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O demasiado evidente cansa!

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O demasiado evidente cansa!
Autor: Tiago Teles
Data: 28 de Outubro de 2008
Tema: Opinião

O passado bem recente viveu a moda dos vinhos marcados por aromas oriundos do estágio em madeira, como carvalho, fumo, chocolate, café, tosta, baunilha, etc. Uma técnica em tempos exclusiva dos vinhos de topo, sobretudo para permitir uma micro oxigenação capaz de atenuar a adstringência dos taninos e conferir uma complexidade extra ao vinho. Na maioria dos casos, o tempo em garrafa diluía esta contribuição aromática da madeira, em parte porque estes “grandes vinhos” eram capazes de assimilar e expressar as virtudes desse estágio. Inevitavelmente, a utilização de barricas de carvalho foi generalizada à maioria dos vinhos de consumo, incluindo os mais singelos. O objectivo era simples: tentar assemelhar-se aos vinhos de topo. A presença da madeira no vinho foi tão estigmatizada que diversos países alteraram a sua legislação para permitirem a utilização de pequenos componentes de madeira deitados no vinho para adicionar, de forma mais barata, o tal aroma e sabor da moda. Desta forma, mesmo os mais modestos tiveram (e têm) a possibilidade de “cheirar” a madeira, de se parecer com os “grandes”. Foi (e ainda é) uma época onde os vinhos eram diferenciados não pelas características da casta, solo e clima, mas pela monocórdica decisão entre madeira francesa ou madeira americana. Para felicidade do consumidor, a moda da madeira começa a esvanecer-se porque tudo o que é demasiado evidente acaba por cansar. Mas em Portugal esta nova tendência para decrescer o peso da madeira ainda não acertou o passo. Se nos vinhos de topo esse decréscimo é patente, ele passou a ser mais evocado nos vinhos de volume. Outrora um apanágio dos “grandes vinhos”, a madeira passou a ser uma característica gustativa dos vinhos modestos. Fantástico…

Mas uma nova moda instala-se nos “grandes vinhos” (os modestos também lá chegarão…). Muitos dos vinhos de topo nacionais tornaram-se cansativamente triviais: aromas densos de compota de fruto, misturados na madeira, aromas sem definição, aromas sem espectro aromático, opulentos sim, mas ao estilo de um caldo: misturados e indefinidos, no limite, quase mudos. Deixámos a época da diferenciação entre vinho de madeira francesa ou madeira americana para entrar-mos na era da doçura, na era dos vinhos diferenciados pelos grau de compota de fruto vermelho ou fruto preto. Desembocámos numa era de bocas extraídas, texturas secas, acidezes extremamente brandas, doçuras excessivas. Opulentas sim, mas sem vida, sem identidade. A escala qualitativa segue a graduação da densidade quando facilmente nos apercebemos que quanto mais quente for o vinho mais ténue é a sua expressão aromática e, por consequência, mais ausente é a sua identidade. Um caminho que nos obriga a beber os nossos tintos em torno dos 14-16ºC para evitar o desencorajante excesso de doçura. Não surpreende. Um atalho que coloca em evidência uma característica cultural bem portuguesa: o excesso – é uma tentação ser excessivo na escolha dos lotes para os vinhos de topo. Pior, a grande maioria destes vinhos de topo não têm longevidade, encarnam uma estratégia de curto prazo que teima em não lançar as bases estruturais de compreensão da natureza e da nossa identidade cultural. Mais uma vez vamos a reboque de modas passadas, mais uma vez somos incapazes de inovar e mostrar a nossa cultura com autenticidade.

Mas descansem porque há um grupo de produtores portugueses capazes de elaborar vinhos simplesmente únicos, vinhos com identidade e carácter. Esses vinhos portugueses recomendam-se e estão cada vez melhores. E, seguramente, vão estar ainda melhores no futuro. Mas, mais surpreendente ainda, esses vinhos estão cada vez melhores na gama média, uma gama salva pela delimitação dos recursos humanos e financeiros na sua elaboração, poupada da exaltação de um ego no lugar de uma identidade mais terrena, governados com menos mas mais autênticos e sensatos. Estes vinhos “médios” são mais frescos, menos extraídos, mais afirmativos, inclusive mais longevos que os denominados vinhos de topo. São também mais baratos que os vinhos de topo e, surpreendentemente nos tempos modernos, são muito menos evidentes. Por isso, consumidores, não se esqueçam que o equilíbrio e o bom senso principiam eventualmente em vocês.