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O Terroir, o Homem e a Tradição

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O Terroir, o Homem e a Tradição
Autor: Tiago Teles
Data: 19 de Fevereiro de 2008
Tema: Opinião

O TERROIR: O Terroir materializa uma ligação de respeito entre natureza e civilização. É uma palavra de origem francesa sem tradução noutros idiomas, tal como a nossa nobre e profunda palavra saudade. O Terroir é uma união particular entre solo e clima que articulada a uma casta e ao génio humano produz um vinho com carácter vincado e forte individualidade. No limite enraíza uma intuição entre clima, solo, castas e conhecimento humano (história, cultura e ciência). A compreensão da natureza e a observação humana mostram que determinados locais conferem às videiras nele plantadas impressões sensoriais distintas. Também é intuitivo que solos, clima, castas e conhecimento mudam e evoluem ano após ano, dando ao Terroir características diferentes ao longo do tempo. É uma expressão cultural que evolui. Não é uma verdade absoluta porque os elos entre os diferentes componentes podem alterar-se e mesmo quebrarem-se. A utilização excessiva de produtos químicos podem queimar um solo, a disponibilidade de água nesse mesmo solo depende também do clima, clima esse que está em mudança acelerada. Mas a lenta mutação de solos e clima demonstram que as quebras são geralmente perpetuadas pelo homem!

O Terroir também é um conceito qualitativo. Ele aplica-se intuitivamente a locais aptos à produção de bom vinho. Ele reúne determinadas condições naturais que originam vinhos mais distintos que outros, sem que exista uma explicação lógica para tal diferença. Com o tempo em garrafa os vinhos de Terroir imortalizam-se e ultrapassam outros em complexidade. Mas o mais apaixonante no Terroir é o facto do seu valor ser intrínseco a um local, ser inimitável.

Outra leitura possível. Um vinho verdadeiro respeita a sua origem, as suas tradições, é autêntico, e não um mero produto de laboratório com leveduras e enzimas seleccionadas para proporcionarem um determinado resultado. Vinhos que sabem e cheiram apenas a madeira, ou que cheiram a mentol, a chocolate, a baunilha, a banana, e a uma miríade de aromas seleccionados em laboratório, que da uva não têm nada, são vinhos que desrespeitam as suas raízes. A prática demonstra que os vinhos mais respeitadores do Terroir conciliam invariavelmente uma pureza de fruto com uma mineralidade terrena. São exemplares que materializam uma natureza viva, complexa, em plena mutação, são vinhos que se apoiam numa luz fresca conferida pela acidez. São vinhos inimitáveis.

Silenciar a expressão de um Terroir é reprimir a diversidade consolidada pela natureza ao longo de milhares de anos, revelando-se cínica na relação ética com o vinho, com os que o fazem, com o seu historial, com nós mesmos, no fundo, com as raízes do Terroir, com as raízes do homem.

 

O HOMEM: O homem dispensa apresentação. Sem a inteligência e o esforço humanos nem o vinho nem o Terroir viveriam. Mas será um produtor de vinho forçado a escolher entre a individualidade do criador e a singularidade do Terroir? Não, porque os dois são necessários. Um homem sem contexto cultural navega à deriva e toda a cultura sem expressão individual está cabalmente morta.

A resposta dada por um reconhecido produtor duriense expressa um salutar equilíbrio: “Quanto à dualidade local/criador: os vinhos de qualidade exprimem obviamente o local, seja quem ou qual for o criador. Ao criador compete dar o melhor da sua arte à matéria-prima que tem disponível. Ou seja, neste exemplo: terra, primeiro; criador, em paralelo, para dar glória àquilo que lhe é concedido criar”.

Apenas o homem pode dar voz ao Terroir. Infelizmente, o comportamento humano transforma-se facilmente numa manifestação moderna de afirmação perante a natureza, na exaltação de um ego no lugar de uma identidade cultural.

Hoje em dia, são mais os vinhos que espelham o carácter do criador que a singularidade do Terroir. Neste aspecto não será alheio o papel central e merecido que um determinado conjunto de enólogos ocupou na indústria do vinho. Alguns trabalham para grupos que produzem vinho em inúmeras regiões, outros gerem dezenas de consultorias técnicas a inúmeros produtores, outros concebem projectos pessoais de sucesso, influenciando um sem número de seguidores. Se esta evolução da competência técnica e profissional tem como resultado uma evolução notória e positiva da qualidade geral do vinho, por outro, ela contribui para um nivelamento de perfis e de estilos. Na prática, a técnica confere um sentido de poder, estando o homem menos à mercê da natureza. Mas o poder conferido pela técnica é global, não é individual, necessitando de uma direcção comum, de uma organização de mercado bem controlada. O poder humano tem um alcance que nunca tinha tido. Olha-se tudo o que não é humano como material bruto. Não se consideram os fins: só se avalia a perícia do processo. Tal como o extremo subjectivo, este excesso técnico é outra forma de loucura. No fundo, algo que nasceu de forma positiva arrisca mover-se contra a diversidade do vinho, tornando o mundo mais pequeno. Em certa medida, se todos os vinhos se assemelham, qual poderá ser a noção de qualidade?

 

A TRADIÇÃO: A tradição é um sentimento que nos aproxima da história de cada cultura. É um modo de pensar, de agir, que reflecte uma herança do passado, é uma intuição que nos aproxima das pessoas que nos rodeiam. Esse valor cultural constrói-se diariamente cada vez que assimilamos uma nova concepção ou alcançamos um conhecimento, cada vez que aperfeiçoamos um gesto.

As intenções e os valores éticos perante a natureza e as pessoas que nos rodeiam não são diferentes do que eram no passado. O respeito pela natureza, pela sua diversidade e pela sua autenticidade são valores intemporais. A diferença para o presente verifica-se no imediato e facilitado acesso à informação e ao conhecimento. O mundo e a vida aceleram a uma cadência superior, afastando-nos com maior rapidez das nossas raízes históricas. No vinho, a alusão à tradição refere um estado de espírito e não um simples gesto isolado. A natureza deste pensamento comprova que um vinho não é obra de uma única pessoa. Ele é o resultado de uma constante e aperfeiçoada tradição. Ele é uma arte popular. Esta profunda e complexa ligação de respeito entre natureza e civilização indicia estarmos perante o elemento mais civilizado do mundo. O vinho é uma relação intensa de compreensão e respeito pela natureza.

Importa saber que o sucesso de alguns vinhos actuais não é apenas um resultado das novas e empreendedoras gerações. Numa época em que alguns vinhos se gabam das suas vinhas velhas, é pertinente referir que essas vinhas centenárias foram plantadas pelas gerações anteriores. Porquê silenciar a natureza e a cultura? Muitos de nós o sentem na pele: a ganância pelo lucro não é um gesto civilizado.

No fundo, a história do vinho é uma história humana ligada às condições geo climáticas, às trocas comerciais, aos diferentes gostos e às diversas sensibilidades de cada povo. O vinho acompanha a humanidade nas suas conquistas e progressos, nos seus fracassos e desânimos. O vinho é um valor cultural e um fenómeno de civilização. Mas na era moderna, devido às descobertas e invenções, o ritmo das mudanças acelerou. Envelhecendo ou não, o homem vê o tempo encurtar-se. É o efeito prático do progresso científico. O futuro chega ao mesmo tempo que o presente, além de sermos menos capazes de retirar lições do passado. Ainda assim, a ciência não explica a interacção de muitas substâncias presentes no vinho que fazem a diferença para outras bebidas como a cerveja. Muito do que o homem conhece do vinho é, portanto, resultado da experiência acumulada ao longo dos séculos, da sua história, das suas tradições.