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O Tanino Português (2ª ronda), reciclagem precisa-se!

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O Tanino Português (2ª ronda), reciclagem precisa-se!
Autor: Tiago Teles
Data: 10 de Janeiro de 2003
Tema: Opinião

Antes de participar numa prova de vinhos, dedicada a alguns dinossauros do mundo vinícola português, disseram-me que iria certamente escrever um artigo. E assim foi. Mais uma vez dei por mim a reflectir sobre o tanino português (ver artigo de opinião de 17 de Dezembro de 2002, intitulado "O Tanino Português").

Olhando para o resultado da referida prova cega verificamos que, ao fim de 17 anos, os conceituados Dão Porta dos Cavaleiros 1985 e Dão Pipas 1985, não passam de produtos altamente adstringentes, diluídos no sabor, desagradáveis na prova, e com nota de "qualidade média". O Valdarcos Garrafeira 1985 era ligeiramente menos adstringente, mas também não passou de um vinho de "qualidade média".

Será que o gosto das pessoas mudou completamente? Será que se deixou de valorizar os produtos da enologia portuguesa de antigamente? Ou será que, simplesmente, esse gosto evolui para patamares superiores, como a ciência enológica, alargando horizontes? Ou, como sempre, andamos atrasados em relação ao mundo e, por isso, os nossos vinhos não conseguem atravessar fronteiras?

Para evitar susceptibilidades com o meu ponto de vista, aproveito para citar outro artigo de opinião, de 15 de Outubro de 2002, intitulado "Gosto pessoal versus padrão de qualidade". Escrevi, nessa altura, que no universo de opiniões sobre o mundo do vinho, afirmar "eu gosto" não é o mesmo que dizer "é bom". Mas, o gosto pessoal utilizado como único elemento na avaliação de um vinho, diz mais acerca de nós do que do próprio vinho. Não diz se o vinho é bom ou mau. Continuava essa dissertação escrevendo que, o gosto pessoal é diferente dos padrões de qualidade baseados em critérios normalizados. Ambos são importantes, mas há que distingui-los com clareza. Os valores pelos quais avaliamos o vinho são uma complexa mistura de gosto subjectivo e padrões definidos.

Por isso, desculpem-me aqueles, cujo gosto pessoal respeito, consideram o Dão Porta dos Cavaleiros 1985, o Dão Pipas 1985, e o Valdarcos Garrafeira 1985, como grandes vinhos. Os padrões simples de qualidade na avaliação desses vinhos, bebidos em prova cega e num painel diversificado, apenas ilustram que são de "qualidade média", talvez mesmo, abaixo da média. Para fundamentar esta posição basta recorrer a um valor de qualidade do vinho: o elemento estrutural chamado Tanino. Ao provar esses vinhos nunca senti uma secura tão forte! Ou seja, o "bom" tanino português mostrou toda a sua raça, a sua exuberância, criando um produto sem sabor e desagradável!!! Actualmente os vinhos novos, feitos nos mesmos moldes, ainda têm réstias de fruta para disfarçar um pouco essa secura, mas com o tempo...

Como referido no artigo do "Tanino Português", os taninos permitem que os bons vinhos envelheçam. E, se forem bons, não demasiado adstringentes, amaciam com o passar do tempo, tornando a textura do vinho mais macia, suave e polida (esta ideia foi retirada de livros técnicos sobre o vinho). Se esta frase fosse rescrita por algum defensor dos vinhos anteriormente mencionados, viria talvez escrita da seguinte forma: "os taninos permitem que os bons vinhos portugueses morram de pé. E, se forem bons, demasiado adstringentes, sobressaem com o passar do tempo, tornando a textura do vinho mais áspera, seca e enrugada".

Não me levem a mal. Esses vinhos foram bons para os padrões de qualidade da sua época. Para os padrões actuais, tenham a humildade de admitir que já não o são. Para os relutantes, aconselho uma calibração do palato, não com o objectivo de uniformizarmos o paladar, mas para se poder falar de uma só coisa - qualidade no vinho. A propósito, encontrei na Internet um ensaio de calibração do palato (http://www.wine-pages.com/forum/pce.htm). Reciclagem precisa-se!

Como já devem ter notado ainda não referi o vencedor da prova, o Barca Velha de 1985. E não o fiz porque, dos vinhos em prova cega, este foi o único que me deu prazer. Quem o elaborou na adega era certamente visionário. Provavelmente terá tido diversas limitações inerentes à incipiente tecnologia da época, em Portugal. Talvez por isso, ao fim de 17 anos, este vinho não passou de "um bom vinho, superior à média". Talvez o mito do Barca Velha esteja assim explicado, sendo caso para dizer que, "em terra de cegos, quem tem olho é Rei!".