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Analogias históricas

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Analogias históricas
Autor: Tiago Teles
Data: 24 de Março de 2003
Tema: Opinião

Conhecer a história é importante para aprender e compreender as nossas fraquezas e virtudes. Obter respostas para os nossos erros, criando condições e defesas para os não voltar a repetir. O livro "A Riqueza e a Pobreza das Nações" de David S. Landes, é uma análise histórica que nos ensina a compreender por que razão determinadas nações alcançaram o sucesso económico e outras permanecem afundadas na pobreza? Como o historiador demonstra, isso reside numa complexa interacção de factores culturais, geográficos e circunstâncias históricas. Como seria de esperar, Portugal teve o seu papel crucial no desenrolar da civilização.

Ao ler diversas passagens do livro citado, fui confrontado com factos da nossa história extremamente "actuais". Exercitei-me a transpor alguns desses factos para a realidade vinícola portuguesa. E, apesar de superficial, gostava de partilhar esse ensaio. Nesse sentido, fiz um apanhado de algumas frases que considero pertinentes para a minha analogia.

"Quando os Portugueses conquistaram o Atlântico Sul, estavam na vanguarda da técnica de navegação. Um empenho em aprender com cientistas estrangeiros, muitos deles judeus, fizera que os conhecimentos adquiridos fossem directamente traduzidos em aplicações práticas".

Mas, estas circunstâncias, testemunho do nosso espírito empreendedor, força e entusiasmo, cedo foram condenadas ao insucesso. "Em 1506, Lisboa viu o seu primeiro progrom, que deixou um saldo de 2000 "cristãos-novos" mortos. Desde então, a vida intelectual e científica de Portugal desceu a um abismo de intolerância, fanatismo e pureza de sangue. (...) O declínio foi gradual. A inquisição (...). Os criptojudeus e outros astrónomos, acharam entretanto que a vida em Portugal estava a ficar demasiado perigosa justificando a saída do país em massa. Levaram com eles, dinheiro, experiência comercial, ligações, conhecimentos e aquelas qualidades imensuráveis de curiosidade e inconformismo que constituem o fermento do pensamento. (...) Em 1513, Portugal precisava de astrónomos; na década de 1520 a liderança científica tinha acabado".

"Ficariam apenas as recordações, preservadas na poesia épica de Luís de Camões (Os Lusíadas), que cantou aqueles que desvendaram as rotas invisíveis "por mares nunca dantes navegados". Tudo orgulho. Como observou o governador de Bombaim em 1737: "A coroa de Portugal há muito que mantém a possessão dos seus territórios na Índia à custa de uma certa e não insignificante despesa anual, movida puramente, segundo parece, por motivos de honra e religião".

Mas este espaço é dedicado ao vinho. Por vezes sinto que o mundo vinícola português forma uma espécie de inquisição disfarçada. A educação enófila é controlada pela crítica que postula as novas tendências. Parece existir um índice de vinhos recomendados, fazendo lembrar a "gigantesca lista de (livros) 1624 - a mais recomendada para salvar as almas portuguesas". Não admira que, com esta atitude, o pensamento enófilo tenha declinado ao longo dos últimos anos. Os consumidores de hoje em dia têm falta de curiosidade. "O povo (enófilo) é tão pouco curioso que nenhum homem sabe mais do que lhe é estritamente necessário".

Por outro lado, a importação de vinhos estrangeiros é rigorosamente controlada por "fiscais enviados pelo Santo Ofício". Parece que os portugueses se esforçam ao máximo em fechar a influência estrangeira, retardando a sua evolução enófila. Surgem também certas formas de protectorado, como o nosso tradicionalismo vínico. A Bairrada clássica é um exemplo, desde os produtores até à crítica especializada. Esse tradicionalismo, "movido puramente, segundo parece, por motivos de honra", dificilmente será alterado. E a história volta a repetir-se.

É lógico que, qualquer semelhança com a realidade histórica, é pura "coincidência". Mas, em alguns casos, parece que ainda não saímos do domínio conservador. Vejam a quantidade de castas plantadas em Portugal, muitas delas sem qualquer resultado qualitativo. Quais as melhores castas para plantar na Bairrada? E na região dos Vinhos Verdes? E em Palmela? Ao beber os últimos vinhos "Bairradinos" de Manuel Campolargo fiquei confuso. Merlot? Pinot Noir? Syrah? Tinta Roriz? Com um pouco de sorte, a Bairrada é a melhor região portuguesa para fazer vinho...e ninguém sabia! Pela sua organização, não admira que o Douro e o Alentejo dominem o panorama vinícola nacional.

Por outro lado, e através do contacto com alguns profissionais do vinho, percebi que a nossa investigação na área do vinho é quase inexistente. Algumas universidades competentes para ensinar a arte de fazer vinho estão longe de criar valências. Por isso, faço votos para que a história não se repita: Em 1990, Portugal precisava de enólogos; esperemos que na década de 2000 a liderança científica (não) tenha acabado.