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Dois Mundos!

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Dois Mundos
Autor: Tiago Teles
Data: 21 de Abril de 2008
Tema: Opinião

O Velho Mundo: Velho Mundo é uma caracterização dada aos países que guardam traços de uma cultura milenar, neste caso de plantação da vinha, com castas e práticas originais intrínsecas às pessoas e tradições de cada local. França, Itália, Alemanha, Espanha, Portugal, Hungria, Áustria e Grécia são alguns exemplos.

A história vinícola nos países europeus tem vários milénios. Iniciou o seu caminho sério na antiga Grécia. Aos fenícios e aos romanos coube a importante tarefa de disseminar essa cultura na Europa continental. O nome de castas de que certamente, já ouviram falar, como Touriga Nacional, Baga, Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay ou Alvarinho, são um legado do Velho Mundo. O vinho, tal como o conceberam na sua essência, é uma bebida fermentada, é uma herança do Velho Mundo.

A abertura aos mercados globais, mercados abertos, teoricamente capazes de se auto regular com base na lei da oferta e da procura, permitiu ao Velho Mundo criar “novos mundos”. Talvez por isso e por força da “individualidade colectiva”, o fenómeno económico também se tornou cultural. E é aqui que os valores defendidos pelo Velho Mundo, uma identidade cultural associada a um espaço físico, perdem alguma coerência. Lembremos a história do século XVIII e um texto publicado no apaixonante livro “Uma História Mundial do Vinho” de Hugh Johnson. “As recriminações dos negociantes sobre a qualidade do vinho do Porto provocaram uma severa reacção do porta-voz dos produtores: Os negociantes ingleses sabem que os melhores vinhos da feitoria tornaram-se excelentes, mas eles desejam que os vinhos ultrapassem as normas fixadas pela natureza. Segundo eles, o Porto deveria queimar como fogo líquido no estômago, como pólvora para canhão, eles deveriam ao mesmo tempo ter cor da tinta, a doçura do açúcar do Brasil e aromas e sabores parecidos às especiarias da Índia. Começaram por fazer saber secretamente que era necessário adicionar aguardente durante a fermentação para dar força, e adicionar bagas de sabugueiro para dar cor”. Concretizando, ao pensar na formação do nosso gosto pessoal, constato que ele tem pouco de anglo-saxónico. Paralelamente, pesquisando a nossa história vinícola, confirmo que o vinho do Porto foi criado em solo português mas elaborado para o gosto inglês. Então porque seremos “obrigados” a gostar de vinho do Porto? Que seria do vinho do Porto se ele tivesse sido criado e elaborado para o gosto português? Todos sabemos a resposta a este dilema de coesão cultural.

A vontade de distinguir o Velho Mundo do Novo Mundo é mais um erro de generalização. A autenticidade é um valor comum. Mas talvez seja uma lição histórica para a velha Europa. Em certa medida, a potência colonizadora dos últimos cinco séculos está a ser lentamente colonizada pela lei de mercado e por vinhos estilo novo mundo...ligar a televisão ou ir a um Centro Comercial é uma experiência esclarecedora!

Para o consumidor, no mundo global, é importante saber que existe de tudo um pouco. A única diferença entre estes dois mundos, mas também esta se começa a atenuar, é a existência de uma tradição na velha Europa que coloca em evidência um local em detrimento das castas que compõem o vinho. Bem ao estilo de um puzzle geográfico e cultural que, infelizmente, tem sido mal defendido pelos produtores que aderiram à banalidade. Existem regras precisas, traços no terreno que delimitam parcelas. A existência destas regras é uma vantagem do Velho Mundo. A humanidade sempre viveu delas porque razão os novos profetas nos tentam convencer do benefício de um mercado sem regras? O Velho Mundo só é Velho quando inova dentro de uma relação ética com o presente e com a sua história.


O Novo Mundo: Novo Mundo é uma palavra dúbia. Historicamente, este Novo Mundo é o resultado de uma extensão moderna do Velho Mundo, vejamos de portugueses, espanhóis e ingleses, irlandeses, holandeses, franceses, germânicos, polacos, arvorados em fenícios e romanos dos tempos modernos. Recuperemos novamente uma interessante passagem publicada no livro “Uma História Mundial do Vinho” de Hugh Johnson. “Vejamos o que previu em 28 de Setembro de 1788 o capitão Arthur Phillip da Royal Navy, governador da primeira colónia inglesa na Austrália: num clima tão favorável, a cultura da vinha pode alcançar a perfeição, e se nenhum artigo de comércio desmobilizar os colonos, os vinhos da Nova Gales do Sul poderão vir a ser procurados com avidez e tornarem-se indispensáveis nas mesas europeias”. Ainda hoje os vinhos do Novo Mundo rimam com perfeição, não tanto com diferença e identidade.

Em parte, Novo Mundo é um conceito inerente a um local que, por não deter castas autocnes e consequente tradição secular, acabou sujeito a uma colonização vinícola. Austrália, Africa do Sul, Nova Zelândia, Argentina, Chile e Estados Unidos são os exemplos mais marcantes. Em alguns casos essa colonização já se deu há muito tempo. Basta evocar que os Europeus chegaram a vários pontos do mundo no século XV. Na prática, houve tempo suficiente para criar raízes com esses novos locais, criar tradições e construir uma nova história. Mas o surto global atraiu também novos investidores, na maioria puros industriais, sem qualquer ligação afectiva aos locais, cortando com uma tradição que se vinha enraizando com o tempo. Definitivamente, o homem tem tendência para estragar tudo em que toca.  

É importante saber que o termo Novo Mundo não está associado a novos produtores no mercado...caso contrário Portugal seria, seguramente, um país Novo Mundo. Neste capítulo será fácil encontrar um exemplo flagrante. Comparemos a história do nosso nobre e mítico Barca Velha nascido pelas mãos de Fernando Nicolau de Almeida, uma excepção em Portugal, ostentando quinze belas colheitas iniciadas em 1952, com a história do nobre e excepcional vinho australiano Grange da Penfolds, também ela iniciada na década de 1950 mas já com cinquenta e duas colheitas que já lhe valeram o estatuto de melhor vinho do mundo! Comparar o historial de alguns vinhos do Novo Mundo com alguns mitos do Velho Mundo podia ser um ensaio, digamos, caricato: as novas coqueluches do vinho português ainda não têm sequer dez anos de história!

Como forma distintiva, o Novo Mundo sentiu também necessidade em adoptar uma interpretação que valoriza a casta que deu origem ao vinho em detrimento do local. Não estranha por isso que o conceito de Terroir seja criticado. Outra particularidade importante do Novo Mundo foi ter sido construído de raiz. Não existe um conhecimento aperfeiçoado da natureza envolvente. Foi também possível excluir do conhecimento os maus hábitos apesar de, infelizmente, tudo ser permitido, não existindo regras. Nada de impraticável se existisse uma consciência cultural e histórica por detrás. Mas é a indústria e o capital apoiados numa forte componente técnica que predominam e se movem num espaço sem regras, descaracterizando algo que nunca chegou a enraizar-se.

Por fim esquecemo-nos quão “novo” é o Novo Mundo. Em Bordéus os terrenos adjacentes às propriedades dos Grand Cru Classé estão todos ocupados. Na Borgonha os montes foram todos classificados, deixando apenas disponíveis áreas sem interesse para a plantação de vinhas. No Chile ainda existem vacas e cavalos a pastar em quintas com potencialidades para produzirem vinhos de qualidade. Na verdade há ainda muito “ouro” para ser extraído no Novo Mundo, e daí o seu encanto especial.


Juntar os dois mundos no mesmo copo: Os dois mundos podem oferecer produtos distintos. Mas em termos enológicos, em termos do respeito pela especificidade de cada local, no fundo em termos éticos, se juntássemos os dois mundos no mesmo copo encontraríamos um equilíbrio, estaríamos a inovar dentro de uma relação ética com o presente e com a história. O que seriam boas notícias para o consumidor.

O Velho Mundo atravessa uma crise de identidade estimulada não só pela manutenção de algumas práticas obsoletas mas também desencadeada pelo corte abrupto com as boas práticas do passado. Enquanto no Novo Mundo a principal motivação de um produtor é, não só a sua paixão pelo vinho, como também a oportunidade de negócio que tal investimento representa, no caso do Velho Mundo, durante décadas, assistiu-se à passagem de maus testemunhos entre pais e filhos, descorando sempre a preparação técnica e a vocação. Felizmente para o vinho, há casos onde a transmissão do Terroir foi incluída no conhecimento, geração após geração, dando como resultado os grandes vinhos do mundo. Mas na maioria dos casos os meios eram demasiado rurais e as pessoas relativamente pobres para que a preparação chegasse aos viticultores. No fundo, o que acontece hoje em dia na Europa é um período inevitável de renovação, neste caso dificultado pela sua enorme dimensão e pela tradição social. Nesta renovação o perigo é o convidativo corte com o passado. Ao invés, o Novo Mundo tem utilizado a inteligência em detrimento do coração e isso tem dado resultados coerentes com os números exigidos pelo mercado global.

Torna-se também evidente que não chega uma herança e uma tradição. É necessário suor e preparação, convicções e trabalho. É necessário que o Velho Mundo compreenda algumas razões de sucesso do Novo Mundo e que conheça os grandes vinhos elaborados nesse mundo. Provar, provar, viajar, explorando os aspectos positivos da globalização! Mas nunca no sentido de reproduzir cópias. O Novo Mundo tem tido essa postura construtiva. Se analisarmos cruamente, a história do Novo Mundo baseia-se numa aprendizagem adquirida com os modelos de qualidade do Velho Mundo. Provaram, provaram, viajaram! Este Admirável Novo Mundo não tem preconceitos, não é elitista, conhece e admira os melhores vinhos produzidos na velha Europa. Mas também é importante que não corra atrás de um modelo puramente económico que tem vindo a matar a identidade do vinho. Os dois mundos devem suar, trabalhar, mas devem também agarrar-se ao seu Terroir e à sua cultura para manterem viva a identidade do vinho. 

Na prática o Velho Mundo torna-se mais novo e o Novo Mundo tarda em ganhar a patine do tempo! Nalguns casos esta adaptação conduziu ao excesso, ao corte abrupto com o passado, um pouco por vaidade e necessidade de afirmação. Felizmente, noutros casos, tem permitido a criação de vinhos verdadeiramente excepcionais, vinhos com a capacidade de se reinventarem dentro de um orgulho pela cultura de cada local.