Para alguns de nós longe vão os tempos das primeiras incursões pelo vinho. Muitas imagens surgem com carácter difuso, mas nem por isso deixamos de recordar com particular apreço a importância que os vinhos velhos desempenharam na nossa formação. Nem tão pouco esquecemos o impacto que os mesmos tiveram no apego e envolvimento que acabou por determinar em nós uma relação umbilical com o universo dos vinhos.
É verdade que, nalguns casos, os nossos pais se excediam rotulando como “relíquias” ou “preciosidades” vinhos que, face aos actuais parâmetros de análise, não andariam muito distantes de “esqueletos” ou cadáveres”. Mas verdade seja dita, em muitos casos éramos confrontados com vinhos que não encontravam paralelo no nosso imaginário: vinhos a quem o repouso em cave ou o descanso em garrafeira havia conferido uma dimensão única. E, acima de tudo, vinhos que nos rasgavam horizontes e nos despertavam para virtudes menos óbvias e menos conhecidas. No fundo, um universo de sensações que os vinhos de tenra idade não conseguiam oferecer. Nem podiam...
Claro está que o acesso a esses vinhos só estava ao alcance de uma escassa minoria de consumidores, com capacidade e poder económicos para se darem a tamanho luxo. Pouco ou nada se sabia em relação à evolução que esses vinhos haviam sofrido mas a especulação estava garantida: quanto mais antigo... mais caro! Não muito distante daquilo que hoje conhecemos. Em qualquer dos casos, um forte argumento para que o investidor guardasse os seus melhores vinhos. E constituísse uma garrafeira.
Mas, sejamos sinceros, para lá da componente financeira, aquilo que mais nos fascinava era o perfil desses vinhos. Ainda hoje é assim. Mesmo com os atrasos na viticultura e na enologia que hoje se reconhecem, esses vinhos mostravam um carácter fascinante e sublime. Recordo com inegável desconcerto a delicadeza e complexidade aromáticas, lembro-me de forma inequívoca da redondez e macieza de formas, da suavidade de texturas, da leveza de sabores, da elegância de taninos, da persistência final e, não menos importante, da forma magistral como a maior parte deles se fundia com a gastronomia. Não muito distante daquilo que hoje conhecemos. E mais um forte motivo, senão o principal, para valorizar os vinhos estagiados em garrafa. E para que se constituísse uma garrafeira.
Sinto algum desgosto ao constatar que há hoje uma nova geração de consumidores para quem este tipo de considerandos surge completamente desfazado da temática dos grandes vinhos. Eles que me perdoem a franqueza, mas estão completamente equivocados na sua postura! É certo que vivemos tempos de globalização e massificação onde o prazer, para além de efémero, importa que seja mediático. Com muita pena minha mas, nesta avalanche de sensações, nesta constante sofreguidão em assumir a dianteira e, nesta ânsia de chegar mais longe, caímos no rídiculo de olhar para os vinhos como um produto descartável, desejável enquanto fonte de um prazer momentâneo, mas desde logo substituível. Uma forma vertiginosa de estar no vinho que nos transporta para o universo dos “fast wines” e dos vinhos “papa-provas” mas onde o factor tempo não é ouvido nem achado. Uma postura onde, talvez sem querer mas, inexplicavelmente, se perdem os grandes vinhos. E o culto da garrafeira...
Um comportamento tanto mais bizarro quanto continua válida a máxima «os grandes vinhos nascem na vinha, fazem-se na adega e afinam em garrafa.» Numa linguagem simplista, significa isto que o apogeu dos grandes vinhos implica um estágio obrigatório em cave ou garrafeira. Ou, se se preferir, e salvo raríssimas excepções, nenhum vinho está no seu apogeu no momento em que é lançado no mercado. Ainda que variável consoante a casta, o estilo, a região de origem, o contexto climático de cada colheita ou os processos de vinificação, mas o repouso em garrafa é crucial para que os vinhos adquiram grandiosidade e atinjam o seu zénite. Só dessa forma poderão ambicionar a uma dimensão única em termos de equilíbrio e harmonia. E é precisamente essa razão que está na origem do aparecimento desse “bicho” que dá pelo nome de garrafeira. E de que nenhum enófilo que se preze está disposto a abdicar.
Efectivamente, para o enófilo, a garrafeira funciona como um pequeno mundo, um território “sagrado”, uma espécie de “cidade proíbida”, vedada a estranhos e transeuntes e, na maior parte dos casos, inacessível mesmo aos familiares mais chegados. Na sua génese, a garrafeira acaba por descambar numa espécie de “retorno à infância”. Ali estão os seus brinquedos, que só ele sabe manejar, que só ele percebe como funcionam, que só ele reconhece o mecanismo... e que só ele pode tocar. Um mundo de idiossincrasias onde o enófilo revela o seu lado mais egoísta e egocêntrico. Sublime...
É inegável que as actuais condições de vida urbana não são as mais adequadas para que alguém se lance na constituição de uma garrafeira. Mas, não hesito em afirmar que, na ausência desta, o consumidor estará irremediavelmente privado do melhor que o vinho tem para oferecer. E, em boa verdade, dificilmente poderá reivindicar-se como apreciador esclarecido. Porque, na ausência da garrafeira, lhe escapam os grandes vinhos.
Os detractores desta posição não hesitarão em associar a imagem de uma garrafeira a um amontoado de problemas. O que, convenhamos, não é mentira nenhuma. Mas, verdade seja dita, a ausência desta priva o enófilo de lidar e se ver confrontado com o desafio. Porque, mesmo contra nossa vontade, ninguém tem o dom de prever o futuro e, uma vez colocados na garrafeira não há certezas quanto à forma como os vinhos evoluirão. Bem ou mal? Lentamente ou mais depressa do que se estava à espera? E aquele exemplar único, será que já atingiu o apogeu? E aquele branco, de tão boas memórias, será que ainda se aguenta? Ou estará irremediavelmente perdido? E aquele Porto Vintage que atravessava uma fase complicada. Terá recuperado? Continuará fechado? E, se da próxima vez já estiver na curva descendente? Que beber? Que manter em stock? Será que é dinheiro deitado ao lixo? O que se sofre... com enorme prazer!
É perfeitamente compreensível a angústia de muitos enófilos na sua permanente tentativa de gerir os dilemas que uma garrafeira coloca. Mas pergunto-me: não é nesse desafio que reside grande parte do encanto da mesma? Conseguem imaginar a garrafeira perfeita, onde o elemento de incerteza ou dúvida estão ausentes? Onde os vinhos evoluem de forma perfeita, sem qualquer tipo de constrangimento. Onde se exclui o elemento de incerteza e, consequentemente, de desafio, de confronto... de encantamento. Ninguém quer ver os seus vinhos deteriorados ou decrépitos mas, é na eventualidade de tal acontecer que reside muito do fascínio da garrafeira. É uma espécie de desafio que lançamos a nós próprios e que, permanentemente queremos vencer. É uma espécie de braço-de-ferro em que pomos em causa a nossa intuição e desafiamos os nossos próprios limites. Sabendo, de antemão, que nalguns casos seremos tocados pela desilusão. Mas, não raras vezes seremos assolados pela exaltação!
Feita à imagem e semelhança de cada um de nós, a garrafeira acaba por ser um fac-simile de nós próprios, submetendo-nos a um escrutínio permanente, em que implicitamente acabamos por testar os nossos limites. Para o bem ou para o mal mas, foram as decisões tomadas em tempo pretérito que nos estimulam o ego em tempo presente. E nos aguçam o engenho para o devir. Algum apreciador está disposto a adbicar do leque de sensações que este desafio suscita? Não será isso um privilégio? Bem me parecia...
Todos fazemos questão em salvaguardar da melhor forma possível os vinhos que elegemos para a garrafeira. Mas, convenhamos, não fosse o elemento de incerteza, e que até certo ponto coloca em causa as nossas decisões, e a garrafeira perderia parte do encanto que arrasta consigo. De facto, tudo parece mais simples se nos limitarmos a adquirir o vinho em consonância com o ritmo a que o mesmo é consumido. Mas a monotonia rapidamente se instala e, mais grave do que tudo isso: nunca poderemos aceder aos grandes vinhos. Porque esses nascem na garrafeira.