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Conflito ético

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Conflito ético
Autor: Tiago Teles
Data: 10 de Outubro de 2007
Tema: Opinião

A globalização do gosto tem sido debatida com alguma recorrência no meio enológico e enófilo. Jonathan Nossiter, no seu intrigante filme Mondovino, colocou o dedo na ferida, abrindo uma discussão sem precedentes, pelo menos em França onde o filme foi visto por mais de 300 000 interessados. Em Portugal, mais uma vez, o tema passou ao lado da mentalidade reinante, do pensamento de qual o melhor?
 
Se o filme e a precedente série são apresentados sob um prisma tendencioso, eles têm o dom de trazer a discussão do vinho para o plano ético, esquecendo ideologias, esquecendo o conflito de gerações. Efectivamente, os sistemas económicos condicionam o futuro das civilizações – todos necessitamos de um pouco de pão e de vinho para sobreviver...e já somos muitos a tentar subsistir. Em diversos casos é evidente que este sistema económico oculta a expressão cultural e individual do vinho, comprovada pela prova alargada de variados vinhos portugueses para o último guia.
 
Como explicar então a globalização do gosto? Pela dimensão mundial do mercado? Pela existência de valores e prazeres universais? Pelo ajustamento da indústria ao mercado? Pelo discurso dogmático dos profissionais do vinho? Pela renuncia dos consumidores à opinião individual? A questão da globalização poderá ter realmente algo de evangelização: a indústria dispõe os seus bispos, a crítica profetiza e o consumidor aceita a realidade que lhe apresentam. Mas o molde é ligeiramente diferente: neste caso, o evangelista é ele próprio doutrinado pela vontade dominante do crente (nada como um belo estudo de mercado!). Na prática todos somos responsáveis pelo surto global.

Numa entrevista dada à La Revue de Vin de France (nº 515 de Outubro 2007) Jonathan Nossiter afirma que "o discurso do vinho foi confiscado por profissionais e críticos, um discurso profissional que ergueu uma barreira entre o grande público e a beleza do vinho". Eu diria que o discurso do vinho nunca existiu. Apesar da intrínseca complexidade do vinho poucos consumidores se preocuparam com um discurso adequado. Felizmente que a exigência de alguns profissionais e o tempo investido em torno da infinita complexidade do vinho nos testemunharam a existência de vinhos com uma expressão individual não reproduzível na era moderna. A história mostrou-nos também que o gosto da maioria não é uma garantia de exigência e que cada indivíduo não tem a mesma legitimidade de um crítico.
 
Para quebrar a barreira entre o discurso profissional e o grande público, Jonathan Nossiter insurge-se contra a crítica especializada, pedindo em paralelo a "reinvenção de uma nova linguagem do vinho mais simplificada". Mas não é isso que fez precisamente Robert Parker, o crítico mais influente do mundo, o “principal” responsável pela globalização do gosto do vinho? Qual é o resultado prático desta simplificação? Terá sido a globalização do gosto ou a sua afirmação individual?
 
A complexidade de alguns vinhos exige, efectivamente, uma linguagem delicada e variada. A luta de sensações e emoções tão diferentes, a interacção entre castas, solos, clima e homem é um mundo complexo. Infelizmente, por falta de tempo, simplificar é por vezes um mal necessário. Na base, o sentido prático simplifica o complexo, decaindo num equilíbrio apurado, nunca na simplicidade. Todos os temas têm o seu próprio ambiente porque o gosto é uma expressão de liberdade, é a afirmação de uma identidade. Seria pertinente voltarmos a "câmara de filmar" e estudarmos o consumidor, tentando perceber porque é que a maioria renuncia à sua liberdade de expressão? Desconhecimento? Facilitismo? Falta de esforço? Comodismo? Falta de tempo para reflectir?
 
Olhando o puzzle infinito de realidades individuais, o caminho ético passará pelo esforço que os profissionais devem fazer para materializar a complexidade do vinho e o esforço que os consumidores deveriam fazer para conhecerem a sua diversidade. O suor faz parte do crescimento e do desenvolvimento intelectual. Simples e complexo não podem coabitar pacificamente. O saber, a experiência e a cultura são a melhor forma de lutar contra a banalização, são a melhor forma de evitar um anunciado conflito ético…entre os que tentam saber e os que não querem saber…
 
Como em qualquer conflito, os respectivos opositores têm tendência a extremar o seu ponto de vista. A expressão do terroir deve ser obrigatoriamente defendida por todos. Mas é tentando inovar dentro de uma nova relação ética com o presente e com a história que o vinho poderá ter algum futuro enquanto produto cultural e agrícola. A defesa pelo natural, pelo simples, deve ser entendida de forma pragmática e não materializada num retrocesso – a inteligência também faz parte da natureza. Por vezes sinto que os extremistas, sejam industriais ou puristas, têm mais de crença que de suporte ético. E, como sabemos pela história da humanidade, religião e ética são dois mundos diferentes. Resumindo, a diversidade sustentada é o compromisso ético que evitará a industrialização do terroir...
 
Por força da “individualidade colectiva”, o fenómeno económico também é cultural. E é aqui que a ética perde algum espaço de manobra. Pensando na formação do meu gosto pessoal constato que ele tem pouco de anglo-saxónico. Paralelamente, pesquisando a nossa história vinícola, confirmo que o vinho do Porto foi criado e elaborado para o gosto inglês. Então porque serei “obrigado” a gostar de vinho do Porto? Que seria do vinho do Porto se ele tivesse sido criado e elaborado para o gosto português? Todos sabemos a resposta e por isso não podemos recriminar os nossos vinhos de mesa por elegerem um estilo “novo mundo".

A todos os consumidores peço inteligência e bom senso na compreensão das opiniões – digam o que pensam, disponham de tempo para reflectir porque vos sinto indiferentes. A todos os profissionais peço sensibilidade e equilíbrio na compreensão da natureza e da indústria – a característica dos bons vinhos é não serem reproduzíveis além mar...seja por condicionantes naturais ou técnicas...o conceito de terroir tem muito de humano – no final, o vinho vale o que o homem vale!