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O elo mais fraco... adeus!

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O elo mais fraco... adeus!
Autor: Pedro Gomes
Data: 10 de Dezembro de 2002
Tema: Opinião

É perfeitamente normal que a "coisa" vínica suscite controvérsia, levante polémica e dê azo a discussões inflamadas. Ainda bem que assim é. Menos frequentes são os consensos, sobretudo em relação a matérias que deveriam gerar algum "atrito" e motivar acesa discussão. Em Portugal, um dos exemplos flagrantes desses consensos assenta na proclamada superioridade do vinho de lote relativamente aos vinhos monovarietais. A unanimidade é geral com produtores, enólogos e críticos da especialidade a insistirem fervorosamente nas virtudes do lote em detrimento dos vinhos de casta única.

Os "incondicionais" do lote cerram fileiras em torno de um argumento que parece irrefutável: é da combinação de castas que se pode extrair um efeito sinérgico, aproveitando o potencial específico de cada uma isoladamente. Uma receita simples, do género: determinada casta contribui para a cor e riqueza de aromas, uma outra confere-lhe força alcoólica e taninos, e uma terceira assegura-lhe a acidez, ao mesmo tempo que lhe imprime profundidade, potenciando a estrutura de conjunto. Para reforçar o seu ponto de vista invocam que os vinhos monocasta não atingem os mesmos graus de profundidade e complexidade, são mais unidireccionais, um tanto ou quanto lineares, e estão longe dos padrões de harmonia e equilíbrio do produto de lote.

Um raciocínio brilhante, apoiado numa argumentação sólida... à primeira vista! Mas, convenhamos: haverá sensatez nesta posição? Será lógica uma postura de total inflexibilidade nesta matéria? Em suma, será esta tese "bebível"?

Estou longe de me posicionar nos antípodas, mas tenho sérias reservas quanto a uma leitura deste tipo, redutora e determinista e, acima de tudo, quanto à forma complacente e conformista com que nos deixamos embalar por este paradigma. Reservo-me o direito de dúvida e questiono a superficialidade e simplicidade de análise nele envolvidas.

O que é que falha, então, nesta tese? Falha que a teoria e a realidade parecem não encaixar. Ninguém contesta que grandes "rótulos" e muitas das mais prestigiadas regiões vitivinícolas emergem do lote. Mas, em contrapartida, ninguém pode escamotear que muitas das "coqueluches" e denominações com fama e projecção mundiais cimentaram o seu nome à custa de mostos "single casta".

Quem se preocupar em seleccionar meia dúzia de rótulos de referência, daqueles que deslumbram tudo e todos, choca com nomes incontornáveis como Soalheiro, Vinha Formal, Quinta dos Carvalhais Encruzado, Morgado de Sta. Catherina, Muros de Melgaço, Tapada de Coelheiros Chardonnay, Quinta dos Roques Encruzado -esperem pelo Verdelho de 2002, da Quinta das Maias-, e esse fenómeno que foi o Quinta de Foz de Arouce, da colheita de 1992. Tudo brancos... de casta única!

Em tintos o panorama é análogo com os "holofotes" direccionados para nomes como Quinta do Ribeirinho Baga Pé-Franco, Quinta dos Roques Touriga Nacional, Domingos Soares Franco Colecção Privada Syrah, Quinta do Crasto Touriga Nacional, Quinta do Vale da Raposa Tinto Cão, Quinta dos Carvalhais Touriga Nacional, Incógnito, Quinta da Leda Touriga Nacional, Vinha Barrosa, Quinta da Pellada Touriga Nacional -100%-, Vinha Pan ou, mais recentemente, o "virtual" Quinta da Pellada Baga, só para citar os mais conceituados. Entretanto, e como arma de arremesso contra aqueles que invocam modas e modernices, vinhos como o "Sousão" de 1974, da Quinta do Côtto, o "Touriga Nacional" de 1963, do Centro de Estudos Vitivinícolas de Nelas, o "Tinto Cão" de 1981, da Ramos-Pinto, e o "Caves Valdarcos Garrafeira" de 1985, produzido por Sidónio de Sousa já têm lugar cativo nos anais da história vinícola portuguesa.

Em que ficamos? A tese da superioridade do vinho de lote faria supor um cenário em que a casta Ramisco e os grandes "Colares" de outros tempos seriam um equívoco, a Bairrada e os seus portentosos "Baga" uma segunda escolha, o "Castelão" de Setúbal uma ilusão olfactiva e de palato, os "Alvarinho" um produto menor dentro da denominação "Vinhos Verdes", os famigerados "Arinto" de Bucelas uma espécie em vias de extinção e aos vinhos Moscatel e Madeira pouco mais restaria que definharem, até se apagarem da nossa memória colectiva.

No plano internacional, a aplicação do mesmo princípio criaria um cenário que oscila entre o caricato e o dantesco, com muitas das mais prestigiadas regiões e muitos dos mais conceituados vinhos condenados ao extermínio puro e simples.

Malfadada Borgonha e os seus carismáticos "Pinot" -Romanée-Conti e a sua corte-! Coitadinhos dos grandes "Riesling" alemães com a chancela Mosel-Saar-Ruwer -os nomes Egon Muller, Willy Schaefer e Fritz Haag dizem-lhe alguma coisa?-. Que futuro para alguns monstros australianos de apelido "Shiraz" -Grange e restantes súbditos-? "Tolerância zero" para os monumentais "Chardonnay" da Côte-d'Or -que nos perdoem Anne-Claude Leflaive e o seu "Chevalier-Montrachet", bem como Lalou Bize-Leroy e o seu "Criots-Bâtard-Montrachet"-. O sacrifício que seria insistir na exaltação da profundidade de muitos "Chablis" -certamente nunca levaram à boca um "Les Clos" com o carimbo Domaine Laroche-! Quem estaria disposto a cair no ridículo de elogiar a exuberância aromática dos "Sauvignon Blanc" neozelandeses -lembrei-me do nome Thornbury porque Cloudy Bay seria demasiado óbvio-? Porquê perder tempo com alguns dos soberbos "Blanc de Blancs" da região de Champagne -como eu gostaria de provar um "Clos du Mesnil" da Krug ou, em alternativa, um "Blanc des Millénaires" com o selo Charles Heidsieck-? Uma perfeita patetice essa ideia de vinificar em separado as castas Furmint e Hárslevelu na elaboração de vinhos majestáticos que são rotulados como "Tokaji" -aqueles Eszencia!-. O regozijo que seria abdicar da vincada personalidade dos "Gruner Veltliner" austríacos -ainda não perdi as esperanças de provar um "Kamptal Alte Reben" e um "Langenlois Ried Lamm", assinados por Willi Brundlmayer-! Porque carga de água nos querem pôr a beber alguns portentosos "Tempranillo" espanhóis -Pingus e outros que tais-? Pobre fundo de desemprego gaulês, uma vez extinta a denominação Hermitage, a braços com encargos suplementares para Michel Chapoutier, Jean-Louis Chave e Paul Jaboulêt Aîné -entre os epítetos "L'Ermite", "Cathelin" e "La Chapelle"... venha o diabo e escolha-. Pense-se no gozo que daria a aquisição de uma edição actualizada de uma qualquer enciclopédia do vinho, omissa em relação a grande parte dos hiper-estruturados "Trocken" não hesitaria diante do "Neusiedlersee Nouvelle Vague Nº 13", um Chardonnay apadrinhado por Kracher, ou um "Nackenheimer Rothenberg", um Riesling com o "ferro" Gunderloch-. Que razões existem para acreditarmos nos méritos de muitos dos hiper-cotados "Cult Cabs" californianos -já perdi as esperanças de chegar a um "Inglenook" de 1941, mas não desisto enquanto não deitar as mãos a um "Bryant Family Vineyard"-? E, já agora, abaixo a sofisticação dos "Cult Chards" do Novo Mundo -se os nomes Helen Turley e "Marcassin" lhe são desconhecidos, experimente um "Durell Vineyard" da Kistler-! Pura perda de tempo os pareceres elogiosos à fragrância dos "Verdelho" com o selo Rueda Superior -aquele Belondrade y Lurton-! Desgraçados super "Barolo" piedmonteses e triste sina para a casta Nebbiolo -estava a pensar no "Barolo Brunate" de Roberto Voerzio-! Até que enfim, a quase completa irradicação das designações Eiswein ou Ice Wine e o eclipsar de regiões como Rheingau ou a Península de Niagára -experimentem o "Kiedricher Grafenberg", um Riesling de Robert Weill ou um VQA -100% Vidal- da Inniskillin-! Só um tonto continuaria a incluir na grande "passarelle" do vinho os emblemáticos "Brunello de Montalcino" e a casta Sangiovese, quando trabalhada "a solo" -ocorreram-me os nomes "Altesino" e o seu berço, Montosoli-? Pura blasfémia louvar as virtudes do Jerez, invocando as qualidades superlativas da Pedro Ximénez -quem dá mais por uma garrafa de "Viejo Rare PX", com o selo Osborne?

Acham que chega ou querem mais?! Estão a ver o "filme"? Já tomaram consciência do impacto global desta visão minimalista e, perdoem-me a expressão, "raquítica"? Um radicalismo que está longe de encontrar eco ou ter retorno, mas suficiente para desencadear uma política de «terra queimada» em prol do lote, com os vinhos monovarietais a funcionarem como elo mais fraco... adeus!

O que a teoria defende contrasta com aquilo que o mundo do vinho criou... e insiste em perpetuar. Sempre houve e, seguramente, continuarão a existir grandes néctares de "apelido único". Com o distanciamento devido, parece, pois, que andamos a apaparicar um equívoco... sem pés nem cabeça!

Pessoalmente, continuo adepto da «coabitação» e olho de soslaio para este consenso que se gerou em torno do lote. Encaro-o como um «fait-divers», uma temática quase esotérica, uma espécie de futilidade vínica.

E, já agora, não vão por aí! Se estão a pensar que tudo isto cai por terra só porque fui omisso em relação à longevidade dos vinhos... então desenganem-se. Não me esqueci desse parâmetro que é a prova do tempo, a vida em garrafa... a longevidade. Acontece que, muitas das regiões e dos vinhos em causa pertencem a uma galeria de "intocáveis" em termos de esperança média de vida. E, como se isso só por si não bastasse, bem vistas as coisas, de que serviria esse argumento numa época em que mercados e consumidores se mostram ávidos de vinhos "Dodot"? Sinais dos tempos, em que o "polimento" da personalidade que só o tempo confere deixou de ter valor. E os vinhos, tal como as pessoas, passaram a querer-se novos. Eu bem tento remar contra a maré... mas a corrente é muito forte!