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Entrevista com Luís Sottomayor (Ferreirinha/Sogrape)
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
Mensagens: 19

MensagemEnviada: Qua Nov 28, 2012 5:55 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

E, aí está! Eis-nos chegados ao que todos ambicionam: a oportunidade rara de ouvi-lo falar sobre o Barca-Velha, o mais reputado e cobiçado vinho tinto português.

Haverá tanto para dissecar que o melhor é começar pelos primórdios, e recuar aos idos de 40 do século passado, altura em que Fernando Nicolau de Almeida dava os primeiros passos em direcção ao Olimpo.

Nessa época Fernando Nicolau de Ameida viajou por Rioja, pela Borgonha, por Itália, pela Alemanha... Encontrou no seu próprio pai, em J. Smith e em L. Atkinson algumas das suas grandes referências mas, terão sido Bordéus e o incontornável Émile Peynaud quem maior influência exerceu na sua postura/filosofia enológica.

45- Encara o Barca-Velha como um tinto de perfil bordalês?
Eu diria que não! Barca Velha tem o seu próprio estilo, o estilo que o Sr. Fernando Nicolau de Almeida criou. É verdade que teve várias influências, mas que aliadas ao seu carácter e personalidade fizeram nascer um vinho único e singular, com um estilo próprio!


Ao idealizar um grande vinho tinto português, a principal preocupação de Fernando Nicolau de Almeida foi o controlo das temperaturas de fermentação.

46- Por que muita gente não o sabe, ser-lhe-á possivel fazer uma breve descrição das soluções engenhosas que Fernando Nicolau de Almeida encontrou para ultrapassar essa adversidade?
A temperatura foi realmente uma das preocupações do Sr. Fernando Nicolau de Almeida, mas não foi a única nem talvez a mais importante - antes disso, ele teve de encontrar as uvas que mais se adequavam ao estilo de vinho que pretendia fazer.
Mas falando das "soluções engenhosas", a temperatura foi realmente uma das ferramentas essenciais que ele ultrapassou, utilizando gelo que transportava de Matosinhos para o Douro Superior durante a noite, e que era entretanto colocado dentro de umas tinas que eram mergulhadas no mosto que fermentava em pequenos balseiros de 6/7 toneladas. Estes próprios balseiros foram também uma inovação à época, pois até aos anos 40/50, todos os vinhos do Douro eram vinificados em lagares.


47- Mais de meio século volvido e, seguramente que as coisas mudaram. Actualmente, qual é a sua maior preocupação tendo em vista uma busca incessante de qualidade para o Barca-Velha?

Num momento em que passam precisamente 60 anos sobre a colheita inaugural de Barca-Velha, constata-se que apenas 17 colheitas viram a luz do dia (1952, 1953, 1954, 1957, 1964, 1965, 1966, 1978, 1981, 1982, 1983, 1985, 1991, 1995, 1999, 2000 e 2004).

A minha grande preocupação quando se trata de Barca Velha é manter o perfil e a mesma filosofia, que é única e irrepetível, mas ao mesmo tempo, aperfeiçoar e sempre que possível melhorar a qualidade do vinho.

48- Só há relativamente pouco tempo se descobriu que a colheita inaugural de Barca-Velha remonta a 1952 (quando a ideia generalizada apontava para 1953). Existe alguma explicação para tal facto?
Desde que me lembro, existe na Ferreira uma garrafa magnum de Casa Ferreirinha Barca Velha 1952...!

49- Admite que os progressos na área vitícola e os avanços no domínio enológico permitam que, de futuro, se tornem mais frequentes as edições de Barca-Velha? E poderá aumentar o número de garrafas por colheita?
Acho que indirectamente já respondi a esta pergunta numa das questões colocadas anteriormente...! De qualquer forma, se é a verdade que as condições melhoram, também é inegável que a exigência aumenta. Dito isto, é sempre nossa ambição fazer mais e melhor!

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
Mensagens: 19

MensagemEnviada: Qua Nov 28, 2012 6:10 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Em 1949, aquando de uma sua deslocação ao Douro, Émile Peynaud terá ficado francamente impressionado com um tinto que Fernando Nicolau de Almeida lhe deu a provar (da sua autoria, claro!). Consta que o forte estímulo do mestre terá sido decisivo para que três anos depois (1952) nascesse o Barca-Velha.

50- Confirma este episódio ou estamos já um pouco no domínio da especulação?
Contactei muito com o Sr. Fernando Nicolau de Almeida e passámos horas a falar de Barca Velha, mas na realidade nunca ouvi dele directamente esse episódio. Não obstante, ainda conheci também várias pessoas que com ele trabalharam no nascimento deste mítico vinho e que me relataram essa mesma história...

51- Tem conhecimento da existência de garrafas deste tinto (uma espécie de protótipo) nas caves da Casa Ferreirinha ou no espólio da Quinta do Vale Meão? Alguma vez provou esse vinho?
A garrafa mais antiga que temos ligada à história de Barca Velha é uma magnum de 1952. Não tenho conhecimento que exista ainda algo anterior.


52- Sei que precisou de ir ao Brasil para conhecer as colheitas inaugurais de Barca-Velha. Eu, infelizmente, continuo sem as conhecer e, nesse sentido, pedia-lhe que deixasse algumas impressões gerais sobre essas "safras" da década de 50. Já passou o seu tempo? Encontram-se num momento óptimo de consumo? Podem prolongar o longo repouso em garrafa?
Só tive a sorte de provar um vinho da década de 50, nomeadamente o Casa Ferreirinha Barca Velha 1957. Posso dizer que estava apreensivo antes de o decantar, pois não sabia o que ia encontrar, mas assim que vi a cor vermelha do vinho toda essa apreensão desapareceu. É evidente que já era um vinho marcado pelos aromas terciários, decorrentes do longo estágio em garrafa, mas ainda tinha frescura e estrutura suficientes para acompanhar a galinha pintada com que foi servido! Só esse momento justificou a minha viagem ao Brasil!

53- Quando olha para os dois extremos da cadeia (1952 e 2004), e dando o devido desconto face à idade dos vinhos, que mudanças encontra no perfil do Barca- Velha?
Mudanças no perfil, espero que nenhumas! Agora, é evidente que o vinho se modernizou e se aperfeiçoou.

54- Até 1985 as colheitas de Barca-Velha surgiam com níveis alcoólicos de 12º-12,5º. Na década de 90 e nos primeiros anos deste século esses índices subiram para 13,5º. Não teme que esse acréscimo no teor de álcool possa beliscar o equilíbrio e a elegância do vinho?
Isso não me preocupa, pois deve-se essencialmente à melhoria das técnicas de viticultura, que conduzem hoje em dia a maturações mais equilibradas, mais longas e por isso mesmo, com um teor alcoólico superior, sem que isso altere o equlíbrio e as características do vinho.

Um grande abraço e até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
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MensagemEnviada: Qua Nov 28, 2012 6:26 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Goste-se ou não da ideia, existe um enorme paralelismo entre Portugal, Espanha e Austrália (com jeitinho também se incluia o Chile) no que concerne a vinhos míticos... puros ícones! E, à ordem de chamada, na primeira linha perfilam-se os nomes Barca-Velha, Vega Sicilia e Grange (outrora com o epíteto Hermitage).

55- Essa imagem não sofre contestação em termos de mercado interno. Mas, quando olhamos para o mercado global, o Barca-Velha não alcança a mesma projecção que os vinhos supracitados. Concorda comigo? A que atribui tal facto? Como inverter esse cenário?

Em primeiro lugar acho que depende do mercado onde essa análise é feita. Já houve leilões no Brasil em que Casa Ferreirinha Barca Velha competiu dignamente com grandes vinhos franceses como Chateau Margaux, Latour, entre outros. Dito isto, haverá consumidores para quem estes nomes singificam muita coisa, e outros para quem signifiquem menos. De qualquer modo, e assumindo realmente que Vega Sicilia e Grange são marcas mais fortes a nível global, acredito que isso tenha também a ver com o reconhecimento que Espanha e Austrália têm enquanto países vitivinícolas.

Em todo o caso, Neil Beckett não hesitou em incluir o Barca-Velha 1999 no seu "1001 Wines you must try before you die", sugerindo que o vinho deverá ser bebido depois de 2020.

A esse propósito pode ler-se: "The 1999 exhibits gloriously fresh, concentrated, fruit flavors of black fruit, the aroma overlaid with cedar and vanilla from the maturation in wood, with chocolate and floral hints. Great concentration and depth on the palate is balanced by a fine elegance rarely seen in wines of this power".

56- Sei que dificilmente obterei uma resposta sua mas, mesmo assim, aqui vai: o 1999 é a melhor edição do Barca Velha?

1999 foi sem dúvida um ano extraordinário, mas não acredito, contudo, que seja superior ao 2000 ou ao 2004. Quando lhe dizia atrás que a nossa exigência aumenta, aqui está um exemplo. Quando lançamos uma nova colheita de Barca Velha, temos de assegurar que está pelo menos ao nível da anterior!

57- Por norma, com que idade é que o Barca-Velha alcança o seu apogeu? E, em média, a sua longevidade pode prolongar-se até...?
Não há uma regra...! Mas quando lançamos o vinho no mercado acreditamos que está pronto a ser bebido, e a partir daí é uma questão de preferência e paciência, pois qualquer colheita de Barca Velha tem um enorme potencial de evolução em garrafa. Veja-se o 1957 que provei, e que ainda estava em grande forma. Mas aproveitando que falou do 1999, e se quer a minha opinião, ainda não considero que esteja no seu apogeu...! Se hoje fosse abrir uma garrafa para o jantar, talvez escolhesse 1991!

58- Desde os seus primórdios que o Barca-Velha se afirmou como "senhor" incontestado do Douro e de Portugal. Os únicos vinhos que se atreviam a fazer-lhe frente eram o Reserva Especial (o irmão mais novo) e o Quinta do Côtto Grande Escolha (a partir de 1980). Hoje a realidade é bem diferente com uma ou duas dezenas de vinhos a quererem disputar-lhe o trono. E, contudo, não conseguem! Acredita que o mito irá perdurar? Onde julga estar o segredo para tamanho sucesso?
Felizmente, há, de facto, hoje em dia, grandes vinhos no Douro. Não obstante, diria que nehum deles procura ocupar o lugar de Barca Velha. Pela sua história, pelo seu perfil e pelo seu carácter. Se formos ver, esses grandes vinhos do Douro são lançados muito mais cedo que Barca Velha. Não digo que não mereçam a designação de vinhos de topo, mas simplesmente o seu perfil não se compara.

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



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MensagemEnviada: Qua Nov 28, 2012 6:43 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Começamos a entrar em ritmo de "descompressão" e, nesse sentido, irei imprimir um cunho mais pessoal a algumas perguntas. Aí vai:

59- Um dos aspectos mais desconcertantes do Barca-Velha, é a sua enorme capacidade em fixar pigmento e manter, mesmo passados 20/25 anos, uma jovialidade na cor pouco comum. Como explica essa particularidade?
Barca Velha quando nasce tem uma estrutura e uma cor de tal maneira intensas, que lhe permitem ao fim de muitos anos manter o vermelho de que fala. É por isso que o vinho só é lançado numa fase já avançada da sua idade.

60- Como já tive oportunidade de referir, nunca provei as edições de Barca-Velha da década de 50. Mas, felizmente, tive o privilégio de conhecer as demais colheitas. E, do ponto de vista organoléptico, guardo esta imagem: por um lado, um tinto de prova muito difícil que, enquanto jovem (à saída para o mercado), raramente se demarca dos seus pares e, por outro, um vinhos de qualidades excelsas que, a partir dos 15/20 anos, mostra de forma inequívoca porque é alcandorado a "primeiro entre os melhores".

Concorda com esta visão? Em caso afirmativo, como é possível reconhecer as virtudes de um jovem Barca-Velha?

Na realidade, quando um Barca Velha sai para o mercado, já não é propriamente um vinho jovem, sobretudo colocado ao lado do seus "pares", que são consistentemente, vinhos mais novos. Falamos de uma comparação muitas vezes inadequada, entre um vinho com 7/8 anos, ao lado de outros com 2/3.
De qualquer forma, todos os passos na vida de um Barca Velha são no sentido de preparar um vinho para um longo estágio em garrafa. Assim, enquanto novo, para garantir uma longa e boa evolução, tem de ter uma estrutura fenólica e uma acidez acima do normal. Se calhar ajuda fazermos, como o Sr. Fernando Nicolau de Almeida fazia, um paralelismo com o Vinho do Porto Vintage. No início, é um vinho demasiado robusto, que com o tempo vai adquirindo harmonia e complexidade.


61- É sabido que uma vez conhecido o veredicto da sua equipa de enologia, Fernando Nicolau de Almeida não abdicava da opinião da mulher para se decidir entre Reserva Especial e Barca-Velha. E, segundo consta, nunca se sentiu defraudado. Muito pelo contrário!

Preserva este ritual? Está a ponderar fazê-lo? Ou, pelo contrário, defende que na prova não há lugar para a intuição?


Na prova há sem dúvida lugar para intuição, e espero que continue a haver! Esse ritual faço-o não só com Barca Velha, como com todos os vinhos, e com toda a minha família, incluindo os meus filhos mais velhos. Aliás, sempre que estudamos um novo lote, convido para jantar o António Braga, que trabalha comigo na sala de provas, e é à mesa que a decisão final é tomada.

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



Registrado: Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2012
Mensagens: 19

MensagemEnviada: Qua Nov 28, 2012 7:00 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Quase em jeito de encerramento:

62- Começam a surgir em Portugal alguns vinhos brancos de elevada qualidade mas, por razões que neste momento não importa escalpelizar, tenho sérias dúvidas de que algum dia o Douro possa produzir um Barca-Velha branco?

Concorda comigo? Se não, qual o segredo para almejar um branco duriense de nível mundial?


No Douro já se produzem excelentes vinhos brancos, e não vejo razão para a região ser apenas associada tintos. Temos vinhas em zonas altas e frescas, temos o xisto e um terroir que permite excelentes maturações para vinhos brancos.

Sei que é um apaixonado pelo rugby, pela equitação e pela caça, esta última, uma paixão que partilhamos.

63- Pedia-lhe, pois, que, independentemente do modo de confecção, sugerisse quatro vinhos da Casa Ferreirinha para harmonizarem, respectivamente, com as seguintes espécies cinegéticas: lebre, perdiz, narceja e galinhola.

Para a lebre escolhia um Quinta da Leda 2009.
Para a perdiz um Barca Velha 1991.
Para a narceja talvez o Vinha Grande 2008.
Com a galinhola experimentava um Reserva Especial 1980.

64- Um dos maiores dilemas que se coloca ao consumidor de Barca-Velha é a escolha do procedimento mais adequado antes de servir o vinho. Presumo que seja adepto da dupla decantação mas, nessa impossibilidade, que timing's sugere numa decantação simples para um Barca-Velha:

Sem esquecer que todas as garrafas devem ser colocadas ao alto de véspera...
- novo (acabado de chegar ao mercado);
Barca Velha 2004 decantaria uma hora antes de ser servido
- com meia idade (15/20 anos);
Barca Velha 1991 decantaria duas horas antes de ser servido
- senior (30/35 anos)?

Barca Velha 1982 não seria muito diferente, talvez 2/3 horas antes de ser servido

65- Recordo-me de Fernando Nicolau de Almeida deixar bem claro que aquilo que o levava a diferenciar um Reserva Especial de um Barca-Velha não era tanto a qualidade intrínseca do vinho mas, acima de tudo, a sua longevidade. Vai manter-se fiél a este princípio? Quem provar as novas colheitas de Reserva Especial (8/10 anos) vai poder continuar a sentir o encanto de um jovem Barca velha?
Sim! Manter-me fiel aos princípios do Sr. Fernando Nicolau de Almeida, e à filosofia que ele definiu para estes vinhos, é um dos nossos grandes objectivos! Para o vinho ter a designação de Barca Velha não pode haver dúvidas quanto à sua extraordinária capacidade de evolução em garrafa. No entanto, esta diferença que fala em relação ao reserva Especial por vezes é quase imperceptível. São precisos muitos anos de experiência para a conseguir identificar, e por vezes é o tal "feeling" que nos ajuda.

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes

PS. Deixo para amanhã duas perguntas finais... e um pedido!
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Qui Nov 29, 2012 5:06 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Deixei para o final da entrevista aquilo que me parece vital: como perpetuar o nome Barca-Velha, mantendo, e dando a conhecer às novas gerações, o carácter absolutamente único de um vinho que se converteu num mito?

Dentro daquilo que é a responsabilidade da empresa lembrei-me:

Fernando Nicolau de Almeida, José Maria Soares Franco, Luís Sottomayor e... António Braga! Se não ocorrerem "acidentes de percurso", tudo indica que será este o desenlace final para que se complete a quadratura do círculo.

66- Que princípios, que atitude, que filosofia procura transmitir a António Braga, seu delfim, para garantir que um dia a sua sucessão se processe como uma espécie de "evolução na continuidade"?

E, dentro daquilo que é responsabilidade de críticos, enófilos e demais consumidores, permita-me que lhe conte um pequeno episódio:

Há uma tradição na família, uma espécie de celebração iniciática, um quase rito de passagem: quando alguém celebra 18 anos decorre um jantar em que o aniversariante contacta pela primeira vez (oficialmente) com vinhos. E um dos vinhos que é sempre servido é o Barca-Velha. Inclusivamente, se é que tal é possível, da colheita alusiva ao ano de nascimento do "debutante".

Foi assim comigo e, em 1983 tive o privilégio de contactar pela primeira vez com um Barca-Velha de 1965 (também ele com 18 anos). Ora, a dado momento desse jantar, meu pai questiona-me em relação ao Barca-Velha:

- Então... que tal?

E a minha resposta foi:

- Este não é grande espingarda!

Ao que meu pai ripostou:

- Tu é que não és grande espingarda, nem nunca serás enquanto não perceberes o quão extraordinário é este vinho.

Calei-me, engoli em seco e fiquei a matutar naquelas palavras. Claro está que uma década bastou para ter percebido o meu equívoco e confirmar a veracidade das palavras de meu pai.

Vem tudo isto a propósito de em 2017, e mantendo a tradição familiar, se celebrar o 18º aniversário do meu filho. E, pasme-se, tendo a sorte de haver uma colheita de Barca-Velha com a mesma idade (1999).

67- Ora, a minha pergunta é muito simples: o que se diz a um jovem de 18 anos no sentido de o levar a perceber o encanto e o carácter excelso de um vinho como o Barca-Velha? Como se convence um jovem de que aquele vinho não é mais um vinho, mas algo de único e irrepetível? Como induzir os mais novos a preservar o mito?

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Sex Nov 30, 2012 7:37 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Luís Sottomayor,

Vou dar por concluída a minha intervenção nesta entrevista, não com uma pergunta mas, com um apelo.

Quando olho para o actual grafismo do Barca-Velha sinto que se perdeu grande parte do simbolismo quase medieval e aristocrático que o rótulo tradicional transmitia.

Mais ainda (e provavelmente muitos não o saberão), sinto que se perdeu todo o impacto estético da pintura de Fernando Nicolau de Almeida, feita a partir de "As Vindimas", uma tapeçaria francesa do século XV.

Ora, se é verdade que os clássicos são intemporais, porque não reintroduzir o rótulo original, recuperando toda a envolvente senhorial que o mesmo sugere?

Vou mais longe, porque não fazer a reprodução integral da tela de Fernando Nicolau de Almeida (a cores)? É um pintura muito bela e, que melhor forma haveria para homenagear e perpetuar o reconhecimento ao progenitor de tão grande vinho?

Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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MensagemEnviada: Seg Dez 03, 2012 6:59 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Deixei para o final da entrevista aquilo que me parece vital: como perpetuar o nome Barca-Velha, mantendo, e dando a conhecer às novas gerações, o carácter absolutamente único de um vinho que se converteu num mito?

Dentro daquilo que é a responsabilidade da empresa lembrei-me:

Fernando Nicolau de Almeida, José Maria Soares Franco, Luís Sottomayor e... António Braga! Se não ocorrerem "acidentes de percurso", tudo indica que será este o desenlace final para que se complete a quadratura do círculo.

66- Que princípios, que atitude, que filosofia procura transmitir a António Braga, seu delfim, para garantir que um dia a sua sucessão se processe como uma espécie de "evolução na continuidade"?
Quando o António entrou na Sogrape Vinhos, o perfil que procurámos foi já de alguém que se enquadrasse neste espírito e tivesse potencial para um dia mais tarde vir a liderar esta equipa. Para já ainda não estou a pensar na sucessão, porque espero ainda cá estar alguns e bons anos, mas realmente essa premonição faz todo o sentido!
Dito isto, a selecção do António não foi ao acaso! Um apaixonado pelo vinho, com sensibilidade para entender o Douro e as suas particularidades. É uma pessoa sociável, dinâmica, de quem toda a gente gosta, e cheio de vontade de aprender, crescer, e fazer mais e melhor!


E, dentro daquilo que é responsabilidade de críticos, enófilos e demais consumidores, permita-me que lhe conte um pequeno episódio:

Há uma tradição na família, uma espécie de celebração iniciática, um quase rito de passagem: quando alguém celebra 18 anos decorre um jantar em que o aniversariante contacta pela primeira vez (oficialmente) com vinhos. E um dos vinhos que é sempre servido é o Barca-Velha. Inclusivamente, se é que tal é possível, da colheita alusiva ao ano de nascimento do "debutante".

Foi assim comigo e, em 1983 tive o privilégio de contactar pela primeira vez com um Barca-Velha de 1965 (também ele com 18 anos). Ora, a dado momento desse jantar, meu pai questiona-me em relação ao Barca-Velha:

- Então... que tal?

E a minha resposta foi:

- Este não é grande espingarda!

Ao que meu pai ripostou:

- Tu é que não és grande espingarda, nem nunca serás enquanto não perceberes o quão extraordinário é este vinho.

Calei-me, engoli em seco e fiquei a matutar naquelas palavras. Claro está que uma década bastou para ter percebido o meu equívoco e confirmar a veracidade das palavras de meu pai.

Vem tudo isto a propósito de em 2017, e mantendo a tradição familiar, se celebrar o 18º aniversário do meu filho. E, pasme-se, tendo a sorte de haver uma colheita de Barca-Velha com a mesma idade (1999).

67- Ora, a minha pergunta é muito simples: o que se diz a um jovem de 18 anos no sentido de o levar a perceber o encanto e o carácter excelso de um vinho como o Barca-Velha? Como se convence um jovem de que aquele vinho não é mais um vinho, mas algo de único e irrepetível? Como induzir os mais novos a preservar o mito?
Entrar no mundo do vinho através de Barca Velha é como dar um fórmula um para as mãos de um iniciado. Ou seja, não é fácil uma pessoa perceber logo a complexidade de um vinho como este. Mesmo para pessoas já experimentadas, o facto de ser um vinho com alguma evolução, pode por vezes provocar alguma confusão. Muita gente não sabe o que esperar de um vinho como Barca Velha, com um longo estágio em garrafa.
A minha sugestão será, num jantar de 18 anos, o Barca Velha ser o final feliz de uma refeição memorável. Dito isto, talvez começasse por servir outros vinhos menos complexos, que possam entretanto abrir caminho e ir afinando os sentidos para o momento alto.
Espero que o seu filho tenha uma primeira experiência mais feliz que a sua!


Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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LSottomayor



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MensagemEnviada: Seg Dez 03, 2012 7:04 pm    Assunto: Responder com Citação

Pedro Gomes escreveu:
Caro Luís Sottomayor,

Vou dar por concluída a minha intervenção nesta entrevista, não com uma pergunta mas, com um apelo.

Quando olho para o actual grafismo do Barca-Velha sinto que se perdeu grande parte do simbolismo quase medieval e aristocrático que o rótulo tradicional transmitia.

Mais ainda (e provavelmente muitos não o saberão), sinto que se perdeu todo o impacto estético da pintura de Fernando Nicolau de Almeida, feita a partir de "As Vindimas", uma tapeçaria francesa do século XV.

Ora, se é verdade que os clássicos são intemporais, porque não reintroduzir o rótulo original, recuperando toda a envolvente senhorial que o mesmo sugere?

Vou mais longe, porque não fazer a reprodução integral da tela de Fernando Nicolau de Almeida (a cores)? É um pintura muito bela e, que melhor forma haveria para homenagear e perpetuar o reconhecimento ao progenitor de tão grande vinho?

Caro Pedro,
Antes de mais deixe-me dizer-lhe que foi um enorme prazer participar desta iniciativa! Os meus parabéns à Nova Crítica pelo projecto!
Falei aqui sobre temas que não são da minha responsabilidade directa, como agora o caso que me coloca relativamente aos rótulos. Mas tal como o vinho se modernizou, mantendo-se no entanto fiel à sua filosofia, diria que a rotulagem seguiu o mesmo caminho, não se desviando demasiado relativamente à sua origem...
Eu próprio sou um grande admirador da pintura que fala, e estando ou não nos rótulos de Barca Velha, é sem dúvida uma bela forma de perpetuar a sua história!

Até sempre!



Um grande abraço e... até já!

Pedro Gomes
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Pedro Gomes



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MensagemEnviada: Qui Dez 06, 2012 4:38 pm    Assunto: Responder com Citação

LSottomayor escreveu:


Caro Pedro,

Antes de mais deixe-me dizer-lhe que foi um enorme prazer participar desta iniciativa! Os meus parabéns à Nova Crítica pelo projecto!

Até sempre!



Caro Luís Sottomayor,

Eu é que agradeço, em meu nome pessoal, em nome da Nova Crítica e em nome de todos os foristas e demais leitores a sua disponibilidade em participar nesta entrevista.

Estou seguro de que todos aqueles que acompanharam as suas palavras "cresceram" no vinho: e isso é o mais importante!

Também por isso, o meu bem-haja!

Um grande abraço e... até sempre!

Pedro Gomes
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