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Conhecer ou reconhecer?

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Conhecer ou reconhecer?
Autor: Tiago Teles
Data: 24 de Março de 2007
Tema: Opinião

Entre conhecer um vinho ou reconhecer um vinho existe uma diferença aceitável.

Actualmente, muitos críticos de vinho e, por consequência, a maioria dos enófilos, atribui um lugar capital à prova aromática e à sua descrição. Este sistemático processo de redução de um vinho às suas qualidades olfactivas é, na prática, um acto que pode ocultar o saber que adquirimos de um vinho, de um local, de uma cultura. E, porque a memória guarda com mais facilidade as imagens olfactivas que a complexidade de texturas e de subtilezas da prova de boca, esse processo sistemático de valorização aromática desenvolve invariavelmente mais a capacidade de reconhecimento que a capacidade de conhecimento.

Infelizmente, esta orientação também é resultado da pressão a que a maioria dos críticos está sujeita. Quando um crítico é compelido a provar um elevado número de vinhos num dia, por exemplo, mais de 100, o reflexo e a capacidade que se destacam são a do reconhecimento, a depreensão de uma imagem, não o saber do vinho que implica tempo de compreensão e de convívio. Talvez por isso considero que, o molde como são conduzidas muitas das provas cegas actuais, criam situações de injustiça para com muitos vinhos distintos, frescos, subtis, diferentes, com texturas particulares, vinhos de um local.

Não esqueçamos que conhecer um vinho é saber associar um determinado aroma, que por si só não tem nenhum valor, à textura e à estrutura do vinho que lhe dão forma. A expressão de um terroir e o temperamento de um vinho são oferecidos pela compreensão da textura dos taninos, pelo entendimento da definição da acidez, pelo equilíbrio estrutural entre elementos, pela forma como tudo isso se associa à pureza e à singularidade aromática conferida por uma casta, solo ou clima. Estes indicadores dirão muito mais do vinho e da sua origem, do seu terroir, da pessoa que o fez, que uma redutora prova de nariz.

Para reforçar esta noção, fui buscar uma passagem escrita por Michel Bettane num dos seus brilhantes artigos, onde analisava comparável temática, “que pensariam vocês, por exemplo, de um especialista da pintura de Titien que se contentaria em vos mostrar um quadro do mestre, dizendo : «no canto esquerdo existe o azul, no canto direito o amarelo, um lindíssimo amarelo, perfeitamente puro, reforçado por um sublime vermelho no centro da composição?” Poderíamos rematar, o que dizer de um provador que se congratula ao reconhecer 20 aromas diferentes num vinho?

Em síntese, conhecer um vinho é sentir o seu carácter, o seu temperamento, absorver e compreender a transmissão de valores incutidos por uma determinada casta, local, clima e pessoas que o elaboram. Reconhecer um vinho é identificar-lhe a forma, não o conteúdo, é percepcionar por associação. Por isso, proponho aos consumidores que relativizem a importância de um aroma e se esforcem por ensaiarem coligar com propriedades como definição e equilíbrio, elegância, enquadrando-o com o seu corpo e estrutura, tentando, desta forma, sentir no vinho uma espécie de música interior que por vezes passa despercebida…caso contrário, espaireçam com os aromas a baunilha, chocolate, caramelo, coco, mentol e tantos outros fáceis de reconhecer…

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