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Ganhar dinheiro a fazer vinho... ou fazer vinho para ganhar dinheiro?

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Ganhar dinheiro a fazer vinho... ou fazer vinho para ganhar dinheiro?
Autor: Pedro Gomes
Data: 7 de Outubro de 2002
Tema: Opinião

Já alguém se deu conta do ritmo diabólico que assolou o sector vinícola nacional, nos últimos anos? Por acaso, já se aperceberam do ritmo estonteante com que os enófilos portugueses vão digerindo este frenesim? Desde a casta ao enólogo, passando pelo produtor ou pela madeira de estágio, tudo serve de argumento para que novos vinhos surjam no mercado nacional. No meio de tudo isto a «afficion» rejubila, dando largas às suas idiossincrasias em estado líquido. Seja porque é "pé-franco" ou porque são vinhas centenárias, seja porque as uvas são pisadas a pé ou se trata de um monovarietal ou, invocando, ainda, que é "de garagem" ou que o enólogo pertence ao "jet-set vitivinícola", tudo serve de pretexto para a aquisição de mais umas quantas garrafas.
Fico satisfeito que assim seja e, eu próprio, tiro partido desta conjuntura, acedendo a vinhos que, globalmente, e no bom sentido do termo, estão a "vindimas-luz" dos vinhos que os nossos pais enalteceram. Contudo, tal contexto, de completa euforia para os apaixonados do vinho, suscita-me uma dúvida inquietante. E o consumidor comum? Como reage perante centenas de novos rótulos que se vão acumulando nas prateleiras e escaparates? Deles depende a vitalidade económica do sector mas perante este verdadeiro «estado de sítio», só podem ficar atordoados e hesitantes nas suas opções de escolha. Já existia a prova cega; agora ficamos a saber que também existe a escolha «às escuras»!

Os detractores desta posição argumentam que os rótulos são cada vez mais elucidativos. Serão? Será que o comum dos mortais, que olha para o vinho apenas como um elo de ligação natural com a gastronomia, pode confiar numa escolha baseada na informação dos contra-rótulos? Não creio. Carvalho Allier... O que é isso? Maloláctica em barrica?... Nunca ouvi falar! Longa curtimenta?... Deve ter a ver com curtumes! Batonnage?... Se calhar leva batôn! Tenham dó do ceguinho. A confusão deve ser mais que muita e, o mais grave é que, no meio de tantos vinhos, muitos aspiram a integrar o segmento «high-end» e, a maioria não passa de produtos de 2ª ou 3ª categoria, a preços de "super-liga". Costuma dizer-se que só se cai uma vez mas, convenhamos que, perante tantas opções de escolha, os "tropeções" têm que ser mais que muitos. É que, sejamos sinceros, vende-se aí muito «gato por lebre» e muitos destes consumidores, com bastante frequência, vão deparar-se com um "felino" dentro do copo.

Seria desejável que eles conhecessem os profissionais que se movem nos bastidores do sector. Se tal acontecesse as inquietações seriam menores. Não sei se por detrás de um grande homem está uma grande mulher mas, não tenho a mínima dúvida que por detrás de um grande vinho estão sempre, em associação, repito, em associação, um grande enólogo e uma estrutura e projecto sérios. Ora, o mercado nacional mostra que nem todos alinham por este diapasão: de um lado estão produtores e enólogos que se entregam de corpo e alma à causa, imbuídos por uma determinação e um espírito de inconformismo que os leva a desbravar novos caminhos e a sulcar a "última fronteira". Chamam-lhes loucos ou maluquinhos, na maior parte dos casos porque uma determinada vinha, um tipo particular de microclima, ou uma nova interpretação da influência da madeira os leva a conceber novos vinhos. Pessoalmente, o elo de ligação e o denominador comum que encontro nestas gentes é a paixão pelo vinho. Não pertencem a essa nova vaga de políticos para quem o termo paixão é uma forma subreptícia de adormecer as massas. Muito pelo contrário, alinham por uma nova ordem geovitivinícola mundial para quem a excelência é palavra de ordem. Conheço alguns com este perfil e sinto que, para eles, o dinheiro é uma consequência lógica do seu inconformismo, da sua tenacidade, e da busca obsessiva da qualidade. Não imagina o internauta a força que move esses homens. É o vinho! Não é o dinheiro.

No outro extremo estão uma mão-cheia de oportunistas que, a reboque da febre do sector, e apoiados em fortes campanhas de marketing, fazem chegar ao mercado uns "clones" de vinho de qualidade duvidosa. O mais grave é que o preço de muitas dessas garrafas não tem qualquer correspondência com a qualidade do líquido que transportam. São uma zurrapa, umas mistelas e, em bom português, pura fraude. Se os primeiros ganham dinheiro a fazer vinho, estes últimos fazem vinho para ganhar dinheiro. Uma subtileza de linguagem, uma nuance ao nível da semântica, e contudo, uma transformação radical naquilo que chega à mesa do consumidor. Se para uns o vinho é o fim, para os outros é uma mera ferramenta para chegar ao vil metal. Bem sei que, para este último caso, a moderna teoria económica diz que a esperança média de vida dessa "rapaziada" é curta, mas não é assim tão efémera que faça esquecer as aldrabices que nos são impingidas.

Um conselho à navegação: vá com cuidado, peça o conselho do amigo que prova com alguma regularidade, procure enquadrar o seu gosto com as apreciações dos líderes de opinião, mas nunca caia no erro de olhar para os seus guias anuais como «bíblias» e, acima de tudo, não abdique do atendimento minimamente personalizado, solicitando o parecer dos responsáveis por pequenas garrafeiras. As suas dicas são preciosas. Depois disso, então sim... abra os cordões à bolsa. Nada lhe garante que não volte a sentir-se defraudado, mas a probabilidade disso acontecer decresce. Ninguém lhe assegura que venha a ser bem sucedido, mas que compensa... ai isso compensa.