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Mas o grau alcoólico subiu vertiginosamente!

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Mas o grau alcoólico subiu vertiginosamente!
Autor: Tiago Teles
Data: 15 de Janeiro de 2008
Tema: Opinião

Recordo que até há bem pouco tempo, a regra eram vinhos nos 12-12,5%, não vinhos onde o grau alcoólico subiu vertiginosamente, de um dia para o outro, para valores acima dos 14%, diria 15%, bem ao estilo cocktail. Se o mérito de um vinho é afirmar uma identidade cultural, materializando um Terroir, porque razão o grau alcoólico tem subido vertiginosamente nos últimos anos? Se é verdade que a qualidade global se elevou, também é verdade que essa melhoria é dissociável do aumento excessivo do grau alcoólico.

Depois de provar imensos vinhos e de ler inúmeros testemunhos profissionais, cheguei à conclusão que, na sua maioria, os vinhos modernos espelham o carácter do criador e uma procura de mercado uniforme em detrimento de uma identidade cultural. O problema central reside numa constatação intuitiva. Tal como um vinho diluído não tem matéria para expressar um Terroir, os vinhos demasiados ricos, ou demasiado alcoólicos, irão mascarar a complexidade e a subtileza mineral do mesmo Terroir. Vivemos porventura num mundo de Brutus: a elegância não passa.

Além de nascerem alcoolizados, estes vinhos apresentam-se, em geral, super maquilhados, vangloriando outro defeito grave: os seus aromas e sabores não se alteram em garrafa. Perdem apenas energia. Carecem ainda do principal conservante natural do vinho, a acidez. Abrir um vinho com as características referidas passados alguns anos de vida é deparar-se com uma juventude disforme. É termos a sensação de beber exactamente o mesmo vinho que conhecemos na juventude mas com aromas e sabores cansados. Não evoluiu, não se reinventou, não ganhou complexidade com o passar do tempo. No fundo, deixou de ter vida. Quando um vinho se olha para o “espelho” aos 20 anos e vê a mesma cara de há 15 anos atrás, há algo que não está bem. É porque precisa de cair na realidade. Lembram o plástico, não são bio degradáveis! Querem um exemplo mais flagrante de atentado contra a vida do vinho?

Este aspecto verdadeiramente inquietante da evolução dos vinhos modernos, o aumento do grau alcoólico, é explicado não só por questões económicas impostas pelo mercado concorrencial, mas também por modas enológicas. As uvas são colhidas num estado de maturação superior, teoricamente no ponto ideal de maturação fenólica, em parte porque uma nova corrente de pensamento fez escola na enologia, em parte porque o aquecimento do planeta é uma realidade incontornável. As vinhas são também cultivadas de diferente forma, associadas a superfícies foliares superiores, favorecendo a produção de açúcar na uva. As leveduras que transformam o álcool são cada vez mais irredutíveis, aguentando fermentações para além de graus alcoólicos imagináveis há dez anos atrás. Mas o que poucos dizem é que tudo isto alimenta uma dependência abusiva do ácido tartárico, elemento usado com frequência nos mostos para compensar a intencional falta do mesmo ácido no seu estado natural. É utilizado como solução, não como prevenção. Esta alteração artificial alimenta uma acidez em boca que estimula as papilas gustativas mas que não evita o peso de um corpo sobre dimensionado. Salivamos, salivamos vezes sem conta. Deixamos de percepcionar a definição aromática na prova de boca dada pelo retronasal. O vinho perde a sua alma, perde os traços aromáticos da sua identidade, do seu Terroir. Formata-se um elemento fundamental na vida de um vinho, o seu principal conservante, a acidez! É a indústria plástica no seu estado puro.

Para ajudar à festa, a maioria dos críticos de vinho aprecia estes estilos alcoolizados que apresentam um volume e uma doçura imediatos na boca, exibindo texturas redondas e suaves, acentuadas por sabores compotados. O vinho ideal para uma análise de um minuto. Quem não gosta de um ataque doce no início de boca? Não estranha que a crítica se comporte desta forma quando vários críticos se congratulam de provar 100 a 200 vinhos por dia! O consumidor acomoda-se porque também ele, o que procura, numa existência vivida à velocidade da luz, são sensações fortes e alguém que lhes diga o que fazer... 

Mas o esquecimento afasta-nos da memória colectiva. Esquecemos com frequência que estes gestos impensados apagam um estado de espírito, apagam a cultura, afastando-nos das pessoas que nos rodeiam. Não é de estranhar que a solidão se instale perigosamente na sociedade moderna...e que a indústria química usufrua com o crescente consumo de anti depressivos...

Será possível voltar atrás? Sim, haja vontade humana. Felizmente alguns produtores já lutam contra esse excesso, interpretando a natureza de forma equilibrada, trabalhando a vinha nesse sentido. Em três anos, alguns produtores conseguiram baixar o grau médio abaixo dos 14º. Em paralelo, um número cada vez maior de consumidores avisados, que bebem vinho com regularidade, parecem iniciar uma procura por vinhos mais digestos, com arestas, que exigem também mais tempo de contemplação para brotarem o seu potencial vivo. É um retorno à origem e ao equilíbrio histórico.