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Entrevista com Duarte Calvão (Jornalista Gastronómico)
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Autor Mensagem
Abílio Neto



Registrado: Quinta-Feira, 1 de Setembro de 2005
Mensagens: 3677

MensagemEnviada: Qui Mar 13, 2008 7:42 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Duarte Calvão,

Não se safa tão facilmente, também tenho que ir ver o SCP Very Happy Cool :

Duarte Calvão escreveu:
E eu a pensar que podia ir saindo de fininho...Caros Paulina e Zé Tomáz, prometo responder logo à noite, depois de ver o Sporting (espero não ficar de mau-humor...), porque estou com um dia daqueles. Também gosto bastante do XL e vou dizer porquê. Até logo.


Na Sibaritas de Janeiro, se não me engano, o Peñin faz um especial Cabo Verde, restaurantes etc, muito bem feito, muitos e bons apontamentos gastronómicos mixando cultura e proniências, revelando um interesse e conhecimentos assombrosos, ao ponto de me ter dado a conhecer a produção de um Moscatel (?!) (vinho) local, o que desconhecia em absoluto. A pergunta:

Porquê o espanhol e não um português, salvaguardando-se, com o mesmo tipo de bom critério e olhar que um Duarte Calvão teria para fazer algo semelhante, e não o de um jornalista de uma revista de viagens?

Não tinha que o fazer, mas bato-lhe palmas Applause a isto que foi escrevendo aqui, deve merecer n/ reflexão:

Nórdicos

Citação:
- Ou seja, têm pouco a "conservar" para serem conservadores.


Portugueses

Citação:
- Infelizmente, somos por vezes conservadores naquilo que não devíamos conservar e damos cabo daquilo que deveríamos conservar.


Espanha

Citação:
A imagem gastronómica de Espanha faz com que hoje toda a gente fale de Adrià e esferificações, mas também de pata negra e tapas. É a prova de que muitas das "separações" que se fazem entre moderno e tradicional, alta cozinha e cozinha popular, só acontecem na cabeça de pessoas que têm visões limitadas da gastronomia.


E felicidades para o «Peixe Lisboa», grande ideia, um produto, uma cidade e uma imagem associada!

Sobre esse evento, pergunto (p/ ex., como li a entrevista em que Adrià faz elogios ao peixe português e como sei da admiração espanhola pelo peixe português...), está prevista divulgação fora de Portugal e como?

Abraços,

Abílio Neto

PS: Não se preocupe com o Bolton, uma equipa que é apelido do Michael do saxofone, da xaropada musical e dos caracóis, não nos pode ganhar, está ganho... tenho cá uma «fezada»!
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Duarte Calvão



Registrado: Segunda-Feira, 16 de Abril de 2007
Mensagens: 52

MensagemEnviada: Sex Mar 14, 2008 12:20 am    Assunto: Responder com Citação

Vamos lá isto, Paulina. Estou bem disposto, o Pereirinha foi a única coisa boa que aconteceu ao Sporting nesta época.
Esse livro "Dining Out" é excelente. Emprestou-me o Joaquim Figueiredo aqui há uns anos e estive quase para não o devolver. Mas retrata muito uma realidade americana, onde parecem estar sempre à espera de líderes iluminados que lhes digam o que é bom e o que não é.
Não me parece que na Europa haja críticos com tanto poder, mas certamente que podem influenciar, criando uma "corrente" positiva ou negativa sobre um restaurante, mas que depois tem que ser confirmada por outros críticos e guias, sobretudo o Michelin e as suas estrelas, de que já falei anteriormente.
Em Portugal, o que continua a ter um (merecido) poder é o José Quitério. Mas não para "fechar" um restaurante ou levá-lo à glória.
Não creio que o El Bulli seja uma criação americana, porque quando eles começaram a falar mais dele, já muitos espanhóis e europeus o tinham elevado aos píncaros. Mas certamente que a Imprensa americana ajudou a aumentar a moda.
Se os críticos só confirmassem a qualidade dos favoritos do público, seriam desnecessários. O nosso papel é descobrir, interpretar, usar a nossa experiências e informações para enquadrar uma determinada cozinha e cozinheiro. Mas não devemos ter ilusões quanto ao nosso poder. Tantas vezes, sobretudo nos primeiros anos, fiquei desiludido por as pessoas não darem valor àquilo de que eu gostava. Escrevia textos magníficos e os restaurantes continuavam vazios (então com certos restaurantes de hotel, como o do Ritz ao jantar, o Méridien, o Lapa Palace ou mesmo o Pestana, que agora está bem melhor, não havia nada a fazer). Isso mostrou-me claramente os limites do meu trabalho e, a partir daí, tranquilizei-me, não é nosso papel encher ou esvaziar restaurantes, é apenas dizer com toda a honestidade aquilo que pensamos. Se temos um papel didáctico ou não, é coisa que desconheço. Só posso afirmar que evito cair no prazer de dizer mal e fujo a sete pés daquele tipo de textos em que se procura encontrar os adejctivos mais rebuscados para dizer que tudo é perfeito. Nunca encontrei um restaurante que não tivesse algo que poderia, na minha modesta opinião, ser melhorado, ou mesmo que tivesse falhado um pouco (dentro de certos parâmetros, é claro). Nem o El Bulli.
O serviço é hoje o principal problema dos restaurantes portugueses. Nem percebo como é que os responsáveis do sector preferem gastar dinheiro em decorações, relações públicas, loiças de design, e depois poupam na altura de contratar profissionais qualificados. O problema não é só português, mas aqui nota-se muito que os empregados se sentem humilhados por desempenharam esta profissão e isso reflecte-se no modo de atender e servir. Eu reparo sempre no serviço e procuro inclui-lo nas minhas críticas. Nas classificações que dou, usando uma escala de 20 pontos, o serviço vale 20%, o ambiente/decoração outros 20% e a cozinha 60%. Claro que é só um indicador, que pode ser ajustado conforme o restaurante em causa.
Mas não sou eu nem nenhum crítico que vai mudar problemas culturais. Se um jovem considera que é melhor ser explorado no telemarketing ou numa loja de roupa de marca num Centro Comercial em vez de trabalhar num bom restaurante, ganhando bem melhor e com hipóteses de melhorar ainda mais, o que é que se pode fazer?
Quanto às celebridades, nem o Oliver nem Ainsley são grandes cozinheiros, mas são bons apresentadores de televisão e isso cria o tal histerismo de massas que cita. Poderiam ser actores de telenovela ou jogadores de futebol ou até participantes de um qualquer "Big Brother". Em Espanha, o fenómeno é mais interessante, porque realmente eles acarinham os seus grandes cozinheiros.
Em Portugal, os que vi mais próximos do "estrelato" foram o Vítor Sobral, que sempre soube usar bem o marketing (o que é um mérito) e o Henrique Sá Pessoa, também devido à televisão. AInda agora, na Essência do Vinho, houve muita gente que foi ter com ele e creio que até lhe pediram autógrafos. Fiquei satisfeito, porque são bons profissionais e a sua fama pode atrair mais gente para a boa cozinha.
Claro que vi o "Ratatui" e gostei muito. Acho que a consultoria do Thomas Keller ajudou bastante a que o filme fosse muito mais do que uma simples história de desenhos animados passada no mundo da cozinha. O crítico Anton Ego pareceu-me pouco verosímil (se se pode falar disso num filme em que os ratos cozinham...), porque nunca vi um crítico credível avisar que vai estar em tal restaurante no dia tal e desafiar o cozinheiro para uma espécie de duelo, mas é evidente que isso fazia falta para o enredo dramático e a figura era muito divertida. Mas não deixa de ser interessante verificar que o crítico é aquele que melhor pode vestir a pele de "vilão" no mundo da cozinha.
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Duarte Calvão



Registrado: Segunda-Feira, 16 de Abril de 2007
Mensagens: 52

MensagemEnviada: Sex Mar 14, 2008 12:30 am    Assunto: Responder com Citação

Caro Zé Tomáz, totalmente de acordo sobre os méritos do XL e do Vasco Gallego. Digo já que ele nem deve saber quem eu sou. Mas já entrei no XL á meia-noite, o restaurante estava cheio e o Vasco Gallego foi tão simpático comigo e os meus amigos que decidimos esperar mais de meia-hora até termos mesa. Esse tipo de acolhimento é raro em Portugal e acho que o XL é um projecto muito bem pensado e executado, sendo das únicas casas em Lisboa onde não só nos servem até tarde como fica com o tal ambiente de que também gosto muito.
Quanto à comida, como em quase todos os restaurantes, é uma questão de expectativas. Quando lá vou não é em busca de criatividade nem de cozinha regional, mas sim de pratos simples, saborosos e bem feitos, apresentados com alguma "diferença". Aprecio sobretudo os soufflés, porque já ninguém os faz, nem sequer em casa.
É sobretudo um restaurante de "anfitrião", de "sala", e menos de cozinha, mas nem por isso deixei de sair sempre de lá bem disposto e com vontade de voltar.
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Duarte Calvão



Registrado: Segunda-Feira, 16 de Abril de 2007
Mensagens: 52

MensagemEnviada: Sex Mar 14, 2008 1:35 am    Assunto: Responder com Citação

Caro Tiago,
Apesar de um certo cansaço, estou a gostar muito de estar aqui. Ajuda-me a pensar no que faço.
Respondendo às tuas perguntas:
3- A crítica de vinhos e a crítica gastronómica são completamente diferentes. Nós escrevemos sobre lugares, pessoas, sabores que toda a gente conhece, ambientes, produtos. Vocês tentam descrever aromas e sabores difíceis de "agarrar", que podem variar conforme a garrafa, a temperatura, o copo, a ocasião. É tudo demasiado abstracto para o meu escasso talento. Ao ler a maior parte das descrições dos vinhos, fico praticamente na mesma, e só reparo se o crítico gostou ou não e que nota lhe deu. O resto, esqueço-me.
Digo-te, com toda a sinceridade, que sou eu que estou errado. Em Portugal e no mundo, o vinho deu passos gigantescos baseado nessa linguagem que não entendo. Há multidões de enófilos a rodar os copos e a fazerem entusiásticas provas organolépticas, a falarem de taninos redondos e Ph dos solos, de aromas a couro exótico e de PAI's. Eles divertem-se assim e eu sou incapaz de contribuir, com a minha escrita para essa felicidade. Por isso, mal comecei a escrever sobre estes assuntos, vi que não tinha nada a acrescentar ao mundo dos vinhos e limitei-me a escrever trabalhos informativos.
Não julgues que menosprezo os críticos de vinho e o seu trabalho. Tu e o Pedro, o Rui Falcão, o João Paulo Martins, o João Afonso, o Luís Lopes, o Aníbal Coutinho, o David Lopes Ramos, são todos gente séria e dedicada, que desempenha um papel fundamental na prova de vinhos, que eu sei que é tramado e muito duro. Mas o que eu mais admiro é conseguirem pôr depois essas sensações em palavras. Daí que eu brinque sobre a linguagem de vinhos, que tem que ir buscar a frutas, flores, minerais e muito mais, uma aproximação que possa ajudar a esclarecer o leitor sobre a garrafa que vai comprar. Mas acho que não há outra solução. A minha desilusão com o mundo dos vinhos deriva de eu não ter a menor ideia de como se pode descrevê-los.

4. Há condições essenciais para se ser um bom crítico. Temos que fazer um esforço permanente para ser independentes, para não favorecer aqueles de que gostamos nem sermos excessivamente severos com eles, para termos a coragem de dizer tudo o que pensamos, que nos enganámos ou que temos simpatias ou antipatias que podem influenciar o nosso juízo, que não conhecíamos um determinado produto ou receita. Armar em super-homem, em máquina registadora de sabores, usar aquele irritante tom de quem já viu tudo e tudo sabe, são coisas que detesto. Para mim, um bom crítico tem que ter, evidentemente, vocação para isto, mas sobretudo tem que ter bons termos de comparação. Quem nunca comeu um arroz de pato bem feito nunca poderá julgar bem o arroz de pato sobre o qual tem que escrever. Quem não sabe o que é uma esferificação nem como ela se enquadra num prato, arrisca-se a dizer disparates ou, pior ainda, banalidades. Se não sabe o que é, se nunca provou uma (ou um arroz de pato), é melhor confessá-lo e apenas descrever a sensação da novidade.
Creio que o Robert Parker só poderia surgir na América, com aquela arrogância algo ingénua de acharem que eles, os americanos, são os únicos independentes e honestos, os iconoclastas corajosos que vão derrubar os mitos europeus, os espertos que pagam o preço justo pela qualidade enquanto os outros pagam por rótulos e simpatias de produtores.
Posso estar a ser injusto, porque não o conheço bem, mas creio que ele é muito responsável por esta onda de vinhos óbvios e planos, sem complexidade nem idade, que têm que explodir em fruta a cada gole. Ajudou ele ter surgido quando os americanos, com a sua obsessão pela saúde, descobriram o "paradoxo francês" e passaram a beber vinho como um remédio e adoraram ter um desempoeirado advogado da Filadélfia a passar-lhes a receita, em vez de algum francês snob.
Com a americanização do mundo, com os produtores europeus ávidos de conseguir entrar num mercado gigantesco, a influência de Parker tornou-se completamente insuportável A culpa é nossa, europeus, que não só lhe demos palco, como começámos a imitá-lo e até a fazer vinhos para ele.
(Ao ler esta resposta, pode-se pensar que eu sou anti-americano, mas acreditem que é ao contrário. Agora de vinhos e comida percebem os europeus).

5. Temos que conhecer alguma coisa dos processos produtivos do vinho e da comida, mas acho que é um erro querer usurpar o lugar do enólogo ou do cozinheiro. Tal como já disse, a nossa principal função é escrever bem sobre estes assuntos, é essa a nossa especialidade. Quanto vejo um crítico a pôr-se com ares de superioridade perante pessoas que dedicam as suas vidas, de manhã à noite, a fazer vinhos ou a cozinhar profissionalmente, dá-me sempre a volta ao estômago. Podemos gostar ou não, explicando porquê, dizer o que achámos que estava mal ou bem, e neste processo acabar por dar algumas sugestões sem querer (do tipo, o peixe devia estar menos cozido) mas entrar directamente no aconselhamento desses profissionais parece-me de uma soberba rídicula.
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Duarte Calvão



Registrado: Segunda-Feira, 16 de Abril de 2007
Mensagens: 52

MensagemEnviada: Sex Mar 14, 2008 1:49 am    Assunto: Responder com Citação

Amanhã respondo às outras pergutntas. Saudações leoninas, Abílio
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Duarte Calvão



Registrado: Segunda-Feira, 16 de Abril de 2007
Mensagens: 52

MensagemEnviada: Sex Mar 14, 2008 2:00 am    Assunto: Responder com Citação

Peço desculpa, o Robert Parker é de Baltimore. O Mark Squires é que é de Filadélfia e também tem a mania de que sabe tudo.
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José Tomáz Mello Breyner



Registrado: Quarta-Feira, 27 de Novembro de 2002
Mensagens: 5470
Localização: Estoril

MensagemEnviada: Sex Mar 14, 2008 11:10 am    Assunto: Responder com Citação

Duarte Calvão escreveu:
Caro Zé Tomáz, totalmente de acordo sobre os méritos do XL e do Vasco Gallego. Digo já que ele nem deve saber quem eu sou. Mas já entrei no XL á meia-noite, o restaurante estava cheio e o Vasco Gallego foi tão simpático comigo e os meus amigos que decidimos esperar mais de meia-hora até termos mesa. Esse tipo de acolhimento é raro em Portugal e acho que o XL é um projecto muito bem pensado e executado, sendo das únicas casas em Lisboa onde não só nos servem até tarde como fica com o tal ambiente de que também gosto muito.
Quanto à comida, como em quase todos os restaurantes, é uma questão de expectativas. Quando lá vou não é em busca de criatividade nem de cozinha regional, mas sim de pratos simples, saborosos e bem feitos, apresentados com alguma "diferença". Aprecio sobretudo os soufflés, porque já ninguém os faz, nem sequer em casa.
É sobretudo um restaurante de "anfitrião", de "sala", e menos de cozinha, mas nem por isso deixei de sair sempre de lá bem disposto e com vontade de voltar.


Caro Duarte

Completamente de acordo com estas tuas palavras. Mas para mim o sucesso do XL passa por mais uma coisa importantissima e que a maior parte das vezes é descurada pelos nossos empresários.

O Vasco adequou o seu produto à clientela potencial do espaço e essa é a razão do sucesso ininterrupto do XL desde a abertura. O Vasco antes de abrir o XL estudou o mercado, seleccionou o nicho do mercado que pretendia ter no seu espaço, estudou atentamente quais as expectativas desse nicho de mercado, e depois disto abriu as portas, e claro está só podia ter sucesso. Se todos os empresários fizessem o mesmo os seus espaços teriam certamente mais sucesso.

O outro segredo do XL é a sua equipa altamente profissional e bem formada, mas sobretudo muitissimo motivada e sempre bem disposta.


Um abraço Duarte e parabens pela qualidade desta entrevista


Zé Tomaz
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Duarte Calvão



Registrado: Segunda-Feira, 16 de Abril de 2007
Mensagens: 52

MensagemEnviada: Dom Mar 16, 2008 6:25 pm    Assunto: Responder com Citação

Vamos então às alegações finais, Paulina. De facto, a questão do anonimato é muito valorizada pelos americanos, mas a verdade é que eles também têm muitos críticos influentes que são bem conhecidos. Basta ler o livro "Negócios à Mesa", de Danny Meyer, recém-lançado em Portugal, que é dono de restaurantes novaiorquinos como o Union Square Café, Gramercy Tavern ou The Modern, para ver como ele não só os conhece como é até amigo de alguns...Uma das excepções que ficou célebre foi a Ruth Reichl, do New York Times, que realmente conseguiu não ser conhecida, mas para isso disfarçava-se e incorporava personagens como uma verdadeira actriz. Foi um trabalho muito válido, mas ninguém está à espera que outros o façam.
Eu continuo a defender que dificilmente se pode "agradar" a um crítico que chegue, sem avisar e marcando mesa noutro nome (que é o que faço, mesmo em restaurantes de cozinheiros que conheço há anos), sem que ele perceba e até penalize a casa por lhe estar a dar um tratamento diferente dos outros clientes, tipo maior atenção do serviço, doses ou bebida extra, salamaleques, demoras nos pratos (o que pressupõe maior atenção na cozinha) ou trocas do tipo: "não peça o linguado, vá antes para o robalo, que hoje está óptimo", etc.
Creio que em Portugal, o José Quitério e o David Lopes Ramos são conhecidos nos principais restaurantes, mas nem por isso são menos influentes ou o seu trabalho é menos interessante.
Respondendo directamente às suas perguntas, selecciono os restaurantes que vou criticar para a NS pela variedade, já que ela sai junto com dois jornais generalistas, um mais lido no sul, o DN, outro no norte, o JN. Por isso, têm que ser restaurantes de todo o País e para todos os gostos e bolsos. Nem sempre consigo variar tanto quanto gostaria devido ao facto de viver em Lisboa e não ter tanto tempo para viajar quanto gostaria. Procuro também estar atento às novidades, mas prefiro deixar passar, pelo menos, seis meses depois da abertura para ir aos novos restaurantes.
Tenho que ter sempre consciência que estou a escrever para pessoas que se interessem por cozinhas mais criativas, mas também para quem quer simplesmente ir almoçar com a família num domingo, quer comer bem e de forma descontraída. Ou o casal de namorados que quer jantar no sábado e não tem muito dinheiro para gastar ou alguém que nunca experimentou cozinha japonesa e precisa de uma boa indicação.
Para mim, ser crítico e jornalista nesta área é uma sorte. É algo que gosto tanto de fazer, que preferia abandonar os jornais a ter que escrever sobre outros assuntos. Mas é evidente que é um trabalho, com tudo o que isso implica, que há dias que nos apetecia era ficar em casa ou ir jantar descontraidamente com os amigos, que há consequências na balança e na saúde. Mas até agora tem predominado sempre o prazer como factor primordial e acho que só poderei escrever bem sobre o assunto se for assim. Quando for uma "obrigação", mudo de ramo.
Sobre as "trocas" nos pratos, acho que cada caso é um caso. Num restaurante mais simples, que pode ser tão válido quanto um três estrelas, é indiferente se eu pedir para trocarem as batatas fritas por arroz para acompanhar um frango assado, mas noutros restaurantes já me parece mais grave quando se põem a alterar a composição do prato e acho que o cozinheiro tem todo o direito de dizer que não o faz, se achar que isso o descaracteriza.
Um exemplo rápido. Quando a Maria Paola Porru abriu o Casanostra, no Bairro Alto, há já mais de 15 anos, muitos clientes não compreendiam que a massa podia ser o ingrediente principal de um prato e não um acompanhamento e toca de pedir um bifinho para vir junto com o spaghetti. Ela, com o feitio que lhe conhecemos, insurgia-se e dizia que na sua casa não se serviam pratos desses. Claro que houve reacções (inclusive de gente "importante", porque a casa sempre foi bem frequentada) do género "se eu estou a pagar, tenho direito", mas ela preservou e os clientes "aprenderam".
Uma questão interessante (uma vez escrevi um artigo para o DN sobre isso) é sobre o mal ou bem passado. Será que um restaurante tem o direito a não alterar os seus "pontos de cozedura"? A ideia surgiu-me do caso real de amigos meus que tinham ido à Travessa e o António Moita (ele não confessa, mas eu sei que foi assim...) recusou-se a passar melhor os bifes, dizendo que ali a carne comia-se assim. Não digo que seja para todos lhe seguirem o exemplo, mas admito que simpatizo muito com esta posição.
Vamos agora à "patetices". Os "guilty pleasures" são muitos. A tal "comida de boteco" carioca que falei na primeira resposta, amendoins torrados, tostas mistas, pão com manteiga, Jack Daniel's com gelo, gin tónico, comida chinesa, qualquer salgado quente (croquetes, rissóis, pasteís de massa tenra, pastéis de bacalhau) acabado de fazer e quente. E há mais, geralmente de coisas más para a saúde e que engordam.
Desculpe, mas à especiaria e ao sabor não sei responder.
Os produtos para a ilha deserta, seriam certamente pão, queijo e vinho branco.
O mais avançado que fiz em casa foi tempura. Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço.
Bjs
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Duarte Calvão



Registrado: Segunda-Feira, 16 de Abril de 2007
Mensagens: 52

MensagemEnviada: Dom Mar 16, 2008 6:43 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Abílio,

As publicações portuguesas ainda não investem em gastronomia como se faz em Espanha e em muitos outros países. Se eu pedisse uma verba para ir, por exemplo, durante uma semana ou duas para Cabo Verde (com tudo o que isso implica de despesas, de bilhetes de avião, hotéis, restaurantes, transportes, etc) só para escrever sobre a gastronomia local, dificilmente o DN, ou qualquer jornal português, o faria. Também lhe digo que, se eu estivesse no lugar de quem decide, com as conhecidas restrições orçamentais em que vive a Imprensa portuguesa, não sei se faria a aposta, porque também não sei qual seria o retorno num país onde não há o hábito cultural de comprar um jornal diário (embora pareça que, se forem gratuitos, poupando 90 cêntimos ou 1 euro, já há leitores...), coisa que acontece em Espanha.
Sobre a divulgação exterior, a Associação de Turismo de Lisboa trabalha com agências de comunicação nos mercados preferenciais e elas tratam do assunto. Vamos ver se esta primeira edição corre bem, porque se assim for, conseguimos colocar este evento no calendário anual da cidade e, já para 2009, fazemos a internacionalização, convidando também chefes estrangeiros.
Quem quiser ir sabendo o que estamos a preparar, pode visitar o www.peixemlisboa.com. Ainda falta ajustar várias coisas, mas o principal já está. Espero vê-lo por lá e a todos os foristas e leitores.
Um abraço para si e outro para o Zé Tomáz e os meus agradecimentos a quem teve a paciência de me fazer perguntas e ler as (longas) respostas. Gostei muito.
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Pedro Gomes



Registrado: Segunda-Feira, 25 de Outubro de 2004
Mensagens: 1102
Localização: Lisboa

MensagemEnviada: Dom Mar 16, 2008 11:54 pm    Assunto: Responder com Citação

Caro Duarte Calvão,

Em meu nome pessoal, e em nome da Nova Crítica-vinho, queria agradecer-te o empenho colocado nesta entrevista. Foi muito bom poder perceber, na primeira pessoa, a forma como sentes e te posicionas face ao universo gastronómico. Muito obrigado...

E o desejo de enorme sucesso para a inicitiava "Peixe em Lisboa", um evento que, estou certo, irá recolher o aplauso dos consumidores... e da crítica.

Um grande abraço e... até já!

Pedro
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Spice Girl



Registrado: Quarta-Feira, 4 de Janeiro de 2006
Mensagens: 6059
Localização: Lisboa

MensagemEnviada: Ter Mar 18, 2008 7:48 pm    Assunto: Responder com Citação

Duarte

Muito obrigada pela sua participação nesta entrevista, pelo tempo que a isso dedicou, mas sobretudo pela sinceridade e abertura com que respondeu a todas as questões.

Gostei muito., muito Very Happy

Agora que adquiriu um pouco mais de "treino", apareça por aqui mais vezes para conversar connosco... Ficava mesmo contente.


Um beijinho

Paulina
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"Inquisitiveness was a key feature." Heston Blumenthal
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