O esforço individual de muitos produtores nacionais pela qualidade e carácter dos seus vinhos não tem tido o enquadramento adequado por parte dos organismos reguladores. Essa evolução qualitativa tem sido acompanhada por tímidas mudanças no sistema de denominações, em parte centradas nas castas permitidas. A existência deste modelo orientado por um conceito de qualidade associado à designação oficial DOC, IPR, e/ou VQPRD, vinho regional ou vinho de mesa (http://www.ivv.min-agricultura.pt/vinhos/index.html), em pouco tem ajudado a respectiva compreensão do produto, além de aparentemente potenciar um cenário egocêntrico em torno das regiões mais mediáticas: Douro e Alentejo. No fundo, a singularidade e o dom dos locais aptos à produção de bom vinho continuam dispersos na grandeza da região demarcada – Beiras é o exemplo extremo.
Quando o nome da região ganhou importância na estratégia colectiva, Portugal, ainda com um número insuficiente de marcas e em plena aprendizagem do vinho, abraçou-a alguns anos mais tarde. De tal forma, que o ritmo de mudança no mercado nos revela um novo atraso: no momento em que Portugal explora exaustivamente o nome da região, a discussão em torno do terroir e do seu significado comercial ganha actualidade e força no plano internacional.
Em França a conversa permanece actual. Mas isso não é notícia. A novidade é contemplar a vizinha Espanha puxando exaustivamente para o rótulo o nome do enorme puzzle de denominações de origem, muitas legisladas na recente década e nos anos 90, como Montsant, Cebreros, Somontano, Méntrida, Manchuela, Pla i Llevant, Ribera del Jucar, Malaga, para não falar na criação atempada de denominações específicas apelidadas de "pago" ou “finca”. Nuestros hermanos já assimilaram o poder comercial do terroir e a imagem de diversidade cultural associada. Inteligente. O consumidor tem inclinação pelo puzzle geográfico e cultural, sinal evidente da presença de uma civilização...velho mundo.
Em Portugal conservamos um certo imobilismo, mantendo inalteráveis os limites geográficos das denominações de origem controladas associadas, ou não, ao discutível conceito de qualidade VQPRD. Uma noção que perde algum sentido à medida que o domínio técnico se enraíza na vinha e na adega, sinal dos exigentes tempos modernos. Se um produtor alcança um bom vinho com maior naturalidade, o conceito qualitativo será “forçado” a uma nova orientação no sentido da diversidade e do carácter. Este paradoxo impele a necessidade de distinguir através da temática do terroir, acabando por beneficiar países mais pequenos e tradicionais como Portugal – as nossas regiões não têm dimensão internacional para se tornarem fornecedores fiáveis do mercado mundial.
Pensando que a potencialidade de Portugal é produzir qualidade num contexto de menor produção, poderíamos utilizar ou adaptar as heterogéneas denominações de origem existentes (http://www.ivv.min-agricultura.pt/vinhos/index.html) e criar novas. Esta adaptação permitiria “alagar” o mercado com novos nomes, nomes de terroir como Arrábida, Portalegre, Beja, Silgueiros, Douro Cimo Corgo, Valpaços, Lima, Arruda, Cartaxo, Portimão, Cantanhede, Buçaco, Figueira da Foz, etc., jogando com a curiosidade humana e o factor singularidade. O consumidor gosta deste jogo, deste divertimento cultural, adquirindo confiança porque a geografia é intuitiva. Além de figurar uma aproximação cultural que revitaliza a identidade individual do vinho. As denominações de qualidade seriam substituídas por denominações culturais. Suspeito também que esta divisão reforçaria o nome de base: o nome Portugal.
Na prática, defendo a exploração da identidade de cada pequena sub-região, não só como motor de qualidade e estímulo para o consumidor, mas inclusive por questões de turismo e de igualdade entre diferentes regiões. Um maior número de denominações “obriga” a formulação de leis mais restritivas e adaptadas à característica própria da zona rural, com limites e regras bem decretadas. Um natural contributo para elevar a qualidade.
Mas a divisão também encerra os seus perigos. Poderemos perguntar se os melhores vinhos são aqueles que exprimem um determinado terroir ou se os mais conseguidos são aqueles que reúnem as particularidades de diferentes terroir? A mistura de uvas no vinho Dado fazem pensar? Poderemos também questionar se a variedade tende a ser indecifrável?
O objectivo prioritário é “vender” qualidade. Convém não esquecer que muitos factores podem contribuir para esse propósito qualitativo, entre eles, as condições naturais de um local e a competência humana. Há solos e solos. Há castas e castas. Há viticultores e viticultores. Há enólogos e enólogos. Há mercados e mercados...para não dizer, há interpretações e interpretações. No fundo, e muito aplicado ao mundo subjectivo do vinho e à sua indústria, a qualidade é um objectivo condicionado. Ao homem de o potenciar e de o vender da melhor forma. Poderemos seguramente viver de diversas realidades. Mas é necessário quebrar com um certo imobilismo, discutir, adaptar, antecipar.