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E se a Barca, que é Velha... fosse Nova?!

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E se a Barca, que é Velha... fosse Nova?!
Autor: Pedro Gomes
Data: 18 de Outubro de 2002
Tema: Opinião

Todos nós temos na nossa vida meia dúzia de episódios que acabam por marcar o curso da mesma. Acredito que esse princípio é extensível ao mundo do vinho e que, no nosso historial de prova, existem um punhado de situações que acabamos por transportar às costas. São experiências únicas, irrepetíveis e que, em última análise, acabam por moldar a nossa forma de «sentir o vinho». O que se segue é o desabafo de alguém que já sentiu na pele um desses episódios.
Em finais de 2000 tive o privilégio raro de apreciar os vinhos «topo de gama» da Casa Ferreira, das colheitas de 1995, 1997 e 1999. Três tintos que, nessa altura, tinham, respectivamente, 5, 3 e 1 ano de idades. Vinhos todos eles expectantes quanto a uma designação futura: Reserva ou Barca-Velha. O primeiro deles, já se sabe, hoje, é Barca-Velha... os dois últimos continuam pacientemente à espera. Os longos estágios a que a Casa Ferreira submete os vinhos que poderão vir a tornar-se Barca-Velha leva a que o consumidor só lhes possa tomar o pulso ao fim de 7/8 anos e, por conseguinte, estes só são conhecidos na 2ª e 3ª idades. São sempre vinhos irrepreensíveis na qualidade, a quem o tempo acabou por conferir um simbolismo ímpar e uma auréola quase mítica. No fundo, vinhos com uma reputação e um prestígio difíceis de igualar no panorama vinícola nacional. São, contudo, e repito, vinhos que só conhecemos no seu estado adulto.

Ora, ao provar essas três colheitas e, muito particularmente a última delas, com 1 ano de idade, pude conhecer e desfrutar um hipotético Barca-Velha, no seu estádio de puberdade. Uma experiência única, perturbadora, quase insólita para quem está familiarizado com esse vinho. Raras vezes tive oportunidade de encontrar num vinho, tão novo, uma simbiose perfeita entre potência e elegância, vigor e finura. Mais ainda, não me recordo de uma situação análoga em que fizessem sentido as expressões harmonia e equilíbrio. Era um vinho sublime, penetrante, desconcertante em toda a linha, daqueles que ficam gravados na memória mas, simultaneamente, extremamente difíceis de descrever porque o léxico se revela insuficiente para abarcar o leque de sensações que invadem o provador.

Desde esse dia que me interrogo quanto às razões que levam a Casa Ferreira a privar os consumidores de um vinho daquele "quilate". Não me interpretem mal! Não estou a advogar a alteração de perfil do Barca-Velha nem tão pouco a propor o seu extermínio. Sou daqueles que defendem que em equipa vencedora não se mexe e portanto, tanto no plano vinícola como em termos de estratégia comercial, isso seria um erro. Os clássicos são isso mesmo: imutáveis. Contudo, essa postura não dissipa a minha angústia nem tão pouco me demove dos meus propósitos. Porque não um «Barca-Nova»? Tudo muito simples: a mesma casa produtora, a mesma equipa enológica, as mesmas massas vínicas, a mesma filosofia de vinificação, mas um tempo de estágio muito curto e, obviamente, uma nova designação, um novo rótulo.

No fundo, uma Barca renascida, que se quis nova. Enologicamente falando, estou certo de que «meio mundo» ficaria boquiaberto. Eu ainda estou! Em termos comerciais, não me passa pela cabeça outra coisa que não seja o sucesso. Espero, e desespero, pelo momento em que voltarei a ter nas mãos essa colheita de 1999: nesse dia, lá para 2006/2007, tenho a certeza que voltarei a ser confrontado com uma grande "Barca", como as suas antecessoras, mas sei também que já não vou encontrar o "meu bebé". Esse estará irremediavelmente perdido e a única forma de afogar as mágoas será fazer apelo à minha memória e deixar aqui o testemunho dessa perda irreparável. Tenho a certeza de que, independentemente do que o futuro me reserva em termos vinícolas, nunca deixarem de enaltecer esse Casa Ferreira de 1999... qualquer que venha a ser o seu "apelido". E, por isso mesmo, pergunto-me: de que estão espera? Para quando um «Barca-Nova»?