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Dissertações
Autor: Tiago Teles
Data:12 de Novembro de 2003
Tema: Opinião

As dissertações sobre qualidade e valor dos produtos enófilos nunca são pacíficas. Uma das razões para essa falta de consenso relaciona-se com o facto desses produtos, nomeadamente o vinho, poderem ir do vulgar ao fabuloso, poderem ser feitos em vários estilos, com diferentes objectivos, e muitas vezes com um esforço considerável para os atingir, e por poderem alcançar preços diversos. Nesse sentido, o mais complicado é resolver questões genéricas como a relação preço/qualidade, bem evidenciadas numa discussão no fórum Os5às8 sobre caves refrigeradas, tipo Eurocave (passe a referência à marca). Hoje em dia, nos vinhos acima dos 5 euros, a relação preço/qualidade é cada vez mais irregular havendo a necessidade de recorrer à crítica especializada. Muitas vezes esta atitude acaba por criar modas em vez de padrões objectivos de qualidade, de tal modo que muitos vinhos são hoje vendidos a preços completamente desproporcionados face ao prazer que proporcionam.

Observando o preço que alguns vinhos atingem, recordo que os lucros elevados acarretam riscos elevados e um homem de negócios que se preze deve desconfiar dos lucros espectaculares tanto quanto teme os grandes prejuízos. A regra básica da economia, bem como a da física, é a lei da conservação da energia: nada é de graça. Outra lei fundamental diz que toda e qualquer acção dá origem a uma reacção ou, por outras palavras, não há ascensão sem queda. O fracasso esconde-se na sombra do sucesso. De facto, o sucesso é o pior inimigo de si próprio, e um convite à extravagância. O segredo está mais no compromisso com o trabalho do que com a riqueza. Desse modo, é melhor não repetirmos a façanha histórica do nosso país no sec XVII que, atraído pela riqueza fácil, foi impelido para o declínio pela indolência.

Qualquer avaliação de valores e qualidades depende também do grau de dedicação e desenvolvimento. Um provador treinado será mais exigente que um consumidor despreocupado. Essa dedicação e entusiasmo implicam que o vinho deixe de ser um acto despreocupado para se tornar em algo emocional e desafiante. Os vinhos simples precisam de poucas palavras para serem descritos. Se forem bons, proporcionam um prazer real mas com pouco para descrever. No extremo oposto, os melhores vinhos são tão cheios de nuances que desafiam a nossa capacidade de percepção e descrição, tal como a boa arte ou música. Possuem uma energia interior e um leque de sensações que não acabam. Por isso os vinhos simples merecem um enunciado curto, e os bons vinhos uma investigação mais profunda.

O reverso da medalha surge quando o provador atinge um certo grau de maturidade. Inevitavelmente acaba por criar uma ânsia permanente na procura de qualidade e de características diferentes que, na maioria das vezes, o leva a comprar vinhos dispendiosos.

O pior é que o mercado de vinhos não ajuda - não existe uma consistência de qualidade na gama entre os 5 e os 15 euros. Caso contrário, acredito que muitos dos vinhos dispendiosos ficariam para sempre na prateleira. Mas, infelizmente, poucos são os vinhos baratos que desafiam a nossa percepção. Citando José Salvador no guia 2003, "a mediocridade dominante destrói-nos a sensibilidade e a paciência".