Antes de participar numa prova de vinhos, dedicada a alguns dinossauros do mundo vinícola português, disseram-me que iria certamente escrever um artigo. E assim foi. Mais uma vez dei por mim a reflectir sobre o tanino português (ver artigo de opinião de 17 de Dezembro de 2002, intitulado "
O Tanino Português").
Olhando para o resultado da referida prova cega verificamos que, ao fim de 17 anos, os conceituados Dão Porta dos Cavaleiros 1985 e Dão Pipas 1985, não passam de produtos altamente adstringentes, diluídos no sabor, desagradáveis na prova, e com nota de "qualidade média". O Valdarcos Garrafeira 1985 era ligeiramente menos adstringente, mas também não passou de um vinho de "qualidade média".
Será que o gosto das pessoas mudou completamente? Será que se deixou de valorizar os produtos da enologia portuguesa de antigamente? Ou será que, simplesmente, esse gosto evolui para patamares superiores, como a ciência enológica, alargando horizontes? Ou, como sempre, andamos atrasados em relação ao mundo e, por isso, os nossos vinhos não conseguem atravessar fronteiras?
Para evitar susceptibilidades com o meu ponto de vista, aproveito para citar outro artigo de opinião, de 15 de Outubro de 2002, intitulado "
Gosto pessoal versus padrão de qualidade". Escrevi, nessa altura, que no universo de opiniões sobre o mundo do vinho, afirmar "eu gosto" não é o mesmo que dizer "é bom". Mas, o gosto pessoal utilizado como único elemento na avaliação de um vinho, diz mais acerca de nós do que do próprio vinho. Não diz se o vinho é bom ou mau. Continuava essa dissertação escrevendo que, o gosto pessoal é diferente dos padrões de qualidade baseados em critérios normalizados. Ambos são importantes, mas há que distingui-los com clareza. Os valores pelos quais avaliamos o vinho são uma complexa mistura de gosto subjectivo e padrões definidos.
Por isso, desculpem-me aqueles, cujo gosto pessoal respeito, consideram o Dão Porta dos Cavaleiros 1985, o Dão Pipas 1985, e o Valdarcos Garrafeira 1985, como grandes vinhos. Os padrões simples de qualidade na avaliação desses vinhos, bebidos em prova cega e num painel diversificado, apenas ilustram que são de "qualidade média", talvez mesmo, abaixo da média. Para fundamentar esta posição basta recorrer a um valor de qualidade do vinho: o elemento estrutural chamado Tanino. Ao provar esses vinhos nunca senti uma secura tão forte! Ou seja, o "bom" tanino português mostrou toda a sua raça, a sua exuberância, criando um produto sem sabor e desagradável!!! Actualmente os vinhos novos, feitos nos mesmos moldes, ainda têm réstias de fruta para disfarçar um pouco essa secura, mas com o tempo...
Como referido no artigo do "
Tanino Português", os taninos permitem que os bons vinhos envelheçam. E, se forem bons, não demasiado adstringentes, amaciam com o passar do tempo, tornando a textura do vinho mais macia, suave e polida (esta ideia foi retirada de livros técnicos sobre o vinho). Se esta frase fosse rescrita por algum defensor dos vinhos anteriormente mencionados, viria talvez escrita da seguinte forma: "os taninos permitem que os bons vinhos portugueses morram de pé. E, se forem bons, demasiado adstringentes, sobressaem com o passar do tempo, tornando a textura do vinho mais áspera, seca e enrugada".
Não me levem a mal. Esses vinhos foram bons para os padrões de qualidade da sua época. Para os padrões actuais, tenham a humildade de admitir que já não o são. Para os relutantes, aconselho uma calibração do palato, não com o objectivo de uniformizarmos o paladar, mas para se poder falar de uma só coisa - qualidade no vinho. A propósito, encontrei na Internet um ensaio de calibração do palato (
http://www.wine-pages.com/forum/pce.htm). Reciclagem precisa-se!
Como já devem ter notado ainda não referi o vencedor da prova, o Barca Velha de 1985. E não o fiz porque, dos vinhos em prova cega, este foi o único que me deu prazer. Quem o elaborou na adega era certamente visionário. Provavelmente terá tido diversas limitações inerentes à incipiente tecnologia da época, em Portugal. Talvez por isso, ao fim de 17 anos, este vinho não passou de "um bom vinho, superior à média". Talvez o mito do Barca Velha esteja assim explicado, sendo caso para dizer que, "em terra de cegos, quem tem olho é Rei!".