Para quem anda mais atento a estas coisas do vinho, os últimos anos fizeram dar à costa uma nova categoria de vinhos: os chamados vinhos «de garagem» ou «de boutique». Uma nova classe de vinhos, em franca ascensão, tansaccionada a preços estratosféricos e que, num ápice, mostrou ter argumentos para se degladiar com os «clássicos», disputando com estes o patamar mais alto da excelência vitivinícola. Os primeiros, como que por obra e graça do Espírito Santo, conseguiram, em duas ou três colheitas, aquilo que os segundos demoraram décadas a construir: o prestígio, a fama, uma imagem quase mítica, traduzidos numa procura desenfreada. Para lhes chegar é o cabo dos trabalhos: um rateio fortíssimo nas lojas especializadas, a longa espera em listas de clientes quando se trata de venda exclusiva na Internet ou, na melhor das hipóteses, um laço de proximidade com o produtor. Se não fôr assim... só em leilões. Nos Estados Unidos o fenómeno parece ser imparável e nomes como "Screaming Eagle", "Colgin", "Bryan Family", ou "Maya", globalmente rotulados como "Cult Cabs", são olhados como autênticas "blue chips", com margens de valorização anual que envergonham qualquer título que integre o Dow Jones ou o Nasdaq.
O fenómeno não é exclusivo das terras do Tio Sam e o contágio já se propagou tanto ao Novo como ao Velho Mundo. Países como Espanha, França, Itália e Austrália já não passam sem as suas "pérolas", projectando no mercado mundial dois ou três rótulos de "cair para o lado". Nomes como "Pingus", "Clos Erasmus", "Le Pin", "Roberto Voerzio" ou "Three Rivers Dry Grown", entre tantos outros, andam pelas bocas do mundo e, no entanto, ninguém lhes põe o nariz ou o boca em cima. À escala nacional, o fenómeno torna-se ainda mais abrangente e não há país que não se possa orgulhar de um punhado de vinhos de garagem. Independentemente da escala de análise, todos estes vinhos têm na sua génese uma série de pressupostos: um trabalho vitícola irrepreensível, castas de qualidade reconhecida, um volume de produção irrisório, um enólogo de nomeada, estágios nas melhores madeiras e, finalmente, um preço que faz deles autênticas obras de arte.
Sim senhor! Um não olhar a esforços e dinheiro para atingir o Olimpo. Acontece que é muito maior a quantidade de vinhos que cumpre estes requesitos do que o número de rótulos que alcançam tal estatuto. Porquê? Porque lhes falta um elemento crucial: o reconhecimento e os louvores da crítica. Não tenhamos ilusões. Nenhum vinho é «de garagem» por ter sido feito nas traseiras da casa, nem tão pouco pelas qualidades excelsas da vinha, das castas, das madeiras de estágio ou do enólogo. Esses são requesitos necessários, mas não suficientes para se chegar ao vinho «de boutique». Micro-wines conheço eu muitos e, se a memória não me falha, as suas aspirações não vão tão longe. Falta-lhes a aprovação do crítico, o parecer favorável dos "opinion makers", a sentença das revistas da especialidade. Não se iludam: os vinhos de garagem não se fazem na vinha, na adega, ou na cave de estágio. Fazem-se nas redacções, fazem-se com um teclado à frente e com pontuações que esbarram no limite máximo da escala. Nomes como Robert Parker ou James Suckling, só para citar alguns, encabeçam hoje uma lista de verdadeiros "enólogos" responsáveis por esta nova geração de vinhos. Chamem-lhes de garagem, de boutique, ou aquilo que vos passar pela cabeça. Eu chamos-lhe vinhos... "de redacção"! Não concordam? Então expliquem-me lá o sentido da expressão "cuvée des journalists"?
E esta...hem!? |