Há já algum tempo que me questiono sobre o destino do vinho português nos mercados anglo-saxónicos. O estudo Porter indicou claramente esses mercados como prioridade para a exportação dos nossos vinhos. Considero as medidas propostas nesse estudo válidas e muitos boas quando aplicadas a uma mentalidade empresarial dinâmica e arrojada. O único problema é que, a meu ver, se esqueceu da realidade cultural predominante no nosso país em termos de mentalidades e iniciativas. De facto, importa estar atento e reagir ao mercado mas, o facto desses mercados emitirem sinais não significa que as pessoas respondam oportuna ou adequadamente.
Atacar os mercados americano e inglês, de forma efectiva, pressupõe que existam argumentos, organização e qualidade superior à dos concorrentes directos. E não parece ser essa a realidade da maioria das regiões vitivinícolas portuguesas.
As virtudes dos mercados anglo-saxónicos têm de ser bem compreendidas por quem as pensa enfrentar (assim o entenderam as regiões do Douro e do Alentejo devendo, por isso, dar prioridade a estes mercados; já o mesmo não acontece com as restantes regiões portuguesas). No entanto, um erro comum da história, pretensamente científica, é supor que as virtudes de hoje são as de amanhã e que um dado factor, uma vez positivo o é sempre. A história não funciona desse modo. Os requisitos de economias que progridem, vencendo resistências e barreiras, não são os mesmos de economias fortes e ricas. Nesse aspecto, considero que as regiões vitivinícolas portuguesas menos desenvolvidas deveriam, numa fase inicial, escolher outro caminho para as exportações dos seus vinhos, indo buscar experiência e consolidação noutros mercados.
Talvez países como o Brasil sejam bons mercados apesar de terem estruturas de classes e gostos mais segmentados que os países anglo-saxónicos, já que populações numerosas possibilitam que a oferta seja compensada pela procura. No entanto, e nesta fase, são mais importantes as atitudes dos produtores do que as dos consumidores. Na verdade, se adoptarmos técnicas de produção eficientes não teremos dificuldade em vender vinhos mais baratos. O segredo está mais no compromisso com o trabalho do que com a riqueza. Além de que estes países em vias de desenvolvimento, ainda incipientes na cultura vínica, poderão proporcionar crescentes quotas de mercado anuais, garantindo, deste modo, crescimentos de produção sustentados.
Não quero com isto dizer que regiões como o Dão e Palmela não devam também apostar nos mercados anglo-saxónicos, de elevado potencial e dimensão. Penso que o devem fazer mas preparando-se para tal. Apesar de discordar de algumas ideias, é importante compreender os valores de cada país e não excluir o valioso discernimento de estrangeiros como Porter.
"A esse respeito cumpre rejeitar a implicação de que a exterioridade desqualifica: de que somente os Muçulmanos podem entender o Islão, somente os Negros entendem a história negra, somente as mulheres compreendem estudos de mulheres, somente os portugueses percebem de vinho português, e assim por diante".
Ao ler diversas passagens do livro "Afonso de Albuquerque, O Leão dos Mares da Ásia" de Geneviève Bouchon, confrontei-me com factos da nossa história extremamente interessantes. "Albuquerque foi o primeiro europeu a negociar com as potências asiáticas e a adoptar uma estratégia militar e diplomática a um oriente em plena mutação". Apesar do seu perfil autoritário, Afonso de Albuquerque foi, sem dúvida, um visionário, lançando as bases de um império naval e comercial nos mares asiáticos numa altura em que os desígnios superiores passavam, essencialmente, por fazer frente à concorrência muçulmana.
Talvez o vinho português não deva depositar todas as suas esperanças nos mercados anglo-saxónicos mas seguir as pisadas de Afonso de Albuquerque até ao mar da China explorando as pérolas asiáticas: Tailândia, Coreia do Sul, Japão, Singapura, Hong Kong, China, Índia - mercados concorrenciais e potencialmente interessantes. Embarquem algum vinho com Pedro Álvares Cabral em direcção ao Brasil. A nossa cultura, de gostos e valores, flui nesse sentido e isso é um forte argumento. O vinho português tem de ir de espada na mão à conquista de novos mercados porque só garantindo sólidas parcelas de mercado se consegue uma crescente capacidade de produção. |
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