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Prova cega ou ensaio sobre a cegueira?

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Prova cega ou ensaio sobre a cegueira?
Autor: Tiago Teles
Data: 23 de Novembro de 2007
Tema: Opinião

Os valores da sociedade moderna aferem a credibilidade de um crítico mediante conceitos de seriedade e isenção. A prova cega de um vinho, sem conhecimento da origem e do rótulo, é uma dessas concepções utilizadas, com frequência, na resolução de uma divergência de opinião em torno do vinho. Os seus acérrimos defensores argumentam que a prova cega é a única forma imparcial de avaliar um vinho porque ela assegura um necessário distanciamento de factores sugestivos como, por exemplo, um rótulo, uma origem ou uma opinião de terceiros.

Se esta premissa garante, com alguma eficácia, uma imunidade aos factores enunciados, ela acaba por ceder ao inesperado comportamento do provador. Na prática, quando colocado “às cegas”, é bem provável que um indivíduo se deixe dominar pelo seu preconceito e orgulho, induzindo o vinho em erro. Quem leu o livro do escritor José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, compreenderá que a cegueira conduz à desorganização intelectual, levando um indivíduo à rotura com os valores básicos da sociedade (neste caso da prova). O “provador às cegas” transforma-se numa entidade egoísta que se limita a lutar pela sua credibilidade. Por experiência, em situações de prova cega, não é o vinho que é avaliado mas sim o provador. Esta incerteza é a grande crítica que se pode fazer à degustação em prova cega. 

Continuando, numa sociedade saturada de informação e orientada para o lucro como testemunho de valor, a gestão do insucesso é difícil e complicada de viver. Uma avaliação em prova cega valoriza o indivíduo bem treinado e rotinado, o “tecnicista”, em detrimento da sabedoria, do conhecimento, da sensibilidade. Essa prática enaltece o factor comparativo em detrimento do factor diferenciador, o consumo em prejuízo do prazer. Não estranha que as referências actuais na crítica mundial venham da sociedade americana. E também que se favoreça os coerentes e inteligentes vinhos maquilhados.

Concretizando a ideia, a prova cega utilizada na avaliação de um vinho pode revelar-se inteligente na comunicação e coerente no discurso, mas é evidente que este modelo deixa pouco espaço de manobra aos prazeres intelectuais e às afinidades históricas essenciais ao prazer. A prova cega não é um acto cultural, podendo mesmo revelar-se cínica na relação ética com o vinho, com os que o fazem, com o seu historial, com nós mesmos, no fundo, com as raízes do terroir, com as raízes do homem. Transforma-se numa manifestação moderna de afirmação perante a natureza, a exaltação de um ego no lugar de uma identidade cultural.

Porque há-de o crítico provar em condições totalmente diferentes daquelas que o consumidor bebe o vinho? Será que o consumidor bebe “às cegas”? A história de um vinho não comove? A cultura e a diferença não emocionam? O prazer da partilha? Quando alguém adquire um vinho não está também subjacente a compra de uma ideia intelectual exteriorizada pela pessoa que o produziu? Não esqueçam que o conhecimento é um importante argumento de isenção e coerência.

Mas nem tudo são más notícias (não existem verdades absolutas!). Provar em prova cega é um excelente exercício de treino para os sentidos. Para aprofundar a técnica de prova, a percepção de uma textura, o enquadramento de uma acidez, o equilíbrio, a harmonia, a definição, o grau de complexidade, o melhor método é mesmo a prova cega. Essencialmente porque o que está em causa são valores conceptuais que devem ser aperfeiçoados. Um crítico deve praticá-la com regularidade para manter calibrado o seu método de prova, para validar novos valores e cimentar outros adquiridos. Mas cada vez me convence mais que não a deve utilizar na avaliação.

Por fim, no dia a dia, é importante que o enófilo transpareça todo o seu saber e a sua paixão pelo vinho às pessoas que o rodeiam. Estou convicto que a simplificação dada por uma classificação absoluta leva ao distanciamento de consumidores incomodados com uma análise fria e redutora. Porventura, indivíduos que não retiram especial prazer de uma análise puramente mecânica, apesar de a dominarem, são capazes de se comoverem com o historial de uma marca ou com a forma como esse vinho venceu o passar dos anos. No fundo, consumidores que procuram um elo emocional com a dimensão sensorial dos vinhos, pessoas que se emocionam com o facto desses vinhos lhes recordarem algo…será que o “nosso terroir” pode simplesmente ser a consciência do nosso passado, da nossa vida, das pessoas que nos cercam, dos cheiros que nos rodeiam?

Provar em prova cega pode facilmente transformar-se numa "prova às cegas", num ensaio sobre a cegueira!