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A Biodinâmica…virtudes e perigos

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A Biodinâmica…virtudes e perigos
Autor: Tiago Teles
Data: 12 de Fevereiro de 2007
Tema: Opinião

O termo biodinâmico encontra-se escrito com algum destaque nos contra rótulos de várias marcas. A sua tradução não é simples porque apela a um sentido natural que o ser humano ainda não domina. Simplificando, a biodinâmica ensaia transpor para o vinho a vontade de uma natureza equilibrada e inteligente, de uma natureza capaz de respeitar mais a vontade da videira que o desejo do homem. Por esse raciocínio, as intervenções, tanto na vinha como na adega, são reduzidas ao mínimo indispensável para manter a boa saúde do produto final. Na vinha, a exclusão de herbicidas, insecticidas, bem como de outros produtos químicos, que destruiriam directa ou indirectamente a vitalidade de um solo, são excluídos desta rotina, enquanto na adega, trasfega, filtração, passagens ao frio, leveduras artificiais, adição de sulfuroso e outras operações arbitrárias, são sistematicamente excluídas. O arrojo ideológico vai mais longe ao gerir a intervenção na vinha e no solo em função do ritmo dos planetas.

Em síntese, esta prática tem por objectivo assegurar a originalidade de um vinho, atestar a expressão de um Terroir. Por isso, será fácil compreender quem são os acérrimos defensores do conceito de Terroir. Este apelo intuitivo à pureza e à liberdade são, efectivamente, uma virtude num mundo onde as imitações predominam sobre os originais. Outro valor da biodinâmica é a luta que ela encarna contra a globalização de estilos e gostos. Elaborando uma análise pragmática da sociedade de consumo actual e pensando nos desafios que o aquecimento global do planeta coloca, ela será sempre um movimento alternativo, uma minoria na indústria do vinho. Além disso, a dificuldade maior de práticas biológicas, passa, anacronicamente, pela exigência de uma enorme preparação científica por parte de quem a aplica. No fundo, falamos de um modelo baseado na observação, não de uma crença.

Infelizmente, os perigos deste tipo de prática também existem e os consumidores devem estar preparados para tal. Quando operada sem controlo, uma prática biodinâmica poderá colocar alguns problemas. Constatamos hoje que alguns vinhos biológicos apresentam preocupantes níveis de oxidação precoce, em parte, devido à moda do arrelvamento e ao risco assumido na diminuição dos indices de sulfuroso. No fundo, desviaram-se da videira e do vinho alguns ingredientes necessários ao seu bom desenvolvimento e equilíbrio. A irregularidade da produção é mais notória, existindo, em certos casos, garrafas do mesmo vinho com desvios aceitáveis de perfil. Noutras  situações a oxidação marca uma presença incomodativa, enquanto o aroma é impreciso e a boca desprovida de vinosidade. Felizmente, esta tendência é mais evidente na legião de seguidores que nos produtores de referência.

Talvez por tudo isto, me tenha alertado a leitura de mais um excelente artigo escrito por Michel Bettane, desta vez no suplemento de vinhos do jornal Le Monde, publicado no dia 2 de Setembro 2006. Aproveito para transcrever uma pequena parte do artigo intitulado, « Bio, mas não a qualquer preço»: «Infelizmente, a forte personalidade de Nicolas Joly (figura de proa da viticultura biodinâmica, Loire, Coulée de Serrant) tem influenciado em demasia discipulos bastante crédulos. A vinificação nunca foi o seu forte e a sua paixão : mesmo hoje em dia, a irregularidade da sua produção, apesar de verdadeiras obras de arte alcançadas, alimentam a polémica entre os defensores da casta Chenin.À força de repetir que com uvas provenientes de uma agricultura própria o vinho se faz sozinho, ele é um pouco responsável por todos os avorton de vinhos brancos que, por seu lado, poluem o gosto de numerosos consumidores, bem ao ponto do idealismo se sobrepor ao bom senso.».

A harmonia passa pelo equilíbrio entre as duas partes, homem e natureza. E, sendo certo que a natureza é a essência, é necessário não esquecer que o vinho é resultado da vontade do homem. Por isso, é mais importante acreditar no resultado prático que nos fundamentos de uma ideologia. A generalização da biodinâmica teria, no entanto, um aspecto extremamente positivo: rapidamente ficaríamos a saber quem sabe fazer vinho e quem faz de conta.