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A intrigante Quinta dos Cozinheiros

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A intrigante Quinta dos Cozinheiros
Autor: Tiago Teles
Data: 25 de Junho de 2007
Tema: Análise e Opinião

A racionalidade deste produtor e uma localização na margem esquerda do Mondego, a uma cota de 100 m e à distância de 8 km do Oceano Atlântico, garantem uma originalidade incomparável. São vinhos por vezes rústicos, sempre originais, muito longe do nível de açúcar residual actual, frescos, provocadores, digestivos, vinhos que se enriquecem com o passar dos anos. O seu estilo é quase utópico pensando no actual mundo global de géneros e valores. São vinhos de paixão, são vinhos que nas colheitas de 2003, 2004 e 2005 alcançaram um nível qualitativo intrigante, sendo necessário, para os compreender, conhecer o seu terroir. Razão pela qual decidi deixar o contributo que se segue.

 

Pequenas especificidades da Quinta dos Cozinheiros

A propriedade acomoda 100 hectares espalhados, dos quais 15 hectares dispõem de vinha plantada. As florestas de pinheiro e eucalipto protegem as vinhas dos ventos e do sal e moderam as precipitações, enquanto a proximidade com o mar confere um clima igualmente temperado e atlântico. As temperaturas médias e as noites frescas e húmidas garantem maturações equilibradas. O tempo durante a floração é variável mas os Verões e o início dos Outonos são, por regra, solarengos e suficientemente quentes, permitindo cultivar com sucesso algumas castas de maturação tardia como a Baga e a Touriga Nacional. Estas circunstâncias naturais permitem preservar a acidez natural das uvas e conferir uma natureza complexa aos vinhos. Vinhos onde, nos tintos, domina a Poeirinho (Baga), mas também as originais Água Santa e Tinta Pinheira, a conhecida Tinta Roriz e a sensual e prometedora Touriga Nacional, enquanto nos brancos a Maria Gomes e a Bical marcam a cadência.

 

O solo e o clima na Quinta dos Cozinheiros

Os solos nas diversas parcelas disseminadas pela vasta propriedade variam entre zonas mais planas e acentuadas inclinações. A exposição também varia, tal como a altitude, apesar das vinhas estarem implantadas na vertente exposta a nascente da Bacia do rio Pranto. Por isso, a Quinta dos Cozinheiros tem o privilégio raro de poder escolher o melhor local para plantar cada casta. O solo nas vinhas de encosta é franco argiloso, de permeabilidade moderada, profundo. Nas zonas mais planas o solo é franco arenoso, permeável. Onde predominam as argilas, mais húmidas e frias, as castas plantadas têm tendência ao corpo e à estrutura. Nas zonas onde existe predominância de areia, em terrenos mais ligeiros e secos, as castas beneficiam com uma lenta e tardia maturação.

Mas os índices de pluviosidade, com médias anuais na casa dos 800 mm, obrigam à excelência da terra. Por isso, a rapidez com que o solo seca, reflecte ou absorve o calor, a sua inclinação, altitude, orientação solar, são factores cruciais. A drenagem dos solos joga também uma importante cartada na qualidade dos vinhos. Por isso, as melhores vinhas surgem invariavelmente em zonas intermédias, neste caso em solos profundos franco argilosos de permeabilidade moderada. É um solo que seca suficientemente rápido e profundamente, permitindo às raízes enterrarem-se em profundeza para encontrarem reservas de água estáveis. Os pés das vinhas plantadas neste solo dispõem de água em permanência mas em quantidade limitada, tendo acesso a elementos nutritivos disponíveis no solo que fazem a diferença.

A qualidade de uma vindima é especialmente ditada pelas condições climatéricas durante o mês e meio de maturação das uvas que ocorre, por norma, em Agosto e Setembro. Mas consta que o tempo durante a última semana conta o dobro. Os anos de 2003, 2004 e 2005 foram marcados por uma pluviosidade baixa durante o período de maturação das uvas. Em anos quentes e secos, a evaporação da água no solo é acelerada. Por essa razão, com a presença de calor mas sem chuva suficiente, algumas castas podem não amadurecer correctamente. Mas a idade das vinhas superior a 30 anos, a proximidade com o Oceano Atlântico e a disponibilidade de água no subsolo controlaram os excessos de calor. A temperatura média durante os meses de maturação e a insolação apenas foram excessivas em Agosto de 2003.

Mês*

Temp Média 2003

Temp Média 2004

Temp Média 2005

Julho

18-20ºC

20-21ºC

21-22ºC

Agosto

22-24ºC

20-21ºC

21-22ºC

Setembro

20-22ºC

19-20ºC

19-20ºC

Mês*

Precipitação Total 2003

Precipitação Total 2004

Precipitação Total 2005

Julho

0-20 mm

0-2 mm

8-12 mm

Agosto

0-20 mm

40-80 mm

2-4 mm

Setembro

0-20 mm

> 30 mm

15-20 mm

*Dados de climatologia retirados dos mapas disponíveis no site do Instituto de Meteorologia www.meteo.pt

 

Opinião

Como é evidente, para o terroir se exprimir correctamente, ele depende também do homem. O grande risco, após períodos de seca, é a chegada de chuvas mesmo antes da vindima, situação que origina o inchar rápido das uvas e a diluição resultante de açúcar, ácidos e aromas que se haviam formado lentamente (2002 viveu esta experiência). Por isso, o trabalho qualitativo na vinha potencia a qualidade das uvas e propicia uma colheita mais precoce. Obriga também a videira a ir buscar nutrientes mais profundamente no solo. Avaliando o desempenho em 2003 e 2005 de vinhas com mais de 30 anos, o trabalho na Quinta dos Cozinheiros tem sido notoriamente eficaz.  

O ano de 2003 é marcado por um mês de Agosto muito quente e seco. Em contraponto, a chuva que se abateu durante o quente Agosto de 2004 permitiu uma maturação mais equilibrada apesar de por vezes menos expressiva. Em 2005 as videiras mais novas foram privadas de água durante o seco mês de Agosto, mas as noites frescas e a disponibilidade de água no subsolo permitiram que as videiras mais velhas recuperassem fôlego durante a noite. Os quentes anos de 2003, 2004 e 2005 são, sem dúvida, anos onde os grandes terroir e a competência humana são postos à prova. A vinha sofreu mas não fechou. Os aromas não amargaram e os taninos nos tintos mostram uma maturidade assinalável. Esta ligação fundamental, natureza do solo, vida da planta, constituição do fruto, qualidade do vinho, é o grande sinal do valor do terroir da Quinta dos Cozinheiros.

Mas 2003 e 2005 acabam por ser mais heterogéneos que 2004. O ano de 2004 denota maior comedimento aromático. Mas a sua classe estrutural, a definição e a frescura de boca, revelam um cenário distinto e sofisticado. O tinto Utopia 2004 é um expoente de qualidade, é um vinho que encontra, numa estrutura forte e definida, um fio de classe e equilíbrio comoventes. O enigmático branco fermentado em madeira ultrapassa o Utopia branco. Não sabemos se intencionalmente, mas o desfecho originou um branco ao estilo de alguns exemplares da região francesa da Borgonha – foi ao longo da fermentação e da passagem por madeira que o vinho ganhou progressivamente todo o seu carácter actual. Dois exemplos de um ano misterioso na Quinta dos Cozinheiros.

Em 2005 as vinhas jovens de Touriga Nacional sofreram um pouco. Sente-se, nestas vinhas de raízes ainda pouco profundas, com acesso mais limitado aos canais freáticos, que a fotossíntese se interrompeu durante uma parte do Verão. A vinha fechou e os açúcares concentraram-se nas uvas unicamente porque a água se evaporou progressivamente. O desequilíbrio deu sinal de vida. Mas, ao inverso, as vinhas mais velhas de Poeirinho, com raízes profundas, atingiram o seu apogeu, alcançaram uma expressão sublime, lograram o compromisso ideal entre atrevimento e sensualidade. As colheitas de 2003 e 2005 são anos de baga na Quinta dos Cozinheiros. O branco segue a interpretação explorada em 2003, onde, sem mostrar vibração, a estrutura se prolonga demoradamente na teimosia de sabores. Dois brancos numa linha oposta à interpretação de 2004, assim os anos de 2003 e 2005 o impuseram.

Mas todas as colheitas em discussão irão desafiar o tempo com rigor e bravura. Os tintos viverão facilmente mais de 10-15 anos, enquanto os brancos, em especial o de 2004, ultrapassarão a fasquia dos 4-5 anos com certo à vontade.

Por tudo isto, é minha convicção que a Quinta dos Cozinheiros alcançou definitivamente um nível qualitativo que a posiciona entre os melhores produtores portugueses. Mas continua a ser na sua originalidade, na força e na digestão dos seus vinhos que recai o surpreendente carácter deste terroir. Se é consumidor, ausente-se da moda, atreva-se, guarde em cave para mais tarde se surpreender.

Quinta dos Cozinheiros Lagar 2003
Quinta dos Cozinheiros Lagar 2004
Quinta dos Cozinheiros Lagar 2005
Quinta dos Cozinheiros Poeirinho 2003
Quinta dos Cozinheiros Poeirinho 2004
Quinta dos Cozinheiros Poeirinho 2005
Quinta dos Cozinheiros Touriga Nacional 2004
Quinta dos Cozinheiros Touriga Nacional 2005
Utopia 2003
Utopia 2004
Tinto dos Cozinheiros 2005
Branco dos Cozinheiros 2003
Branco dos Cozinheiros 2004
Branco dos Cozinheiros 2005
Utopia branco 2004

Para mais detalhes consultar: www.quintadoscozinheiros.com.