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O gosto (ou a falta dele!)

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O gosto (ou a falta dele!)
Autor: Tiago Teles
Data: 28 de Janeiro de 2008
Tema: Opinião

O gosto é um conceito complexo quando imaginamos o labiríntico mundo de informação difundido na sociedade moderna. Hoje em dia sou levado a pensar que não há tempo nem vontade para construir um gosto ou para reflectir sobre a sua complexidade. Vivemos com a impressão que o gosto é uma concepção universal, qualquer que seja a cultura de cada povo ou o passado de cada indivíduo. Infortúnios de uma economia de mercado praticada sem regras. A necessidade de apresentar avolumados resultados comerciais degenera numa necessidade de cumprir com a frieza dos números. Na prática, é mais importante não desiludir que surpreender. É mais relevante não estar contra que reflectir. Como refere Jonathan Nossiter no seu livro “Le goût et le pouvoir”, “é um consenso dito de luxo, sem fronteiras. Eficácia, consenso, democracia planetária”. Realmente, existe uma pressão da sociedade para que cada indivíduo viva mais rápido, ou para que consuma mais, tornando-o incapaz de completar uma escolha reflectida ou mesmo de estabelecer uma relação com o seu passado.

Inevitavelmente, o vinho está intimamente ligado ao dinheiro como qualquer outro objecto de desejo. O mercado de consumo dá-nos a impressão de decidirmos e escolhermos com base no conhecimento do nosso gosto pessoal. Hipocrisia planetária. Ao optarmos por um vinho duma determinada região em detrimento de outra pensamos decidir com base num aparente gosto pessoal. Infelizmente esquecemos que esses dois vinhos são iguais entre si, têm o mesmo sabor, o mesmo estilo, a mesma espessura, têm a cara do gosto universal oferecido por um consenso de luxo! Ou seja, uma qualquer campanha de marketing ou um jornalista especializado já decidiu por nós! Um subtil trabalho de condicionamento, em parte imposto pela crítica especializada, que nos faz crer que os melhores vinhos são aqueles que esmagam o nosso palato com doces sabores e aqueles que ostentam uma determinada imagem.

Recordo também um dogma gustativo moderno, imposto pela mente cartesiana defensora da sobre maturação. O toque vegetal que alguns vinhos tintos apresentam na sua juventude é atribuído à deficiente maturação das uvas. Para o meu gosto pessoal a presença subtil desta sensação está longe de ser desagradável. Ele pode ser bastante desejável e apetecível, um sinal tónico natural que me recorda um elemento da natureza, fugindo à triste luz dos vinhos marcados pelo excesso de fruto. Além disso, nada como um certo verdor na juventude para vencer com dignidade o passar dos anos em garrafa. Em nome de que valor deverá um indivíduo renunciar ao seu gosto pessoal? Em nome de um gosto universal? O gosto não é uma ciência exacta que necessita de uma organização comum. Também não é a anarquia do pensamento. É a compreensão do passado individual, um passado cultural que se relaciona com a consciência do presente e com as formas de transformação sobre ele.

Mas de que forma o consumidor é afectado pela pressão da indústria de consumo? Aldous Huxley deixa-nos a resposta dada a esta interrogação por um filósofo psiquiatra, Dr. Eric Fromm: “A nossa sociedade ocidental contemporânea, a despeito do seu progresso material, intelectual e político, conduz cada vez menos à saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amor no indivíduo; tende a transformá-lo num autómato que paga o seu fracasso humano com as doenças mentais cada vez mais frequentes e desespero oculto sob um frenesi pelo trabalho e pelo chamado prazer”. 
 
Por essa razão, alegrem-se os consumidores que atravessam uma crise existencial no seu relacionamento com os vinhos modernos! “Onde há sintomas há conflito, e conflito indica sempre que as forças da vida, que porfiam pela harmonização e pela felicidade, ainda lutam”. O simples acto de construir um gosto é um sintoma de conflito interior. O gosto é uma interacção de factores culturais, geográficos e circunstâncias históricas pessoais. É a relação ética que cada indivíduo adopta, com a sua identidade e com o mundo que o rodeia. Por essa razão, a única forma de o edificar e defender é interpretando a riqueza histórica que faz a singularidade da cultura individual. Gostar do que o vizinho gosta é falta de bom gosto. 

Jonathan Nossiter lança ainda um convite profundo à reflexão com a frase: “É um convite a participar nos prazeres dos gostos adultos, a salinidade, a mineralidade, a acidez, enquanto que (o crítico americano Robert) Parker e a maior parte do mundo nos conduzem a um gosto de criança, do açúcar. É a infantilização! É a demagogia do fácil”. Apesar de provocadora a frase tem um fundo de verdade. É isso que assusta. Como poderá uma criança tornar-se um adulto de bom gosto, com curiosidade pela complexidade de sabores, se passou a sua vida a comer congelados e enlatados, a beber Coca-Cola e a comer gomas, se não cresceu num ambiente gastronómico familiar, se não viu os seus pais cozinharem alimentos naturais? Eventualmente, um dia, esta criança terá um gosto adulto e quererá beber vinho. Mas qual será o seu gosto pelo vinho? Terá ela bom gosto ou mau gosto?