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Uma visão da crítica

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Uma visão da crítica
Autor: Tiago Teles
Data: 14 de Setembro de 2007
Tema: Opinião

A crítica de vinhos em Portugal tem, nos últimos tempos, assumido uma nova postura, uma nova atitude, em parte devido ao estímulo incutido por novos intervenientes no mercado. Mas este esforço por novas ideias ainda não é totalmente compreendido por muitos consumidores. Na prática, assumir um novo conceito de crítica é normalmente visto de forma desfavorável em Portugal. Quando, não raras vezes, a competência profissional, os critérios e as classificações são postos em causa ou relativizados apesar das escolhas publicadas serem assumidas e advogadas com convicção.

O consumidor ainda tem inclinação para a opinião colectiva, para o instituído, para o dogma. Esquecem-se que a crítica é um exercício individual, é uma interpretação subjectiva que permite manter uma diversidade de estilos dentro do mundo do vinho, manter viva a pluralidade e a complexidade do vinho. Discernir por detrás de colectivos ganha contornos de incerteza. Uma crítica individual é um instrumento de responsabilidade, é uma forma de coragem que não se esconde por detrás de uma opinião de painel. Se um crítico está bem informado e ciente das suas opiniões e valores, a sua avaliação é muito mais fiável e útil que uma opinião heterogénea. O consumidor sabe o que pode esperar. Logicamente que esta atitude de transparência, que considero saudável, ainda acarreta um risco acrescido para o crítico em Portugal. Essencialmente porque, em diversos casos, ela não emite uma classificação consensual.

Mas se o crítico “pouco consensual” tem individualidade e carácter suficientes para se posicionar no centro da crítica, para mover o referencial no sentido da sua personalidade, em detrimento da maior ou menor importância do vinho, esta nova autoridade irá seguramente tornar-se uma referência para o consumidor moderno, desejoso de modelos e referências. Arrastará também um maior número de consumidores e interessados. O crítico americano Robert Parker incarna este exemplo de sucesso e personalismo. É o exemplo a seguir no método. Para alguns é irritante. Pessoalmente considero-o rigoroso e coerente, assertivo e congruente. Mais no sentido dos conteúdos ideológicos que defendo, os críticos franceses Bettane e Desseuave seguem, hoje em dia, a fórmula utilizada pelo crítico americano.

Infelizmente, a profissão não é paga a peso de ouro e por isso o crítico depende da generosidade dos produtores que metem à sua disposição amostras dos seus vinhos, arriscando, muitos deles, uma nota negativa. Resulta quase contra producente que o desenvolvimento do saber de um crítico seja, em parte, adquirido com base no suporte da produção. Apoio que, para muitos, pode comprometer a objectividade final do crítico. Involuntariamente, o crítico pode ser benevolente com os vinhos que lhe encaminham, não raras vezes, acompanhados de ofertas “ingénuas” como uma caixinha extra de 6 garrafas para o dia a dia. Estratégias de condicionamento incompreensíveis. Senão lembrem-se da apresentação de um vinho português realizada em Paris, com custas a cargo de um importante produtor português. A crítica verdadeira é um caminho solitário, o crítico deve gerir com rigor e distanciamento as tentativas de inibição e condicionamento da sua opinião. Este individualismo cria natural vulnerabilidade. O crítico que luta por uma nova forma de opinião vê-se, não raras vezes, confrontado com a dificuldade que tal postura origina, isolado na defesa das suas convicções, sozinho na defesa às críticas que lhe endereçam. Errar tem consequências. Acertar também. Ainda bem.

Mas se é importante manter uma relação cordial com a indústria do vinho e os seus agentes, o crítico deve ter bem ciente que o consumidor tem de ser defendido, protegido custe o que custar, mesmo que tal postura implique a não compreensão de um produtor ou o não envio de amostras no ano seguinte…Pior, produtores e agentes dão-se ao trabalho de seleccionarem os vinhos enviados. Porventura não sabem que a mentalidade mudou. Mas, se os elementos de coragem expostos abonam pela independência do crítico, eles não garantem a sua infalibilidade. Ele pode enganar-se numa apreciação. Mas é por isso que tenta provar mais que uma vez quando existe a dúvida e é por isso que faz um esforço de clareza nos critérios expostos ao consumidor. Procurar outras opiniões e advogar os seus argumentos em discussões públicas, como fóruns de discussão, indicia também destemor e seriedade.

Este breve artigo não poderia terminar sem o testemunho de um consumidor, de um participante assíduo no fórum de discussão, Abílio Neto. Acima de tudo é o consumidor que deve expressar o que pensa da crítica de vinhos: “E percebe-se facilmente, no caso dos vinhos e da sua massificação. Quantos rótulos existem hoje? Muitos. Quantos deles são mesmo bons? Muitos. Quantos consumidores existem? Muitos. Quantos deles «consomem» críticas? Muitos. Quantos críticos existem? Muitos. O que os diferencia? Nada? Não, tudo, se considerarmos o que cada leitor espera deles. Cada leitor espera do seu crítico a sua personalidade toda, no seu exercício crítico. Porque senão deixa de ter leitores”.

Se o dia em que os críticos de vinho disserem todos o mesmo coincidir com o dia em que os consumidores esperarem do crítico o seu carácter, então a crítica de vinhos deixará de existir, deixará de respirar. Desconheço ainda a tendência do leitor português. Mas não esperei para iniciar a luta pela personalidade crítica, informada e segura, regada de opiniões e valores.