A moda Cor-de-rosa também já “apanhou” o vinho. Vinho de que toda a gente fala mas ninguém bebe. As publicações comunicam uma visão “Jet-Set” dos vinhos portugueses, rodeando-os de estatuto, de imagem, de um pseudo elitismo que a humildade da natureza porventura dispensaria. O absolutismo das classificações separa os “bons” dos “maus”, separa os vinhos com direito a fotografia da maioria modesta e remediada. A visão transmitida é inevitavelmente demasiado Cor-de-rosa, demasiado aparente, muito superficial num mercado que já dá fortes sinais de crise interna. Figurativos que se olvidam das novas tendências em diferentes regiões, que esvaziam a profundidade de opinião que nos permitiria perceber as dissemelhanças entre os diversos vinhos provados.
As classificações entre diferentes vinhos aproximam-se bastante numa visão hierárquica que pouco serve o consumidor e mesmo a indústria, retirando também o sentido de opinião às respectivas publicações (a opinião faz-se na diferença e não no consenso). Elas escamoteiam também a dura realidade que se vive em vários locais. Os autores, sujeitos a um ritmo frenético de prova, optam pela facilidade, pelo mediatismo, refugiam-se no conforto do consenso, listam infindáveis notas de prova, na sua essência, também elas iguais entre si, para mais numa época onde os vinhos se “querem” aproximar verdadeiramente. Deixam de enquadrar o valor de cada vinho na sua herança e local, exaltando em contraponto o pseudo estatuto de vinhos “Cor-de-rosa”. Criam autênticas estrelas de consumo que vivem escassos momentos nesse mediatismo para logo se tornarem verdadeiras estrelas cadentes…Concentram a força do seu trabalho no que menos preocupa. Esquecem-se de espremer o sumo contido nos milhares de notas e descritivos de prova, reflectindo, fermentando ideias, edificando novos conceitos que verdadeiramente podem ajudar o consumidor e os produtores a arquitectarem um sentido crítico e, por conseguinte, a fomentarem a cultura do vinho.
O mercado responde em sintonia, emocionado e tocado pela felicidade alheia. Não fossem as revistas Cor-de-rosa um verdadeiro fenómeno nacional. A aceitação por parte do consumidor evidencia um prodígio moderno de popularização dos rótulos de vinho. É um sinal de conformismo perigoso por parte do consumidor português. É também um sinal evidente que autores e consumidores deixaram de “criticar” passando antes a “falar” de vinhos. E que a maioria deixou de “beber” para passar a “considerar” o vinho, carregando-o de significado social dado pelo seu elevado preço ou estatuto, não pela sua elevada qualidade e identidade. Quantos de nós bebemos estes vinhos produzidos em quantidades irrisórias, que de tão pequenas fica sempre a dúvida do seu sentido existencial? Os consumidores que verdadeiramente apreciam vinhos afastam-se deste mercado para endinheirados e pseudo referências de luxo, um mercado que começa a aproximar os limites da irracionalidade e da falta de senso tal é, na maioria dos casos, o desfasamento entre preço e conteúdo. Estes apaixonados consumidores são experientes, são pessoas cientes que o mercado deixou a autenticidade para trás, deixou de ser consistente, deixou de responder às necessidades básicas do vinho. Sentem a falta de solidez no mercado, a firmeza que dependeria também de um jornalismo de verdade, independente e rigoroso, e não de um jornalismo de conveniência que oferece raciocínios imperfeitos à consideração dos outros.
A crise económica já chegou mas as prateleiras enófilas continuam repletas de vinhos “Cor-de-rosa”. As conversas são inevitavelmente em torno daquela garrafa que custa sessenta euros mas já ninguém a compra ou a quer. Algumas garrafeiras passarão a museus. Dá que pensar. Esquecemo-nos que antes de tudo a crise é cultural, uma verdadeira crise de valores que vai copiando sucessivas imagens para reconhecimento e que vai aos poucos aniquilando a identidade do vinho. Confundiu-se o económico com o cultural. Os vinhos Cor-de-rosa são idolatrados numa “cultura económica” mas arriscam também a aversão profunda numa “cultura de bom senso”. Esqueçam a vaidade. O tempo é soberano e neste momento já se começa a encher de “cinzento”...