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O vinho é um elemento de coesão e identidade culturais

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O vinho é um elemento de coesão e identidade culturais
Autor: Tiago Teles
Data: 09 de Dezembro de 2008
Tema: Opinião

A história cultural do vinho é bela e misteriosa, apaixonante e enraizada na civilização. Ela surge com a agricultura, vendo nascer as primeiras civilizações na Mesopotâmia e mais tarde no Egipto. Antes da agricultura, o homem era um animal predador errante, um animal selvagem e relativamente raro sobre a superfície da Terra. De refeições que eram felizes descobertas e aventuras excitantes, havia chegado a regularidade das horas de comer e de beber. Deixou de ser um animal do acaso para se transformar num animal económico e civilizado! Foi depois na Grécia antiga de Aristóteles e Péricles que esse néctar e os seus contornos mitológicos ganharam um lugar intemporal na civilização. A sua magia e o seu mistério foram glorificados no deus Dionysos, iniciando uma relação humana de respeito e emoção pelo vinho que ainda hoje perdura na civilização. Os exímios comerciantes Fenícios levaram o vinho a diferentes culturas mediterrânicas enquanto os Romanos levaram as vinhas que plantaram com vigor, enraizando-as para sempre nas culturas e tradições ocidentais! Mais tarde os europeus embarcaram a vinha rumo a novos continentes.

No fundo, a história do vinho é uma história humana ligada às condições geo climáticas, às trocas comerciais, aos diferentes gostos e às diversas sensibilidades de cada povo. O vinho acompanha a humanidade nas suas conquistas e progressos, nos seus fracassos e desânimos. O vinho é um valor cultural e um fenómeno de civilização. Mas na era moderna, devido às descobertas e invenções enológicas, o ritmo das mudanças acelerou. Envelhecendo ou não, o homem do vinho vê o tempo encurtar-se. É o efeito prático do progresso científico. O futuro chega ao mesmo tempo que o presente, além de sermos menos capazes de retirar lições do passado. Ainda assim, a ciência não explica a interacção de muitas substâncias presentes no vinho que fazem a diferença para outras bebidas como a cerveja. Muito do que o homem conhece do vinho é, portanto, resultado da experiência acumulada ao longo dos séculos, da sua história, das suas tradições.

Para compreendermos e assimilarmos as fraquezas e virtudes da civilização do vinho é por isso importante conhecermos a história e a cultura de cada local. Estudar as suas formas no passado, conhecer a evolução dos nossos vinhos em garrafa, entender os seus autores, ajuda a compreender a complexa realidade em que estamos inseridos e a tomar consciência dos limites dentro dos quais é possível alguma mutação para transformar positivamente uma realidade cultural, social ou económica que já não corresponde às necessidades do mundo actual. Permite-nos obter respostas para os erros humanos, criando soluções para ultrapassar as contrariedades do presente e preparando-nos para os desafios do futuro. Numa época onde a homogeneidade do vinho alcança um contorno planetário, numa fase onde o homem se distancia cada vez mais da natureza, numa altura onde se tornou moda quebrar abruptamente com o passado, torna-se urgente reflectir sobre a complexa interacção de factores culturais, geográficos e circunstâncias históricas que conduzem à degradação da identidade do vinho na cultura ocidental.

Para impedirmos essa degradação é necessário respeitar a natureza e a civilização. Para tal é fundamental compreender que esse binómio reúne determinadas condições naturais que originam vinhos mais distintos que outros, sem que exista uma explicação lógica para tal diferença. Com o tempo em garrafa estes vinhos imortalizam-se e ultrapassam outros em complexidade. Mas, infelizmente, hoje em dia são mais os vinhos que espelham o carácter do criador do que a singularidade do local. Se a evolução da competência técnica e profissional tem como resultado uma evolução notória e positiva da qualidade geral do vinho, por outro, ela contribui para um nivelamento de perfis e de estilos. Na prática, a técnica confere um sentido de poder, estando o homem menos à mercê da Natureza. Mas o poder conferido pela técnica é global, não é individual, necessitando de uma direcção comum, de uma organização de mercado bem controlada. O poder humano tem um alcance que nunca tinha tido. Olha-se para tudo o que não é humano como material bruto. Não se consideram os fins: só se avalia a perícia do processo. Tal como o extremo subjectivo, este excesso técnico é outra forma de loucura. No fundo, algo que nasceu de forma positiva arrisca mover-se contra a diversidade do vinho, tornando o mundo mais pequeno. Em certa medida, se todos os vinhos se assemelham, qual pode ser o critério de qualidade? Se os vinhos portugueses forem iguais a tantos outros o que poderá levar um consumidor estrangeiro a optar pelos nossos vinhos?

Se a mundialização nos fez cidadãos do mundo, permitindo-nos ter acesso a vinhos singulares e diferentes elaborados nos quatro cantos do planeta, é importante não esquecer, tal como a língua materna, que a identidade do vinho é um elemento de coesão cultural. Se Portugal insistir pelo consenso universal, como se tem verificado nos últimos anos, perderá um dos seus principais elementos de coesão e identidade culturais. A defesa do Terroir, da cultura e tradições do vinho, são uma medida da nossa identidade. Apagar essa memória colectiva apenas nos conduzirá ao suicídio cultural.

Alguns apreendem este perigoso caminho. Lembremos por exemplo os surpreendentes “Palhetes da Meda”, um estilo de “tinto” fresco e leve que tanta falta faz em Portugal e ao quente clima português e que assenta numa tradição antiga que, neste caso, congrega geralmente 45% de tinto com 55% de branco. Estes executantes compreendem que compete ao homem exaltar dois aspectos fundamentais do vinho. Dum lado a sua grande variedade de gosto segundo as castas, o Terroir, a cultura e as tradições. No outro, o seu dom particular para envelhecer, para se modificar. Deturpar este sentido natural da vida apenas criará raciocínios imperfeitos gerados pelo poder económico oferecido pela globalização. Esquecem, no entanto, que este poder planetário deve também conciliar liberdade e iniciativa individual, deve conciliar cultura e identidade, deve respeito à história da civilização. A luta pela defesa da identidade de cada local é um desafio global. É a conjugação do equilíbrio entre a afirmação do nosso passado e a abertura espiritual ao futuro. É uma ligação entre Natureza e Civilização.