uma extrac;\ao maior, em menor tempo, essencial neste tipo de vinho, que tem uma fermenta;\ao mais r]apida, entretanto parada pela adi;\ao de aguardente.


17- Admite que a médio/longo prazo, o desvio de uvas para a elaboração de vinhos tintos possa beliscar a qualidade das massas vínicas que são habitualmente desviadas para fortificação?

N\ao! O Douro tem capacidade para produzir dois estilos de vinho t\ao diferentes!

18- Fiquei muito bem impressionado com o Ferreira Vintage 2007: senti um vinho robusto e poderoso mas, curiosamente, menos marcado pela doçura, uma característica tão comum nas casas nacionais. E gostei do estilo, em larga medida por essa contenção na doçura.

Pergunto-lhe: erro de percepção da minha parte, uma situação meramente pontual com a colheita de 2007 ou, uma ligeira mudança no estilo, procurando um vinho um pouco mais austero?


Ferreira Vintage 2007 ]e t\ao doce como os anteriores, mas a sensa;\ao de menor do;ura pode dever/se ao facto de ser um vinho mais robusto e mais estruturado que os seus recentes antecessores.

19- Enquanto andamos entretidos com a velha máxima (pessoalmente considero-a errada) de que o Vintage é o ex-libris dos vinhos do Porto, esquecemo-nos de vinhos notáveis da Sogrape como um Ferreira Duque de Bragança 20 Anos, um Sandeman 20 Anos ou um Offley Barão de Forrester 30 Anos.

Que acompanhamentos sugere para estes três fantásticos Tawny datados? Ou será que devem ser apreciados "a solo"?


Uma das minhas perdi;\oes s\ao ovos moles de Aveiro com Tawny, pelo que estou inteiramente de acordo consigo. H]a momentos para Vintage, e h]a momentos para tawny! Pessoalmente, recomendo que se bebam frescos, no in]icio ou no fim da refei;\ao! S\ao bons acompanhamentos, para al]em da do;aria conventual, entradas salgadas ou fruta fresca. E sim, t|em essa fant]astica vantagem de poderem ser apreciados por si s]o!

Um grande abraço e... até !

Pedro Gomes
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Sex Nov 23, 2012 12:56 am    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Um pequeno reparo: julgo que terá deixado escapar a resposta a uma série de perguntas (nº 11, 12, 13, 14 e 15).

Sem querer "perder o fio à meada" e, ainda no âmbito dos vinhos generosos:

Em setembro de 2011, por ocasião da comemoração do bicentenário do nascimento de Dona Antónia Adelaide Ferreira, a Sogrape, sob sua orientação, levou a cabo uma prova, a todos os títulos, notável: dar a conhecer os seis Vintage mais antigos que repousam nas caves de Vila Nova de Gaia. Na prática tratou-se, tão somente, de provar os Vintage das colheitas de 1815, 1830, 1834, 1840, 1847 e 1851.

20- Como seria de esperar, atendendo às respectivas idades, qualquer das seis colheitas mostrou vinhos com "rugas" e "cabelos brancos". Mas, ao mesmo tempo, essas mesmas colheitas reveleram como um vinho pode envelhecer na plenitude das suas faculdades, ao arrepio de qualquer sintoma de Alzheimer ou Parkinson. Notável...!

Acredita que os actuais Vintage possam ambicionar esse carácter secular?


21- Ainda seguindo a mesma linha de raciocínio, será que o estereótipo do Vintage bebível em novo, com o que isso implica de "domesticação" da sua estrutura, poderá, a prazo, comprometer o reconhecimento de um vinho que alicerçou na longevidade grande parte do seu prestígio e reputação mundiais?

22- Que acompanhamento sugere para um Vintage com cerca de 30/40 anos (por exemplo um 1970 ou um 1977)?

23- E, já agora, que propõe para harmonizar com um Vintage acabado de chegar ao mercado?

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



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MensagemEnviada: Sex Nov 23, 2012 6:45 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Procurando tentar recuperar algum do tempo perdido, partamos para mais uma ronda de perguntas, agora mais focados nos aspectos climáticos do Douro.

A região do Douro Superior é marcada por aquilo que se convencionou designar por clima mediterrâneo de influência continental confinada (entenda-se como um impacto continental muito acentuado). Em território nacional este enquadramento só encontra paralelo no vale do Guadiana).

Em linhas gerais, estamos a falar de:

-verões muito quentes;
-invernos muito frios;
-amplitudes térmicas anuais muito acentuadas;
-precipitação muito reduzida;
-4 a 5 meses secos ;
- um rácio precipitação/evapotranspiração potencial muito deficitário.


Perante o exposto pergunto-lhe:

11- Sente que o aquecimento global está ou virá, no médio prazo, a afectar negativamente o perfil dos vinhos durienses?

Os vinhos do Douro e do Porto estão cada vez melhores, portanto se há aqui uma influência do clima, é uma influência positiva!

12- O Douro, contrariamente à maioria dos espaços alentejanos, pode sempre "jogar" com altitudes e exposições. Será isso suficiente para esbater o impacto das alterações climáticas?

As diferentes exposições e altitudes sempre foram um importante trunfo da região do Douro. E a verdade é que todos os anos podemos jogar com isso para conseguir os vinhos mais equilibrados. No contexto das alterações climáticas, e a confirmar-se o aquecimento global, é verdade que esse factor pode vir a ser uma importante mais-valia para o Douro, como aliás já o é.


13- Será que, por maiores que sejam as resistências, a rega acabará por generalizar-se na região duriense, especialmente a cotas mais baixas?

O Douro viveu 200 anos sem rega, portanto não diria que é uma ferramenta essencial para se continuar a produzir excelentes vinhos na região. Não obstante, em casos específicos, como por exemplo a última vindima, é notável a grande vantagem que uma correcta gestão de irrigação pode implicar. A Sogrape Vinhos tem 60 hectares da Quinta da Leda regados, e este ano, contrariando a tendência de diminuição da produção no Douro, nestas parcelas tivemos não só um aumento de 14%, mas uma visível melhoria da qualidade.

14- Admite que venha a tornar-se necessária uma eventual refundação (por que raio me lembrei desta palavra) das castas permitidas na região, dando azo ao plantio de castas mais resistentes a verões longos, quentes e secos? E, em caso afirmativo, que castas melhor poderiam servir esse propósito?

O Douro tem uma variedade quase infinita de castas, com muitos anos de história. Assim, na minha opinião, o trabalho que há a fazer não consiste em ir buscar variedades novas para a região, mas antes explorar aquelas que já lá estão ou estiveram, procurando tirar o melhor partido delas e fazendo vinhos como não se fazem em mais lugar nenhum do mundo!

15- Quem me ouça, quase parece que o carácter extremado e a agressividade climática do Alto Douro inviabilizam a construção de grandes vinhos. E, no entanto, alguns dos melhores tintos portugueses nascem nessas paragens. Onde reside o segredo para tal façanha?

Como já tenho vindo a falar, a orografia da região permite-nos, mesmo nos anos e lugares mais quentes, jogar com as diferentes exposições e altitudes para conseguir as maturações mais equilibradas.
Veja-se o caso de Casa Ferreirinha Barca Velha, que nasceu no Douro Superior, usando como ninguém na altura, esta grande vantagem da região. Ainda hoje aí produzido, 60 anos depois, o grande segredo deste vinho continua a ser a combinação de uvas plantadas a diferentes cotas e exposições. Essa é a força desta região, que a distingue de tantas outras pelo mundo fora!


Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
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MensagemEnviada: Sex Nov 23, 2012 7:05 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Um pequeno reparo: julgo que terá deixado escapar a resposta a uma série de perguntas (nº 11, 12, 13, 14 e 15).

Sem querer "perder o fio à meada" e, ainda no âmbito dos vinhos generosos:

Em setembro de 2011, por ocasião da comemoração do bicentenário do nascimento de Dona Antónia Adelaide Ferreira, a Sogrape, sob sua orientação, levou a cabo uma prova, a todos os títulos, notável: dar a conhecer os seis Vintage mais antigos que repousam nas caves de Vila Nova de Gaia. Na prática tratou-se, tão somente, de provar os Vintage das colheitas de 1815, 1830, 1834, 1840, 1847 e 1851.

20- Como seria de esperar, atendendo às respectivas idades, qualquer das seis colheitas mostrou vinhos com "rugas" e "cabelos brancos". Mas, ao mesmo tempo, essas mesmas colheitas reveleram como um vinho pode envelhecer na plenitude das suas faculdades, ao arrepio de qualquer sintoma de Alzheimer ou Parkinson. Notável...!

Acredita que os actuais Vintage possam ambicionar esse carácter secular?


Trabalhamos para isso! Estou perfeitamente convencido que sim. Aliás, acredito que os vinhos poderão evoluir por um período mais longo de tempo, pois a sua estrutura e complexidade tem vindo constantemente a aumentar. Estou na Sogrape Vinhos há mais de 20 anos, e actualmente apercebo-me que o nível de exigência para um LBV de hoje está ao mesmo nível daquilo se exigia para um vintage na década de 80. Dito isto, sim, estou convicto que o vintage 2007 (e digo este porque foi o último que lançámos) vai estar vivo e de boa saúde por muito tempo! Oxalá daqui por 200 anos alguém possa fazer uma prova como a que participou e constatar isso mesmo!

21- Ainda seguindo a mesma linha de raciocínio, será que o estereótipo do Vintage bebível em novo, com o que isso implica de "domesticação" da sua estrutura, poderá, a prazo, comprometer o reconhecimento de um vinho que alicerçou na longevidade grande parte do seu prestígio e reputação mundiais?

Não acho que o facto de se conseguir beber os vinhos mais novos vá comprometer a sua longevidade. Isso é possível graças à tecnologia utilizada, que permite ter melhores extracções, de uma forma mais suave, criando vinhos com mais estrutura e maior capacidade de envelhecimento, ao mesmo tempo que os torna aptos a serem consumidos mais cedo.

22- Que acompanhamento sugere para um Vintage com cerca de 30/40 anos (por exemplo um 1970 ou um 1977)?

Eu diria que um vinho assim não precisa de qualquer acompanhamento, pois a complexidade e história é tanta, que é justo dedicar-lhe o espaço e tempo devidos. Não obstante, uma boa companhia pode ser um queijo não muito forte, como por exemplo um queijo de Azeitão.

23- E, já agora, que propõe para harmonizar com um Vintage acabado de chegar ao mercado?

Porque gosto de queijo, a minha primeira resposta seria um queijo forte e intenso, com capacidade para acompanhar a estrutura toda do vinho. Mas um bom chocolate preto também seria uma boa opção!

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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